Conhece-te a ti mesmo... se puderes.
Segunda-feira, 21 de Maio de 2012
Fumos da Índia

 

 

A mítica opulência do Oriente

A grandiosa empresa dos Descobrimentos absorveu muitas e variadas gentes, desde a classe nobre aos mais simples soldados, marinheiros e mercadores. A par dos grandes objectivos de descoberta e conquista, outra actividade dominou: o comércio de produtos nobres e exóticos, e até de pessoas para o mercado de escravos. As míticas riquezas do Oriente a todos seduziam e, com elas, a miragem do enriquecimento fácil. Parafraseando D. João de Castro, muitos portugueses foram para o Oriente, não para servir o Império, mas apenas para comerciar e enriquecer.

Depois das rotas africanas do ouro e pedras preciosas, era a longínqua Índia que seduziam os navegadores e comerciantes — terra onde há minas de ouro e, como se lê numa carta de D. Manuel, grandes povoações onde se faz trato de especiaria e pedraria. Além das cobiçadas riquezas minerais, as terras do Oriente eram a grande fonte de tecidos finos, madeiras raras e, sobretudo, das apreciadas especiarias: pimenta, canela, cravo, noz moscada, gengibre, etc. Durante décadas, fomos a inveja do mundo ocidental. A riqueza oriunda das viagens ultramarinas era visível nos trajes e nos hábitos, na arquitectura ou em manifestações sumptuárias.

Disso é exemplo a ostentatória embaixada enviada por D. Manuel I ao Papa Leão X, em 1514, chefiada por Tristão da Cunha. Deixou boquiaberta a capital da cristandade perante a grandeza esplendorosa de tal séquito. Entre os sumptuosos e exóticos presentes, desfilaram pelas ruas de Roma as primícias da navegação da Índia: imponentes cavalos persas, carregados de riquezas; feras amansadas; homens orientais com vestes ornadas a ouro e pedras preciosas; e até um elefante branco que, carregando o rico cofre pontifical, borrifou os espectadores e o próprio Papa com água perfumada! Impressionado e reconhecido por tão sumptuosa oferta, Giovanni de Medicis reafirma a Portugal o monopólio de África e do Oriente, entre outros relevantes privilégios políticos e espirituais.

A riqueza da Lisboa quinhentista fez da capital do Império um vasto campo de vícios. Já os poetas do Cancioneiro Geraldenunciavam a decadência dos costumes, comparando Lisboa a Roma, e a Índia à Babilónia. As novas riquezas desencadearam novos hábitos, mudaram as tradicionais necessidades, implicaram profundas transformações sociais.

Denúncia dos fumos da Índia

A própria historiografia do tempo, que faz a exaltação e apologética dos nobres feitos, não esconde algumas críticas e denúncias. Castanheda, Gaspar Correira e sobretudo Diogo do Couto censuram os actos de chatinagem e corrupção. Libelo acusatório, é n'O Soldado Prático que mais cruamente se condena a ostentação e a violência, a imoralidade e a corrupção:Já na Índia não há cousa sã; está tudo podre e afistulado. Nas comédias, satiriza-se a figura-tipo do português fanfarão, enamorado, gabarola e pelintra. Intoxicado pelos fumos da Índia, é o símbolo da degradação causada pela embriaguez da riqueza, da desenfreada ambição do lucro e da perda dos ideais de proselitismo, a caça ao ouro: caça tão real que se caça em Portugal, lê-se no Cancioneiro Geral.

Depois de ter exaltado a aventura ultramarina, Gil Vicente aponta, no Auto da Índia, o dedo crítico e satírico às consequências familiares da ausência dos homens casados, pondo na boca do viajante regressado a confissão dos trabalhos por que passaram, mas também as crueldades cometidas: Fomos ao Rio de Meca;/ Pelejámos e roubámos. Também Sá de Miranda denunciará, numa dura invectiva moralista, a decadência citadina originada pelos Descobrimentos: além de contrariar o ideal de vida rústica e violar a Natureza, a Expansão fomentava a cobiça, empobrecia a agricultura e despovoava o país: Ao cheiro desta canela/ O Reino se despovoa. A própria Peregrinação de Fernão Mendes Pinto é um grande painel da decadência portuguesa reinante no Oriente. Tanto o herói como outras personagens são astutos nos seus actos de pirataria e pilhagem, sem escrúpulos de consciência, e até com o nome de Jesus na boca e no coração.

Pela voz crítica do Velho do Restelo, Camões denuncia o reverso das épicas façanhas dos portugueses, apontando o dedo acusador à fama e à vã cobiça:

 Dura inquietação d'alma e da vida,

 Fonte de desamparos e adultérios,

 Sagaz consumidora conhecida

 De fazendas, de reinos e de impérios!

 

 

 

 

 

Aliás, é o mesmo Poeta que também não cala o seu desengano perante as misérias de uma Pátria metida

 No gosto da cobiça e na rudeza

De uma austera, apagada e vil tristeza.

Neste aspecto, nenhuma obra como Os Lusíadas conseguiu ser a expressão mais sintética do claro-escuro que, simbolicamente, resume a Expansão ultramarina: exaltação heróica e crítica desalentada. Descontente com os sinais de agonia colectiva da Pátria, que, em derradeiro arroubo de entusiasmo, exaltou epicamente num canto crepuscular, a Camões resta-lhe morrer com Portugal, depois do trágico desastre de Alcácer-Quibir.

 

 

Do blogue alfarrabio.di.uminho.pt



publicado por pimentaeouro às 22:13
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1 comentário:
De golimix a 22 de Maio de 2012 às 16:50
Grande obra para grandes feitos.

=)


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