Conhece-te a ti mesmo... se puderes.
Sexta-feira, 27 de Abril de 2012
Avesso dos Lusíadas #2

Por todo o país encontramos estátuas celebrando os «heróis» das Descobertas e realizam-se actividades com o mesmo objectivo.

Em Lisboa, na Praça do Império, não falta o monumento celebrando o mesmo culto.

Disse culto, e é disso que se trata porque a realidade nada tem a ver com crenças.

Durante décadas, o Ensino de Salazar tinha a leitura dos “Lúsiadas” (divisão das orações) como mito e matéria sagrada, espírito da Pátria.

A historiografia moderna libertou-se dessa canga mitológica: nos feitos da Índia há muita coisa para nos envergonharmos.

Apenas vinte e cinco anos depois da descoberta do caminho marítimo para a Índia, no reinado de D. João III, já o «negócio» dava prejuízo e os efeitos no desenvolvimento do país eram quase arrasadores, como notava Gil Vicente.

Ainda hoje precisamos de nos libertar dessa ilusão. O texto que segue é do livro : “História concisa de Portugal”, José Hermano Saraiva, Publicações Europa América.

Hermano Saraiva não é um historiador moderno, logo fora de suspeita.

 

A consciência épica e as suas metamorfoses

 

“Os descobrimentos transformaram, o pequeno Portugal numa nação mundial, porque a actividade dos Portugueses passa a ter por teatro o mundo: «Por toda a Terra se ouvem as suas vozes e até nos confins do mundo ressoam as suas palavras» (Damião de Góis). Essa transformação reflectiu-se no plano mental e estético.

 A ideia que os espíritos mais cultos faziam do seu país modifica-se completamente. Nos meados do século XV, a imagem que se pode colher, por exemplo, nas páginas de Fernão Lopes é a de um pedaço de terra pobre habitado por gente rija que luta ferozmente para não cair sob o domínio do vizinho poderoso e rico.

 Cem anos depois, a imagem é outra: um imenso espaço que vai «das Colunas de Hércules à China e onde, por obra nossa, to­dos conhecem a lei de Cristo» (Góis). O mais eloquente proclamador desta consciência épica foi Camões, mas, crono­logicamente, esteve longe de ser o primeiro.

 A obra de Zurara está já carregada de intenção épica, e quando D. Manuel adoptou a esfera armilar como símbolo nacional afirmou o mais enfaticamente que era possível o carácter ecuménico da monarquia portuguesa.

Foi depois de ter passado muitos anos na índia que Camões publicou em Lisboa, em 1572, Os Lusíadas.

 Do ponto de vista formal, trata-se de uma epopeia de modelo clássico e portanto de uma imitação ao gosto renascentista. Várias outras epopeias foram publicadas na Europa.

Mas a surpreen­dente inovação do poema português está em que o tema não é inspirado pela antiguidade, mas pela própria história de Portugal. Os seus heróis não são imaginados, nem são os da Grécia e de Roma: são reais e são portugueses. Em vez de César, falará de Afonso Henriques, em vez de Eneias, cantará Vasco da Gama.

Na verdade, os nossos heróis são superiores a quaisquer outros; Alexandre e Trajano, por exemplo, ficam a perder de vista em comparação com eles. Portanto, «cesse tudo o que a musa antiga canta, que outro valor mais alto se levanta». Esse valor é Portugal.

E depois de ter ouvido o seu poema, o rei concluirá o que «é mais excelente: se ser do mundo rei, se de tal gente». Esse sentido hiperbólico perpassa desde a primeira à última estrofe do longo poema.

O êxito foi imediato e imenso. Os Lusíadas fixam por muito tempo os traços básicos da noção que os Portugueses com cultura literária terão de Portugal. Em nenhum outro livro essa noção se exprime em termos tão lapidares e fasci­nantes.

Mas em muitos outros escritores se pode surpreender a mesma atitude. Ficaram de fora alguns homens de cultura não clássica (como Fernão Mendes Pinto, autor da Peregri­nação, desabusada e de raiz popular, ou Gaspar Correia, autor das Lendas da índia, de cruel sinceridade), mas todos os demais historiadores afinam pelo diapasão épico. E não só os historiadores: é o mesmo sentimento que anima os cientis­tas quando, como Garcia de Orta, exclamam que se aprende mais com os Portugueses num dia do que com os Romanos em cem anos, ou os gramáticos, que apresentam o idioma português como um novo latim de destino ecuménico, que servirá de instrumento à unificação religiosa do mundo.

 «E melhor que ensinemos a Guiné do que sejamos ensinados por Roma», escreve Fernão de Oliveira. Os Portugueses chegam a toda a parte «despregando bandeiras, tomando cidades, sujei­tando reinos (?) onde nunca o vitorioso Alexandre nem o afa­mado Hércules puderam chegar.

 Acharam novas estrelas, navegaram mares e climas incógnitos, descobriram a ignorân­cia dos geógrafos antigos. Não há nação na terra conhecida a que tanto se deva como a portugueses» (Amador Arrais).

Esta consciência épica ficará a constituir um dos ingre­dientes mais duradouros da retórica nacional. O estado de espírito ficou, depois de ter passada a causa que o fez nascer.

 A épica póstuma apresenta-se, no século XVII, sob a forma degenerada de fanfarronice. Em numerosos viajantes que passaram pelo nosso país na centúria de Seiscentos encontramos uma nota comum: o espanto pela convicção em que os Portugueses continuam de que são os melhores, os mais valentes, os mais gloriosos homens do mundo. É esse senti­mento que alimenta boa parte da literatura de resistência durante o domínio filipino. Num livro publicado em 1631 encontramos este raciocínio: os Espanhóis triunfam sobre todos os outros povoa Ora a história mostra que nós vence­mos os Espanhóis. Logo, somos o mais valente povo do mundo. Uma boa caricatura é a que nos fez, por essa mesma altura, Lope de Vega:

Sou el maior

senor que oje el mundo pisa! Sou cifra de quanto es bono, sou grande e de gran poder, sou cetro, corona e trono que terra e mar faz tremer! Sou aquel que ao profundo chega com fama imortal, e finalmente me fundo em que ben sou Portugal, que sou más que todo el mundo!

 

 

para que nos pudéssemos continuar a atribuir o primeiro lugar no mundo. Para D. Luís da Cunha, Portugal já não é o império desde o Algarve ao Japão, mas apenas um espinhaço de pedras com uma planície na cauda, habitado por gente que não faz muita diferença dos desgraçados índios do Brasil.

 O pessimismo crítico dos estrangeiros é porém apenas a premissa para uma conclusão: a reconstrução do País, que se fará pelo trabalho (segundo os mercantilistas) ou pela cultura (segundo os iluministas).

 Mas, do mesmo modo que o espirito épico do século XVI degenerou no fanfarronismo do século XVII, o espirito crítico do século XVIII desemboca no decadentismo que de Herculano passa à geração de 70 e depressa se dissolve no derrotismo niilista da geração seguinte:

«...uma mocidade arrasada e céptica, descrente de si mesma e do País, igno­rando a tradição e escarnecendo as instituições, queixando-se de que falta tudo e não tratando de se prover de coisa nenhuma, odiando o solo em que nasceu, a língua que falava, a educação que recebeu, amuada dentro desse ódio estéril como um mocho dentro do seu buraco, e de facto tão alheia à Pátria e ao seu génio como se tivesse sido importada da França, em caixotes, pelo paquete do Havre» (Eça, Notas Contemporâneas).

 

 

 

 

 



publicado por pimentaeouro às 18:21
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