Conhece-te a ti mesmo... se puderes.
Quarta-feira, 4 de Julho de 2012
Sou um San

 

 

 

“Há muitas razões para acreditar que a vida do homem moderno poucos progressos evidencia relativamente à dos seus antepassados”

Bernard Campbell

 

Não há aristocrata que se preze, falido ou não, que não cultive a sua árvore genealógica, tecida de fantasias, miragens e mitos, ao gosto de cada geração.

Dela são excluídos os falhados, os bêbados e os crápulas são revestidos de uma aura de virtudes: as mulheres são todas virtuosas e benfeitoras: os filhos bastardos surgem em notas de rodapé para realçar a virilidade do progenitores. A cada fidalguia a sua lenda!

 

Não pertenço à nata destes predestinados e não tenho árvore genealógica, mas como todos os plebeus aspiro à fidalguia. Os meus pais e restantes familiares são todos ilustres desconhecidos, ninguém sabe de onde vieram e para onde foram e o meu destino é tão incerto como o deles , apenas numa arca velha foi encontrado um papel amarelo que rezava ter nascido nas areias quentes do Barlavento algravio.

Esta ausência de raízes, de identidade, de linhagem  é traumatizante. Assim, orientei as minhas pesquisas para origens mais remotas, para o Homo Sapiens, antes de sair de África e remeti uma amostra do meu ADN para um laboratório da especialidade, em Londres.

A resposta veio rápida; sou descendente dos San, também chamados bosquímanos ou boximanes. Os San são um povo caçador-recoletor, mais recolector do que caçador, o tom de pele é castanho-amarelado, de pequena estatura e as mulheres acumulam grandes quantidades de gordura nas nádegas e nas cochas.

Chegaram  a ocupar grande parte da África do Sul, e para Norte, na África Oriental, mas bantus e colonos holandeses encarregaram-se do seu genocídio, com zelo e eficácia. Ficaram reduzidos a pequenos grupos, no deserto do Calaári.

Vivem em acampamentos localizados junto dos bebedouros. Normalmente, homens e mulheres ocupam três a quatro dias com a recolha de alimentos e os restantes dias da semana são de ócio, semana inglesa alargada.

Conversam, cantam, dançam e descansam: são amistosos, atraente e francos. Desconhecem a propriedade privada.

Levam uma vida tranquila e tem um regime alimentar diversificado.

Atingem idades avançadas e não apresentam sinais de insegurança e intranquilidade, quer dizer não sabem o que é uma depressão.

Sobreviveram como caçadores e recolectores durante milhares de anos, ou seja tiveram uma adaptação bem-sucedida.

É esta a minha árvore genealógica e não vejo razão para renegar a minha ascendência, pelo contrário, logo que possa parto para o Calaári.

 

 

 

P.S. Os dados antropológicos são verdaddeiros



publicado por pimentaeouro às 12:40
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3 comentários:
De golimix a 4 de Julho de 2012 às 16:48
Qualquer dia faço uma coisa dessas.

Nem sabe a vontade que me dá se sorrir quando as pessoas, algumas fidalgas, sangue azul, que conheço se põem a ditar a sua distinta árvore genealógica. Fulano de tal era presidente de não sei quê, fulano de tal tinha uma profissão na altura conceituadíssima...
Eu? Fico-me por aquilo que sou. Tão simplesmente, sem saber de onde vim exactamente, nem para onde vou, e espero saber pelo menos onde estou! E isso é uma faculdade que verdadeiramente me interessa não perder, a capacidade de ser e de estar, de saber onde estou.

Bijinho


De pimentaeouro a 5 de Julho de 2012 às 22:57
Parecer o que não é, é uma praga nacional.
Começou n o reinado de D. Manuel e nunca mais parou.
Felizmente não preciso rec orrer a truques, tenho uma linhagem de puro sangue.
Beijinho


De pimentaeouro a 7 de Julho de 2012 às 23:39
Tenho esses problemas existenciais resolvidos. Com a origem esclarecida, quando partir a terra continuará a girar.
Beijinho


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