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Quinta-feira, 10 de Dezembro de 2015
A quinta avenida de Lisboa

A quinta avenida do século XVI ficava em Lisboa

Dois quadros descobertos em 2009 originaram um livro sobre Lisboa quinhentista e a Rua Nova dos Mercadores. Naquela artéria confluíam produtos do império e gentes de todo o mundo, transformando a capital portuguesa numa cidade global.

A obra tem como ponto de partida dois quadros descobertos em 2009, numa mansão inglesa, em Oxfordshire, datados entre a década de 1570 e 1620 por Annemarie Jordan Gschwend e Kate Lowe. Foram pintados por um artista holandês anónimo. Nas duas pinturas, estamos perante mais de uma centena de figuras humanas, que conversam, montam a cavalo, numa rua com uma fileira de edifícios em segundo plano. Há homens, mulheres, negros, brancos, cavalos, movimento e vestimentas apropriadas ao Outono ou ao Inverno.

Quando viram os quadros – que se pensa serem duas telas cortadas a partir de uma única pintura –, as historiadoras rapidamente determinaram que estavam perante a Rua Nova dos Mercadores, em Lisboa. É a partir desta malha visual que o livro é construído, indo buscar documentação oficial, testemunhos da época e objectos que sobreviveram até hoje para falar sobre a cidade global que Lisboa era no século XVI, as suas gentes, a sua cultura material em capítulos escritos por investigadores diferentes.

“É uma vista estranha, que nos mostra uma rua da qual nós realmente não conhecemos nada. Lisboa foi perdida em 1755. Foi como se tivesse caído uma bomba nuclear”, diz Annemarie Jordan Gschwend ao PÚBLICO, no início de Dezembro, quando esteve em Lisboa na apresentação do livro no Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA).

“Para mim, o que é interessante é a vida na rua. Lisboa tinha uma grande população negra. E o quadro não mostra apenas a população negra, mostra também os estrangeiros que ajudaram Lisboa a tornar-se a grande cidade comercial que era no século XVI. Os quadros também mostram animais. Há um cão que está a abocanhar uma ave. E é um peru. É uma ave que veio da América e que os portugueses tornaram numa ave global, levando-a para a Índia e para outras partes do mundo.”

Esta é apenas uma das imagens simbólicas encontradas entre os pormenores das pinturas. Para um especialista, há muita informação nos quadros sobre aquela cidade agora distante de nós, quando Portugal tinha um império construído durante os Descobrimentos, e um comércio único vindo do Oriente, de África e da América, passava obrigatoriamente por Lisboa. As interacções comerciais, a escravatura, o percurso dos produtos dentro da cidade para o rio Tejo, as relações entre portugueses e estrangeiros ou a arquitectura da rua são questões que podem começar a ser descortinadas a partir do que se vê naquelas duas telas, que funcionam como um díptico. 

“Os quadros são espantosos, mas também enigmáticos”, disse Henrique Leitão, historiador de ciência e Prémio Pessoa 2014, que fez a apresentação do livro no MNAA. “São completamente diferentes de todas as outras representações de Lisboa que dispomos, que, com pouquíssimas excepções, são vistas distantes e panorâmicas, a partir de um ponto de vista afastado.”

Mas os quadros da Rua Nova dos Mercadores não. “Tal como o quadro do Chafariz d’el Rey [de autor anónimo, datado entre 1570 e 1580, exposto no Centro Cultural de Belém], as pinturas representam uma cena viva e intensa que arrasta irreprimivelmente o observador para dentro dela. É impossível olhar para estes quadros sem que imediatamente se forme na mente uma torrente imensa de perguntas”, prosseguiu, enunciando-as: “Que rua é esta? Que cidade é esta? Que casas são estas? Mas, acima de tudo, quem é esta gente? E o que é que eles estão a fazer?”



publicado por pimentaeouro às 19:07
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2 comentários:
De golimix a 11 de Dezembro de 2015 às 11:03
Adoro essas sua viagens ao passado


De pimentaeouro a 11 de Dezembro de 2015 às 19:26
Sou um homem do século XVIII, o século do Iluminismo .


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