Conhece-te a ti mesmo... se puderes.
Domingo, 31 de Julho de 2016
Morrer de amor ?

Conheci o C.R.  em Torres Novas em meados dos anos 50 do século passado. Ambos frequentávamos uma «tertúlia» de jovens mas ele era mais velho cerca de cinco anos, já tinha virado a etapa da mocidade.

Quando no final daquela década passou para a clandestinidade comunista, para mim foi uma surpresa completa. Não sabia que Salazar era um ditador, que existia o Partido Comunista e que os seus funcionários viviam clandestinamente; tudo coisas que aprendi mais tarde.

Reencontramo-nos em Lisboa no início dos anos 70, casado com uma mulher que também tinha vivido na clandestinidade.  Convivi com a casal até que ele se reformou e regressou a Torres Novas.

Nos anos do PREC, a imprensa da época vaticinava que ascenderia a ministro do Trabalho pela mão do PCP.

Tinha uma vida pessoal e familiar austera, quase espartana, e apregoava a superioridade moral dos comunistas, gene que circulava exclusivamente no sangue dos militantes do PCP. Talvez aspirasse a delfim de Álvaro Cunhal e não chegou a ministro porque no assalto aos ficheiros da PIDE o MRPP encontrou a sua ficha onde constava que na prisão tinha denunciado camaradas do seu partido, ficha que o MRPP fez publicar na imprensa.

Foi uma espécie de bomba atómica política que deixou em estado de choque os membros da comissão executiva do PCP, a sua mulher e centenas de camaradas seus.

No dia em que foi noticiada a bomba telefonou-me a perguntar se podia ir dormir a minha casa e no final do dia voltou a telefonar-me a dizer que já não precisava. Logicamente, deduzi que a mulher tinha perdoado a traição.

Pode morrer-se de amor como nos romances do romantismo do século XIX?

C. R. faleceu há dois anos e a viúva renunciou a viver, definha lentamente de desgosto. De todos os milhares de seres vivos que existem no planeta, o cérebro humano é o orgão mais complexo que existe: e meu e o de quem le este post.

 

 


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publicado por pimentaeouro às 16:29
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5 comentários:
De redonda a 1 de Agosto de 2016 às 01:08
Acho que se pode, sim e que a cada dia vamos conhecendo histórias em que assim sucedeu ou sucede.


De pimentaeouro a 6 de Agosto de 2016 às 15:26
Talvez seja da natureza humana, não sei.


De A rapariga do autocarro a 3 de Agosto de 2016 às 13:56
O amor tem muitos mistérios!!!


De A rapariga do autocarro a 3 de Agosto de 2016 às 13:57
O amor tem muitos mistérios!


De pimentaeouro a 7 de Agosto de 2016 às 18:47
Não sei explicar ests casos, talvez seja a natureza humana.


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