Conhece-te a ti mesmo... se puderes.

Quarta-feira, 2 de Maio de 2012
Avesso dos Lusíadas #4

 

A faustosa embaixada de D. Manuel ao Papa já tinha sido realizada, o comércio e a pilhagem das especiarias estavam no auge, os armazéns do rei, D. João III, estavam a abarrotar de especiarias, o tráfico negreiro já ia de vento em popa mas ...

Nos anos de 1.521 a 1.523 havia epidemias no reino e morria-se de fome nos campos e nas estradas para Lisboa. A riqueza dos «fumos da Índia» era para uma reduzida minoria de cortesãos, fidalgos e mercadores, o país já começa a definhar e a perda da indepência estava apenas a 60 anos de distância.

Começava a marcha para a decadência que durou séculos.



publicado por pimentaeouro às 22:46
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Domingo, 29 de Abril de 2012
Avesso dos Lusíadas #3

Repercussões sociais da expansão

 

Nenhum escritor descreveu as consequências sociais da

expansão com tanta clarividência como Gil Vicente. O motivo

por que uma afirmação como esta pode, ainda hoje, causar

estranheza está no facto de nos terem ensinado a ver apenas

um espirituoso inventor de comédias num escritor que foi

também um corajoso pensador social. O auto-retrato que ele

nos legou no prólogo da Floresta de Enganos (texto que,

inexplicavelmente, tem passado despercebido) não foi o de um

alegre cómico, mas o de um filósofo perseguido pelas suas

ideias e amordaçado pela néscia intolerância dos seus

contemporâneos.

 

A análise das contradições e conflitos que agitavam a

sociedade portuguesa decorridos trinta e cinco anos sobre a

descoberta do caminho marítimo para a índia é o tema de

uma peça representada em Évora em 1533: a Romagem dos

Agravados, isto é, o desfile dos que estavam descontentes

com o tempo em que viviam. Esse texto é, ainda hoje, o mais

lúcido estudo de que se dispõe sobre a sociedade portuguesa

dos meados do século XVI.

 

O desfile faz-se perante Frei Paço, que preside. É frei

porque pertence à Igreja, é paço porque pertence ao governo,

mas as duas qualidades confundem-se: «o paço, em frade

tornado, não é frade nem é paço», diz a peça. Domesticada a

nobreza, desaparecida a alta burguesia, a influência política

do clero era cada vez maior; o poder religioso confundia-se

com o poder civil. Uns meses antes da representação tinha

D. João III criado a Mesa da Consciência e Ordens, à qual

passava competir a decisão dos assuntos que «tocassem à

consciência» do rei, isto é, das questões mais melindrosas da

governação. E quem a dirigia eram prelados.

 

Os personagens vêm dois a dois, e cada par simboliza

uma classe social. A primeira a aparecer é o proletariado

campesino: um cavador acompanhado pelo filho. A imagem

do cavador no século XV I é menos risonha do que a do

século XIX. Não se chama Zé-Povinho, chama-se João Morteira,

João da morte. O filho é Sebastião, nome de mártir. É

a ideia de morte a que Gil Vicente sempre liga à vida do

trabalhador da terra: «sempre é morto quem do arado há-de

viver»; «nós somos vida das gentes e morte das nossas vidas»;

«se o nascer foi um momento, porque morro em tantos dias

padecendo?». Era uma classe que agonizava. Em 1521, uma fome

terrível assolou os campos, tendo morrido pelos caminhos muitos

camponeses que tentavam chegar a Lisboa.

A carne, base da alimentação durante a Idade Média, era agora

rara; em 1580, dois estrangeiros que viajam por Portugal

surpreendem-se da pobreza da alimentação popular: sardinha

salgada e pão escuro. A riqueza ultramarina não chegava ao

campo, mas as suas consequências repercutiam nele.

 

Os proprietários, do clero ou da nobreza, faziam pressão para

obter cada vez mais de um solo que produzia cada vez menos,

porque a quantidade dos gados e portanto dos estrumes

diminuía, porque os braços fugiam sob o impulso de um

estímulo duplo: a recusa da miséria e a cobiça da fartura que

a cidade parecia oferecer.

 A luta por um salário melhor já não era possível, porque um

trabalho igual ao do cavador aldeão podia ser prestado pelo

escravo negro; mais ou menos

por esta altura (em 1541), Damião de Góis calculava que

entravam anualmente em Portugal dez a doze mil escravos

africanos. E tudo isso está por detrás da figura dramática de

João Morteira: «Eu trabalho até que caio!» «Eu sou pobre

como um cão!» Já só tem uma esperança: que ao menos o

filho possa ter uma vida melhor.

 Quer, para isso, encaminhá-lo para a Igreja; não é, explica,

uma questão de devoção; é para que possa viver um pouco

mais folgado. Mas nem isso consegue, porque Frei Paço, que

examina o rapaz, não o deixa passar no exame.

 

Também a aspiração do cavador é característica da

época. A Igreja era um caminho para fugir à miséria ou para

a evitar. Filhos de camponeses, filhos segundos de nobres,

ordens religiosas. Elas eram um dos três caminhos possíveis:

«Quem quiser medrar, Igreja, Casa Real ou mar», dizia a

sabedoria do povo. A alternativa era entre a religião, o

serviço do paço ou de algum nobre ligado ao paço, ou a

emigração. Essa procura conduziu, durante o século XVI, à

hipertrofia do pessoal da Igreja; subiu o número de ordens

religiosas, subiu o número de conventos de cada ordem (o

total passou de duzentos para o dobro). Mas a Igreja só

marginalmente participou da riqueza dos descobrimentos; era

fundamentalmente da renda da terra que vivia. Não explorava

directamente os solos, mas recolhia o dízimo de toda a

produção (isso vinha já do século XII I e a instituição da

décima de Deus fora então a forma pela qual a Igreja se

defendera da subida do custo e do nível da vida) e recebia as

rendas dos pequenos empresários rendeiros e enfiteutas, que

formavam a classe média rural.

 

A crise da classe média rural é denunciada no auto pelo

lavrador Aparicianes, que vem acompanhado pela filha:

«Porém eu, que estou no meio, vivo mais desesperado.» Está

no meio porque a sociedade rural se articula em três níveis:

senhores, lavradores, servidores. Os senhores mostram-se

agora mais exigentes na cobrança dos seus quinhões, os servidores

fogem dos campos e os lavradores empobrecem. Este

queixa-se de que traz de renda dois casais que pertencem aos

frades; o temporal desbaratou as sementeiras e ele foi pedir

que lhe esperassem um pouco pela entrega da renda. Mas os

frades responderam que a espera não era a sua divisa. A

palavra espera tinha então o sentido duplo de moratória e de

esfera; e esta última era a divisa de D. Manuel e simbolizava

a riqueza planetária dos descobrimentos. É esse o sentido da

resposta dos frades: estão fora da esfera, não podem esperar.

E obrigaram-no a pagar a bem ou a mal: penhoraram-lhe o

lar, e nem os lençóis escaparam. E o lavrador queixa-se e

lembra com saudade o tempo em que cantava alegremente à

frente dos seus bois, sem sentir o peso da fadiga. Agora não

canta, porque está pobre e «a pobreza e a alegria nunca

dormem numa cama».

 

A destruição da classe média rural era consequência

directa das novas condições de vida do País e não resultava

só da severidade dos proprietários na cobrança da renda e da

fuga dos trabalhadores. Pouco a pouco, as quintas e os casais

que andavam nas mãos dos lavradores passavam à posse dos

nobres, funcionários e aventureiros regressados da índia, porque

a terra foi o único género de investimento dessas economias.

O Português entendia que só a terra oferecia segurança.

Um nobre sentencia nas suas trovas: «Segundo se diz, e eu

avento, de ter coisa sem raiz não se faça fundamento», isto é,

segundo se diz e eu também penso, só a posse da terra é um

investimento seguro. Ele referia-se aos perigos dos negócios de

gado, mas a ideia alargava-se a todo e qualquer negócio com

alguma margem de risco. Um texto de 1608 mostra que, em

plena crise, o ramo de oliveira, o palmo da terra, era considerado

«o último refúgio: «Domina este reino uma certa constelação que

faz os homens incapazes de receber o bom conselho; e assim, eu

profetizo uma grande ruína, e será ditoso o

que tiver um pé de oliveira a que se abraçar!»

Mas esse pé de oliveira já existia antes de o torna-viagem

o comprar. O pão, o vinho, o azeite, não aumentavam pelo

facto de o título da propriedade ou a iniciativa da exploração

estarem a cargo do lavrador plebeu ou do proprietário ido da

cidade, enriquecido com a canela ou a pimenta, e que passava

a viver do rendimento rústico. O número de explorações nas

mãos da classe média é que diminuía. Os novos donos são

dons; muitos não o são por nascimento, mas exigem que lho

chamem, ou pelo menos comportam-se como se o fossem. A

antiga sociedade rural, que se hierarquizava na base das

funções, é substituída por uma outra com base na exterioridade

e no tratamento: de um lado os senhores e as donas, por

outro os homens e as mulheres. Homem passa então a ter

sentido de trabalhador rural; ser tratada por dona é o objectivo

de toda a mulher. Mas a passagem dessa fronteira social

é impossível a quem fique agarrado à enxada. O passaporte

obtém-se na cidade. Aparicianes sabe isso muito bem. Do

mesmo modo que o cavador quis que o filho fosse clérigo, ele

qer que a filha seja dona:

 

É da serra da Lousã,

moça de mui boa fama.

Trago-a cá para ser dama,

quero que seja paçã.

 

 

Para isso já lhe comprou perfumes importados de Génova

e vem confiá-la às lições corruptoras de Frei Paço, que a

moça aprende muito depressa. Muitas mulheres, seguindo esse

mesmo caminho, chegaram a damas e alimentaram a prostituição

de Lisboa no século XVI . O nome que Camões lhes

dava era o de damas de aluguer.

 

A desagregação da classe média urbana é revelada no

auto sob a forma de um conflito entre dois grupos sociais de

características bem diferentes, mas que ainda hoje andam

confundidas sob a mesma designação de classe média: uma

classe média autêntica, porque enraizava no trabalho e se

situava ao nível social correspondente a uma verdadeira situação

económica, e uma classe média fictícia e parasitária,

baseada na aparência e que vivia à custa das classes produtivas.

Ter distinguido entre os dois grupos e definido a relação

que existia entre eles é uma novidade de Gil Vicente.

 

Duas regateiras, que vivem do abastecimento da cidade,

têm uma sobrinha para casar. São quase ricas, visto que a

rapariga tem de seu um conto de réis. Aspirava por isso a um

casamento numa classe social mais elevada: a deslocação de

todas as classes no sentido do vértice da pirâmide é uma dás

características da época Apareceu-lhe um moço que se diz

empregado na câmara de el-rei. Tem boas maneiras («tão

doce! tão cucarento!») e exibe as provas da sua posição de

funcionário do paço: o alvará de filhamento e de acrescentamento,

portanto de primeira nomeação e de promoção.

 Perante esse argumento decisivo, o casamento faz-se. Mas afinal

o alvará era falso. O rapaz era um vadio sem eira nem beira, que

apenas queria viver com o dinheiro da mulher. Pertence à classe

média fictícia, que vive, como um cogumelo, à custa da verdadeira

e que acabará por formar uma classe com características próprias

: ociosa, pobretana, pedinchona de empregos, dependente dos

grandes, servil em relação a quem quer que tenha o poder.

De todo o País milhares de jovens afluem

à corte, cantam trovas, tangem a guitarra, fingem de escudeiros

e morrem de fome até que encontrem senhor que os tome

a seu serviço ou mulher rica que os sustente. Das várias

sátiras que ficaram desse tipo de aprendiz de fidalgo, nenhuma

alude ao trabalho. Um clérigo que por essa altura

estava em Évora e que viera do Brabante, onde o trabalho

era a vida de toda a gente, surpreende-se com o que vê em

Portugal e escreve: «Esta gente prefere ter de suportar tudo a

ter de aprender algum ofício.» Mas também isso se relacionava

com a economia dos descobrimentos. O Estado, subitamente

enriquecido, pudera multiplicar a sua clientela. Dos

duzentos cortesãos do tempo de D. João I I passou-se a

quatro mil no tempo de D. Manuel, e a proporção deve ter

sido a mesma nas casas dos grandes senhores. Quem tivesse

qualidades, desembaraço, ou pelo menos padrinhos, não precisava

de trabalhar, e portanto trabalhar significava que não se tinha disso.

Era uma desqualificação. Trabalhar com o

corpo era o que faziam os Negros e os Mouros; frases do tipo

«0 trabalho é bom para o preto» e «Quem não tem padrinhos

morre mouro» entraram por essa altura na linguagem.

 

A nova estrutura do Estado estava na origem da onda do

parasitismo. Gil Vicente dava-se perfeitamente conta disso.

Depois de uma admirável cena de suspense, em que vai

enunciando como suspeitos do crime de falsificação todos os

altos funcionários régios que assistiam ao espectáculo, acaba

»r descobrir a verdade: o falsificador foi o próprio Frei Paço,

Foi o paco-frade, foi o sistema vicioso que tomava possível

ssa proliferação das classe ociosas à custa das que

prododuziam.

 

A análise vicentina incluiu muitos outros aspectos: a

nobrza riquíssima e fútil, a recitar versozinhos e a fazer

pressão sobre o paço para que lhe suba as rendas já enormes,

do clero que cobiça os bispados novos das ilhas, as freiras que

deploram a confusão deste tempo em que ninguém está

contente com a sua sorte. Mais do que os pormenores, é a

ideia geral que se deve apreender, porque ela exprime as

consequências sociais da economia da expansão: um Estado

rico numa nação pobre, onde a riqueza vinda de fora quebrava

a coluna vertebral do trabalho interno e provocava o

crescimento de uma falsa classe média que nada fazia e que,

como uma corcunda enorme, ia crescendo à custa do resto do

corpo do País e atrofiando com o seu peso as classes produtivas

 que já quase se limitam aos camponeses.

 

A vida de Gil Vicente serve de bom exemplo à evolução

que ele descreve. Homem do povo, mesteiral de profissão,

oi atraído pela actividade da corte e, no princípio do sé

culo XVI , trabalha como ourives da rainha viúva. A corte

aumentou; numa constante festa, precisa de espectáculos. 0

antigo mesteiral larga então as ferramentas do ofício e faz-se

funcionário. Recebe um ordenado para fazer «os autos del-

rei». É um intelectual remunerado e a partir desse momento

a sua vida reflecte uma outra evolução: a da cultura. A

linguagem que ele usa é plebeia, livre, saborosa. Diz tudo o

que pensa sem papas na língua. No tempo de D. Manuel, o

rei e a corte ouvem, riem, gostam. Mas no reinado seguinte

começa a haver quem não ria. Ante tanta liberdade, os

teólogos já franzem o sobrolho. No mesmo ano em que o rei

pediu em Roma o estabelecimento da Inquisição com o

pretexto, entre outros, de que a heresia luterana já tocara

Portugal, um embaixador português fez representar em Antuérpia,

na presença do legado do papa, um dos mais atrevidos

autos de Gil Vicente, precisamente o que tinha por tema

 

o assunto escaldante do tráfico das indulgências. Os teólogos

romanos indignaram-se e fizeram queixa ao papa. Não foi em

vão. O poeta teve um processo e expiou dois anos de castigo.

Ainda voltou à corte em 1536, e é nessa última representação

que nos dá o seu auto-retrato de pensador amordaçado. Mas

nesse ano começou a funcionar a Inquisição, e um silêncio

impenetrável desceu sobre Gil Vicente.

 

 

(José Hernamo Saraiva, História concisa de Portugal )

 

 



publicado por pimentaeouro às 12:42
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Sexta-feira, 27 de Abril de 2012
Avesso dos Lusíadas #2

Por todo o país encontramos estátuas celebrando os «heróis» das Descobertas e realizam-se actividades com o mesmo objectivo.

Em Lisboa, na Praça do Império, não falta o monumento celebrando o mesmo culto.

Disse culto, e é disso que se trata porque a realidade nada tem a ver com crenças.

Durante décadas, o Ensino de Salazar tinha a leitura dos “Lúsiadas” (divisão das orações) como mito e matéria sagrada, espírito da Pátria.

A historiografia moderna libertou-se dessa canga mitológica: nos feitos da Índia há muita coisa para nos envergonharmos.

Apenas vinte e cinco anos depois da descoberta do caminho marítimo para a Índia, no reinado de D. João III, já o «negócio» dava prejuízo e os efeitos no desenvolvimento do país eram quase arrasadores, como notava Gil Vicente.

Ainda hoje precisamos de nos libertar dessa ilusão. O texto que segue é do livro : “História concisa de Portugal”, José Hermano Saraiva, Publicações Europa América.

Hermano Saraiva não é um historiador moderno, logo fora de suspeita.

 

A consciência épica e as suas metamorfoses

 

“Os descobrimentos transformaram, o pequeno Portugal numa nação mundial, porque a actividade dos Portugueses passa a ter por teatro o mundo: «Por toda a Terra se ouvem as suas vozes e até nos confins do mundo ressoam as suas palavras» (Damião de Góis). Essa transformação reflectiu-se no plano mental e estético.

 A ideia que os espíritos mais cultos faziam do seu país modifica-se completamente. Nos meados do século XV, a imagem que se pode colher, por exemplo, nas páginas de Fernão Lopes é a de um pedaço de terra pobre habitado por gente rija que luta ferozmente para não cair sob o domínio do vizinho poderoso e rico.

 Cem anos depois, a imagem é outra: um imenso espaço que vai «das Colunas de Hércules à China e onde, por obra nossa, to­dos conhecem a lei de Cristo» (Góis). O mais eloquente proclamador desta consciência épica foi Camões, mas, crono­logicamente, esteve longe de ser o primeiro.

 A obra de Zurara está já carregada de intenção épica, e quando D. Manuel adoptou a esfera armilar como símbolo nacional afirmou o mais enfaticamente que era possível o carácter ecuménico da monarquia portuguesa.

Foi depois de ter passado muitos anos na índia que Camões publicou em Lisboa, em 1572, Os Lusíadas.

 Do ponto de vista formal, trata-se de uma epopeia de modelo clássico e portanto de uma imitação ao gosto renascentista. Várias outras epopeias foram publicadas na Europa.

Mas a surpreen­dente inovação do poema português está em que o tema não é inspirado pela antiguidade, mas pela própria história de Portugal. Os seus heróis não são imaginados, nem são os da Grécia e de Roma: são reais e são portugueses. Em vez de César, falará de Afonso Henriques, em vez de Eneias, cantará Vasco da Gama.

Na verdade, os nossos heróis são superiores a quaisquer outros; Alexandre e Trajano, por exemplo, ficam a perder de vista em comparação com eles. Portanto, «cesse tudo o que a musa antiga canta, que outro valor mais alto se levanta». Esse valor é Portugal.

E depois de ter ouvido o seu poema, o rei concluirá o que «é mais excelente: se ser do mundo rei, se de tal gente». Esse sentido hiperbólico perpassa desde a primeira à última estrofe do longo poema.

O êxito foi imediato e imenso. Os Lusíadas fixam por muito tempo os traços básicos da noção que os Portugueses com cultura literária terão de Portugal. Em nenhum outro livro essa noção se exprime em termos tão lapidares e fasci­nantes.

Mas em muitos outros escritores se pode surpreender a mesma atitude. Ficaram de fora alguns homens de cultura não clássica (como Fernão Mendes Pinto, autor da Peregri­nação, desabusada e de raiz popular, ou Gaspar Correia, autor das Lendas da índia, de cruel sinceridade), mas todos os demais historiadores afinam pelo diapasão épico. E não só os historiadores: é o mesmo sentimento que anima os cientis­tas quando, como Garcia de Orta, exclamam que se aprende mais com os Portugueses num dia do que com os Romanos em cem anos, ou os gramáticos, que apresentam o idioma português como um novo latim de destino ecuménico, que servirá de instrumento à unificação religiosa do mundo.

 «E melhor que ensinemos a Guiné do que sejamos ensinados por Roma», escreve Fernão de Oliveira. Os Portugueses chegam a toda a parte «despregando bandeiras, tomando cidades, sujei­tando reinos (?) onde nunca o vitorioso Alexandre nem o afa­mado Hércules puderam chegar.

 Acharam novas estrelas, navegaram mares e climas incógnitos, descobriram a ignorân­cia dos geógrafos antigos. Não há nação na terra conhecida a que tanto se deva como a portugueses» (Amador Arrais).

Esta consciência épica ficará a constituir um dos ingre­dientes mais duradouros da retórica nacional. O estado de espírito ficou, depois de ter passada a causa que o fez nascer.

 A épica póstuma apresenta-se, no século XVII, sob a forma degenerada de fanfarronice. Em numerosos viajantes que passaram pelo nosso país na centúria de Seiscentos encontramos uma nota comum: o espanto pela convicção em que os Portugueses continuam de que são os melhores, os mais valentes, os mais gloriosos homens do mundo. É esse senti­mento que alimenta boa parte da literatura de resistência durante o domínio filipino. Num livro publicado em 1631 encontramos este raciocínio: os Espanhóis triunfam sobre todos os outros povoa Ora a história mostra que nós vence­mos os Espanhóis. Logo, somos o mais valente povo do mundo. Uma boa caricatura é a que nos fez, por essa mesma altura, Lope de Vega:

Sou el maior

senor que oje el mundo pisa! Sou cifra de quanto es bono, sou grande e de gran poder, sou cetro, corona e trono que terra e mar faz tremer! Sou aquel que ao profundo chega com fama imortal, e finalmente me fundo em que ben sou Portugal, que sou más que todo el mundo!

 

 

para que nos pudéssemos continuar a atribuir o primeiro lugar no mundo. Para D. Luís da Cunha, Portugal já não é o império desde o Algarve ao Japão, mas apenas um espinhaço de pedras com uma planície na cauda, habitado por gente que não faz muita diferença dos desgraçados índios do Brasil.

 O pessimismo crítico dos estrangeiros é porém apenas a premissa para uma conclusão: a reconstrução do País, que se fará pelo trabalho (segundo os mercantilistas) ou pela cultura (segundo os iluministas).

 Mas, do mesmo modo que o espirito épico do século XVI degenerou no fanfarronismo do século XVII, o espirito crítico do século XVIII desemboca no decadentismo que de Herculano passa à geração de 70 e depressa se dissolve no derrotismo niilista da geração seguinte:

«...uma mocidade arrasada e céptica, descrente de si mesma e do País, igno­rando a tradição e escarnecendo as instituições, queixando-se de que falta tudo e não tratando de se prover de coisa nenhuma, odiando o solo em que nasceu, a língua que falava, a educação que recebeu, amuada dentro desse ódio estéril como um mocho dentro do seu buraco, e de facto tão alheia à Pátria e ao seu génio como se tivesse sido importada da França, em caixotes, pelo paquete do Havre» (Eça, Notas Contemporâneas).

 

 

 

 

 



publicado por pimentaeouro às 18:21
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Quinta-feira, 19 de Abril de 2012
Avesso dos Lusíadas #1

O Naufrágio de Sepúlveda ou o reverso da medalha dos Descobrimentos

INTRODUÇÃO

A História Trágico-Marítima, publicada em 1735-1736 por Bernardo Gomes de Brito, é uma colectânea de relatos de naufrágios de algumas naus portuguesas na rota da Índia. Tentaremos, através de alguns pontos e analisando em particular o relato do naufrágio do galeão grande São João, mostrar que é de importância fundamental a sua abordagem dentro da problemática dos Descobrimentos. Agora, que comemoraremos os quinhentos anos desse grandioso feito, seria bom repor a História Trágico-Marítimaao lado de Os Lusíadas como seu complemento. De facto, sendo Os Lusíadas a parte heróica e gloriosa das Descobertas, a História Trágico-Marítima, como o próprio título indicia, é a sua parte trágica.

O naufrágio de Sepúlveda é o primeiro relato e o mais característico da colectânea. O autor, de que desconhecemos o nome, parece ter-se servido das palavras de um Álvaro Fernandes, sobrevivente do galeão, para escrever a história, tal como diz no prólogo. Tendo-se servido ou não, descobrimos, pela forma como descreve os acontecimentos, que estava bem dentro do âmbito da empresa marítima. Era profundo conhecedor dos navios, das terras exóticas e do mar. Pensamos que terá vivido na pele alguma ou algumas viagens e perigos semelhantes.

Será nosso interesse neste estudo desvendar o porquê e o como das tragédias marítimas, sobrelevando alguns pontos para o seu maior esclarecimento.

1. HISTÓRIA MESTRA DA VIDA

O autor do relato diz no prólogo por que resolveu escrever a narrativa que tem por protagonista Manuel de Sousa Sepúlveda: «por me parecer história que daria aviso e bom exemplo a todos, escrevi os trabalhos e morte deste fidalgo e de toda a sua companhia, para que os homens que andam pelo mar se encomendem continuamente a Deus e a Nossa Senhora».

Há nestas razões uma motivação, segundo Giulia Lanciani, didascálica, que se manifesta «quando o leitor assume o relato de naufrágio como reportório de ensinamentos tirados das experiências de testemunhas oculares» (Lanciani, 1979: 40). Estes ensinamentos seriam úteis para aqueles que viessem a enfrentar os mesmos perigos. A nosso ver, há também uma motivação religiosa, bem patente no prólogo do relato: «Cousa é esta que se conta neste naufrágio para os homens muito temerem os castigos do Senhor e serem bons cristãos».

A história, mestra da vida, é referenciada ao longo de todo o relato por pequenas reflexões do narrador. Este, face às acções das personagens, louva ou critica o resultado obtido em considerações ora de censura, ora de comiseração. A propósito da traição dos cafres e do conselho do reizinho que os portugueses não seguiram, comenta o autor: «e por aqui verão os homens como nunca hão-de dizer nem fazer cousa em que cuidem que eles são os que acertam ou podem senão pôr tudo nas mãos de Deus Nosso Senhor».

As personagens, num acesso de bom senso, olham para as suas acções numa atitude de arrependimento e reconhecimento do erro: «Quando Manuel de Sousa isto viu, bem se lembraria quão grande erro tinha feito em dar as armas».

2. CAUSAS DO NAUFRÁGIO

São muitas e variadas as causas do naufrágio do galeão grande São João. António Sérgio culpava uma má política de gestão na maior parte dos naufrágios das naus portuguesas. Chamou albuquerquismo à «desmesura, impulsividade, imprevidência e insânia da acção desbussoladora do Afonso de Albuquerque». E acrescenta, dizendo, que «não teriam decerto naufragado tantos se se houvessem dirigido os nossos negócios asiáticos com a orientação característica de um Dom Francisco de Almeida» (Sérgio, 1974: 148).

Essa política reflectia-se logo a partir da construção dos navios. Eram mal construídos, utilizavam-se madeiras impróprias, a calafetagem era má, a fiscalização era nula por parte das entidades. A preparação dos pilotos e até mesmo dos engenheiros de construção era deficiente. De Itália vinham os engenheiros e os especialistas que lá não serviam. A manutenção dos navios quase não existia; depois de uma embarcação sair dos estaleiros, nunca mais lá entrava para reparações. O carpinteiro de remendos era o fundo do mar.

O galeão grande São João estava demasiado velho. Diz o autor do Relato: «tardaram muito em ver o cabo por causa das ruins velas que traziam, que foi uma das causas, a principal, de seu perdimento»; «por o leme ser podre, um mar que lhe então deu lho quebrou pelo meio e levou-lhe logo ametade».

Estas são algumas das causas remotas da perda do galeão. Uma outra causa é a carga exagerada que trazia. António Sérgio, a propósito, comenta: «Os estivadores carregavam conforme mais lhes convinha, ao sabor das espórtulas de cada passageiro e dono, atulhando o galeão de fardarias em barda» (Sérgio, 1974: 155).

O narrador do relato explica que, «ainda que a nau levava pouca pimenta, nem por isso deixou de ir muito carregada de outras mercadorias, no que se havia de ter muito cuidado pelo grande risco que correm as naus muito carregadas».

A causa próxima do naufrágio foi a tempestade. Na verdade, se a tempestade não grassasse, a embarcação possivelmente chegaria a bom porto, mesmo tão carregada como estava e em tão más condições de controlo material e humano. O barco não resistiu ao vento e às ondas, obrigando os tripulantes e os passageiros a arribar.

O próprio autor fala das razões do naufrágio e abandono do navio: «as razões que davam para arribar foram que a nau era muito grande e comprida e ia muito carregada de caixaria e de outras fazendas, e não traziam já outras velas senão as que traziam nas vergas, que a outra equipação levou um temporal que lhe deu na Linha, e estas eram tão rotas que se não fiavam nelas».

Sofreram a tempestade por terem partido tão tarde do porto, devido aos ventos contrários. Na terra do Natal, «eram os ventos tais, que, se um dia ventava levante, outro se levantava poente».

Face a tão grandes contrariedades, o barco não poderia escapar insane. Tudo contribuía para a sua perda: a degradação do casco e das velas, certa ignorância e imprevidência humanas, a cobiça de lucros, o abarrotar de carga e a tempestade fatal.

3. O FATALISMO

Uma das características do povo português é, para Jorge Dias, o fatalismo. Segundo este pensador, herdámo-lo dos árabes e faz parte agora da nossa personalidade. Não sabendo, ou não querendo atribuir as responsabilidades do naufrágio a indivíduos ou grupos, o autor do relato remete-as para o destino. Este é a causa, o motor essencial da perda do galeão.

Manuel de Sousa, à luz do autor, é inocente em tudo o que lhe aconteceu, a si, á sua família e aos seus homens: «como já estava de cima que acabasse este capitão com sua mulher e filhos e toda sua companhia, nenhum remédio se podia cuidar a que a fortuna não fosse contrária».

É o fatum que guia os portugueses para a tragédia: «como parece que estava determinado acabar Manuel de Sousa nesta jornada com a maior parte de sua companhia, não quiseram seguir o conselho deste reizinho»; «os cegou a sua fortuna, que não quiseram senão caminhar avante».

A imagem do destino ainda agora, nos finais do século XX, parece absorver a psicologia de cada um dos portugueses. As expressões «é o destino», «ao destino ninguém foge» são um lugar comum na boca das nossas gentes.

4. PLANOS E EMERGÊNCIAS

Perante a tempestade, «o capitão chamou o mestre e o piloto e lhes perguntou que deviam fazer com aquele tempo, pois lhe era pela proa, e todos responderam que era bom conselho arribar». Mas a tempestade aumentou de tal intensidade, que se viram obrigados a adiar esse plano. Ficando sem velas sobre um mar de tormenta, impuseram-se-lhes algumas emergências para impedir que o navio se afundasse. «Quando se viram sem vela, e que não havia outra, acudiram com diligência a tomar a vela de proa»; «Houveram por melhor remédio, para se não irem a fundo a pique, cortarem o mastro da proa que lhes fazia abrir a nau».

Vemo-los a lutar contra a tempestade e a morte, agarrados aos cordames e aos mastros aos martelos e ás agulhas de coser: «vendo-se Manuel de Sousa e oficiais sem nenhum remédio, determinaram o melhor que puderam de fazer um leme e de alguma roupa que traziam de mercadorias fazerem algum remédio de velas».

Não havendo outra alternativa senão abandonar o navio pela sua consequente perda, Manuel de Sousa providencia um acampamento em terra para acolher os náufragos. Dias após o trágico acontecimento e tendo os feridos restabelecido a saúde, o capitão, num discurso que faz lembrar os heróis homéricos, exorta os sobreviventes a iniciarem o caminho de regresso. É por entre território de cafres que se vão tomando medidas para encontrar mantimentos.

Quando os náufragos ficaram sem chefe, a desordem esbateu-se sobre eles e o grupo desorganizou-se: «Como já não levavam figura de homens nem quem os governasse, iam sem ordem por desvairados caminhos».

Jorge Dias diz que há no homem português una enorme capacidade de adaptação a todas as coisas. Adaptam-se a outro ambiente tão bem, que parece ter sido assimilado por ele. Não sendo propriamente um homem de razão, o português é um homem de acção. No relato do naufrágio de Sepúlveda, os portugueses, não perdendo o sangue frio, quer pelo medo, quer pelo excessivo descontrole da coragem, adaptam-se às circunstâncias hostis do mar e da terra com bastante desembaraço.

Frente ao perigo, todos colaboram na sua superação. Tanto marinheiros e escravos como soldados e fidalgos se afadigam a coser velas, a cortar madeira, a buscar água. No trabalho de salvamento, a distinção de classes não existe, apesar de cada um não se esquecer da sua posição social.

É de um grande espírito de solidariedade a fala do piloto, momentos antes do navio se afundar: «Irmãos, antes que a nau abra e se nos vá ao fundo, quem se quiser embarcar comigo naquele batel o poderá fazer».

A colaboração de todos, no bom e no mau, está patente desde o começo até ao fim do relato. No final, desiludidos e cansados da caminhada e da fome, sem armas, quase nus e sem capitão, como que guiados pelo inconsciente colectivo, recomeçaram o caminho. A maior parte deles ficou no mato e foi comido pelas feras.

5. AS CLASSES SOCIAIS

A sociedade da época, apesar de alguns esforços para a humanização de todas as classes, era ainda fortemente hierarquizada, com senhores, súbditos e escravos. Alguns historiadores apontam até para um recrudescer das diferenças sociais, como Oliveira Marques. À ausência de escravatura durante quase toda a Idade Média, surge agora, com a descoberta de novas raças, o direito do homem branco sobre o de cor.

Apesar do perigo comum, dos sofrimentos, das necessidades, é de uma sociedade dividida em classes que nos fala o relato de Sepúlveda. O herói é um nobre cavaleiro, Manuel de Sousa Sepúlveda. Diz Giulia Lanciani que «os padecimentos sofridos por personagens de classes privilegiadas tiveram sempre (...) um impacto emocional na opinião pública bem superior às vicissitudes do homem comum» (Lanciani, 1979: 39). Com efeito, o autor do relato, não menosprezando os restantes náufragos, centra a história nesta personagem com laivos de figura trágica. Os acontecimentos sucedem-se em volta de si. A sua preocupação última não será pôr a salvo os homens que o acompanham e de quem ele é capitão, mas a da esposa e filhos.

É verdade que, tanto nobres como plebeus, escravos ou soldados, ricos ou pobres se atarefavam em conjunto para salvarem a embarcação, num esforço de solidariedade a que já aludimos. Mas também é verdade que as diferenças e sua consciencialização, quando menos se espera, vêm ao de cima. Se não releiam-se as passagens do negócio da água durante a caminhada pelos matos e o negócio das frutas e da caça. Quem dispunha de pecúlio ia-se mantendo. Os outros não teriam senão o pó e as pedras.

Se quiséssemos fazer um esquema da hierarquização das classes sociais dentro do galeão São João, organizá-lo-íamos pela ordem seguinte: o capitão Manuel de Sousa com a sua família e outros fidalgos, os oficiais e cavaleiros, o mestre Cristóvão Fernandes da Cunha, o contramestre Duarte Fernandes, o piloto André Vaz, os soldados, o carpinteiro da nau, os marinheiros, as aias e os escravos. Portanto, três classes distintas: a nobreza, o povo e os escravos. Ao clero não há nenhuma referência.

Giulia Lanciani, falando da igualização hierárquica que parece adivinhar-se no relato, explica: «Quando se alude à fome e à sede sofridas indistintamente por ricos e por pobres, cumpre-se obra ao mesmo tempo consolatória e mistificante» (Lanciani, 1979: 38). Quanto a nós, achamos que o autor do relato teria essa intenção, mas ficou aquém, já que, apesar das necessidades comuns, o pobre sofreu sempre um pouco mais do que o nobre ou o rico. As desgraças partilhadas por todos eram menos partilhadas por uns do que por outros.

6. RELAGÕES COM OS CAFRES

Os cafres constituem em geral um perigo para os portugueses. No relato, o contacto entre uns e outros é-nos mostrado desde o inicio. Quer-nos parecer que a maioria dos escravos transportados no barco era negra, sobretudo de Moçambique. Porém, os problemas que embaraçaram os náufragos foram mais causados pelos cafres da zona onde arribaram do que pelos que traziam. Os escravos estariam já aculturados.

Após o afundamento do navio e estando acampados na praia, os portugueses decidiram fazer o reconhecimento da área: «dali a dous dias lhes pareceu bem mandarem um homem e um cafre do mesmo galeão, para ver se achavam alguns negros que com eles quisessem falar para resgatar algum mantimento. E eles andaram lá dous dias sem acharem pessoa viva, senão algumas casas de palha despovoadas, por onde entenderam que os negros fugiram com medo». Três dias depois, apareciam-lhes no acampamento alguns cafres com uma vaca. Com a intenção de trocarem a vaca por pregos, resolveram não fechar o negócio. Isto porque apareceram mais alguns cafres a bradarem de longe para que o não fizessem. Os portugueses deixaram-nos partir com o animal, apesar de terem muita necessidade dele.

Esta atitude dos portugueses revela certo respeito pelo alheio, o que não parece normal numa política de conquista. Jorge Dias diz que nunca sentimos repugnância por outras raças. Sendo reis e senhores do oceano, a atitude vulgar seria tirarem a bem ou a mal a vaca aos cafres. Ora, isso não aconteceu.

O cheiro da guerra e o potencial desentendimento entre uns e outros depara-se logo na cena em que os portugueses encontram a aldeia negra despovoada. Admite o narrador que «em algumas das casas acharam frechas metidas, que dizem que é o seu sinal de guerra». Os portugueses vão respirar de alívio quando encontrarem durante a jornada um reizinho deveras simpático: «vieram ter com o cafre, senhor de duas aldeias, homem velho, e que lhes pareceu de boa condição (...) e lhes disse que não passassem dali, que estivessem em sua companhia e que ele os manteria o melhor que pudesse». Explicou-lhes estar em guerra com outro cafre vizinho e aconselhou-os a não irem avante, pois poderiam sofrer insídias.

Este reizinho é a parte bondosa de todo o enredo. Os portugueses «lhe puseram nome Garcia de Sá, por ser velho e ter muito parecer com ele e ser bom homem, que não há dúvida senão que em todas as nações há maus e bons; e por ser tal fazia agasalhos, e honrava os portugueses».

O tom confessional do narrador distinguindo maus e bons em todas as nações, remete-nos para certa imparcialidade. Como há portugueses bons e maus, assim acontece com os cafres. Todavia, esta imparcialidade dissolve-se no momento em que os portugueses sofrem os primeiros revezes. Sendo ludibriados, roubados, maltratados ou mortos, a conclusão torna-se evidente. Os portugueses passam a ser as vítimas e os cafres os malvados. É exemplar o brado de Manuel de Sousa: «Perros, aonde me levais?».

Estranha-se a falta de conhecimento dos portugueses quanto à forma de agir dos negros. O autor, numa reflexão de significado contundente, demonstra-nos essa ignorância: «Não tinha sabido tanto dos cafres como agora sabemos por esta perdição e pela da nau São Bento». O ardil dos nativos era exemplar para um povo a que chamaríamos primitivo. Nem toda a astúcia e experiência dos portugueses os levou à desconfiança e à salvação. Pelo contrário, confiaram piamente nos cafres: «Tanto que os cafres viram os portugueses sem armas como já tinham consertado a traição, os começaram logo a apartar e roubar, e os levaram por esses matos».

7. O CAPITÃO MANUEL DE SOUSA

Como atrás referimos, Manuel de Sousa Sepúlveda é a personagem central deste relato. Logo no prólogo e através da antítese, o autor introdu-lo e caracteriza-o. Diz que era um fidalgo de bom nascimento e que «na Índia gastou em seu tempo mais de cinquenta mil cruzados em dar de comer a muita gente, em boas obras que fez a muitos homens; por derradeiro foi acabar sua vida e de sua mulher e filhos em tanta lástima e necessidade entre os cafres faltando-lhe o comer e beber e vestir»

Afundado o barco, Manuel de Sousa toma previdências quanto ao seu futuro, de sua família e de seus homens. Era incansável o seu desvelo como chefe: «o capitão (...) andava na praia esforçando os homens, e dando a mão aos que podia os levava ao fogo que tinha feito, porque o frio era grande. (...) Assim esteve sempre com muito cuidado e vigia, levantando-se cada noite três e quatro vezes a rondar os quartos, o que era grande trabalho para ele».

Antes de iniciarem a jornada a pé e após a recuperação dos feridos e doentes, reuniu todos os portugueses e discursou. Foi por nós atrás referida a identificação com os heróis homéricos. Nesta fala, Manuel de Sousa assemelha-se a Ulisses quando fala a seu povo após a morte de Antínoo. Neste discurso vemos um homem senhor de si e consciente dos seus.

Todavia, o amor de Manuel de Sousa à família era maior do que a dedicação aos seus homens. Esteve para «perder o siso» quando lhe disseram que um seu filho bastardo durante a caminhada ficara para trás. O desvelo para com a esposa e os filhos foi causa de sua perdição: «Não lhe esquecia a necessidade que sua mulher e filhos passavam de comer». E vemo-lo a ir pelas matas em busca de frutos e água.

A demasiada vigia e o muito trabalho desarticularam-lhe a sanidade mental. O capitão estava cansado e tal facto repercutia-se no seu agir. A teimosia em não querer ouvir os conselhos do reizinho eram o resultado disso. «Quem conhecera a Manuel de Sousa e soubera sua discrição e brandura, e lhe vira fazer isto, bem poderia dizer que já não ia em seu perfeito juízo, porque era discreto e bem atentado; e dali por diante ficou de maneira que nunca mais governou a sua gente».

O autor chega mesmo a afirmar, numa expressão bastante sui generis, que Manuel de Sousa estava «maltratado do miolo». Malgrado a doença e vendo-se roubado pelos cafres, a sua reacção foi a de um homem de senso: «dado caso que já havia dias que vinha doente da cabeça, todavia sentiu muito esta afronta».

Após a morte de sua esposa Dona Leonor, não chorou nem disse «cousa alguma, estando assim com os olhos postos nela». Abriu uma cova e enterrou-a, «se meteu pelo mato e nunca mais o viram». E assim acaba a história desta curiosa personagem.

8. MODO DE SER PORTUGUÊS

Jorge Dias é da opinião de que foi no clima dos Descobrimentos que os elementos psíquicos díspares do povo português se fundiram. O relato do naufrágio de Sepúlveda, enquadrando-se nesse clima, é depositário da maior parte das características comportamentais dos portugueses. Sendo um temperamento paradoxal, levou a que ainda hoje os seus elementos psíquicos se mantenham praticamente inalteráveis. O modo de ser português é a conjugação de todos esses elementos.

A entreajuda em tempos difíceis ou momentos de perigo é uma das características que nos parece definir. No relato vemos nobres soldados ou gente do povo com o mesmo objectivo: a salvação de todos e do barco. Aliado à entrajuda, há o sentimento de comiseração. Sofre um, sofre a colectividade: «É certo que ver ficar estes homens, que cada dia lhe ficavam vivos por esses desertos, era causa de grande dor e sentimento para uns e para outros».

A tristeza é também um dos elementos característicos da nossa psicologia. O fado de Lisboa e de Coimbra são disso uma prova. Na literatura, para dar apenas alguns exemplos, o Só de António Nobre é , como o poeta diz em epígrafe, «o livro mais triste que há em Portugal». Lembremo-nos também do Amor de Perdição de Camilo, que tantos corações devastou de tristeza e compaixão. José de Paço D'Arcos diz com alguma chacota que «somos um povo de tristes». No relato, esse sentimento de tristeza aparece em algumas considerações do narrador: «cuidar bem nisto é cousa para quebrar os corações!»; «Em verdade que não sei quem, por isto passe sem grande lástima e tristeza».

A ganância do lucro que ainda hoje define boa parte dos portugueses está bem patente nalgumas atitudes dos náufragos do galeão São João. Afirma o autor que Manuel de Sousa quisera «mandar buscar alguma água, e não houve quem quisesse ir menos de cem cruzados cada caldeirão». Uma das causas da perdição do navio, como já vimos, foi a da carga excessiva. Era pela ganância do lucro que os portugueses atulhavam as embarcações.

O pudor e a cortesia à mulher é outra das características. Dona Leonor, esposa de Manuel de Sousa Sepúlveda, após ter sido maltratada pelos cafres e ficando nua diante das suas gentes, não foi presa da chacota, antes pelo contrário: «Os homens que estavam ainda em sua companhia, quando viram a Manuel de Sousa e sua mulher despidos, afastaram-se deles um pedaço pela vergonha que houveram». Talvez seja este elemento da nossa psicologia o que actualmente está mais em extinção. Na verdade, os media vão desbragando a nossa sociedade.

CONCLUSÃO

Tendo em mira o que nos propuséramos evidenciar, concluímos da importância de relatos como o da perda do Galeão grande São João para o estudo daquilo que foi a nossa aventura marítima. Eduardo Lourenço diz que uma nação é uma «reactualização incessante do que fomos ontem em função do que somos hoje ou queremos ser amanhã» (Lourenço, 1985).

Nós, como portugueses descobridores de novas terras, fomos grandes. Essa grandeza deveu-se a imensos sacrifícios e esforços. Foram largas as perdas materiais e humanas. Giulia Lanciani, na obra de que nos servimos durante a nossa exposição, conclui: «os relatos de naufrágios representam o reverso da medalha das exaltantes crónicas oficiais de vitórias de conquistas, de triunfos em terras longínquas e entre gentes exóticas».

 

BIBLIOGRAFIA

 

DIAS, Jorge, Estudos do Carácter Português, Lisboa, 1971.

BRITO, Bernardo G. de, História Trágico-Marítima, vol. I, Mem Martins, Publicações Europa-América, 1981.

LANCIANI, Giulia, Os relatos de naufrágios na literatura portuguesa dos séculos XVI e XVII, Amadora, Biblioteca Breve, vol. 41, 1979.

LOURENÇO, Eduardo, «Identidade e Memória», em Conflitos e Mudanças em Portugal 1974-1984, Lisboa, Teorema,1985.

MARQUES, Oliveira, História de Portugal, I, 8ª edição, Lisboa, Palas Editores, 1980.

SÉRGIO, António, Ensaios, Lisboa, Clássicos Sá da Costa, 1974, tomo VIII.

Deolinda Rodrigues Cabrera Machado, 1991




publicado por pimentaeouro às 20:32
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