Conhece-te a ti mesmo... se puderes.
Quarta-feira, 1 de Fevereiro de 2017
Amor antigo

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Algumas mulheres perdem-se pelo amor e pagam caro, às vezes demasiado caro: há feridas interiores que a memória nunca deixa sarar. O preço que tu pagaste foi demasiado elevado e foi e teu próprio pai quem o impôs.

Naquela época (meados dos anos 50) era muito raro uma rapariga aceitar namoro sem a prévia autorização dos pais. Decidis-te sem essa autorização e, mais ainda, eu era praticamente desconhecido em Torres Novas: foi um forte impulso do teu coração (eu merecia essa audácia?).

Tivemos dois namoros, o primeiro foi mudo. Só os nossos olhos conversavam. Os meus olhos procuravam os teus, os teus olhos procuravam os meus e olhávamo-nos longamente. Era uma procura mútua com emoções ambiguas: o amor tacteava no desconhecido, o desejo de nos conhecermos, de nos encontrarmos. Era uma atracção mútua que nos dominava, sentimentos que despontavam como uma primavera.

Depois tivemos cerca de um mês de namoro, se é lhe posso chamar namoro. Viveste o encantamento de teres encontrado o homem que procuravas para amar, o pai dos teus filhos – a maternidade cantava melodias ao teu ouvido de mulher, melodias que só tu ouvias – um companheiro para a tua vida onde já existia a solidão da morte da tua mãe.

Eras uma mulher inteligente, avançada para a tua, a nossa época, e o teu horizonte não se confinava só ao casamento, à vida conservadora e parada de uma pequena cidade de província, conhecias horizontes mais abertos de outros meios.

A tua maior atenção era conheceres o homem – frágil – que tinhas escolhido. Irias conseguir viver com as minhas fragilidades?

Durante um breve mês viveste a esperança de ser feliz, espuma que o vento dissipou.

Existo na tua memória? Como? Com ternura ou como um pesadelo que não devia ter acontecido?

O que me importa é saber – nunca o saberei! - que foste mulher e mãe com outro homem e que foste feliz. Era isso que tu merecias.

Aquele efémero namoro ficou gravado na minha memória, bem como o prolongado sofrimento e frustração que passei.

Há distância de mais de cinquenta anos que interesse tem esta história? Tem para mim e, quem sabe, também terá ou teve para ti.

 

O amor antigo tem raízes fundas,

 feitas de sofrimento e de beleza.”


 e a recordação do teu  amor já é independente da minha vontade, é uma coisa que me domina e que não posso controlar, lembro-me te ti quando menos espero e com frequência não consigo evitar as lágrimas.

Parece-me quase infantil estar a escrever este post, mas a memória é mais forte do que eu e não consigo evitá-lo.

Afinal, o ridículo acontece a todos, talvez os poetas compreendam isto.

 

AMOR ANTIGO

O amor antigo vive de si mesmo
não de cultivo alheio ou de presença.
Nada exige nem pede. Nada espera,
mas do destino vão nega a sentença.

O amor antigo tem raízes fundas,
feitas de sofrimento e de beleza.
Por aquelas mergulha no infinito,
e por estas suplanta a natureza.

Se em toda parte o tempo desmorona
aquilo que foi grande e deslumbrante,
o antigo amor, porém, nunca fenece
e a cada dia surge mais amante.

Mais ardente, mas pobre de esperança.
Mais triste? Não. Ele venceu a dor,
e resplandece no seu canto obscuro,
tanto mais velho quanto mais amor.


Carlos Drummond de Andrade

 

 

 

 

 


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publicado por pimentaeouro às 18:51
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