Conhece-te a ti mesmo... se puderes.
Terça-feira, 13 de Janeiro de 2015
Arte de furtar

 

 

É património nacional. Não temos o exclusivo mas temos séculos de prática: vamos por partes que é matéria de muita monta e com muitos espinhos, segundo dizem os especialistas.

Um anónimo conhecido (anónimo apenas porque gostava de ter a cabeça colada ao corpo) autor do século XVII garantiu para a posteridade que “Como para furtar há Arte, que é ciência verdadeira” e “Como a Arte de furtar é muito nobre”.

Exemplificando: Os próprios reis, em geral, não seriam desprovidos de "unhas" com que roubar: "De três maneiras pode um rei ser ladrão. Primeira furtando a si mesmo. Segunda a seus vassalos. Terceira aos estranhos" (capítulo XV). Mas os exemplos que o autor fornece destas três modalidades de roubo real (gastos inúteis, tributação excessiva e guerras injustas) situa-os todos no reino de Castela, nunca em Portugal.

Também a Inquisição — que, com licença do rei e do papa, se apoderava dos bens dos hereges, sobretudo dos judeus — é exemptada da acusação de roubo (capítulo XL). E no capítulo em que trata "Dos que furtam com unhas bentas", o autor evoca, mas para os desmentir, certos murmuradores que, por desdém, chamavam "Apanhia" a "certos servos de Deus" (a Companhia de Jesus), insinuando que "mandam olhar a gente para o Céu, enquanto lhe apanham a terra" (capítulo XXXIX).

Mas a nossa «furtação» é bem mais antiga e para encurtar caminho refiro apenas a famosa «Escola de Sagres» do Infante D. Henrique, escola da formação profissional de saquear e pilhar, a que o próprio Infante se dedicava, sem todavia conseguir o monopólio da Arte porque abundavam concorrentes.

O famoso “Império da India”, na verdade  era apenas o domínio periférico de algumas rotas marítimas, foi largo campo de ladroagem e mortandades (os historiadores indianos dizem cobras e lagartos de nós), à mistura com comércio: Gama, Cabral e muitas outras figuras de proa do “Império” foram capitães e corsários de el-rei.

Com a viragem da rapina para o Brasil tornamo-nos nos maiores «exportadores» de escravos do mundo, à centenas de milhares, ignominia nacional que nunca celebramos, e a rapinagem de ouro e diamantes, entre outras bagatelas, foi uma orgia. O ouro, os diamantes e os escravos esfumaram-se como os fumos da India.

É com estas credenciais que chegamos ao século XIX de Camilo e até aos nossos dias, obviamente. Camilo prestou homenagem à «rapinação» nacional na novela “O cego de Landim”.

Burlão, chefe de quadrilha, delator, mancomunado com o chefe da policia do Rio de Janeiro, espião, traficante de moeda falsa e outras miudezas da Arte, tudo isto apesar de ser cego, e nas horas vagas ainda tocava viola.

O cego de Landim merece estátua de bronze na sua terra natal e honras de Panteão Nacional; se tivesse os  olhos sãos teria ido muito mais longe.

Fazendo vista grossa sobre os últimos duzentos anos, chegamos ao BES: Ricardo Salgado também se esmerou na Arte e só não foi mais longe porque, na sua versão, o Banco de Portugal não deixou: governantes e autarcas fazem o que podem.

Em abono da verdade deve dizer-se que houve alguma Arte a espatifar os milhões que vieram da CEE, o nosso último Brasil. Não há mais!

Todavia, já não temos o brilho nem o génio dos séculos passados. Hoje somos uns pelintras na ladroagem financeira que suga o planeta.

Não me acusem de exageros, a está tudo nos livros da nossa gloriosa História.



publicado por pimentaeouro às 17:09
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2 comentários:
De golimix a 13 de Janeiro de 2015 às 19:51
Ai a história...


De pimentaeouro a 13 de Janeiro de 2015 às 20:56
Dói, dói muito!


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