Conhece-te a ti mesmo... se puderes.
Quarta-feira, 24 de Fevereiro de 2016
Bebemos no mesmo cálice

Resultado de imagem para calices

 

Ambos bebemos o cálice, ignorando que continha fel. Os meus olhos só viam os teus. Os teus olhos só viam os meus.

O teu sorriso era discreto, quase pudico, o meu era mais expansivo e descuidado – nunca mais foi. Amávamo-nos com a ingenuidade da mocidade, vivíamos o presente e o futuro sem sombras.

Hoje, há distância de décadas, passeio pelas ruas por onde andavas; sento-me no café onde ias ver televisão, na companhia da tua madrasta, segunda mãe, que te acompanhava discreta como se estivesse ausente.

Sento-me na mesa da esplanada, junto ao rio, em tardes quentes de verão, onde conversávamos. Relembro os diálogos despreocupados e a tua ternura contida, o teu gesto interrompido de fazer-me uma carícia na cara.

A felicidade, tocava-nos levemente, tudo era natural e simples. Chamavas-te Julieta, eu, simplesmente, João.

Quando surgis-te na janela, na hora combinada, rompes-te num choro compulsivo, que me deixou atónito, perplexo.

Que se passa? Que te aconteceu? Não percebia o que se estava a passar, o que fazer. O teu choro pareceu-me durar uma eternidade e dentro de mim só havia confusão e desespero.

Como o portão de um castelo, a janela fechou-se. Retirei-me destroçado, como um farrapo, como um trapo que qualquer um deita fora.

Ainda hoje existes na minha memória como a maior alegria e a maior tristeza que me aconteceu.

Ainda existirei na tua memória? 

 


tags: ,

publicado por pimentaeouro às 20:28
link do post | comentar | favorito (1)
|

4 comentários:
De redonda a 25 de Fevereiro de 2016 às 00:07
Se tivesse acontecido comigo, existiria, sim. Penso que algo assim não se esquece.


De pimentaeouro a 26 de Fevereiro de 2016 às 20:46
Um amor proibido nunca se esquece. As feridas ficam por baixo da pele. Felizmente as gerações de hoje não sabem o que isso é.
Julieta tinha mais maturidade do que eu e o seu amor já tinha ganho raízes , foi um grande golpe para ela.
Hoje vive recolhida, quase em clausura, na serra de Sintra que amava.
Estive a pouca distancia da sua casa mas a timidez ou qualquer outro sentimento disse-me que não tinha o direito de perturba-la.


De golimix a 28 de Fevereiro de 2016 às 10:12
Será que nem para dizer que ela ocupa o seu pensamento?
Qualquer mulher ficaria feliz em sabê-lo! Mais ela que o amou.

Penso que não devemos esconder o que sentimos. A vida é feita disso! Desses sentimentos fortes e plenos, que atravessam o tempo!

Bjix e bom domingo

Da Golimix


De pimentaeouro a 28 de Fevereiro de 2016 às 20:06
Já disse noutro comentário, um amor proibido nunca se esquece. As gerações de hoje não sabem o que isso é, felizmente.
Julieta foi o meu segundo insucesso amoroso. Deixou feridas.
Um abraço.


Comentar post

mais sobre mim
pesquisar
 
posts recentes

Portugal envelhece

Era perigoso pensar

Tratam-nos da saúde

Mais do que provável

Hava Nagila

O Mal

Tango da Velha Guarda

Dracula

Italiano Vero

Viagens intergalaxias

arquivos
tags

???

ambição

amizade

amor

animais

antropologia

armas

arquitectura

arte

arte biografias

astronomia

ballet

biografias

biologia

blogues

café curto

carttons

ciência

cinema

civilização

clima

comunicação social

corrupção

criminosos

crise financeira

demagogia

demência

demografia

descobrimentos

desemprego

destino

diversos

doenças

dor

economia

eleiçoes

ensaio

ensino

escravatura

escultura

estado

estupidez

eternidade

ética

eu

eutanásia

evolução

família

férias

filosofia

futebol

genocídio

governo

greves

guerra

história

inquisição

internacional

justiça

literatura

livros

memória

miséria

morte

mulher

mulheres célebres

musica

natureza

natureza humana

paisagens

paleontologia

partidos políticos

patologia ideológica

pátria

pintura

planeta terra

pobreza

poesia

politica

regime político

religião

saudade

saúde

segurança social

sentimentos

sexo

sindicatos

sociedade

sonhos

tecnologia

terrorismo

terrorismo de estado

testamento vital

tristeza

união europeia

universo

velhice

vida

violência

xadrez

todas as tags

favoritos

Um fantasma

Arte de furtar

Deus existe? #2

Para onde vou?

Sou um San

O Século xx Português

Pater Famílias

Avesso dos Lusíadas #2

links
últ. comentários
E os poucos temos emigram...
E matéria que conheço mal, não posso pronunciar-me...
Embora eu duvides dos números...:https://www.dinhe...
Pois, mas num cenário de muitas centenas de milhar...
É muito provável que o homem se auto destrua.Para ...
"A nossa espécie, se não se autodestruir, extingui...
E triste mas têm clientes.
E de vez em quando lá encontro em carrinho papeis/...
Será uma grande viagem, fica no norte da India.Bom...
Gostava de ir lá um diaum beijinho e bom fim-de-se...
blogs SAPO
RSS