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Terça-feira, 2 de Maio de 2017
Bento Jesus Caraça

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Bento de Jesus Caraça nasceu a 18 de Abril de 1901 em Vila Viçosa. Com pouco mais de dois meses, foi com os seus pais, trabalhadores agrícolas para uma aldeia no Redondo, onde o pai trabalhava como feitor da Herdade da Casa Branca.

É no Redondo que passa a infância. Cedo revelou inúmeras facilidades na aprendizagem, o que desde logo captou a atenção da proprietária da herdade, D. Jerónima. Sem filhos e fascinada por esta criança, propôs-se assumir os custos da sua educação, o que foi aceite pelos pais João Caraça e Domingas Espadinha.
Bento de Jesus Caraça fez o ensino primário em Vila Viçosa, prosseguindo os seus estudos no Liceu de Sá da Bandeira, em Santarém. Partiu para Lisboa com 13 anos para estudar no muito afamado Liceu Pedro Nunes, onde concluiu com distinção o ensino secundário em 1918.


Neste mesmo ano matriculou-se no Instituto Superior de Comércio, hoje Instituto Superior de Economia e Gestão, e um ano depois é nomeado 2º assistente pelo professor Mira Fernandes. A sua carreira académica tornava-se notória. Em 1924, é assistente e em 1927 professor extraordinário.

Chegou a professor catedrático em 1929. A seu cargo ficou a cadeira de “Matemáticas Superiores” – Álgebra Superior, Princípios da Análise Infinitesimal e Geometria Analítica.

Bento de Jesus Caraça afirmou-se como professor. Rigoroso e exigente, conquistou os alunos que chegaram a vir de outras escolas assistir às suas aulas em salas cada vez mais pequenas para tantos discentes.

O ensino da Matemática ganhou outra dimensão e colocou-se mais perto do concreto e mais próximo do quotidiano.


A sua actividade não se restringiu à prática lectiva. Foi membro do Núcleo de Matemática, Física e Química, criou o Centro de Estudos de Matemáticas Aplicadas à Economia, fundou a Gazeta da Matemática e foi presidente da Direcção da Sociedade Portuguesa de Matemática. Finalmente, em 1941 publicou a sua obra mais emblemática “Os Conceitos Fundamentais da Matemática”, cuja versão integral foi publicada apenas em 1951.

O seu mérito foi reconhecido internacionalmente, uma vez que foi o delegado representante da Sociedade Portuguesa de Matemática nos Congressos da Associação Luso-Espanhola para o Progresso das Ciências em 1942, 1944 e 1946.

A Cultura foi uma das outras grandes paixões de Bento de Jesus Caraça, a cultura que deveria ser adquirida por todos para que se conquistasse a liberdade. Na Universidade Popular, de que também fez parte profere a famosíssima conferência “A Cultura Integral do Indivíduo – Problema Central do Nosso tempo”. Com o mesmo objectivo em mente colaborou nas revistas Seara Nova, Técnica, Vértice e em outros tantos jornais como O Diabo, Liberdade e o Jornal Globo, fundado por si, mas infelizmente eliminado pela censura.

Olhando para a cultura como um “despertar das almas”, fundou a Biblioteca Cosmos, que editou centenas de livros de divulgação científica e trabalhou na reanimação da Universidade Popular, que entretanto se tinha visto enfraquecida pela acção da sempre atenta censura, tornando-se mesmo Presidente do Conselho Administrativo.

Defensor da liberdade que definitivamente não existia, Bento de Jesus Caraça foi também um interessado pela “questão feminina” e sempre incentivou a intervenção das mulheres na sociedade. Quando em 1943, onze raparigas se matricularam no ISCEF e uma vez que o sistema de coeducação era proibido pelo regime, apoiou a criação de um núcleo cultural por elas formado. Nunca faltou a uma palestra e jamais as abandonou sem trocar impressões com as oradoras.

Sempre consciente do mundo que o rodeava, empenhou-se juntamente com outros intelectuais portugueses, nas lutas pela liberdade e pela paz. Apoiou várias organizações clandestinas numa época de privações, crises internas e descontentamento latente.

O protagonismo político de Bento de Jesus Caraça ganha evidência com a sua participação no Movimento de Unidade Democrática (MUD). O MUD que contou com uma enorme adesão popular reclamava “liberdade de reunião, de associação, de imprensa” e “garantia de seriedade no acto eleitoral”.


Perante tal ameaça, o governo de Salazar ordena a sua dissolução, com o pretexto de evitar a perturbação da ordem social e muitos dos membros deste movimento foram perseguidos e presos, tal como aconteceu com Bento de Jesus Caraça. Bento foi também um apaixonado pelas viagens dentro e além fronteiras, pelos grandes espaços e pelo contacto com a natureza. Muitas vezes fazia tudo isto sozinho, mas frequentemente acompanhado pelos amigos de sempre.

Apesar de cedo ter chegado a Lisboa, Bento de Jesus Caraça sempre apoiou os pais, acabando por lhes comprar uma casa quando ao fim de larguíssimos anos deixaram de trabalhar na Herdade da Casa Branca. Tomou também a seu cargo a educação do sobrinho João que traz para Lisboa, a fim de evitar o mais que certo futuro de trabalhador rural.
Em Dezembro de 1926 casa com Maria Octávia, filha do professor de Matemática do Liceu Pedro Nunes, Adolfo Sena. O casamento durou apenas nove meses uma vez que Maria Octávia morreu em Setembro do ano seguinte.

Dezasseis anos depois, Bento de Jesus Caraça voltou a casar com uma das suas discípulas, Cândida. É desta união que nasce o seu único filho, João Caraça.
É também por esta altura que Bento de Jesus Caraça se torna demasiado incomodativo para um regime tão pouco tolerante a ideias inovadoras. O Governo de Salazar instaura-lhe um processo disciplinar que o afasta de vez do ensino e traz inúmeras dificuldades económicas à sua família. Dá explicações em casa e não pára de estudar e escrever. A sua saúde debilita-se cada vez mais e as crises cardíacas surgem com alguma frequência.

Morreu em 25 de Junho de 1948. Dois dias depois o seu funeral foi acompanhado por uma impressionante multidão silenciosa. Os tempos obrigavam a que assim fosse. No meio dessa multidão estavam também os temidos agentes da polícia política. Bento de Jesus Caraça foi sempre um nome incómodo para o regime salazarista e pelos vistos continuava a sê-lo.



publicado por pimentaeouro às 18:17
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