Conhece-te a ti mesmo... se puderes.
Segunda-feira, 26 de Junho de 2017
Caravelas #2

CARAVELAS.jpg

 

 

Em 1521, uma fome terrível assolou os campos, tendo morrido pelos caminhos muitos camponeses que tentavam chegar a Lisboa. A carne, base da alimentação durante a Idade Média, era agora rara; em 1580, dois estrangeiros que viajam por Portugal surpreendem-se da pobreza da alimentação popular: sardinha salgada e pão escuro.

A riqueza ultramarina não chegava ao campo, mas as suas consequências repercutiam nele. Os proprietários, do clero ou da nobreza, faziam pressão para obter cada vez mais de um solo que produzia cada vez menos, porque a quantidade dos gados e portanto dos estrumes diminuía, porque os braços fugiam sob o impulso de um estímulo duplo: a recusa da miséria e a cobiça da fartura que a cidade parecia oferecer.

 

 A luta por um salário melhor já não era possível, porque um trabalho igual ao do cavador aldeão podia ser prestado pelo escravo negro; mais ou menos por esta altura (em 1541), Damião de Góis calculava que entravam anualmente em Portugal dez a doze mil escravos

africanos. E tudo isso está por detrás da figura dramática de João Morteira: «Eu trabalho até que caio!» «Eu sou pobre como um cão!» Já só tem uma esperança: que ao menos o

filho possa ter uma vida melhor.

 Quer, para isso, encaminhá-lo para a Igreja; não é, explica, uma questão de devoção; é para que possa viver um pouco mais folgado. Mas nem isso consegue, porque Frei Paço, que examina o rapaz, não o deixa passar no exame. Também a aspiração do cavador é característica da época. A Igreja era um caminho para fugir à miséria ou para a evitar. Filhos de camponeses, filhos segundos de nobres, ordens religiosas.

Elas eram um dos três caminhos possíveis: «Quem quiser medrar, Igreja, Casa Real ou mar», dizia a sabedoria do povo. A alternativa era entre a religião, o serviço do paço ou de algum nobre ligado ao paço, ou a emigração. Essa procura conduziu, durante o século XVI, à hipertrofia do pessoal da Igreja; subiu o número de ordens religiosas, subiu o número de conventos de cada ordem (o total passou de duzentos para o dobro).

Mas a Igreja só marginalmente participou da riqueza dos descobrimento; era fundamentalmente da renda da terra que vivia.

 



publicado por pimentaeouro às 21:02
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3 comentários:
De golimix a 27 de Junho de 2017 às 17:43
Gostei de saber mais este pedaço da história. Tempos que ficaram para trás e esperemos que não voltem.


De pimentaeouro a 27 de Junho de 2017 às 20:39
A procissão ainda vai no adro, faltam mais 4 posts.
Das caravelas passamos rapidamente para a decadência.
No Sec. XVII já éramos o reino cadavernoso.


De Bailarina Da Lua a 27 de Junho de 2017 às 21:11
Vejo esta foto e só me vem á mente a letra dum fado "Caravela da Saudade " ... Agora vou ler o texto na integra !


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Acho que sim.
Não sabia que existia uma praia assim na Europa
mas se apenas uma pessoa souber, será ainda assim ...
:) ainda bem que não trocam :)
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