Conhece-te a ti mesmo... se puderes.
Quarta-feira, 28 de Junho de 2017
De onde venho? #2

Resultado de imagem para inicio da terra

 

Aceitar que a vida não tem sentido é um choque, pode até ser uma angústia e para os crentes de qualquer religião é um absurdo, mas de facto não tem sentido.  Nós é que temos de acrescentar-lhe um, escolher um desígnio, para vivermos com dignidade, sem esquecer que a nossa natureza acrescenta valores éticos ao que pensamos, ao que fazemos e ao que esperamos que os outros façam.

Não conseguimos viver sem valores éticos… a menos que nos transformemos em oportunistas inveterados que atropelam tudo e todos.

O Aleijadinho esculpia as suas estátuas com o martelo e o escopo amarrados às mãos e tinha de captar o essencial de cada apostolo. Sem a arte dele tenho a mesma obsessão quando escrevo: só o essencial, só o essencial.

Para escrever este  post tive que montar um cavalo brioso,  mais veloz do que a luz, tive que captar apenas traços muito gerais de uma história com cerca de 15 mil milhões de anos, antiguidade que somos incapazes de compreender. Só a viagem por uma pequena galáxia dava para escrever um livro.

Da recentíssima vida na Terra – escassos 4,5 mil milhões de anos – sabemos que a vida poderia ter meia dúzia ou mais de percursos diferentes com formas (seres) também inimagináveis: as ciências que se ocupam da evolução da vida na terra confirmam que a evolução é caótica, que poderia ter seguido num sentido ou no seu oposto, evoluiu por etapas ou por saltos bruscos, tudo fruto de múltiplos factores difíceis de pesquisar.

A última grande extinção no Pérmico, cerca de 250 a 300 milhões de anos deu-nos as actuais formas de vida. Os seres que sobreviveram e os novos que surgiram não tinham  qualquer consciência de  que eram os protagonista de uma nova era, apenas desenvolviam troques para sobreviver. É deles,  dos dinossáurios que se extinguiram, que se abre o caminho para os insignificantes mamíferos.

Sem a extinção maciça dos dinossáurios é pouco provável que os mamíferos se tornassem dominantes e que nós tivéssemos entrado em cena. Foi preciso que os dinossáurios se extinguissem para nós surgimos.  A nossa história, uma odisseia, dá para escrever uma biblioteca inteira.

Por um acidente tectónico no Vale do Rift Africano, uma parte da floresta desapareceu e nasceu a savana. Um macaco curioso, desceu das árvores e começou a perscrutar a savana e os seus predadores: pouco depois entramos em cena até ao Homo Sapiens. Seguiram-se uma série de acontecimentos prodigiosos – a invenção do fogo é apenas um deles - mas é uma história demasiado complexa para que eu a possa esboçar.

Se não tivesse acontecido mais nada, a razia do Pérmico, era suficiente para nos ensinar – se quisermos aprender – que a marcha cósmica da vida não tem qualquer sentido: as glaciações também condicionaram muito a evolução do homem, até podiam tê-lo eliminado: foi uma aventura de sobrevivência extraordinária e há quem relacione as glaciações com o aumento do cérebro: necessidade de mais estratégias de sobrevivência.

E o futuro? Desígnio, missão o que lhe queiram chamar remete para a existência de um futuro, imaginariamente perfeito.

Mas também aqui as noticias não são boas: a espécie humana terá um fim, como todas as espécies. Poderá ser decadência prolongada, eliminação súbita como a dos dinossáurios, ou às nossas próprias mãos – há loucura sucifiente para isso.

A nossa eliminação ocorrerá daqui a vários milhões de anos, ficarão os insectos e as baterias, que também se extinguirão depois de outros milhões.

Mais milhões à frente o planeta ficará estéril, sem qualquer manifestação de vida como a Lua, e, finalmente será literalmente derretido quando o Sol se transformar numa gigante vermelha. Não restará nenhuma peugada de quem viveu e do que aconteceu às nossas vidas insignificantes: não existiu nenhum sentido nem nenhum desígnio, apenas os átomos mudaram de composição, como vem fazendo à milhões e milhões de anos.

A maior dificuldade em contar esta história, dificuldade que eu não sei ultrapassar, é a imensidão inimaginável, para nós, da dimensão do tempo:

estamos programados para imaginar meses, anos e décadas já com esforço, o resto ultrapassa-nos.

Fico-me por aqui,  o meu desígnio para vencer esta solidão cósmica, foi procurar que a sociedade fosse mais justa. Falhei mas está  cumprido, agora são as novas gerações que têm que dar sentido às suas vidas.

Para repouso final gostava de poder recolher-me  numa estrela.

 



publicado por pimentaeouro às 18:37
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5 comentários:
De golimix a 29 de Junho de 2017 às 14:39
Que dizer deste seu post?
Excelente!


De pimentaeouro a 29 de Junho de 2017 às 18:18
Obrigado.
Um abraço.


De cheia a 30 de Junho de 2017 às 21:16
Uma boa reflexão. Parabéns.


De maiordesessenta.blogspot.pt/ a 1 de Julho de 2017 às 13:24
Parabéns pela excelente reflexão.
Fez.me sentir menos só , nesta "solidão cósmica".
Na imensidão do Universo não há vestígios de nós, não se ouve o nosso choro, nem o nosso riso...
Obrigada
Mena


De pimentaeouro a 1 de Julho de 2017 às 18:08
Irremediavelmente sós.


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