Conhece-te a ti mesmo... se puderes.
Sexta-feira, 8 de Abril de 2016
De onde venho ?

 

 

Do confim do Tempo primordial, sem memória. O hidrogénio é o culpado de tudo, está em todos os cantos do Universo e foi a partir dele que a implosão  das primeiras estrelas gerou as estrelas de segunda geração que «fabricaram» todos os átomos que existem.

Viajei pelo espaço sideral de distâncias inimagináveis – calor e frio extremos,   vi galáxias de todas as formas: viajei sem destino marcado até parar numa galáxia qualquer, numa estrela qualquer, num qualquer planeta.

Não me lembro, mas foi no planeta Terra que o milagre da vida aconteceu como poderá ter acontecidos noutros planetas desta ou de outras galáxias. Saí de um Oceano e comecei a rastejar em terra. Milhões e milhões de anos para que tudo isto acontecesse e era apenas um princípio. Por mais de uma vez estive em risco de perecer e esta história teria terminado, mas a vida tem tanto de vulnerável quanto de persistente.

Surgiram milhares e milhares de espécies que já pereceram, até que um dia no meio de uma selva africana surgi eu.

Aceitar que a vida não tem sentido é um choque, pode até ser uma angústia e para os crentes de qualquer religião é um absurdo, mas de facto não tem sentido.  Nós é que temos de acrescentar-lhe um, escolher um desígnio, para vivermos com dignidade, sem esquecer que a nossa natureza acrescenta valores éticos ao que pensamos, ao que fazemos e ao que esperamos que os outros façam.

Não conseguimos viver sem valores éticos a menos que nos transformemos em oportunistas inveterados que atropelam tudo e todos.

O Aleijadinho esculpia as suas estátuas com o martelo e o escopo amarrados às mãos e tinha de captar o essencial de cada apóstolo. Sem a arte dele tenho a mesma obsessão quando escrevo: só o essencial, só o essencial.

Para escrever este post  tive que montar um cavalo brioso, cem vezes mais veloz do que a velocidade da luz, tive que captar apenas traços muito gerais de uma história com cerca de 15 mil milhões de anos, antiguidade que somos incapazes de compreender. Só a viagem por uma pequena galáxia dava para escrever vários livros.

Da recentíssima vida na Terra – escassos 4,5 mil milhões de anos – sabemos que a vida poderia ter meia dúzia ou mais de percursos diferentes com formas (seres) também inimagináveis.

A última grande extinção no Pérmico, ocorrida há cerca de 250 a 300 milhões de anos deu-nos as actuais formas de vida. Os seres que sobreviveram e os novos que surgiram não tinham  qualquer consciência de  que eram os protagonista de uma nova era, apenas desenvolviam troques para sobreviver. É deles,  dos dinossáurios que se extinguiram, que começa a ser escrita a nossa história, uma odisseia que dá para escrever uma biblioteca inteira.

Por um acidente tectónico no Vale do Rift Africano, uma parte da floresta desapareceu e nasceu a savana. Um macaco curioso, desceu das árvores e começou a perscrutar a savana e os seus predadores: pouco depois entramos em cena até ao Homo Erectos. Seguiram-se uma série de acontecimentos prodigiosos – a invenção do fogo é apenas um deles - mas é uma história demasiado complexa para que eu a possa esboçar.

Se não tivesse acontecido mais nada, a razia do Pérmico, era suficiente para nos ensinar – se quisermos aprender – que a marcha cósmica da vida não tem qualquer sentido.

Uma vez de pé, comecei a usar as mãos e a cabeça, o homem faz-se  si próprio, disse Gordon Chile: percebi que para sobreviver tinha que viver em grupo. Quando surgiu a minha consciência não sei (parece que ninguém sabe), também não sei quando surgiu a linguagem, nem sequer sei quando percebi que  a reprodução poderia ser feita com amor: amei até hoje e  é cada vez mais necessário amar.

Tudo isto foi muito difícil, perigos imensos, frios glaciares e agora poderia ser apenas eu a perecer: foi um milagre chegar até hoje.

Os meus tetravós construíram pirâmides e catedrais, inventaram a música e a poesia, a literatura e a filosofia, a ciência e quando estão ensandecidos destroem tudo.

Tenho sido muito insensato, além de genocídios e guerras sem fim, estrago a natureza que me deu vida. Sozinho nada posso fazer e colectivamente, em sociedades, não sabemos governar-nos.

Dentro de milhões de anos, o planeta Terra irá ficar estéril como a Lua, sem qualquer forma de vida, e quando lá chegarmos os humanos serão os primeiros a ficar petrificados. A vida não tem qualquer sentido para além daquele que nós lhe damos

Perplexo, vejo chegar a minha  hora de partir: quando terminar a minha ínfima caminhada, que não deixará qualquer peugada,  devolvo ao espaço os átomos que as estrelas me emprestaram para fazerem novas combinações. Gostava de poder escolher uma estrela para repousar mas a natureza não perde tempo com os nossos desejo, anseios,  fantasias e angustias, segue o seu caminho sem nunca olhar para trás.

Não é poético, mas é assim.

 

P.S.

Reeditado



publicado por pimentaeouro às 10:49
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4 comentários:
De redonda a 10 de Abril de 2016 às 18:58
Uma perspectiva bem interessante de vermos o nosso passado e o futuro...


De pimentaeouro a 11 de Abril de 2016 às 21:10
É a simplificação muito simplificada de alguns livros. Sabemos o que já aconteceu e também sabemos o que irá acontecer. Tudo em milhões de milhões de anos: todas as formas de vida, incluindo as mais elementares, desaparecerão com o arrefecimento gradual da Terra: a Terra transformar-se-á um planeta fóssil : o Sol consumirá todo o seu hidrogénio e transformar-se-á numa gigante vermelha que implodirá numa enorme fornalha cósmica : esta fornalha derreterá Mercúrio , Vénus e a Terra.
E Deus? Estará cansado e a dormir.
Bonito, não é?


De redonda a 11 de Abril de 2016 às 22:29
Hum...bonito, não seria bem a palavra que eu escolheria :)
talvez não seja tão mau, se tudo puder recomeçar de novo...


De pimentaeouro a 12 de Abril de 2016 às 12:36
Não há segunda volta para ninguém.
Complexo, poderá ser outra hipótese.


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