Conhece-te a ti mesmo... se puderes.
Terça-feira, 9 de Fevereiro de 2016
Eutanásia

A morte assistida é um tabu entre nós, assunto que a sociedade, por preconceitos vários, teima em ignorar. 

Quem é contra a eutanasia, hipocritamente, utiliza o argumento dos cuidados paliativos sabendo perfeitamente que estes só são aplicados a um número muito reduzido de doentes terminais: em nome da vida condenam-se os doentes a uma morte com muito sofrimento.

 

"O suicídio assistido ganhou notoriedade através do Dr. Jack Kevorkian, que nos Estados Unidos, já o praticou várias vezes em diferentes pontos do país, por solicitação de pacientes de diferentes patologias.

Existe uma instituição, denominada de Hemlock Society (ou Sociedade Cicuta), numa clara alusão ao suicídio de Sócrates. Esta Sociedade publicou, em 1991, um livro, A Solução Final, que apresentava inúmeras maneiras de um paciente terminal ou com doenças degenerativas cometer suicídio. Este livro vendeu mais de 3 milhões de cópias nos Estados Unidos." 

 

Direito a morrer com dignidade

Somos cidadãs e cidadãos de Portugal, unidos na valorização privilegiada do direito à Liberdade. Defendemos, por isso, a despenalização e regulamentação da Morte Assistida como uma expressão concreta dos direitos individuais à autonomia, à liberdade religiosa e à liberdade de convicção e consciência, direitos inscritos na Constituição.

A Morte Assistida consiste no acto de, em resposta a um pedido do próprio - informado, consciente e reiterado — antecipar ou abreviar a morte de doentes em grande sofrimento e sem esperança de cura.

A Morte Assistida é um direito do doente que sofre e a quem não resta outra alternativa, por ele tida como aceitável ou digna, para pôr termo ao seu sofrimento. É um último recurso, uma última liberdade, um último pedido que não se pode recusar a quem se sabe estar condenado. Nestas circunstâncias, a Morte Assistida é um acto compassivo e de beneficência.

A Morte Assistida, nas suas duas modalidades — ser o próprio doente a auto-administrar o fármaco letal ou ser este administrado por outrem — é sempre efectuada por médico ou sob a sua orientação e supervisão.

A Morte Assistida não entra em conflito nem exclui o acesso aos cuidados paliativos e a sua despenalização não significa menor investimento nesse tipo de cuidados. Porém, é uma evidência indesmentível que os cuidados paliativos não eliminam por completo o sofrimento em todos os doentes nem impedem por inteiro a degradação física e psicológica.

Em Portugal, os direitos individuais no domínio da autodeterminação da pessoa doente têm vindo a ser progressivamente reconhecidos e salvaguardados: o consentimento informado, o direito de aceitação ou recusa de tratamento, a condenação da obstinação terapêutica e as Directivas Antecipadas de Vontade (Testamento Vital). É, no entanto, necessário, à semelhança de vários países, avançar mais um passo, desta vez em direcção à despenalização e regulamentação da Morte Assistida.

Um Estado laico deve libertar a lei de normas alicerçadas em fundamentos confessionais. Em contrapartida, deve promover direitos que não obrigam ninguém, mas permitem escolhas pessoais razoáveis. A despenalização da Morte Assistida não a torna obrigatória para ninguém, apenas a disponibiliza como uma escolha legítima.

A Constituição da República Portuguesa define a vida como direito inviolável, mas não como dever irrenunciável. A criminalização da morte assistida no Código Penal fere os direitos fundamentais relativos às liberdades.

O direito à vida faz parte do património ético da Humanidade e, como tal, está consagrado nas leis da República Portuguesa. O direito a morrer em paz e de acordo com os critérios de dignidade que cada um construiu ao longo da sua vida, também tem de o ser.

É imperioso acabar com o sofrimento inútil e sem sentido, imposto em nome de convicções alheias. É urgente despenalizar e regulamentar a Morte Assistida.



publicado por pimentaeouro às 11:35
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15 comentários:
De Maribel Maia a 9 de Fevereiro de 2016 às 11:50
Vale a pena debater esta grande questão, em sociedade!


De pimentaeouro a 9 de Fevereiro de 2016 às 21:25
Sem dúvida, mas pelas reacções dos partidos não haverá qualquer debate.
Restam os blogues, o Facebook e pouco mais.


De A rapariga do autocarro a 11 de Fevereiro de 2016 às 13:13
Sou absolutamente a favor de poder morrer com dignidade, prolongam-se sofrimentos que deviam ser evitados.


De pimentaeouro a 13 de Fevereiro de 2016 às 19:17
Pela reacção dos partidos parece que não haverá tão cedo.


De A rapariga do autocarro a 13 de Fevereiro de 2016 às 19:25
O que é uma pena, porque a esquerda que é a mais pro activa nestas coisas podia agora fazer a diferença.


De pimentaeouro a 14 de Fevereiro de 2016 às 17:31
Este drama navega ao sabor dos cálculos eleitorais de mais votos ou menos votos.


De Fernando Lopes a 14 de Fevereiro de 2016 às 13:37
A morte é o tabu último desta sociedade. Ninguém quer ser velho, armazená-mo-los em lares, longe da vista, por medo da nossa mortalidade. Que se faça alguém sofrer em nome de uma vida que não quer viver é uma crueldade e acima de tudo evitar encará-la como mais um dia - o último- das nossas vidas.


De pimentaeouro a 14 de Fevereiro de 2016 às 19:25
Tem razão, é uma crueldade. Todos temos direito ao tiro de misericórdia quando não suportamos o sofrimento.


De redonda a 14 de Fevereiro de 2016 às 21:06
Sobre este tema, e o tema da morte, há alguns anos li, penso que três livros da Marie Hennezel de que gostei muito. Penso que devemos poder optar mas que antes disso é importante assegurar que todos tenham acesso aos cuidados paliativos para que não seja uma escolha condicionada pelo sofrimento.


De pimentaeouro a 15 de Fevereiro de 2016 às 13:05
Não conheço a autora que refere.
Os cuidados chamados paliativos são, principalmente à base de morfina, cujas doses têm que ser progressivamente aumentadas e transformam o doente num vegetal.
A escolha é sempre condicionada pelo sofrimento.


De redonda a 15 de Fevereiro de 2016 às 15:33
Poderei estar influenciada pelo que li dela - se quiser eu poderia enviar-lhe um dos seus livros.
Eu comecei a lê-los depois da morte de alguém muito importante para mim, depois também emprestei ou ofereci um dos livros a uma amiga que tinha perdido o irmão. Ela é médica em França e trabalha nos cuidados paliativos, O que procurava nos seus livros foi também a ideia de haver um depois e um sentido.


De pimentaeouro a 17 de Fevereiro de 2016 às 20:26
Agradeço a disponibilidade mas estou a ler outros temas e como já não consigo ler muito tenho que ser selectivo.
A vida não tem sentido, o acaso é o grande fazedor de vidas. Como sou ateu para mim não há «um depois».
Já escrevi sobre a morte, se conseguir localizar o texto indico~lhe o link sem qualquer intenção de catequizar,


De pimentaeouro a 17 de Fevereiro de 2016 às 20:32
Consegui localizar o post.
O link é
http://pimentaeouro.blogs.sapo.pt/deus-existe-2-282125


De redonda a 17 de Fevereiro de 2016 às 22:12
Vou seguir o link, obrigada.


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