Conhece-te a ti mesmo... se puderes.
Sábado, 2 de Abril de 2016
Foi assim... maios ou menos

 

Uma amiga pediu-me para fazer a minha apresentação para um concurso que não chegou a ver a luz do dia. Fiquei embaraçado e com pouco entusiasmo escrevi numa folha de A4 uma sintese de 80 anos de vida.

Foi o que se pode arranjar de improviso:

 

"Nascido, por acaso, em Vila Real, Algarve, com ascendência da nobreza berbere, a  minha avó era princesa e o meu avô um xeique famoso. Tenho com  terra de eleição Torres Novas, onde vivi a mocidade e gostava de ser sepultado.

A mocidade não foi uma época feliz, dois insucessos de amores  deixaram-me marcas para o resto da vida. Errante por terras, amigos e amores, perdi mais tempo a trabalhar do que devia e amei menos, erro que não posso emendar: erros e má fortuna sobejaram. Trabalhei para que houvesse uma sociedade melhor mas essa utopia esfumou-se, hoje soa a ridículo.

Toda a minha vida, desde os 14 anos à reforma, foi escriba de números e contas, antigamente chamava-se manga-de-alpaca, hoje chama-se contabilista, soa melhor.

Entristece-me os amigos que já morreram e           levaram parte da minha vida, foi morrendo um pouco com eles, em compensação sinto que foi um privilégio receber a amizade de alguns  deles (Caiano Pereira, Barros de Moura e outros).

Vivi às avessas, fazendo coisas fora do tempo e outras desajeitadamente. Na adolescência perdia as noites de volta de um tabuleiro de xadrez em lugar de andar atrás das miúdas. Ainda hoje não percebo porquê.

Ao xadrez devo ter-me ensinado a reflectir e, principalmente, raciocinar, um bem quase raro. 

Abril foi uma das maiores alegrias da minha vida ( o regime de Salazar parecia não ter fim) mas está a tornar-se numa das maiores decepções. Ao capital social que recebi à nascença irei acrescentar um módico aumento quanto partir e sinto uma ponta de orgulho nisto.

Agora, reformado e velho, deu-me para escrever. Durante cinco anos tive dois blogues Artesão Ocioso e Livro de Horas Tristes, agora, em saldo, entretenho-me com Pimenta e Ouro e Livro Velho, estou mais velho e estou doente: cinzas de uma lareira a extinguir-se. Atravessei dois séculos mas o século XXI é-me cada dia que passa mais estranho e assustador, sou um homem do século XX, é lá que estão as minha raízes culturais, éticas, afectivas.

E é tudo, ou seja, quase nada. 

 

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publicado por pimentaeouro às 15:31
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2 comentários:
De Ametista a 3 de Abril de 2016 às 02:02
As suas palavras comoveram-me e não consigo tecer qualquer comentário a não ser que, apesar de ser muito mais nova do que o João, também me considero uma mulher do século XX. Também sinto que não chegarei à sua idade, facto que considero um privilégio.. bem haja, João.
Grande abraço


De pimentaeouro a 3 de Abril de 2016 às 21:10
Cara amiga Leonor,
Apesar do século XX ser o século dos excessos havia valores. Foi com estes valores que entrei no século XXI, o século do efémero , do instantâneo , do cáos.
A velhice nem sempre tem um final feliz como todos desejamos.


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