Conhece-te a ti mesmo... se puderes.
Domingo, 20 de Novembro de 2016
Mestre Finezas

- A navalha magoa-te?

Uma onda de ternura por aquele velho amoleceu-me. Dá-me vontade de dizer que não, que a navalha não me magoa, que nem sequer  sinto. O que magoa é ver a presença da morte alastrando pelas paredes escuras da loja, escorrendo dos papéis caídos do tecto envolvendo-o cada vez mais, dobrando-lhe o corpo para o chão.

Mas Mestre Finezas parece nada disto sentir. Salta de um assunto para outro com facilidade. Preciso de tomar atenção para lhe seguir os fios do pensamento. Agora faz-me queixas da vila. E termina como sempre: - Esta gente não pensa noutra coisa que não seja o negócio,  a lavoura. Para eles é a única razão da vida.

Volto a cabeça e olho-o. Sei o que vai dizer-me. Vai falar-me do abandono a que o votaram. Vai falar-me do teatro, da música, da poesia. Vai repetir-me que  a arte é a mais bela coisa da vida. Mas não. Já nos entendemos só pelo olhar.

- Que sabem eles da arte? Tu que estudaste, tu sabes o que é a arte. Eles hão-de morrer sem nunca terem gozado os mais belos momentos que a vida pode dar!

Eu não te disse nada, Carlitos, mas, olh, tenho vendido tudo para não morrer de fome… Tudo. Mas isto!

Estendeu o violino na minha direcção e continuou, reprimindo um soluço:

-Isto nem que eu morra!... É a minha última recordação…

 

Manuel da Fonseca, Aldeia Nova

 


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publicado por pimentaeouro às 18:18
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