Conhece-te a ti mesmo... se puderes.
Sexta-feira, 29 de Abril de 2016
Mocidade, a minha também  

 

Nota prévia

Este texto parecerá estranho às gerações de hoje que nasceram numa sociedade livre e também com liberdade sexual.

 

Existe uma geração de historiadores, pós Mattoso, alguns são ou foram seus alunos, que fazem uma nova abordagem da história nacional até aí dominada por valores ideológicos e retrogados.

Isabel Freire acaba de publicar “Amor e sexo no tempo de Salazar”, um tema que parece menor mas não é: trata da frustração e do sofrimento de milhares de mulheres e de homens também.

Entre as fontes de consulta, Isabel Freire entrevistou um grupo de homens e mulheres a partir dos 70 anos de idade. Avós e bisavós.

A autora do livro não me conhece de lado nenhum e não me entrevistou. Pessoalmente, tenho pena porque foi vítima, por duas vezes da moral e dos bons costumes do Estado Novo, de Salazar e Cerejeira.

No ano de 1.955, em meado da «década dourada» dos anos 50, completei 20 anos, mas era  apenas um adolescente crescido: ingénuo, talvez imaturo e idealista (vicio transmitido por  leituras de poesia), a minha autoconsciência teve um processo de formação tardio e acidentado.

O regime salazarista, por baixo sofria alguns revezes – agitação social que a sangria da emigração em parte atenuava e nos anos de 1.955 e 1.956 reforçou os poderes arbitrários da PIDE, mas no plano ideológico, quer a máquina de propaganda, quer as instituições de controlo social – particularmente da mulher – estavam todas montadas (Mocidade Portuguesa, Mocidade Portuguesa Feminina, revistas especialmente dirigidas à jovem e à mulher) Secretariado Nacional da Informação, etc. e, claro a acção da Igreja Católica e do baixo clero.

Os valores conservadores da Igreja tinham como alvo principal controlar as famílias e domesticar as mulheres, “ o dogma da

 autoridade masculina e da submissão feminina, o dogma virilidade dos homens e da castidade das mulheres, o dogma da interdição do corpo e do pecado sexual, o dogma do casamento sacramental e o dogma da maternidade redentora, marcaram e ferros António e muitos outros homens e mulheres da sua geração”, do livro acima citado.  

O regime salazarista possuía duas máquinas de repressão; a PIDE para os opositores políticos as suas instituições aliadas à Igreja para o controlo social e a repressão sexual. A mulher e o seu corpo interdito eram o alvo principal, o sexo extra matrimonial era pecado e a mulher a potencial pecadora.

Eu não percebia nada deste subtil mundo de interditos e pecados e de muitas outras coisas. A minha iniciação sexual (com colegas de trabalho) foi feita nas casa de prostituição, não sabia o que era o amor  e conhecia mal, muito mal, o mundo feminino, que era vigiado pelos controladores da moral e dos bons costumes e se encontravam interiorizados na consciência colectiva.

Nos dourados anos 50 do regime salazarista eu era um ignorante e simultaneamente uma vítima – apenas mais uma – da ideologia do Estado Novo.

Por duas vezes fui reprimido pelos bons costumes e das duas   ficaram-me marcas profundas.

Da minha geração milhares de mulheres e de homens foram frustrados sexualmente  (coisa que parece impossível nos dias de hoje ) e ainda hoje sentem as marcas das suas frustrações.

Vou terminar, por hoje, para que esta memória não pareça (não parece?) uma manifestação de frustação.

 

P.S.

Reeditado



publicado por pimentaeouro às 22:42
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6 comentários:
De RAA a 30 de Abril de 2016 às 01:15
O Ferreira de Castro aborda muito bem esse ambiente castrador, tanto para a mulher como para o homem, no romance «A Tempestade» (1940).


De pimentaeouro a 30 de Abril de 2016 às 20:13
Obrigado pela informação.


De golimix a 1 de Maio de 2016 às 10:41
Mas há ainda quem defenda o Salazar. Ó alminhas....


De pimentaeouro a 1 de Maio de 2016 às 22:27
Reeditei este post porque muito boa gente não conhece o passado. Reprimir os afectos não lembra ao Diabo.


De golimix a 2 de Maio de 2016 às 08:46
Lambra à minha mãe, fruto da "bela" cultura Salazarista
Depois de 4 anos de namoro nem a mão podíamos dar a frente dela!!!! Paciência... o que eu tive que aturar


De pimentaeouro a 2 de Maio de 2016 às 20:39
O alvo principal da repressão era a mulher, o homem podia pecar desde que não se visse.


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