Conhece-te a ti mesmo... se puderes.
Terça-feira, 20 de Dezembro de 2016
No meu tempo

Não vou escrever sobre as vantagens do meu tempo, sobre a actualidade ou qualquer outro exercício de saudosismo. Vou tentar avaliar as diferenças entre os anos 50 e 60, da minha mocidade com os dias de hoje.

 Considero que a emancipação da mulher, ainda em curso apenas no Ocidente, é uma revolução estrutural mais importante do que a revolução tecnológica da Net.

No primeiro caso, temos uma revolução que irá beneficiar metade da Humanidade, no segundo caso temos uma ferramenta mais complexa do que a foice ou uma chave de parafusos, mas apenas uma ferramenta.

No meu tempo as mulheres ficavam em casa a tratar do marido e dos filhos, não saiam de noite, não iam ao café, não podiam abrir conta bancária sem autorização do marido, déspota doméstico.

Naquela época ninguém imaginava que iria existir Internet, redes sociais, etc. Também ninguém imaginava que as mulheres pudessem escrever e aceder a outras actividades culturais, coutadas reservadas  exclusivamente para os homens.

Quem é que pode imaginar hoje uma sociedade destas?

Não existiam sem abrigos nas ruas das cidades e os bairros de lata eram quase invisíveis, mas havia mais miséria do que hoje. Centros comerciais, supermercados, hipermercados, ninguém sonhava com eles.

As compras faziam-se nas mercearias e no mercado municipal; os mais abastados pagavam a pronto, a maioria mandava assentar no livro, livro comprido e estreito, para pagar no final do mês

No início dos anos 50 cerca de 45% da população era rural em condições de miséria que hoje não imaginamos. Salazar, por decreto, quis proibir a população de andar descalça!

O pior período de miséria e fome ocorreu durante a Segunda Guerra Mundial: escassez de bens de primeira necessidade, racionamento, assaltos aos armazém,  salários de miséria sem quaisquer regalias sociais.

Nos anos 50 e, principalmente, nos anos 60 começa a emigração em massa – fuga à fome -, a salto (clandestinamente) para França, Luxemburgo, Alemanha, Suíça, EUA, Venezuela,  e outros países da América Latina, e é com as remessas destes emigrantes que as famílias sobrevivem e Salazar equilibra a balança de pagamentos.  

Com a guerra colonial, Salazar foi obrigado a reduzir as limitações do condicionamento industrial e a abrir a economia a novos mercados e ao capital estrangeiro. É nos anos sessenta que o nível de vida da população começa a melhorar, que surge a classe média; Marcelo Caetano ampliou esta linha de desenvolvimento e de melhoria de natureza social.

Os melhores anos da minha vida (39) foram vividos e condicionados pelo regime de Salazar; hoje não tenho nenhumas saudades do «meu tempo»  exceptuando as memórias de natureza afectiva.

Enquanto escrevo esta linhas sou assaltado por uma duvida, será que vamos regredir a tempos parecidos com aqueles?

 


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publicado por pimentaeouro às 20:16
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1 comentário:
De redonda a 21 de Dezembro de 2016 às 20:38
Espero que não, embora ultimamente tenhamos tido notícias tão más de actos de terrorismo.


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