Conhece-te a ti mesmo... se puderes.
Sábado, 3 de Dezembro de 2016
O meu país #1

 

 

O tempo já me vai faltando, a vontade também, mas tenho que acertar contas com o meu país: deu-me uma língua rica, cultura que não me envergonha, boa poesia, um prémio Nobel da literatura, etc., mas… há tanta coisa que nunca deveria ter acontecido e que tenho atravessada.

Esperar de qualquer poema épico, Lusíadas incluídos, que seja fiel aos factos narrados, aos feitos hiperbolizados, é ingenuidade natural em criança ou adolescente. Que essa ingenuidade fique gravada na consciência colectiva de um povo, é doença e tem um nome: patologia ideológica.

As glórias do passado, os grandes heróis e as grandes conquistam, não o foram tanto, ou não foram mesmo: até o circunspecto Damião de Góis afirmou, sem qualquer fundamento, " das Colunas de Hércules à China e onde, por obra nossa todos conhecem a lei de Cristo": nem antes, nem depois, tal nunca aconteceu.

Esta vertigem por grandezas nunca acontecidas mantém-se pelos séculos afora, até hoje, sem que dai nos venha qualquer beneficio, pelo contrário.

 

Heróis, corsários e piratas

Quando o homem inventou o primeiro barco, inventou a seguir a pirataria marítima, extensão do que fazia em terra: brandos costumes nunca houve em parte alguma, excepto nalgumas escassas culturas e tribos que não praticavam a violência.

Quando os portugueses chegaram à Índia, em 1.500, não inventaram o corso, nem a pirataria que já lá se praticava e era coisa que nós vínhamos fazendo pela costa de África, desde o acto fundador das Descobertas - a conquista de Ceuta - que foi uma pilhagem e destruição em larga escala: o mote estava dado para o que se iria seguir, combater os infiéis... e arrecadar ouro, muito ouro e escravos: a ideologia religiosa da época (combate aos infiéis) era a justificação para a rapina . Com a mesma ideologia, os espanhóis cometeram barbaridades sem conta na América do Sul e também na Europa.

Temos a vulgar ganância, entre outra motivações, a bordo das caravelas do capitão ao moço de bordo, misturada com algumas virtudes.

Heróis, corsários e piratas, por vezes distinguiam-se com dificuldade, outras vezes tudo no mesmo personagem: violência e pilhagem eram para a mentalidade feudal «ganhar hora… e fortuna»: os feitos guerreiros, por muito controversos que tivessem sido, enobreciam o vencedor.

Todavia nem todos eram movidos pelo lucro e o enriquecimento, sempre houve quem defendesse os interesses do Rei e da pátria mas eram excepção .Contra a corrente dos acontecimentos e numa fase em que os sintomas de esgotamento e da decadência nacional eram já evidentes,  Camões escreveu os Lusíadas, obra ideologicamente conservadora e a pensar numa tença régia, conceito também da época, o que não invalida o valor literário da obra. Sebastião Gonçalves Tibau, nascido em Santo António do Tojal, embarcado para a índia na qualidade de soldado em 1605, desertou do serviço da Coroa (o que era frequente) tornando-se líder de uma república pirata. Sob o seu comando mais de 3 mil homens, uma imponente armada e numerosas peças de artilharia espalharam a violência e o terror nos mares de Bengala.

A historiadora Alexandra Pelúcia, baseada numa investigação histórica cuidada, conta-nos a história de Tibau e de outros corsários e piratas portugueses temidos por todos nos mares da Ásia.

Navios com velas desfraldadas sulcando as ondas do mar prontos para o combate, abordagens e assaltos violentos, vidas e acções entre-cortadas por combates de artilharia e duelos de esgrima travados corpo a corpo, tudo em prol da disputa das fantásticas riquezas que circulavam por aquelas paragens.

É este o cenário de Corsários e Piratas Portugueses que nos traz a história de homens como Vasco da Gama, Pedro Alvares Cabral, Afonso de Albuquerque e de outras figuras, descobridores de novas terras, conquistadores de praças em nome da Coroa, cuja actividade corsária, ao serviço de El-Rei, é praticamente desconhecida: não ligamos a saga dos «descobrimentos» ao corso e à pirataria, realidade comum a todas conquistas através dos séculos: as acções dos homens não são só virtuosas, bem pelo contrário.

Há um lado positivo que resultou dos «descobrimentos», uma revolução cultural que abalou o conhecimento antigo mas que entre nós passou quase despercebida, principalmente depois da Contra-Reforma e da inquisição.

No  século XVI a decadência do reino já era uma realidade que a mentalidade das classes dirigentes ignorava refugiando-se nas glórias do passado. No século XVII a decadência é total.

 



publicado por pimentaeouro às 21:43
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E uma metáfora do nosso país. Temos muitos pobres ...
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Será que existirá sempre este fosso enorme?
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Mas nos anos 50/60 já havia por cá mulheres que ti...
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