Conhece-te a ti mesmo... se puderes.
Domingo, 15 de Janeiro de 2017
O Passado não volta mais

 

 

Não sei se algum computador é capaz de simular as jogadas de uma partida de dados, jogada manualmente, mas penso que na vida de cada um de nós muito do que nos acontece, das decisões que tomamos, do rumo que a nossa vida segue é, em grande parte fruto do acaso, como num jogo de dados.

Naquela noite, recuada no tempo (final da década de 50 do século passado), a pergunta que ela me fez e a resposta que eu dei, alterou o rumo da minha vida e da vida dela também.

Era um namoro típico da época, pedido prévio ao pai, regras definidas para namorar e para passear, devidamente acompanhados. Pelos padrões de hoje, era um namoro platónico, ou pouco mais.

A maior intimidade que tivemos não passou de beijos trocados com alguma dose de ingenuidade.

Recém-chegado a Torres Novas, já não me lembro como, fui aceite num pequeno grupo de jovens da minha idade (pouco mais de vinte anos e apenas dois ou três mais velhos). Profissões pouco variadas, empregados de serviços, três ou quatro operários, um pequeno comerciante e pouco mais.

Principalmente, à noite, tínhamos uma animada e descontraída conversa à, mesa de café ,onde conversávamos de tudo um pouco e, praticamente nenhuma política. Com uma excepção, que ninguém sabia, o mais velho do grupo era comunista e mais tarde ingressou na clandestinidade.   

Torres Novas era uma pequena cidade de província, parada no tempo salazarista, regida por valores conservadores. A mulher era doméstica, vivia em casa para tratar do marido e dos filhos, poucas de atreviam a frequentar um café, sempre acompanhadas, havia missa aos domingos, tabernas para convívio dos homens, a televisão, a preto e branco, dava os primeiros passos, as prostitutas estavam confinadas em «casas de meninas ou de má fama», os dias sucediam-se monótonos e iguais.

O automóvel era uma excepção, o comércio era feito em pequenas lojas e no mercado municipal, a roupa passava do irmão mais velho para o mais novo, nas camisas aplicava-se um colarinho novo, a moda era coisa remota e os salários eram baixos. Conseguir uma poupança, pequena que fosse (um pé de meia) era uma aspiração das famílias e para as filhas casadoiras era necessário o enxoval.

A mulher casava aos dezoito anos, às vezes menos, e aos vinte e cinco se não conseguisse casar, começava a adquirir o estatuto de «tia«. Casamento, sempre pela igreja ( o Registo Civil era mera formalidade burocrática sem qualquer valor simbólico), o vestido branco e a virgindade da mulher eram fundamentais, o homem tinha que assegurar o sustento da família.

O adultério praticado pelo homem era discretamente tolerado, quando praticado pela mulher era pecado e crime.

Todos cumprimentavam respeitosamente os notáveis da terra e cada um «habitava» no seu gueto social. Uma sociedade fechada e contraditória, as relações de vizinhança e a  solidariedade coabitavam com a intolerância e a opressão, o crédito bancário para consumo não existia mas a palavra dada era um compromisso que se cumpria.

 


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publicado por pimentaeouro às 12:15
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2 comentários:
De golimix a 15 de Janeiro de 2017 às 13:30
Algumas coisas mudaram, outras continuam iguais mas disfarçadas de diferentes.


De pimentaeouro a 15 de Janeiro de 2017 às 18:42
As mudanças de mentalidade são lentas.
Bom Fim de Semana.


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