Conhece-te a ti mesmo... se puderes.
Domingo, 7 de Junho de 2015
Pimenta e ouro #2

 

Remando contra a maré, já não sei escrever de outra maneira, insisto na defesa da minha dama, o lado negro dos descobrimentos; ainda hoje estamos a pagar a factura de dois séculos de estagnação, atraso e obscurantismo enquanto a Europa do Norte progredia, fazia a revolução cientifica e o iluminismo, conquistas únicas no mundo.  Os historiadores coevos de mil e quinhentos estavam divididos entre a cruz e a caldeirinha; quem encomendava obras de história queria a apologia dos grandes heróis do passado, das grandes façanhas da epopeia marítima, da grandeza dos reis e da magnificência da corte, os mitos; alguns historiadores viajados  por África e pela Índia – Império nem sombras, apenas fumos – sabiam que havia outra história de violência, barbaridade, crimes, roubos, corrupção, até ao mais alto nível dos vice-reis (vice-reis de terra nenhuma)  e da chusma de privados que pilhavam e saqueavam de conta própria.

Enquanto partiam caravelas para a Índia, no reino, pelos cantos, murmurava-se em surdina:

Perde a verdade a valia,

Anda corrida a rezão,

Cresce o dano e não se cura;

Todos gemem e nenhum fala,

Polos cantos se murmura.

Dizia Sá de Miranda e sabia o que escrevia. Dos historiadores que escreveram o que viram e ouviram dois pagaram a ousadia com a vida: Damião de Góis encerrado numa masmorra pela Santa Inquisição e Gaspar Correia assassinado em Malaca.

O clima da época e assim tratado por António Ferreira, que escrevia de olho posto nos delatores, muitos, e censores:

A medo vivo, a medo escrevo e falo,

Hei medo do que falo só comigo,

Mas inda a medo cuido, a medo calo.

Para terminar um trecho do prefácio do livro do Prof. Rodrigues Lapa,  “Historiadores Quinhentistas”:

 

«Quando saiu, em 1566, a l.a parte da Crónica de D. Manuel, foi um escândalo *e um alvoroço no Paço. 0 historiador, fiel à verdade ou àquilo que considerava como tal, tivera a coragem de aludir aos desmandos e traições da alta nobreza, aos excessos e devassidões do clero, às fraquezas da administração do rei. Os «preju­dicados», tendo à frente a poderosa casa de Bragança, promoveram a inutilização dessa primeira tiragem. O hon­rado cronista, contra quem já havia denúncias no Santo Ofício, sofreu a humilhação de ter de reformar o seu trabalho. Onde tinha traições, pôs agora, para contentar aqueles senhores, desaventuras. Na 3,a parte, fizera um elogio sóbrio do Infante D. Henrique, que aliás se mostrara até ali seu amigo. Foi «convidado» a reforçar os louvores, a considerar a neve que caíra por ocasião do seu nasci­mento como um propósito divino, enfim, a fazer-lhe um panegírico destemperado e uma defesa entusiástica da Inquisição.

Mas o historiador era de têmpera rija. Consentiu em corrigir factos, em adoçar uma ou outra expressão; em todo o caso, o substancial da sua narrativa e do seu juízo não sofreu alterações de maior. Lutou; às impugnações que lhe fizeram, em especial às do conde de Tentúgal, descendente dos duques de Bragança, apresentou réplica; de modo que a sua história, suavizada um pouco, desa­gradou ainda assim a muita gente. Era mister destruir o indivíduo que, naquela época de conveniências e cautelas, ousava dizer verdades. As denúncias à Inquisição surtiram  efeito. Ordenou-se-lhe processo, e aquele homem perigoso deixou de viver para o mundo.

Para Damião de Góis, a lei fundamental da História era «com verdade, dar a cada um o louvor ou repreensão»

 

… «Este carácter místico da verdade dá uma veemência revolucionária à obra de Gaspar Correia, que verbera sem complacência os abusos da governação portuguesa, cha­mando aos governadores «tiranos cobiçosos», denunciando àsperamente os roubos, mortes e adultérios dos capitães das fortalezas, e dando enfim o remédio para toda esta série de crimes que ninguém punia: o espectáculo justiceiro de um governador mandado degolar pelo rei em pleno cais de Goa! Nunca ninguém ousara dizer tanto. Não seria por isso de espantar, embora não esteja provado, que Gaspar Correia tivesse pago com a morte a soltura duma pena tão endiabrada. O documento publicado em 1891 por António Maria de Freitas sobre o assassínio de Correia em Malaca, por um grupo de malfeitores a soldo do capitão D. Estêvão, não merece inteira confiança nem foi visto ainda na Torre do Tombo, donde se diz tirado.»

  

É o meu contributo para as comemorações do Dia de Camões, da Raça, etc. e não sou obrigado a mais.

 



publicado por pimentaeouro às 12:01
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