Conhece-te a ti mesmo... se puderes.
Terça-feira, 2 de Fevereiro de 2016
Reencontro
 

  

Não me esqueces-te, João? Não, como poderia esquecer-te, Julieta? Como poderia esquecer um amor interrompido contra a nossa vontade?! 

 

Como poderia esquecer a brutalidade daquela imposição contra a vontade de dois jovens que se amavam e que pôs o teu coração a sangrar? Se alguma vez na vida temos direito ao amor é na juventude quando tudo acontece, em pureza e com encanto, pela primeira vez.

 

Eras maior de idade tinhas o direito de viver com quem quisesses, mesmo que fosse um pé rapado como eu, mas naquela época distante pater famílias é que mandava e decidia.

 

Não quero que a última imagem que guardo de ti seja aquele choro compulsivo, como nunca tinha visto na minha vida. Foi com aquele choro que aprendi a chorar.

 

Porque demoraste tantos anos, João? Esperei-te tanto tempo e nunca aparecias. Foi outro erro meu, Julieta. Estavas guarda nos labirintos da minha memória e assaltava-me a dúvida se desejarias voltar a ver-me. Até que rompi as minha hesitações e decidi procurar-te, o desejo de voltar a ver-te era irreprimível.

 

Foste viver para Londres (?), o  primeiro exílio da tua família, amas-te outro homem e regressas-te casada para o teu segundo exílio, algures num recanto da serra de Sintra, a Sintra que te viu crescer menina e que amavas e amas.

 

Aqui, no seio da Serra, foges ao convívio social – uma senhora muito reservada, disseram-me antes de vir procurar-te. Compreendo esse teu isolamento e reserva: é a marca do sofrimento, também sou reservado.

 

Conservamos longamente sobre o passado,  quando as nossas vidas se cruzaram num  namoro fugas. Nas tuas frequentes perguntas, não procuravas decifrar o homem que eu era, se era rico ou pobre, mas  como me comportava, como reagia, querias conhecer a personalidade do homem que escolhes-te para companheiro e pai dos teus filhos. 

 

As nossas vidas já foram vividas, separados um do outro, agora somos cinzas de uma lareira quase apagada.

 

Começa a escurecer, não tarda é noite. Tenho de regressar, as estradas da serra são muito sinuosas e escuras. Despedimo-nos num longo abraço, os nossos corpos uniram-se pela primeira vez, sinto o teu coração palpitar acelerado. Dou-te um beijo na testa e reparo que estás a chorar, carinhosamente enxugo o teu rosto, choro também e no brilho dos teus ohos leio que este nosso choro é de alegria.

 

Regresso feliz, muito feliz, o reencontro aconteceu e a partir de agora a tua imagem, dentro de mim, já não é triste.

 


tags: ,

publicado por pimentaeouro às 20:58
link do post | comentar | favorito
|

2 comentários:
De redonda a 4 de Fevereiro de 2016 às 00:39
Aconteceu mesmo? Eu queria que acontecesse e que fosse assim.
um beijinho
Gábi


De pimentaeouro a 4 de Fevereiro de 2016 às 10:41
Vivo de recordações.
Obrigado.
Um abraço.


Comentar post

mais sobre mim
pesquisar
 
posts recentes

Tersseira classe

Perplexo

Flamenco #3

Guantanamera

S. Pedro zangado

Flamenco #2

Ciro II

Ricos e pobres

Reformar, reformar

Flauta de pan

arquivos
tags

???

ambição

amizade

amor

animais

antropologia

armas

arquitectura

arte

arte biografias

astronomia

ballet

biografias

biologia

blogues

café curto

carttons

ciência

cinema

civilização

clima

comunicação social

corrupção

criminosos

crise financeira

demagogia

demência

demografia

descobrimentos

desemprego

destino

diversos

doenças

dor

economia

eleiçoes

ensaio

ensino

escravatura

escultura

estado

estupidez

eternidade

ética

eu

eutanásia

evolução

família

férias

filosofia

futebol

genocídio

governo

greves

guerra

história

inquisição

internacional

justiça

literatura

livros

memória

miséria

morte

mulher

mulheres célebres

musica

natureza

natureza humana

paisagens

paleontologia

partidos políticos

patologia ideológica

pátria

pintura

planeta terra

pobreza

poesia

politica

regime político

religião

saudade

saúde

segurança social

sentimentos

sexo

sindicatos

sociedade

sonhos

tecnologia

terrorismo

terrorismo de estado

testamento vital

tristeza

união europeia

universo

velhice

vida

violência

xadrez

todas as tags

favoritos

Um fantasma

Arte de furtar

Deus existe? #2

Para onde vou?

Sou um San

O Século xx Português

Pater Famílias

Avesso dos Lusíadas #2

links
últ. comentários
Gosto imenso!
Esperemos que não fique zangado muito mais tempo.....
E uma metáfora do nosso país. Temos muitos pobres ...
Não resistem...
Será que existirá sempre este fosso enorme?
Os casos que refere são excepções que não traduzem...
Mas nos anos 50/60 já havia por cá mulheres que ti...
Não há melhor.
blogs SAPO
RSS