Conhece-te a ti mesmo... se puderes.
Sábado, 2 de Julho de 2016
Século XX português
 

 «Alguns dos maiores feitos da humanidade tiveram lugar no século XX, e alguns dos seus piores excessos também» - escreveu S/r Martin Gilbert na abertura da sua monumental e bem conhecida História do Século XX.

Portugal pode lamentar não estar incluído na lista dos primeiros; mas também pode orgulhar-se de não ter cometido nenhum dos segundos.

Não foi o melhor dos mundos; não foi o pior dos mundos. Foi um mundo possível, cheio de mudanças, acidentes, esperanças, contrariedades, saltos em frente e recuos.

É disso que este livro trata, fornecendo ao leitor uma síntese descritiva e analítica dos caminhos políticos, sociais, económicos e até culturais seguidos por Portugal entre 1900 e o presente. O resultado final é uma viagem guiada a mais de 100 anos de história portuguesa, desde a crise da monarquia constitucional até à primeira década do século XXI, revisitando as causas do 5 de Outubro de 1910, a Primeira República, a Ditadura Militar, o Estado Novo, o PREC, a Democracia e a integração na Europa.

 

 (O Século XX Português, José Miguel Sardica, Texto editora)

 

Sou um homem do século XX português o que é  muito diferente de ser um homem do século XX francês ou alemão.

Quando o século XXI (cronológico) começou tinha 66 anos e já estava reformado: a minha vida já tinha acontecido, faltava a recta final em que me encontro.

Não podemos imaginar o que foram os horrores e a destruição de duas guerras mundiais. Os excessos cometidos pelas partes beligerantes foram praticamente iguais: a linha entre bons e maus diluiu-se algumas vezes, mas nada igualou o holocausto.

A Alemanha foi bombardeada massivamente e duas bombas atómicas atingiram o Japão.  Na China aconteceu a tragédia da revolução cultural com milhões de mortos e repressão indiscriminada sobre a população: mal soubemos que tudo isso aconteceu.

Com tantas e tão aceleradas mudanças, a vida social e cultural também tinha de mudar: em primeiro lugar, as mudanças na família com o fim do domínio masculino. A incorporação maciça da mulher nas indústrias e nos serviços deu-lhe a independência que nunca tiveram e a revolução cultural no final dos anos 60 transformaram a mentalidade do século XX.

Woodstok, o movimento hippy, o Maio de 68 em França subverterem comportamentos e valores sociais: com excepção da emancipação da mulher, o que parecia um movimento libertador também foi destruidor. A velha ordem patriarcal foi substituído pelo individualismo vazio, pela ausência de valores: “a máxima liberdade individual”, “fazer o que se entende”, não se reprimir”, “tudo já”, “sexo livre” ocasional, etc.

Os valores colectivos, a solidariedade, foram banidos: já estava tudo conquistado, era só usufruir. É o individualismo que destruiu valores caducos mas que nos destrói hoje: a era do caos. 

Ao século XX devemos muitas coisas, entre elas o Estado Providencia, a emancipação da mulher, os avanços da ciência e da medicina,  a difusão de regimes democráticos, o nível de vida sempre a aumentar e a ilusão de que esse bem estar nunca acabaria.

Tudo isto e outras coisas estão hoje em causa e não fazemos a mínima ideia do que será  o mundo ocidental (em decadência) dentro de dez ou quinze  anos. Qual o futuro dos nossos filhos, desempregados, e dos nossos netos?  Não sabemos, mas certamente não irá ser melhor.

O desmoronar deste mundo de supremacia do Ocidente começou no final dos anos 80 do século passado e alguns historiadores consideram que o século XX terminou naquela década, que assinala também a transformação de capital produtivo em capital especulativo, o inicio da globalização e o enfraquecimento dos Estados.

Salazar conseguiu isolar-nos do mundo, com extraordinária eficácia até final dos anos 60, quando uma classe média nascente viajou se demarcou do regime e contornou o isolamento em que vivíamos.

Aí começamos a ter uma ideia do nosso atraso, que afinal é secular, como um estigma apesar do muito que mudamos, mas

quando comparo os dias de hoje com os dias da minha mocidade, tudo é diferente mas não é tudo melhor. Pela lei da natureza já cá não devia estar, devo isso à medicina e às farmácias.

Vivi num mundo em que amar era quase pecado, ao namoro tinha de seguir-se o casamento e a mulher tinha de ir virgem. É-me difícil definir a mentalidade conservadora do regime de Salazar: uma paragem no tempo num século vertiginoso.

 

 

 



publicado por pimentaeouro às 21:02
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