Conhece-te a ti mesmo... se puderes.

Sábado, 12 de Agosto de 2017
Nunca saberei

Volvidos  cerca de 50 anos regressei a Torres Novas, terra onde vivi a mocidade. Foi lá que tive os meus dois primeiros amores, tardios.

A viagem foi de camionete, pela margem esquerda do Tejo, com paragem em todas as aldeias. Hopedei-me num hotel com vista para a praça 5 de Outubro e perguntei a um amigo daquela data onde residiam Fernanda e Julieta. Deu-me a morada da Fernanda e do Irmão António, da Julieta não havia rasto.

Fernanda e Julieta eram duas jovens completamente diferentes: Fernanda era meiga, expansiva e alegre. Alta e bonita, talvez uma das jovens mais bonitas de Torres Nova, Julieta era o oposto, reservada, baixa sem atractivos especiais.

Tímido, como sempre fui, comecei por procurar o irmão que se encontrava debilitado com dificuldade em andar. Quem me atendeu foi a mulher e combinamos que o António iria ter a um café perto de sua casa.

Passado cerca de meia hora como o António não aparecesse voltei a sua casa e para minha surpresa ninguém me atendeu. Não percebi a recusa em falar comigo nem que motivos poderia ter, sempre fomos bons amigos e nunca tivemos qualquer desavença.

Deduzi que uma visita à Fernanda não seria bem recedida. O meu desejo de voltar a ver a Fernanda ficou enterrado.


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Quarta-feira, 1 de Fevereiro de 2017
Amor antigo

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Algumas mulheres perdem-se pelo amor e pagam caro, às vezes demasiado caro: há feridas interiores que a memória nunca deixa sarar. O preço que tu pagaste foi demasiado elevado e foi e teu próprio pai quem o impôs.

Naquela época (meados dos anos 50) era muito raro uma rapariga aceitar namoro sem a prévia autorização dos pais. Decidis-te sem essa autorização e, mais ainda, eu era praticamente desconhecido em Torres Novas: foi um forte impulso do teu coração (eu merecia essa audácia?).

Tivemos dois namoros, o primeiro foi mudo. Só os nossos olhos conversavam. Os meus olhos procuravam os teus, os teus olhos procuravam os meus e olhávamo-nos longamente. Era uma procura mútua com emoções ambiguas: o amor tacteava no desconhecido, o desejo de nos conhecermos, de nos encontrarmos. Era uma atracção mútua que nos dominava, sentimentos que despontavam como uma primavera.

Depois tivemos cerca de um mês de namoro, se é lhe posso chamar namoro. Viveste o encantamento de teres encontrado o homem que procuravas para amar, o pai dos teus filhos – a maternidade cantava melodias ao teu ouvido de mulher, melodias que só tu ouvias – um companheiro para a tua vida onde já existia a solidão da morte da tua mãe.

Eras uma mulher inteligente, avançada para a tua, a nossa época, e o teu horizonte não se confinava só ao casamento, à vida conservadora e parada de uma pequena cidade de província, conhecias horizontes mais abertos de outros meios.

A tua maior atenção era conheceres o homem – frágil – que tinhas escolhido. Irias conseguir viver com as minhas fragilidades?

Durante um breve mês viveste a esperança de ser feliz, espuma que o vento dissipou.

Existo na tua memória? Como? Com ternura ou como um pesadelo que não devia ter acontecido?

O que me importa é saber – nunca o saberei! - que foste mulher e mãe com outro homem e que foste feliz. Era isso que tu merecias.

Aquele efémero namoro ficou gravado na minha memória, bem como o prolongado sofrimento e frustração que passei.

Há distância de mais de cinquenta anos que interesse tem esta história? Tem para mim e, quem sabe, também terá ou teve para ti.

 

O amor antigo tem raízes fundas,

 feitas de sofrimento e de beleza.”


 e a recordação do teu  amor já é independente da minha vontade, é uma coisa que me domina e que não posso controlar, lembro-me te ti quando menos espero e com frequência não consigo evitar as lágrimas.

Parece-me quase infantil estar a escrever este post, mas a memória é mais forte do que eu e não consigo evitá-lo.

Afinal, o ridículo acontece a todos, talvez os poetas compreendam isto.

 

AMOR ANTIGO

O amor antigo vive de si mesmo
não de cultivo alheio ou de presença.
Nada exige nem pede. Nada espera,
mas do destino vão nega a sentença.

O amor antigo tem raízes fundas,
feitas de sofrimento e de beleza.
Por aquelas mergulha no infinito,
e por estas suplanta a natureza.

Se em toda parte o tempo desmorona
aquilo que foi grande e deslumbrante,
o antigo amor, porém, nunca fenece
e a cada dia surge mais amante.

Mais ardente, mas pobre de esperança.
Mais triste? Não. Ele venceu a dor,
e resplandece no seu canto obscuro,
tanto mais velho quanto mais amor.


Carlos Drummond de Andrade

 

 

 

 

 


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Segunda-feira, 30 de Janeiro de 2017
Amor1

FALEMOS DE AMOR

 

Amar uma coisa significa querer que ela viva.

CONFÚCIO

 

O texto que segue é seco árido, não tem romantismo nem poesia. Porque insisto em editá-lo? Porque o amor – ou a sua falta – tem uma importância decisiva nas nossas vidas, proporcionando-nos bem-estar, felicidade, ou, pelo contrário, sofrimento e dor.

As relações entre dois seres apaixonados são das mais complexas que existem. Quase todas as emoções que sentimos entram num jogo contraditório de atracção e repulsa, num turbilhão de contradições.

O amor tem diversos inimigos e o ciúme é dos mais poderosos, capaz de destruir relações muito fortes.

Será possível dissecar o amor em laboratório? Se isso um dia vier a acontecer, em lugar de uma vitória da ciência, teríamos uma derrota do ser humano, da sua imaginação, da sua aspiração à felicidade: romancistas e poetas seriam remetidos para o pó da História.

Como não existem escolas para ensinar a amar (o autor afirma que não existe uma ciência do amor), temos de aprender a amar empiricamente, com a vida.

Falar de amor implica falar de relações sexuais – um dos principais pilares da relação amorosa. O texto mostra-nos como a compreensão do sexo tem sido complicada e rodeada de tabus através dos séculos, até chegarmos à liberdade sexual que hoje existe nos países ocidentais.

Do tabu absoluto sobre o sexo passamos para a liberdade sexual… sem escola. A Educação Sexual que pretendemos ensinar nas escolas é pouco mais que uma boa intenção.

Durante vários anos pratiquei relações sexuais «mecânicas» (a minha mulher também não sabia) e foi já adulto feito que aprendi a fazer sexo (há época, sexo era coisa de libertinos e de mulheres debochadas).

Teoricamente, os jovens de hoje sabem mais do que eu sabia, teoricamente…

 

 

Desde que a sociedade burguesa foi criada existe o mito do homem másculo e viril e da mulher dócil e submissa (domesticada, no fundo).

Durante, praticamente todo o regime de Salazar as relações homem e mulher estavam subordinadas à moral católica (prolongamento do regime) e à família de tipo patriarcal. O texto refere com detalhe os preconceitos sociais que reprimiam eros.

O namoro era a antecâmara para o casamento e os pais, machos, ditavam as regras. Sofri por duas vezes os golpes desta tirania social.

O primeiro golpe que sofri foi no namoro com a Fernanda (UM FANTASMA) e o segundo mais profundo, em especial para a Julieta (PATER FAMÍLIAS). Jovens que viam as suas vidas destroçadas, às vez com consequências trágicas, contaram-se aos milhares e a literatura dos séculos XIX e XX e os filmes do princípio do século XX tiveram bastante matéria-prima com o tema.

Os jovens de hoje tem um conceito de namoro que não quem qualquer correspondência com o mesmo conceito até ao final do regime salazarista. Nem sonham a liberdade de que dispõem.

O amor continua a ser o principal caminho para felicidade mas tem inúmeros atalhos para o sofrimento.

Tema de muitos séculos, o meu sincero desejo é que continue a sê-lo no futuro com romantismo e muita poesia.

 

 


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Sexta-feira, 20 de Janeiro de 2017
Memórias

Amigo António,

Não receberás esta carta, mas continuo a escreve-la como se fosse enviá-la pelo correio. Não respondes-te à minha primeira carta e, assim, não terás que responder a esta: afinal, os amigos também se esquecem.

A minha sogra faleceu perto dos noventa anos. Passava os dias cantarolando cantigas de quando fora jovem e histórias de amigas, a maior parte delas, já falecidas.

A natureza, sabiamente, retira aos velhos a memória de curta duração, não se lembram do que aconteceu na semana anterior, e devolve-lhes a memória do passado distante, a chamada memória de longa duração: mais ano menos ano, acontece e todos. Parece-me que sou precoce, já vivo mergulhado na memória de longo prazo, principalmente a memória da minha juventude ( a fase mais importante da existência ) vivida aí, em Torres Novas.

Esta dádiva da natureza tem um preço, a memória antiga é traiçoeira , omite, distorce factos e acontecimentos, fantasia o passado, temos que ser prudentes com ela: até os que escrevem livros de memórias não escapam a esta realidade. A memória é imperfeita e complexa como nós.

Recordo com muita saudade os amigos que ai conheci (convivi com dois em Lisboa, o Francisco Canais Rocha e o António Graça, falecido ainda novo) e, paradoxalmente dois insucessos amorosos, com a tua irmã e seguidamente com a Julieta Fradinho, natural de Silves, filha de um funcionário do Tribunal (com cara de poucos amigos, nunca o vi com uma companhia), que terminou brutalmente com a proibição categórica do pai, à boa maneira do século XIX.

 

Sempre ouvi dizer que o primeiro amor nunca se esquece e julgava que eram histórias de livros, mas é verdade, acontece mesmo. O meu primeiro amor foi com a tua irmã e a sua recordação ficou gravada nos recantos sinuosos da  minha memória.

Namoro curto, igual a todos os namoros daquela época e terminou com uma imposição que, inexperiente, não soube contornar.

Visto de fora, eu era um rebenta corações, na realidade, eu é que fiquei rebentado: para um jovem de vinte e poucos anos que se inicia   nos caminhos tortuosos do amor, dois insucessos seguidos deixam marcas fundas. Apesar disto, por estranho que pareça, tenho uma recordação muito grata – nos sentimentos não existe racionalidade - da Fernanda e da Julieta.

Não comentei estes insucessos com ninguém, lambi as feridas em solidão. Talvez por ter feito este recalcamento, agora tenho uma necessidade irreprimível de falar e escrever sobre eles.

Por obra do acaso, o grande fazedor e desfazedor de vidas, conheci na Net, um conterrâneo do Algarve, a viver em Sintra, e que conhece a Julieta. Deu-me o seu endereço e irei procura-la se saúde permitir.

Gostaria igualmente de voltar a ver a tua irmã mesmo que ela tenha uma memória desfavorável de mim: aos oitenta anos, doente, na idade do perdão, não tenho necessidade de enganar ninguém. Sei que ela está casada com o Arlindo e julgo que o conheço.

Há uns meses convidaram-me para um concurso de blogues. Tinha que apresentar uma resenha «biográfica» e saiu-me o texto que junto a esta carta. Dá uma síntese das minhas andanças.

Desejo a continuação das tuas melhoras e despeço-me com um abraço e cumprimentos para a tua esposa.

 


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Quinta-feira, 8 de Setembro de 2016
Julieta

 

Ainda existo na tua memória? Como a saudade de um encontro feliz ou como um pesadelo que nunca deveria ter acontecido na tua vida?

Éramos dois jovens e apenas queríamos amor como todos os jovens desejam. Por imposição do teu pai o nosso namoro teve que acabar. Convidaste-me para nos encontrarmos em Sintra e foste obrigada a mandar-me embora como se eu fosse um oportunista que queria enganar-te.

A dor daquela violência foi mais profunda no teu coração: o amor já tinha raízes em ti. Ambos tivemos uma mocidade triste, já eras órfã da tua mãe e eu era órfão de pais vivos.

A tua vida é uma incógnita para mim, nunca mais te voltei a ver – como foi possível isto acontecer? Apenas sei que emigras-te para Londres numa época em que poucas mulheres o faziam, não foi emigração foi um exílio, exilaste-te do teu pai.

Regressaste, não sei quando, casada com um inglês, e refugiaste-te na serra de Sintra, na Sintra que tu amavas. Uma senhora muito reservada diz-me que te conhece: também sou reservado, a vida fez-nos assim.

Mais uma vez o acaso, o grande fazedor e desfazedor de vidas, não quis que nos reencontrássemos. Desejava muito que a última recordação que tenho de ti não fosse aquele choro convulsivo que selou a nossa separação há sessenta anos.


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Sexta-feira, 6 de Maio de 2016
Amor antigo

Julieta.jpg

 

 
Algumas mulheres (talvez muitas) perdem-se pelo amor e pagam caro, às vezes demasiado caro: há feridas interiores que a memória nunca deixa sarar. O preço que tu pagaste foi  elevado e foi e teu próprio pai quem o impôs.

Naquela época (meados dos anos 50) era muito raro uma rapariga aceitar namoro sem a prévia autorização dos pais. Decidis-te sem essa autorização e, mais ainda, eu era praticamente desconhecido em Torres Novas: foi um forte impulso do teu coração (eu merecia essa audácia?).

Tivemos dois namoros, o primeiro foi mudo. Só os nossos olhos conversavam. Os meus olhos procuravam os teus, os teus olhos procuravam os meus e olhávamo-nos longamente. Era uma procura mútua com emoções ambíguas: o amor tacteava no desconhecido, o desejo de nos conhecermos, de nos encontrarmos. Era uma atracção mútua que nos dominava, sentimentos que despontavam como uma primavera.

Depois tivemos cerca de um mês de namoro, se é lhe posso chamar namoro. Viveste o encantamento de teres encontrado o homem que procuravas para amar, o pai dos teus filhos – a maternidade cantava melodias ao teu ouvido de mulher, melodias que só tu ouvias – um companheiro para a tua vida onde já existia a solidão da morte da tua mãe.

Eras uma mulher inteligente, avançada para a tua, a nossa época, e o teu horizonte não se confinava só ao casamento, à vida conservadora e parada de uma pequena cidade de província, conhecias horizontes mais abertos de outros meios.

A tua maior atenção era conheceres o homem – frágil – que tinhas escolhido. Irias conseguir viver com as minhas fragilidades?

Durante um breve mês viveste a esperança de ser feliz, espuma que se dissipou como se o vento a tivesse levado: uma proibição do teu pai, como se faziam no século XIX, impos o fim do namoro.

Existo na tua memória? Como? Com ternura ou como um pesadelo que não devia ter acontecido?

O que me importa é saber – nunca o saberei! - que foste mulher e mãe com outro homem e que foste feliz. Era isso que tu merecias.

Aquele efémero namoro ficou gravado na minha memória, bem como o prolongado sofrimento e frustração que passei.

Há distância de  mais de cinquenta anos que interesse tem esta história? Tem para mim e, quem sabe, também terá para ti.

  

"O amor antigo tem raízes fundas,

feitas de sofrimento e de beleza.”

 

Parece-me quase infantil estar a escrever este post, mas a memória é mais forte do que eu e não consigo evitá-lo.

Afinal, o ridículo acontece a todos, talvez algum poeta compreenda isto.

 

 

 


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Sexta-feira, 29 de Abril de 2016
Mocidade, a minha também  

 

Nota prévia

Este texto parecerá estranho às gerações de hoje que nasceram numa sociedade livre e também com liberdade sexual.

 

Existe uma geração de historiadores, pós Mattoso, alguns são ou foram seus alunos, que fazem uma nova abordagem da história nacional até aí dominada por valores ideológicos e retrogados.

Isabel Freire acaba de publicar “Amor e sexo no tempo de Salazar”, um tema que parece menor mas não é: trata da frustração e do sofrimento de milhares de mulheres e de homens também.

Entre as fontes de consulta, Isabel Freire entrevistou um grupo de homens e mulheres a partir dos 70 anos de idade. Avós e bisavós.

A autora do livro não me conhece de lado nenhum e não me entrevistou. Pessoalmente, tenho pena porque foi vítima, por duas vezes da moral e dos bons costumes do Estado Novo, de Salazar e Cerejeira.

No ano de 1.955, em meado da «década dourada» dos anos 50, completei 20 anos, mas era  apenas um adolescente crescido: ingénuo, talvez imaturo e idealista (vicio transmitido por  leituras de poesia), a minha autoconsciência teve um processo de formação tardio e acidentado.

O regime salazarista, por baixo sofria alguns revezes – agitação social que a sangria da emigração em parte atenuava e nos anos de 1.955 e 1.956 reforçou os poderes arbitrários da PIDE, mas no plano ideológico, quer a máquina de propaganda, quer as instituições de controlo social – particularmente da mulher – estavam todas montadas (Mocidade Portuguesa, Mocidade Portuguesa Feminina, revistas especialmente dirigidas à jovem e à mulher) Secretariado Nacional da Informação, etc. e, claro a acção da Igreja Católica e do baixo clero.

Os valores conservadores da Igreja tinham como alvo principal controlar as famílias e domesticar as mulheres, “ o dogma da

 autoridade masculina e da submissão feminina, o dogma virilidade dos homens e da castidade das mulheres, o dogma da interdição do corpo e do pecado sexual, o dogma do casamento sacramental e o dogma da maternidade redentora, marcaram e ferros António e muitos outros homens e mulheres da sua geração”, do livro acima citado.  

O regime salazarista possuía duas máquinas de repressão; a PIDE para os opositores políticos as suas instituições aliadas à Igreja para o controlo social e a repressão sexual. A mulher e o seu corpo interdito eram o alvo principal, o sexo extra matrimonial era pecado e a mulher a potencial pecadora.

Eu não percebia nada deste subtil mundo de interditos e pecados e de muitas outras coisas. A minha iniciação sexual (com colegas de trabalho) foi feita nas casa de prostituição, não sabia o que era o amor  e conhecia mal, muito mal, o mundo feminino, que era vigiado pelos controladores da moral e dos bons costumes e se encontravam interiorizados na consciência colectiva.

Nos dourados anos 50 do regime salazarista eu era um ignorante e simultaneamente uma vítima – apenas mais uma – da ideologia do Estado Novo.

Por duas vezes fui reprimido pelos bons costumes e das duas   ficaram-me marcas profundas.

Da minha geração milhares de mulheres e de homens foram frustrados sexualmente  (coisa que parece impossível nos dias de hoje ) e ainda hoje sentem as marcas das suas frustrações.

Vou terminar, por hoje, para que esta memória não pareça (não parece?) uma manifestação de frustação.

 

P.S.

Reeditado



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Terça-feira, 12 de Abril de 2016
Um sonho

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Os desejos podem concretizar-se através de sonhos? Isso não será uma ilusão?

Hoje, somos dois velhos que pouco tem em comum, dois desconhecidos sem nada para dizer um ao outro. As nossas vidas cruzaram-se há cerca de 60 anos, num amor breve. Porque nos separamos definitivamente, ainda hoje é um enigma para mim. Perdi o que mais necessitava, o teu amor, e cometi um dos maiores erros da minha vida. 

 

Necessitava  de amor, de uma família de filhos, tudo a que poderia aspirar.

Perdi, também, o remédio para a da minha intranquilidade que a tua ternura e serenidade podiam dar-me. O sonho de muitos anos concretizou-se ontem à noite sem que possa imaginar porque me aconteceu.

O sonho era uma mistura de passado e presente, de realidade e irrealidade. Conversei com o teu pai, já falecido, e perguntei-lhe se ainda se lembrava de mim. Depois disse-lhe que tinha sido teu namorado.

O real e o sonho confundem-se: falo com um dos teus dois filhos (no sonha eram cinco), jovem e muito louro. Pergunto-lhe também se já tinha ouvido falar de mim.

Em tua casa todos sabem que regressei a Torres Novas. Vozes que não identifico dizem-me que te pressionaram para o namoro acabar.

Entro no teu quarto. Estavas bela, como na juventude, com o teu sorriso meigo e tranquilo. Dirijo-me  para ti: choro e digo meu Deus, Fernanda, como foi possível encontrar-te?

O meu grande desejo de velho concretizou-se num sonho. À memória do meu amor acrescento o sonho de um encontro que não se realizará.

 

 


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Quinta-feira, 24 de Março de 2016
Passado longinquo

 

Sou como o narrador do conto "O fogo  e as cinzas" de Manuel da Fonseca, um velho falhado. Como ele rou o osso da memória, das memórias que me assediam mesmo que eu não queira. Regresso aos tempos longínquos da minha mocidade vivida em Torres Novas. Os dias corriam suaves, sem preocupações, com esperanças que se desfizeram. Sem que eu soubesse porque, a vida queria castigar-me.

Eu era um estranho, recem-chegado e duas mulheres escolheram-me: ainda hoje não sei porque, o que acharam em mim, com uma figura meio triste?

As escolhas do coração não passam pelo filtro da razão. Amamos e é quanto basta, na mocidade não existem cálculos de patrimónios, de bens herdados ou a herdar. Isso, só acontece mais tarde e não acontece sempre, o século XIX já lá vai.

  O meu primeiro amor foi com a Fernanda e a sua recordação ficou gravada nos recantos sinuosos da minha memória. Fernanda, recordo com saudade a tua ternura, a alegria dos teus olhos, os beijos ternos que trocamos, quase roubados.

.Namoro curto, igual a todos os namoros daquela época que terminou com uma imposição tua; inexperiente, não soube contornar o problema. Tinha corpo de homem mas a cabeça andava na Lua. Seguidamente namorei com a Julieta Fradinho, natural de Silves, filha de um funcionário do Tribunal, que terminou brutalmente com a proibição categórica do pai, à boa maneira do século XIX.

Julieta era o oposto da Fernanda, reservada, olhar triste sem os atributos de beleza da Fernanda; tinha mais maturidade do que eu e o amor já tinha criado raízes no seu coração.

Visto de fora, eu era um rebenta corações, na realidade, eu é que fiquei rebentado: para um jovem de vinte e poucos anos que se inicia   nos caminhos sinuosos do amor, dois insucessos seguidos deixam marcas fundas. Apesar disto, por estranho que pareça, tenho uma recordação muito grata – nos sentimentos não existe racionalidade - da Fernanda e da Julieta.

Não comentei estes insucessos com ninguém, lambi as feridas em solidão. Talvez por ter feito este recalcamento, agora tenho uma necessidade irreprimível de falar e escrever sobre eles.



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Quarta-feira, 24 de Fevereiro de 2016
Bebemos no mesmo cálice

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Ambos bebemos o cálice, ignorando que continha fel. Os meus olhos só viam os teus. Os teus olhos só viam os meus.

O teu sorriso era discreto, quase pudico, o meu era mais expansivo e descuidado – nunca mais foi. Amávamo-nos com a ingenuidade da mocidade, vivíamos o presente e o futuro sem sombras.

Hoje, há distância de décadas, passeio pelas ruas por onde andavas; sento-me no café onde ias ver televisão, na companhia da tua madrasta, segunda mãe, que te acompanhava discreta como se estivesse ausente.

Sento-me na mesa da esplanada, junto ao rio, em tardes quentes de verão, onde conversávamos. Relembro os diálogos despreocupados e a tua ternura contida, o teu gesto interrompido de fazer-me uma carícia na cara.

A felicidade, tocava-nos levemente, tudo era natural e simples. Chamavas-te Julieta, eu, simplesmente, João.

Quando surgis-te na janela, na hora combinada, rompes-te num choro compulsivo, que me deixou atónito, perplexo.

Que se passa? Que te aconteceu? Não percebia o que se estava a passar, o que fazer. O teu choro pareceu-me durar uma eternidade e dentro de mim só havia confusão e desespero.

Como o portão de um castelo, a janela fechou-se. Retirei-me destroçado, como um farrapo, como um trapo que qualquer um deita fora.

Ainda hoje existes na minha memória como a maior alegria e a maior tristeza que me aconteceu.

Ainda existirei na tua memória? 

 


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Terça-feira, 2 de Fevereiro de 2016
Reencontro
 

  

Não me esqueces-te, João? Não, como poderia esquecer-te, Julieta? Como poderia esquecer um amor interrompido contra a nossa vontade?! 

 

Como poderia esquecer a brutalidade daquela imposição contra a vontade de dois jovens que se amavam e que pôs o teu coração a sangrar? Se alguma vez na vida temos direito ao amor é na juventude quando tudo acontece, em pureza e com encanto, pela primeira vez.

 

Eras maior de idade tinhas o direito de viver com quem quisesses, mesmo que fosse um pé rapado como eu, mas naquela época distante pater famílias é que mandava e decidia.

 

Não quero que a última imagem que guardo de ti seja aquele choro compulsivo, como nunca tinha visto na minha vida. Foi com aquele choro que aprendi a chorar.

 

Porque demoraste tantos anos, João? Esperei-te tanto tempo e nunca aparecias. Foi outro erro meu, Julieta. Estavas guarda nos labirintos da minha memória e assaltava-me a dúvida se desejarias voltar a ver-me. Até que rompi as minha hesitações e decidi procurar-te, o desejo de voltar a ver-te era irreprimível.

 

Foste viver para Londres (?), o  primeiro exílio da tua família, amas-te outro homem e regressas-te casada para o teu segundo exílio, algures num recanto da serra de Sintra, a Sintra que te viu crescer menina e que amavas e amas.

 

Aqui, no seio da Serra, foges ao convívio social – uma senhora muito reservada, disseram-me antes de vir procurar-te. Compreendo esse teu isolamento e reserva: é a marca do sofrimento, também sou reservado.

 

Conservamos longamente sobre o passado,  quando as nossas vidas se cruzaram num  namoro fugas. Nas tuas frequentes perguntas, não procuravas decifrar o homem que eu era, se era rico ou pobre, mas  como me comportava, como reagia, querias conhecer a personalidade do homem que escolhes-te para companheiro e pai dos teus filhos. 

 

As nossas vidas já foram vividas, separados um do outro, agora somos cinzas de uma lareira quase apagada.

 

Começa a escurecer, não tarda é noite. Tenho de regressar, as estradas da serra são muito sinuosas e escuras. Despedimo-nos num longo abraço, os nossos corpos uniram-se pela primeira vez, sinto o teu coração palpitar acelerado. Dou-te um beijo na testa e reparo que estás a chorar, carinhosamente enxugo o teu rosto, choro também e no brilho dos teus ohos leio que este nosso choro é de alegria.

 

Regresso feliz, muito feliz, o reencontro aconteceu e a partir de agora a tua imagem, dentro de mim, já não é triste.

 


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Sexta-feira, 8 de Janeiro de 2016
Romeu e Julieta, quem se lembra?

 

 

Há um bom par de anos li o consagrado romance Romeu e Julieta de Shakespeare, escrito na sua mocidade. Shaekespeare foi buscar o tema à literatura italiana da sua época mas o tema é anterior, é de muitos séculos antes. A acção desenrola-se em Verona e R. e J. pertencem a duas famílias inimigas, capuletos e montecchios., hoje diríamos que S. fez um plágio.

Não gostei do romance, achei-o fraco e esta é também a opinião de alguns críticos literários. Sendo um romance menor porque motivo sobreviveu durante vários séculos? Talvez pela imortalidade do tema, o amor e a sua dimensão trágica.

Entre nós Pedro e Inês foram glosados durante alguns séculos até caírem no esquecimento.

Inês e Pedro não morreram, apenas dormem.

Comemora-se, em janeiro de 2005, os 650 anos de morte da figura feminina mais representativa em Portugal, desde os tempo da formação do reino. A importância do tema Inês de Castro é inegável na formação da identidade cultural portuguesa, visto que obras literárias e de outras expressões artísticas

Em época mais recente, o Amor de perdição de Camilo é uma adaptação semelhante, com variantes, de Romeu e Julieta.

No século XXI, o século do instantâneo e do efémero, dos laços familiares fracos e das relações descartáveis quem terá lido Romeu e Julieta?



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Segunda-feira, 14 de Dezembro de 2015
Pavilhão 24 #2

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 Visito todos os dias a tua mãe, algumas vezes sem saber como. Levo-lhe um lanche e mimos da Versalhes, fruta, tabaco e moedas para a máquina de café, sem este suplemento a tua mãe passaria mal.

Envelheceu, tem no rosto e no olhar as marcas de muitos anos de sofrimento. A tua infeliz mãe perdeu o olho esquerdo, tem uma doença rara, sem medicação especifica, há quatro anos que sofre de dor crónica, dói sempre, uns dias menos outros dias mais. Para aumentar este drama agora tem uma demência reversível; a demência causa sofrimento e nos períodos em que está lúcida o sofrimento aumenta com o mundo demencial que tem à sua volta.

Quando entro no hospital, entro numa prisão, e saio mais triste e deprimido do que quando entrei. Com 80 anos não sei até onde conseguirei lavar às costas ente lenho. Não consigo entender o teu comportamento para com a tua mãe e para usar uma palavra moderada direi que é desumano e só contribui para aumentar inutilmente o seu sofrimento, talvez um dia sintas remorsos.

 



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Sexta-feira, 11 de Setembro de 2015
Para a minha mulher

  

Sei que já não podes ouvir mas é uma maneira de falar contigo.


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Sábado, 1 de Agosto de 2015
Se eu pudesse...

 

 

Este post é quase um plágio de um post editado pela minha amiga "O meu sótão cor de rosa"  de onde roubei a ideia: o seu a seu dono.

Se eu pudesse parar o tempo iria jogar o pião; iria lançar papagaios de papel e cana ao céu em competição com outros «maçaricos»; iria correr nas areias dourados e dunas da praia de Monte Gordo, onde só havia três ou quatro cabanas onde os pescadores guardavam as redes; iria faltar à escola para caçar lagartixas no pinhal; iria roubar atum ( http://pimentaeouro.blogs.sapo.pt/pardais-228220) nas fábricas de conservas; se eu pudesse parar o tempo iria jogar xadrez no velho café Esperança em Setúbal.

Se eu pudesse parar o tempo iria namorar com a Fernanda, de braço dado, pelo  jardim do Almonda; se o tempo me desse mais uma moratória iria namorar com a Julieta em Sintra.
Fernanda e Julieta são  dois fantasmas vivos que me acompanham na minha solidão e tornam a minha vida menos amarga.


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publicado por pimentaeouro às 00:16
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