Conhece-te a ti mesmo... se puderes.

Sábado, 16 de Abril de 2016
David Mourão Ferreira

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Escritor e professor universitário português, natural de Lisboa. Licenciou-se em Filologia Românica em 1951. Foi professor do ensino técnico e do ensino liceal e, em 1957, iniciou a sua carreira de professor universitário na Faculdade de Letras de Lisboa. Afastado desta actividade entre 1963 e 1970, por motivos políticos, foi professor catedrático convidado da mesma instituição a partir de 1990.

Entretanto, mantivera nos anos 60 programas culturais de rádio e televisão. Em 1963 foi eleito secretário-geral da Sociedade Portuguesa de Autores e, já nos anos 80, presidente da Associação Portuguesa de Escritores. Logo após o 25 de Abril de 1974, foi director do jornal A Capital. Secretário de Estado da Cultura em vários governos entre 1976 e 1978, foi também director-adjunto do jornal O Dia entre 1975 e 1976.

Responsável pelo Serviço de Bibliotecas Itinerantes e Fixas da Fundação Calouste Gulbenkian a partir de 1981, dirigiu, desde 1984, a revista Colóquio/Letras, da mesma instituição. A sua carreira literária teve início em 1945, com a publicação de alguns poemas na revista Seara Nova. Três anos mais tarde, ingressou no Teatro-Estúdio do Salitre e no Teatro da Rua da Fé. Publicou as peças Isolda (1948), Contrabando (1950) e O Irmão (1965). Em 1950, foi um dos co-fundadores da revista literária Távola Redonda, que se assumiu como veículo de uma alternativa à literatura empenhada, de realismo social, que então dominava o panorama cultural português, defendendo uma arte autónoma. Em 1950, publicou o seu primeiro volume de poesia — Secreta Viagem. David Mourão-Ferreira colaborou ainda nas revistas Graal (1956-1957) e Vértice e em vários jornais, como o Diário Popular e O Primeiro de Janeiro. Foi poeta, romancista, crítico e ensaísta.

A sua poesia caracteriza-se pelas presenças constantes da figura da mulher e do amor, e pela busca deste como forma de conhecimento, sendo considerado como um dos poetas do erotismo na literatura portuguesa. A vivência do tempo e da memória são também constantes na sua obra, marcada, a nível do estilo, por uma demanda permanente de equilíbrio, de que resulta uma escrita tensa, e pela contenção da força lírica e sensível do poeta numa linguagem rigorosa, trabalhada, de grande riqueza rítmica, melódica e imagística, que fazem dele um clássico da modernidade.

Entre os seus livros de poesia encontram-se Tempestade de Verão (1954, Prémio Delfim Guimarães), Os Quatro Cantos do Tempo (1958), In Memoriam Memoriae (1962), Infinito Pessoal ou A Arte de Amar (1962), Do Tempo ao Coração (1966), A Arte de Amar (1967, reunião de obras anteriores), Lira de Bolso (1969), Cancioneiro de Natal (1971, Prémio Nacional de Poesia), Matura Idade (1973), Sonetos do Cativo (1974), As Lições do Fogo (1976), Obra Poética (1980, inclui as obras À Guitarra e À Viola e Órfico Ofício), Os Ramos e os Remos (1985), Obra Poética, 1948-1988 (1988) e Música de Cama (1994, antologia erótica com um livro inédito). Ensaísta notável, escreveu Vinte Poetas Contemporâneos (1960), Motim Literário (1962), Hospital das Letras (1966), Discurso Directo (1969), Tópicos de Crítica e de História Literária (1969), Sobre Viventes (1976), Presença da «Presença» (1977), Lâmpadas no Escuro (1979), O Essencial Sobre Vitorino Nemésio (1987), Nos Passos de Pessoa (1988, Prémio Jacinto do Prado Coelho), Marguerite Yourcenar: Retrato de Uma Voz (1988), Sob o Mesmo Tecto: Estudos Sobre Autores de Língua Portuguesa (1989), Tópicos Recuperados (1992), Jogo de Espelhos (1993) e Magia, Palavra, Corpo: Perspectiva da Cultura de Língua Portuguesa (1989). Na ficção narrativa, estreou-se em 1959 com as novelas de Gaivotas em Terra (Prémio Ricardo Malheiros), os contos de Os Amantes (1968), e ainda As Quatro Estações (1980, Prémio da Crítica da Associação Internacional dos Críticos Literários), Um Amor Feliz, romance que o consagrou como ficcionista em 1986 e que lhe valeu vários prémios, entre os quais o Grande Prémio de Romance da APE e o Prémio de Narrativa do Pen Clube Português, e Duas Histórias de Lisboa (1987).

Deixou ainda traduções e uma gravação discográfica de poemas seus intitulada «Um Monumento de Palavras» (1996). Alguns dos seus textos foram adaptados à televisão e ao cinema, como, por exemplo, Aos Costumes Disse Nada, em que se baseou José Fonseca e Costa para filmar, em 1983, «Sem Sombra de Pecado». David Mourão-Ferreira foi ainda autor de poemas para fados, muitos deles celebrizados por Amália Rodrigues, tal como «Madrugada de Alfama». Recebeu, em 1996, o Prémio de Consagração de Carreira da Sociedade Portuguesa de Autores.


 



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Quinta-feira, 12 de Novembro de 2015
D. Duarte

  30 de outubro de 1391,      9 de setembro de 1438.

 

O Eloquente. 11.º rei de Portugal.

Nasceu em Viseu a 30 de outubro de 1391, faleceu em Tomar a 9 de setembro de 1438. Era o segundo filho do rei D. João I, e da rainha, sua mulher, D. Filipa de Lencastre. 

Foi jurado sucessor da coroa a 22 de março de 1401, quando tinha dez anos, nas cortes celebradas em Leiria, por ter falecido seu irmão mais velho, o infante D. Afonso, em 1400, contando só dez anos de idade, depois de já ter sido jurado herdeiro do trono nesse mesmo ano (V. Afonso, vol. I, pág. 69). D. Duarte foi um monarca muito dado às ciências e às letras, vocação que sempre se lhe notou desde os mais verdes anos. Sucedeu a seu pai em 14 de agosto de 1433, e subindo ao trono um dos seus primeiros cuidados foi o de reduzir as despesas da Casa Real, porque o erário estava muito debilitado em consequência das continuas guerras com Espanha. Nesta redução de despesas não se poupou a si próprio, gastando com o seu vestuário apenas quinhentas dobras. Com o seu carácter geralmente austero e enérgico pôde manter na corte a pureza de costumes que seu pai conseguira ali introduzir depois dum reinado tão imoral como o do rei D. Fernando. 

Em Lisboa desenvolvera-se a peste, e D. Duarte retirou-se para Sintra, passando depois a Santarém, onde reuniu cortes, em que se tratou de reduzir a legislação portuguesa a um código uniforme, obra iniciada já pelo jurisconsulto João das Regras em vida de D. João I ; essa codificação só se completou no reinado de D. Afonso V, e por isso se deu o nome de Ordenações Afonsinas a esse código de leis. Os acidentes do seu reinado e a sua curta duração, não permitiu a D. Duarte concluir este seu desejo. Na tomada de Ceuta, por D. João I, realizada a 14 de agosto de 1415, esteve com seus irmãos, os infantes D. Henrique e D. Fernando. Para argumento da obediência aos vigários de Cristo mandou uma solene embaixada ao concílio de Basileia, de que nomeou embaixador a seu sobrinho D. Afonso, 1.º marquês de Valença, o qual foi recebido a 21 de junho de 1435 pelo papa Eugénio IV com paternal benevolência, e querendo o pontífice mostrar-se agradecido ao nosso país, concedeu a D. Duarte o privilégio de ser coroado e ungido conforme o antigo cerimonial dos reis de França.

Tentando a conquista de Tânger, em 1437, apresentou um exército de catorze a quinze mil homens sob o comando de seus irmãos D. Henrique e D. Fernando. A precipitação, porém, com que saiu a expedição, fez com que se reunissem apenas sete a oito mil homens, que foram derrotados pelos exércitos do rei de Fez, ficando prisioneiro o infante D. Fernando, que faleceu no cativeiro depois de ter sofrido os maiores ultrajes. Os mouros exigiam pelo seu resgate a praça de Ceuta, e era este um dilema terrível que se impunha ao espírito de todos os portugueses, salvar a vida do infante ou perder uma das mais belas conquistas da coroa de Portugal. D. Duarte adoptou, entre outras medidas, a de reprimir o luxo, realizando importantes economias na sua própria casa, com o intuito de ocorrer às despesas duma armada que fosse libertar o infante seu irmão pensamento que sempre o preocupou, chegando até a pedir no seu testamento que o resgatassem, ainda mesmo que fosse preciso entregar Ceuta. D. Duarte pediu conselho ao infante D. Henrique, que foi contrário à ideia de entregar aquela praça, e que D. Fernando podia ser libertado por meio de resgate, ou por uma cruzada contra os mouros. D. Duarte faleceu sem esta importante questão ficar resolvida, e o infante continuou cativo (V. Fernando, D.). Uma das medidas que assinalou o reinado de D. Duarte, foi a publicação da Lei Mental, que ele dizia ter-lhe sido recomendada por seu pai, e na qual se estabelecia que as terras da Coroa doadas em paga de serviços, se devolveriam à Coroa na falta de herdeiro varão. À infeliz expedição de Tânger sucederam grandes calamidades, como uma terrível peste, que fez milhares de vítimas em todo o país, e a fome que se lhe seguiu. As famílias aterradas e a própria corte procuravam evitar aquele mal devastador, fugindo ora para um ora para outro ponto, que lhes parecia menos atacado. D. Duarte foi também vítima da peste, em Tomar, para onde havia partido, depois do curto e atribulado reinado de cinco anos, e foi sepultado no convento da Batalha.

Era casado com D. Leonor, filha de Fernando I, de Aragão, que faleceu em Toledo em 1445, e de D. Leonor, condessa de Albuquerque cognominada Ia Rica Hembra, filha de D. Sancho de Albuquerque e de D. Brites, infanta de Portugal, filha de D. Pedro I. O casamento realizou-se em 22 de setembro de 1428; e em sua homenagem, se cunharam na Alemanha três medalhas, que se acham desenhadas e descritas no tomo IV da História Genealógica. Depois da morte do monarca levantaram-se grandes discórdias por causa duma cláusula do testamento, que confiava a regência do reino à rainha sua mulher, visto o príncipe herdeiro D. Afonso ser ainda criança. O país via com maus olhos esta nomeação que dava o governo a uma senhora, e demais a mais estrangeira, e começou então uma renhida luta, de que resultou ser a regência entregue ao infante D. Pedro. (V. Afonso V e Pedro, D.). 

  1. Duarte era notável nas justas e no exercício das armas, sendo na arte de equitação superior a todos os seus contemporâneos. Como homem de letras é digno de menção assinalada, pela época em que viveu. Espírito culto, sempre desejoso de estudar e de saber, produziu livros bem notáveis, e teve a glória de ser o primeiro rei português que reuniu livraria nos reais paços. Observa o visconde de Santarém, que D. Duarte foi o mais sábio soberano do seu tempo, e talvez o único autor entre os monarcas seus contemporâneos. O catalogo dos livros de que se compunha a sua livraria, é importantíssimo. O conde da Ericeira, D. Francisco Xavier de Meneses, o fez copiar do livro antigo da livraria do convento da Cartuxa de Évora e D. António Caetano de Sousa o imprimiu nas Provas da História Genealógica da Casa Real, considerando-o um documento valioso. Nesse catalogo se encontram mencionados algum livros, que altamente provam a grande curiosidade literária de D. Duarte, tais como os de Aristóteles, de Valério Máximo, de Séneca, de Cícero, de Júlio César, etc. D. Duarte confirmou à universidade, por uma carta datada de 3 de dezembro de 1433, todas as mercês, graças e privilégios que lhe haviam concedido os seus antecessores.

Eis a relação das suas obras mais importantes: Leal conselheiro, seguido da Arte de bem cavalgar; dado pela primeira vez à luz sobre manuscrito original da Biblioteca Real de Paris, com notas filológicas e um glossário das palavras antigas, por José Inácio Roquete, Paris, 1842. Ao tempo em que se tratava de publicar em Paris o Leal Conselheiro, o livreiro-impressor Rolland cuidava, por sua parte de igual publicação, que só veio a realizar-se no ano seguinte, servindo-se duma cópia que generosamente lhe facilitou o barão de Vila Nova de Foz Côa, por ele próprio extraída em 1830 do intitulado manuscrito original. Esta edição saiu com o título seguinte: Leal Conselheiro, e livro da ensinança de bem cavalgar toda a sela, escrito pelo senhor Dom Duarte, Rei de Portugal e do Algarve, e senhor de Ceuta, fielmente copiados do manuscrito da Biblioteca Real de Paris, Lisboa. 1843. Há mais as seguintes obras: Sumário que, sendo infante, deu a Francisco, para pregar do condestável D. Nuno Álvares Pereira;Regimento para aprender a jogar as armas; Resposta, sendo príncipe, ao infante D. Fernando, sobre certas queixas que ele tinha de seu pai; Padre Nosso glosado; De como se tira o demónio; Ordenações sobre as coisas domésticas e a ordem que tinha no governo e despacho, etc. As obras de D. Duarte acham-se enumeradas no catálogo formulado pelo visconde de Santarém, na edição do Leal Conselheiro, feita pelo padre Roquete em Paris.



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Segunda-feira, 23 de Março de 2015
Pedro das sete partidas

O Infante D. Pedro das “Sete Partidas”. Parte 1. Vida e Obra: «Em Veneza, o maior centro económico do século XV, visitou os arsenais, informou-se sobre o comércio oriental, adquiriu o livro de Marco Pólo, com notícias da China e das suas riquezas, e provavelmente um mapa-mundi com o traçado das rotas comerciais com o Oriente»

 
 
Pranto pelo infante dom Pedro das sete partidas:
 
Nunca choraremos bastante nem com pranto
Assaz amargo e forte
Aquele que fundou glória e grandeza
E recebeu em paga insulto e morte.
 
Sophia de Mello Breyner Andresen, 1961.
 
 

Cortesia de historiaportugal 
 
Vida e Obra
«O infante D. Pedro é, para muitos historiadores, uma personalidade axial da história portuguesa. Personalidade axial mas mal tratada: caído em desgraça, a sua memória foi deliberadamente apagada ou distorcida. Não recebeu só «insulto e morte», recebeu também esquecimento. Só nos séculos XIX e XX a sua figura e actuação política foram reavaliadas e historicamente valorizadas, ainda que continue a ser, por vezes, “julgado à luz de sectarismos ineptos”, impossibilitadores de um julgamento justo.
 
O Infante, quarto filho do rei D. João I e da rainha D. Filipa de Lencastre, nasceu em Lisboa, a 9 de Dezembro de 1392. Da sua educação sabemos que foi muito dedicado ao estudo desde a infância e versado em ciências e letras. Participou nos preparativos para a conquista de Ceuta, tendo presidido ao levantamento das tropas na região de Lisboa e Sul do país, e comandou um dos corpos militares que conquistaram a referida cidade em 1415.
Nesta data foi nomeado Duque de Coimbra, tendo-lhe sido atribuídas terras e povoações na região do Baixo Mondego e a faixa litoral até Aveiro. Entre 1425 e 1428 viajou pela Europa, visitando os grandes centros políticos, económicos e culturais de então (Londres, Bruges, Veneza, Roma), a Alemanha, a Hungria e a Espanha.
Pessoa esclarecida e atenta às necessidades do país, aproveitou o contacto internacional para se actualizar, dinamizar as relações económicas com a Flandres, recolher informações e propor soluções inovadoras para os problemas nacionais. Neste sentido, escreveu ao irmão, o futuro rei D. Duarte, uma notável carta, a carta de Bruges (1526), em que sugere um conjunto de reformas para solucionar os problemas da sociedade portuguesa de então. Em Veneza, o maior centro económico do século XV, visitou os arsenais, informou-se sobre o comércio oriental, adquiriu o livro de Marco Pólo, com notícias da China e das suas riquezas, e provavelmente um mapa-mundi com o traçado das rotas comerciais com o Oriente. Destas suas viagens ficou-lhe o cognome de “Infante das Sete Partidas”.
 
Entre 1429 e 1439 fixou-se no seu ducado, dedicando-se ao desenvolvimento económico e social das terras e habitantes. Durante este período impulsionou a tradução para português de diversas obras de autores latinos, tendo ele próprio traduzido e adaptado algumas e finalizou, com a colaboração de Frei João Verba, a composição do livro “Da Virtuosa Benfeitoria”. Esta obra é uma importante por dois motivos:
Não se conhece ao certo nenhum retrato do Infante D. Pedro,
ainda que ele esteja representado nos Painéis de S. Vicente,
possivelmente na figura que se apresenta, do Painel dos Cavaleiros,
dada a congruência com a sua descrição física directa.
Cortesia de paineis 
 
  • O infante foi não só o primeiro autor de prosa doutrinal em língua portuguesa;
  • como também um dos criadores da própria língua, pela maneira como escreve e pelos vocábulos novos que utiliza, de origem latina e grega.
Por exemplo, é o primeiro autor a usar a palavra “poesia”, dando dela uma definição magistral, «poesia é mais sabor do que saber». Como homem de cultura há ainda a mencionar três outros aspectos:
  • o impulso que deu, quando Regente, à continuação das obras do Mosteiro da Batalha,
  • a chamada do primeiros humanistas italianos a Portugal, como Mateus Pisano, para servir de professor ao futuro rei,
  • o apoio à escultura e pintura, com destaque para os pintores Afonso Gonçalves e João Gonçalves (este último, autor das pinturas do claustro da abadia de Florença).
Em 1436, numa intervenção fortemente critica no Conselho Real, bem demonstrativa da sua lucidez e visão política, tentou contrariar a conquista de Tânger e a expansão em Marrocos, considerando-a como ruinosa para os recursos do país. Já antes, na Carta de Bruges, analisara a questão de Ceuta em termos de «muy bom sumidouro de gente da vossa terra e de armas e de dinheiro». Mais tarde, como Regente, não abandonará Ceuta; mas também não dará qualquer seguimento a conquistas em Marrocos.
Na sequência da morte prematura do rei D. Duarte (1438), e sendo menor o futuro rei Afonso V, a rainha D. Leonor assumiu as funções de regente do reino com o apoio da grande nobreza senhorial. Mas esta regência foi contestada particularmente pelos povos dos concelhos, com Lisboa e o Porto à frente do movimento. Gerou-se um clima de tensão política de que resultou o Infante D. Pedro ter sido aclamado Regente do reino nas cortes de Lisboa de 1439 com o apoio expresso dos concelhos e em detrimento dos interesses do partido da grande nobreza que apoiava a rainha viúva.
A regência de D. Pedro (1439-48) tem sido objecto de discussão e de interpretações contraditórias pelos historiadores: ora é vista, maioritariamente, como um período de centralização do poder real, ora, minoritariamente, como um período de afirmação senhorial.
 
Sem exageros extremados, deve considerar-se que D. Pedro esteve simplesmente entre dois tempos, o da nobreza tradicional e o da emergente burguesia urbana; que tinha consciência da precariedade da sua situação e que procurou manter o equilíbrio possível entre os interesses opostos dos diversos grupos sociais. Globalmente a sua regência pode ser caracterizada pelos seguintes aspectos:
  • Inicialmente, grande atenção à defesa militar do reino, para resistência a possível tentativa de invasão por parte de reino de Castela em apoio a D. Leonor. Defesa militar acompanhada de actuação diplomática no mesmo sentido;
  • Dotação do país com um ordenamento jurídico-administrativo coerente, o que foi concretizado com a finalização e publicação das Ordenações Afonsinas, em 1446, o primeiro código sistemático das leis nacionais;
  • Política de satisfação dos interesses/direitos das classes populares dos concelhos, garantindo a sua independência e liberdade frente à nobreza e abolindo ou limitando o direito de aposentadoria, contrabalançada com algumas concessões pontuais à grande nobreza senhorial para tentar neutralizar a sua oposição;
  • Reforma da Universidade, que dotou com receitas próprias, com o objectivo da formação apropriada do clero e da magistratura, os quadros dirigentes da vida pública do país; inclusivamente, criou em Coimbra uns Estudos Gerais, paralelos aos de Lisboa, projecto gorado após a sua morte;
  • Alteração da política expansionista, orientando-a deliberadamente para a descoberta da costa africana e sua exploração comercial e para a colonização das ilhas atlânticas, em detrimento das conquistas africanas.
Este novo rumo da expansão concretizou-se nomeadamente na exploração de cerca de 198 léguas da costa africana, desde o Rio do Ouro até à Guiné; na concessão ao Infante D. Henrique de direitos monopolistas sobre a navegação e comércio das terras africanas a sul do Cabo Bojador; no desenvolvimento das relações comerciais com a costa africana, fonte de mão-de-obra escrava e de ouro; na construção da feitoria de Arguim e no incentivo à participação de particulares nas actividades expansionistas.
O próprio D. Pedro participou directamente nas descobertas armando navios seus para o efeito e tomando a seu cargo a colonização da maior ilha dos Açores, a de São Miguel (4)». In José Ermitão Wikipédia.


publicado por pimentaeouro às 21:31
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Domingo, 2 de Novembro de 2014
Grupo O Leão

 

O Grupo do Leão foi uma tertúlia de artistas portugueses que se reunia na Cervejaria Leão de Ouro em Lisboa, entre 1881 e 1889. O grupo contava com jovens artistas que viriam a destacar-se como Silva Porto, José Malhoa e os irmãos Rafael e Columbano Bordalo Pinheiro, sendo responsável pela divulgação e pelo sucesso da pintura doNaturalismo em Portugal. Em 1885 o "Grupo do Leão" foi imortalizado num óleo sobre tela com o mesmo nome, da autoria do pintor Columbano Bordalo Pinheiro.

 O Grupo do Leão era constituído por artistas que se reuniam na Cervejaria Leão de Ouro em Lisboa, dinamizados pelo pintor Silva Porto, então regressado de Paris e professor na Escola de Belas Artes de Lisboa. Reunindo amigos, admiradores e discípulos, foi responsável pela organização de várias exposições, que contribuíram para o enorme sucesso da pintura do Naturalismo em Portugal.

As oito exposições efectuadas foram marcantes e muito visitadas, tendo inclusive o rei D. Fernando II adquirido obras do grupo, o que era garantia de êxito. A ruptura com o panorama artístico vigente era evidente. Executavam-se pequenas telas com temas do quotidiano, dando particular atenção à vida nos campos, em cenas repletas de luz e com grande liberdade de representação. O grupo tornou-se uma espécie de "vanguarda", considerando-se moderno, como ficou bem claro no nome "Exposição de Quadros Modernos" atribuído a uma das primeiras mostras realizadas. Curiosamente na época viam-se como realistas, mas o Portugal pacato, de brandos costumes, sem a industrialização francesa só poderia estar na origem de obras naturalistas. Em 1885 os membros do grupo propuseram-se decorar a cervejaria, que ia entrar em obras, com o apoio do proprietário, executando pinturas naturalistas propositadamente para o local, contribuindo para a popularização do novo estilo e do estabelecimento. A actividade do grupo manteve-se regular até 1888, ano da realização da última exposição.

 



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Domingo, 23 de Março de 2014
Vidas

s anos difíceis da infância em Nijni Nóvgorod

Gorki nasceu em um meio social pobre, em Nizhny Novgorod, cidade que em 1932 passou a se chamar Gorki por ordem de Stalin. O nome da cidade foi revertido para o nome original em 1991. Órfão de pai foi criado pelo avô materno que era tintureiro. Em 1878 quando sua mãe faleceu teve que deixar a casa do avô para ir trabalhar. Foi sapateiro, desenhista, lavador de pratos num navio que percorria o Volga, onde teve contato com alguns livros emprestados pelo cozinheiro, o que acabou despertando sua consciência política.

Os primeiros passos como escritor

Em 1883, com apenas 15 anos, publica dois romances, Romá Gordieiev e Os Três; aos 16 anos, muda-se paraKazan, onde tenta cursar gratuitamente a universidade, porém, não consegue e, frustrado, vai trabalhar como vigia num teatro para sobreviver. Mais tarde torna-se pescador no mar Cáspio e vendedor de frutas em Astrakan. Como a situação não melhorava, decide ir em busca de melhores oportunidades, e viaja para Odessa com um grupo de marginais nômades que iam de cidade em cidade à procura de emprego. Assim, ele exerce várias profissões, sofre com a miséria, a fome e o frio. Aos 19 anos volta a morar em Kazan, onde, desesperado com a situação e sem vontade de continuar vivendo, tenta o suicídio com um tiro, o qual atinge um dos pulmões, mas sobrevive e para piorar mais a situação, adquire tuberculose. Mas essa experiência fatídica resultará anos depois em dois escritos:Um incidente na vida de Makar, escrito em 1892, e, Como aprendi a escrever, publicado, muito mais tarde, em 1912.

A iniciação ao comunismo

A partir da frustrada tentativa contra sua vida, engaja-se na vida política, lê Marx e segue os passos de Lênin. Em 1890 é preso em Nijni-Nóvgorod, acusado de exercer atividades subversivas; pouco tempo depois, foi posto em liberdade e volta a viajar sem destino acompanhado de indigentes miseráveis.

Publica seu primeiro conto em 1892, intitulado Makar Tchudra, e, para desviar a atenção das autoridades, que o vigiavam, adota o pseudônimo Máximo Gorki, o que lhe facilitou um emprego no jornal de Samara, o Saramarskaia Gazieta. Assim, consegue grande alcance, tanto como jornalista quanto como escritor. Logo a seguir, Gorki aderiu novamente ao marxismo e militou em inúmeros grupos revolucionários, o que lhe resultou em mais uma temporada na prisão.

O primeiro grande sucesso

Após sair da prisão em 1901, começa a escrever para teatro, escreve Pequenos Burgueses, peça teatral, a qual, segundo críticos atuais, se Gorki escrevesse hoje, não mudaria uma única palavra. O texto foi concebido em 1900, quando ainda se encontrava preso, e Gorki trabalhou algum tempo na peça, até que ela atingisse uma forma satisfatória. No início tinha o título de: Cenas em Casa dos Bessemov, Esboço Dramático em Quatro Atos. Na verdade, a peça não segue uma linha de ação única, mas é antes um mosaico de situações e personagens representativas da vida russa da época. As personagens de Pequenos Burgueses vivem num meio mesquinho, revelando-se quase sempre impotentes para vencer as barreiras desse meio. A impotência, em vários níveis, é o único elemento comum a todas elas. Cada um por seus motivos não consegue romper o asfixiante círculo familiar. A peça mostra o conflito entre os membros de uma família de comerciantes, dominada pela figura do pai autoritário que reprime os impulsos do filho intelectual e da filha deprimida. O único insurgente é o filho adotivo, o ferroviário Nill, que Gorki elege como uma espécie de operário do ano, isto é, um herói que vai conduzir a Rússia à revolução.

Ainda em 1901, em julho, escreve Ralé, peça em que a fala é menos pronunciável e os gestos reconstituídos que o intangível fluxo de almas humanas no interminável e escorregadio contato de uma com as outras. A peça reúne suas cambiantes sobre um foco definido e sua conclusão tem uma firmeza clássica. Em 1902 acontece a estréia de Pequenos Burgueses no Teatro de Arte de Moscou, e a peça obtém um grande sucesso, mesmo com os cortes impostos pela censura.

Novamente a prisão

Toma parte, em 1905, na primeira revolução que pretendia derrubar o Czar Nicolau II da Rússia, e após o fracasso da intentona, acabou preso por subversão na cadeia de São Pedro e São Paulo, em São Petersburgo. No ano seguinte, porém, com a ajuda de outros intelectuais e sob fortíssima pressão da comunidade internacional, as autoridades russas foram obrigadas a libertá-lo. Organiza, a seguir, o jornal Nóvaia Jizni (Vida Nova), mas é obrigado a abandonar a Rússia.

Anos de exílio

1906

Vai para os Estados Unidos, mas sua permanência é dificultada pelo embaixador russo, e, é vigiado pelo dono de um jornal de grande alcance, que o acusa de imoralidade pública já que ele se casara pela terceira vez. Juntamente com sua mulher Maria Budberg, se refugia em Staten Island, viaja então para a Itália e, em 1906 fixa sua residência em Capri, onde cria uma escola para imigrantes revolucionários que vai até 1914. Lá, escreve em 1906, Os Bárbaros, a peça de teatro, Os Inimigos, e o romanceMãe em 1907.

Durante esse tempo de tranqüilidade em Capri escreve, Os Últimos em 1908, Gente Esquisita em 1910, Vassa Alheleznova em 1911, Os Kykov em 1912, e a trilogia autobiográfica: Infância', Ganhando meu pão e Minhas Universidades em 1912-13. Mas a sua obra-prima seria mesmo A Confissão, escrita em 1908.

A volta à Rússia

Com o início da Grande Guerra em 1914, Gorki retorna a Rússia, dirige um jornal mensal Liétopis (crônica). Acompanha a revolução sem entretanto ir ao front, e torna-se grande amigo de Lênin.

Em 1921 adoece gravemente dos pulmões e volta para a Itália, em busca de um clima melhor, permanecendo em Sorrento durante vários anos. Ali escreve Recordações sobre Lênin em 1924, Os Artamonov em 1925 e A vida de Klim Samgin em 1927-36. Apesar de sua amizade com Lênin, o escritor só retornou definitivamente à Rússia em 1928, quando então, Gorki decide estabelecer-se definitivamente na União Soviética, apesar de sua saúde precária, transformando-se de imediato na maior figura literária do regime comunista.

Escreve então Yegor Bolychov, retratando o fim da classe média por meio da história de um comerciante. Em 1933, funda com o apoio de Stálin, o Instituto de Literatura Máximo Gorki, uma incrível iniciativa de um célebre escritor, que não chegara a terminar o ensino secundário e sempre sonhara em tirar um curso superior.

O fim

Ainda estava escrevendo A vida de Klim Samgin, quando morreu de pneumonia, em 18 de junho de 1936. Foi sepultado com todas as honras oficiais e seu féretro acompanhado por Stálin e Molotov. Entretanto, em 1938, Leon Trótski, tenta com o artigo Quatro médicos que sabiam demais, escrito para o New York Times acusar Stálin de ter envenenado Gorki.

O legado de Gorki

Há em Gorki a força do natural e a beleza do espontâneo, que tanto fascinam, em nossa busca de legitimidade. Há também a transfiguração da realidade, o surrealismo da fuga ao legítimo, que é uma espécie de descanso do espírito, no seu enquadramento real.

O que a vida e a obra de Górki mostram não é o revolucionário perigoso que, segundo os seus adversários, teria envenenado o mundo através da literatura, mas o homem em que a memória, marcada pela lembrança das agruras sofridas e das injustiças presenciadas, anseia pela transfiguração do mundo.

A obra de Gorki centra-se no submundo russo. O ficcionista registrou com vigor e emoção personagens que integravam as classes excluídas: operários, vagabundos, prostitutas, gente humilde, homens e mulheres do povo. Autores realistas e naturalistas já tinham incorporado estes setores sociais à literatura, mas olhavam para os pobres de fora, apenas com piedade ou com frieza. Gorki, ao contrário, conhecia aquele universo por dentro – ele próprio era um desses desvalidos – e soube captar o que havia de mais profundo na alma do povo russo. Daí a impressão de autenticidade que suas obras nos transmitem.

Sem dúvida, ele foi o criador da chamada literatura proletária que teve seguidores no mundo inteiro em sua época. Mesmo que o mundo resolvesse suas diferenças e corrigisse as injustiças sociais, ainda assim faltaria o último toque, aquele toque que construiu o templo literário de Gorki, resistente às manobras ideológicas e imunes à ação do tempo.



publicado por pimentaeouro às 10:22
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