Conhece-te a ti mesmo... se puderes.

Sábado, 18 de Novembro de 2017
Avesso dos Lusíadas #3

Repercussões sociais da expansão

 

Nenhum escritor descreveu as consequências sociais da

expansão com tanta clarividência como Gil Vicente. O motivo

por que uma afirmação como esta pode, ainda hoje, causar

estranheza está no facto de nos terem ensinado a ver apenas

um espirituoso inventor de comédias num escritor que foi

também um corajoso pensador social. O auto-retrato que ele

nos legou no prólogo da Floresta de Enganos (texto que,

inexplicavelmente, tem passado despercebido) não foi o de um

alegre cómico, mas o de um filósofo perseguido pelas suas

ideias e amordaçado pela néscia intolerância dos seus

contemporâneos.

 

A análise das contradições e conflitos que agitavam a

sociedade portuguesa decorridos trinta e cinco anos sobre a

descoberta do caminho marítimo para a índia é o tema de

uma peça representada em Évora em 1533: a Romagem dos

Agravados, isto é, o desfile dos que estavam descontentes

com o tempo em que viviam. Esse texto é, ainda hoje, o mais

lúcido estudo de que se dispõe sobre a sociedade portuguesa

dos meados do século XVI.

 

O desfile faz-se perante Frei Paço, que preside. É frei

porque pertence à Igreja, é paço porque pertence ao governo,

mas as duas qualidades confundem-se: «o paço, em frade

tornado, não é frade nem é paço», diz a peça. Domesticada a

nobreza, desaparecida a alta burguesia, a influência política

do clero era cada vez maior; o poder religioso confundia-se

com o poder civil. Uns meses antes da representação tinha

D. João III criado a Mesa da Consciência e Ordens, à qual

passava competir a decisão dos assuntos que «tocassem à

consciência» do rei, isto é, das questões mais melindrosas da

governação. E quem a dirigia eram prelados.

 

Os personagens vêm dois a dois, e cada par simboliza

uma classe social. A primeira a aparecer é o proletariado

campesino: um cavador acompanhado pelo filho. A imagem

do cavador no século XV I é menos risonha do que a do

século XIX. Não se chama Zé-Povinho, chama-se João Morteira,

João da morte. O filho é Sebastião, nome de mártir. É

a ideia de morte a que Gil Vicente sempre liga à vida do

trabalhador da terra: «sempre é morto quem do arado há-de

viver»; «nós somos vida das gentes e morte das nossas vidas»;

«se o nascer foi um momento, porque morro em tantos dias

padecendo?». Era uma classe que agonizava. Em 1521, uma fome

terrível assolou os campos, tendo morrido pelos caminhos muitos

camponeses que tentavam chegar a Lisboa.

A carne, base da alimentação durante a Idade Média, era agora

rara; em 1580, dois estrangeiros que viajam por Portugal

surpreendem-se da pobreza da alimentação popular: sardinha

salgada e pão escuro. A riqueza ultramarina não chegava ao

campo, mas as suas consequências repercutiam nele.

 

Os proprietários, do clero ou da nobreza, faziam pressão para

obter cada vez mais de um solo que produzia cada vez menos,

porque a quantidade dos gados e portanto dos estrumes

diminuía, porque os braços fugiam sob o impulso de um

estímulo duplo: a recusa da miséria e a cobiça da fartura que

a cidade parecia oferecer.

 A luta por um salário melhor já não era possível, porque um

trabalho igual ao do cavador aldeão podia ser prestado pelo

escravo negro; mais ou menos

por esta altura (em 1541), Damião de Góis calculava que

entravam anualmente em Portugal dez a doze mil escravos

africanos. E tudo isso está por detrás da figura dramática de

João Morteira: «Eu trabalho até que caio!» «Eu sou pobre

como um cão!» Já só tem uma esperança: que ao menos o

filho possa ter uma vida melhor.

 Quer, para isso, encaminhá-lo para a Igreja; não é, explica,

uma questão de devoção; é para que possa viver um pouco

mais folgado. Mas nem isso consegue, porque Frei Paço, que

examina o rapaz, não o deixa passar no exame.

 

Também a aspiração do cavador é característica da

época. A Igreja era um caminho para fugir à miséria ou para

a evitar. Filhos de camponeses, filhos segundos de nobres,

ordens religiosas. Elas eram um dos três caminhos possíveis:

«Quem quiser medrar, Igreja, Casa Real ou mar», dizia a

sabedoria do povo. A alternativa era entre a religião, o

serviço do paço ou de algum nobre ligado ao paço, ou a

emigração. Essa procura conduziu, durante o século XVI, à

hipertrofia do pessoal da Igreja; subiu o número de ordens

religiosas, subiu o número de conventos de cada ordem (o

total passou de duzentos para o dobro). Mas a Igreja só

marginalmente participou da riqueza dos descobrimentos; era

fundamentalmente da renda da terra que vivia. Não explorava

directamente os solos, mas recolhia o dízimo de toda a

produção (isso vinha já do século XII I e a instituição da

décima de Deus fora então a forma pela qual a Igreja se

defendera da subida do custo e do nível da vida) e recebia as

rendas dos pequenos empresários rendeiros e enfiteutas, que

formavam a classe média rural.

 

A crise da classe média rural é denunciada no auto pelo

lavrador Aparicianes, que vem acompanhado pela filha:

«Porém eu, que estou no meio, vivo mais desesperado.» Está

no meio porque a sociedade rural se articula em três níveis:

senhores, lavradores, servidores. Os senhores mostram-se

agora mais exigentes na cobrança dos seus quinhões, os servidores

fogem dos campos e os lavradores empobrecem. Este

queixa-se de que traz de renda dois casais que pertencem aos

frades; o temporal desbaratou as sementeiras e ele foi pedir

que lhe esperassem um pouco pela entrega da renda. Mas os

frades responderam que a espera não era a sua divisa. A

palavra espera tinha então o sentido duplo de moratória e de

esfera; e esta última era a divisa de D. Manuel e simbolizava

a riqueza planetária dos descobrimentos. É esse o sentido da

resposta dos frades: estão fora da esfera, não podem esperar.

E obrigaram-no a pagar a bem ou a mal: penhoraram-lhe o

lar, e nem os lençóis escaparam. E o lavrador queixa-se e

lembra com saudade o tempo em que cantava alegremente à

frente dos seus bois, sem sentir o peso da fadiga. Agora não

canta, porque está pobre e «a pobreza e a alegria nunca

dormem numa cama».

 

A destruição da classe média rural era consequência

directa das novas condições de vida do País e não resultava

só da severidade dos proprietários na cobrança da renda e da

fuga dos trabalhadores. Pouco a pouco, as quintas e os casais

que andavam nas mãos dos lavradores passavam à posse dos

nobres, funcionários e aventureiros regressados da índia, porque

a terra foi o único género de investimento dessas economias.

O Português entendia que só a terra oferecia segurança.

Um nobre sentencia nas suas trovas: «Segundo se diz, e eu

avento, de ter coisa sem raiz não se faça fundamento», isto é,

segundo se diz e eu também penso, só a posse da terra é um

investimento seguro. Ele referia-se aos perigos dos negócios de

gado, mas a ideia alargava-se a todo e qualquer negócio com

alguma margem de risco. Um texto de 1608 mostra que, em

plena crise, o ramo de oliveira, o palmo da terra, era considerado

«o último refúgio: «Domina este reino uma certa constelação que

faz os homens incapazes de receber o bom conselho; e assim, eu

profetizo uma grande ruína, e será ditoso o

que tiver um pé de oliveira a que se abraçar!»

Mas esse pé de oliveira já existia antes de o torna-viagem

o comprar. O pão, o vinho, o azeite, não aumentavam pelo

facto de o título da propriedade ou a iniciativa da exploração

estarem a cargo do lavrador plebeu ou do proprietário ido da

cidade, enriquecido com a canela ou a pimenta, e que passava

a viver do rendimento rústico. O número de explorações nas

mãos da classe média é que diminuía. Os novos donos são

dons; muitos não o são por nascimento, mas exigem que lho

chamem, ou pelo menos comportam-se como se o fossem. A

antiga sociedade rural, que se hierarquizava na base das

funções, é substituída por uma outra com base na exterioridade

e no tratamento: de um lado os senhores e as donas, por

outro os homens e as mulheres. Homem passa então a ter

sentido de trabalhador rural; ser tratada por dona é o objectivo

de toda a mulher. Mas a passagem dessa fronteira social

é impossível a quem fique agarrado à enxada. O passaporte

obtém-se na cidade. Aparicianes sabe isso muito bem. Do

mesmo modo que o cavador quis que o filho fosse clérigo, ele

qer que a filha seja dona:

 

É da serra da Lousã,

moça de mui boa fama.

Trago-a cá para ser dama,

quero que seja paçã.

 

 

Para isso já lhe comprou perfumes importados de Génova

e vem confiá-la às lições corruptoras de Frei Paço, que a

moça aprende muito depressa. Muitas mulheres, seguindo esse

mesmo caminho, chegaram a damas e alimentaram a prostituição

de Lisboa no século XVI . O nome que Camões lhes

dava era o de damas de aluguer.

 

A desagregação da classe média urbana é revelada no

auto sob a forma de um conflito entre dois grupos sociais de

características bem diferentes, mas que ainda hoje andam

confundidas sob a mesma designação de classe média: uma

classe média autêntica, porque enraizava no trabalho e se

situava ao nível social correspondente a uma verdadeira situação

económica, e uma classe média fictícia e parasitária,

baseada na aparência e que vivia à custa das classes produtivas.

Ter distinguido entre os dois grupos e definido a relação

que existia entre eles é uma novidade de Gil Vicente.

 

Duas regateiras, que vivem do abastecimento da cidade,

têm uma sobrinha para casar. São quase ricas, visto que a

rapariga tem de seu um conto de réis. Aspirava por isso a um

casamento numa classe social mais elevada: a deslocação de

todas as classes no sentido do vértice da pirâmide é uma dás

características da época Apareceu-lhe um moço que se diz

empregado na câmara de el-rei. Tem boas maneiras («tão

doce! tão cucarento!») e exibe as provas da sua posição de

funcionário do paço: o alvará de filhamento e de acrescentamento,

portanto de primeira nomeação e de promoção.

 Perante esse argumento decisivo, o casamento faz-se. Mas afinal

o alvará era falso. O rapaz era um vadio sem eira nem beira, que

apenas queria viver com o dinheiro da mulher. Pertence à classe

média fictícia, que vive, como um cogumelo, à custa da verdadeira

e que acabará por formar uma classe com características próprias

: ociosa, pobretana, pedinchona de empregos, dependente dos

grandes, servil em relação a quem quer que tenha o poder.

De todo o País milhares de jovens afluem

à corte, cantam trovas, tangem a guitarra, fingem de escudeiros

e morrem de fome até que encontrem senhor que os tome

a seu serviço ou mulher rica que os sustente. Das várias

sátiras que ficaram desse tipo de aprendiz de fidalgo, nenhuma

alude ao trabalho. Um clérigo que por essa altura

estava em Évora e que viera do Brabante, onde o trabalho

era a vida de toda a gente, surpreende-se com o que vê em

Portugal e escreve: «Esta gente prefere ter de suportar tudo a

ter de aprender algum ofício.» Mas também isso se relacionava

com a economia dos descobrimentos. O Estado, subitamente

enriquecido, pudera multiplicar a sua clientela. Dos

duzentos cortesãos do tempo de D. João I I passou-se a

quatro mil no tempo de D. Manuel, e a proporção deve ter

sido a mesma nas casas dos grandes senhores. Quem tivesse

qualidades, desembaraço, ou pelo menos padrinhos, não precisava

de trabalhar, e portanto trabalhar significava que não se tinha disso.

Era uma desqualificação. Trabalhar com o

corpo era o que faziam os Negros e os Mouros; frases do tipo

«0 trabalho é bom para o preto» e «Quem não tem padrinhos

morre mouro» entraram por essa altura na linguagem.

 

A nova estrutura do Estado estava na origem da onda do

parasitismo. Gil Vicente dava-se perfeitamente conta disso.

Depois de uma admirável cena de suspense, em que vai

enunciando como suspeitos do crime de falsificação todos os

altos funcionários régios que assistiam ao espectáculo, acaba

»r descobrir a verdade: o falsificador foi o próprio Frei Paço,

Foi o paco-frade, foi o sistema vicioso que tomava possível

ssa proliferação das classe ociosas à custa das que

prododuziam.

 

A análise vicentina incluiu muitos outros aspectos: a

nobrza riquíssima e fútil, a recitar versozinhos e a fazer

pressão sobre o paço para que lhe suba as rendas já enormes,

do clero que cobiça os bispados novos das ilhas, as freiras que

deploram a confusão deste tempo em que ninguém está

contente com a sua sorte. Mais do que os pormenores, é a

ideia geral que se deve apreender, porque ela exprime as

consequências sociais da economia da expansão: um Estado

rico numa nação pobre, onde a riqueza vinda de fora quebrava

a coluna vertebral do trabalho interno e provocava o

crescimento de uma falsa classe média que nada fazia e que,

como uma corcunda enorme, ia crescendo à custa do resto do

corpo do País e atrofiando com o seu peso as classes produtivas

 que já quase se limitam aos camponeses.

 

A vida de Gil Vicente serve de bom exemplo à evolução

que ele descreve. Homem do povo, mesteiral de profissão,

oi atraído pela actividade da corte e, no princípio do sé

culo XVI , trabalha como ourives da rainha viúva. A corte

aumentou; numa constante festa, precisa de espectáculos. 0

antigo mesteiral larga então as ferramentas do ofício e faz-se

funcionário. Recebe um ordenado para fazer «os autos del-

rei». É um intelectual remunerado e a partir desse momento

a sua vida reflecte uma outra evolução: a da cultura. A

linguagem que ele usa é plebeia, livre, saborosa. Diz tudo o

que pensa sem papas na língua. No tempo de D. Manuel, o

rei e a corte ouvem, riem, gostam. Mas no reinado seguinte

começa a haver quem não ria. Ante tanta liberdade, os

teólogos já franzem o sobrolho. No mesmo ano em que o rei

pediu em Roma o estabelecimento da Inquisição com o

pretexto, entre outros, de que a heresia luterana já tocara

Portugal, um embaixador português fez representar em Antuérpia,

na presença do legado do papa, um dos mais atrevidos

autos de Gil Vicente, precisamente o que tinha por tema

 

o assunto escaldante do tráfico das indulgências. Os teólogos

romanos indignaram-se e fizeram queixa ao papa. Não foi em

vão. O poeta teve um processo e expiou dois anos de castigo.

Ainda voltou à corte em 1536, e é nessa última representação

que nos dá o seu auto-retrato de pensador amordaçado. Mas

nesse ano começou a funcionar a Inquisição, e um silêncio

impenetrável desceu sobre Gil Vicente.

 

 

(José Hernamo Saraiva, História concisa de Portugal )

 

 



publicado por pimentaeouro às 12:42
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Quinta-feira, 6 de Julho de 2017
Caravelas $3

 

CARAVELAS.jpg

  

Não explorava directamente os solos, mas recolhia o dízimo de toda a

produção (isso vinha já do século XII I e a instituição da

décima de Deus fora então a forma pela qual a Igreja se

defendera da subida do custo e do nível da vida) e recebia as

rendas dos pequenos empresários rendeiros e enfiteutas, que

formavam a classe média rural.

 

A crise da classe média rural é denunciada no auto pelo

lavrador Aparicianes, que vem acompanhado pela filha:

«Porém eu, que estou no meio, vivo mais desesperado.» Está

no meio porque a sociedade rural se articula em três níveis:

senhores, lavradores, servidores. Os senhores mostram-se

agora mais exigentes na cobrança dos seus quinhões, os servidores

fogem dos campos e os lavradores empobrecem. Este

queixa-se de que traz de renda dois casais que pertencem aos

frades; o temporal desbaratou as sementeiras e ele foi pedir

que lhe esperassem um pouco pela entrega da renda. Mas os

frades responderam que a espera não era a sua divisa. A

palavra espera tinha então o sentido duplo de moratória e de

esfera; e esta última era a divisa de D. Manuel e simbolizava

a riqueza planetária dos descobrimentos. É esse o sentido da

resposta dos frades: estão fora da esfera, não podem esperar.

E obrigaram-no a pagar a bem ou a mal: penhoraram-lhe o

lar, e nem os lençóis escaparam. E o lavrador queixa-se e

lembra com saudade o tempo em que cantava alegremente à

frente dos seus bois, sem sentir o peso da fadiga. Agora não

canta, porque está pobre e «a pobreza e a alegria nunca

dormem numa cama».

 

A destruição da classe média rural era consequência

directa das novas condições de vida do País e não resultava

só da severidade dos proprietários na cobrança da renda e da

fuga dos trabalhadores. Pouco a pouco, as quintas e os casais

que andavam nas mãos dos lavradores passavam à posse dos

nobres, funcionários e aventureiros regressados da índia, porque

a terra foi o único género de investimento dessas economias.

O Português entendia que só a terra oferecia segurança.

Um nobre sentencia nas suas trovas: «Segundo se diz, e eu

avento, de ter coisa sem raiz não se faça fundamento», isto é,

segundo se diz e eu também penso, só a posse da terra é um

investimento seguro.

 

 



publicado por pimentaeouro às 18:06
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Segunda-feira, 26 de Junho de 2017
Caravelas #2

CARAVELAS.jpg

 

 

Em 1521, uma fome terrível assolou os campos, tendo morrido pelos caminhos muitos camponeses que tentavam chegar a Lisboa. A carne, base da alimentação durante a Idade Média, era agora rara; em 1580, dois estrangeiros que viajam por Portugal surpreendem-se da pobreza da alimentação popular: sardinha salgada e pão escuro.

A riqueza ultramarina não chegava ao campo, mas as suas consequências repercutiam nele. Os proprietários, do clero ou da nobreza, faziam pressão para obter cada vez mais de um solo que produzia cada vez menos, porque a quantidade dos gados e portanto dos estrumes diminuía, porque os braços fugiam sob o impulso de um estímulo duplo: a recusa da miséria e a cobiça da fartura que a cidade parecia oferecer.

 

 A luta por um salário melhor já não era possível, porque um trabalho igual ao do cavador aldeão podia ser prestado pelo escravo negro; mais ou menos por esta altura (em 1541), Damião de Góis calculava que entravam anualmente em Portugal dez a doze mil escravos

africanos. E tudo isso está por detrás da figura dramática de João Morteira: «Eu trabalho até que caio!» «Eu sou pobre como um cão!» Já só tem uma esperança: que ao menos o

filho possa ter uma vida melhor.

 Quer, para isso, encaminhá-lo para a Igreja; não é, explica, uma questão de devoção; é para que possa viver um pouco mais folgado. Mas nem isso consegue, porque Frei Paço, que examina o rapaz, não o deixa passar no exame. Também a aspiração do cavador é característica da época. A Igreja era um caminho para fugir à miséria ou para a evitar. Filhos de camponeses, filhos segundos de nobres, ordens religiosas.

Elas eram um dos três caminhos possíveis: «Quem quiser medrar, Igreja, Casa Real ou mar», dizia a sabedoria do povo. A alternativa era entre a religião, o serviço do paço ou de algum nobre ligado ao paço, ou a emigração. Essa procura conduziu, durante o século XVI, à hipertrofia do pessoal da Igreja; subiu o número de ordens religiosas, subiu o número de conventos de cada ordem (o total passou de duzentos para o dobro).

Mas a Igreja só marginalmente participou da riqueza dos descobrimento; era fundamentalmente da renda da terra que vivia.

 



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Domingo, 18 de Junho de 2017
Caravelas $1

CARAVELAS.jpg

Repercussões sociais da expansão

 

Nenhum escritor descreveu as consequências sociais da

expansão com tanta clarividência como Gil Vicente. O motivo

por que uma afirmação como esta pode, ainda hoje, causar

estranheza está no facto de nos terem ensinado a ver apenas

um espirituoso inventor de comédias num escritor que foi

também um corajoso pensador social. O auto-retrato que ele

nos legou no prólogo da Floresta de Enganos (texto que,

inexplicavelmente, tem passado despercebido) não foi o de um

alegre cómico, mas o de um filósofo perseguido pelas suas

ideias e amordaçado pela néscia intolerância dos seus

contemporâneos.

 

A análise das contradições e conflitos que agitavam a

sociedade portuguesa decorridos trinta e cinco anos sobre a

descoberta do caminho marítimo para a índia é o tema de

uma peça representada em Évora em 1533: a Romagem dos

Agravados, isto é, o desfile dos que estavam descontentes

com o tempo em que viviam. Esse texto é, ainda hoje, o mais

lúcido estudo de que se dispõe sobre a sociedade portuguesa

dos meados do século XVI.

 

O desfile faz-se perante Frei Paço, que preside. ´´E frei

porque pertence à Igreja, é paço porque pertence ao governo,

mas as duas qualidades confundem-se: «o paço, em frade

tornado, não é frade nem é paço», diz a peça. Domesticada a

nobreza, desaparecida a alta burguesia, a influência política

do clero era cada vez maior; o poder religioso confundia-se

com o poder civil. Uns meses antes da representação tinha

  1. João III criado a Mesa da Consciência e Ordens, à qual

passava competir a decisão dos assuntos que «tocassem à

consciência» do rei, isto é, das questões mais melindrosas da

governação. E quem a dirigia eram prelados.

 

Os personagens vêm dois a dois, e cada par simboliza

uma classe social. A primeira a aparecer é o proletariado

campesino: um cavador acompanhado pelo filho. A imagem

do cavador no século XV I é menos risonha do que a do

século XIX. Não se chama Zé-Povinho, chama-se João Morteira,

João da morte. O filho é Sebastião, nome de mártir. É

a ideia de morte a que Gil Vicente sempre liga à vida do

trabalhador da terra: «sempre é morto quem do arado há-de

viver»; «nós somos vida das gentes e morte das nossas vidas»;

«se o nascer foi um momento, porque morro em tantos dias

padecendo?». Era uma classe que agonizava.

 

 



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Sexta-feira, 10 de Junho de 2016
Corsários e Piratas

 

Navios com velas desfraldadas sulcando as ondas do mar prontos para combate, abordagens e assaltos violentos, vidas e acções entrecortadas por combates de artilharia e duelos de esgrima travados corpo a corpo, tudo em prol da disputa de fantásticas riquezas que circulava, naquelas paragens.

É este o cenário de “Corsários e Piratas Portugueses” que nos traz a história de homens como Vasco da Gama, Pedro Álvares Cabral, Afonso de Albuquerque e outras figuras, descobridores de novas terras, conquistadores de praças em nome da Coroa, cuja actividade corsária ao serviço de El-Rei é praticamente desconhecida.

 

Alexandra Pelúcia, Corsários e Piratas Portugueses, editora A esfera dos Livros



publicado por pimentaeouro às 23:10
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Terça-feira, 19 de Abril de 2016
Avesso dos Lusiadas
 

 

A faustosa embaixada de D. Manuel ao Papa já tinha sido realizada, o comércio e a pilhagem das especiarias estavam no auge, os armazéns do rei, D. João III, estavam a abarrotar de especiarias, o tráfico negreiro já ia de vento em popa mas ...

Nos anos de 1.521 a 1.523 havia epidemias no reino e morria-se de fome nos campos e nas estradas para Lisboa. A riqueza dos «fumos da Índia» era para uma reduzida minoria de cortesãos, fidalgos e mercadores, o país já começa a definhar e a perda da indepência estava apenas a 60 anos de distância.

Começava a marcha para a decadência que durou séculos.



publicado por pimentaeouro às 22:06
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Quinta-feira, 10 de Dezembro de 2015
A quinta avenida de Lisboa

A quinta avenida do século XVI ficava em Lisboa

Dois quadros descobertos em 2009 originaram um livro sobre Lisboa quinhentista e a Rua Nova dos Mercadores. Naquela artéria confluíam produtos do império e gentes de todo o mundo, transformando a capital portuguesa numa cidade global.

A obra tem como ponto de partida dois quadros descobertos em 2009, numa mansão inglesa, em Oxfordshire, datados entre a década de 1570 e 1620 por Annemarie Jordan Gschwend e Kate Lowe. Foram pintados por um artista holandês anónimo. Nas duas pinturas, estamos perante mais de uma centena de figuras humanas, que conversam, montam a cavalo, numa rua com uma fileira de edifícios em segundo plano. Há homens, mulheres, negros, brancos, cavalos, movimento e vestimentas apropriadas ao Outono ou ao Inverno.

Quando viram os quadros – que se pensa serem duas telas cortadas a partir de uma única pintura –, as historiadoras rapidamente determinaram que estavam perante a Rua Nova dos Mercadores, em Lisboa. É a partir desta malha visual que o livro é construído, indo buscar documentação oficial, testemunhos da época e objectos que sobreviveram até hoje para falar sobre a cidade global que Lisboa era no século XVI, as suas gentes, a sua cultura material em capítulos escritos por investigadores diferentes.

“É uma vista estranha, que nos mostra uma rua da qual nós realmente não conhecemos nada. Lisboa foi perdida em 1755. Foi como se tivesse caído uma bomba nuclear”, diz Annemarie Jordan Gschwend ao PÚBLICO, no início de Dezembro, quando esteve em Lisboa na apresentação do livro no Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA).

“Para mim, o que é interessante é a vida na rua. Lisboa tinha uma grande população negra. E o quadro não mostra apenas a população negra, mostra também os estrangeiros que ajudaram Lisboa a tornar-se a grande cidade comercial que era no século XVI. Os quadros também mostram animais. Há um cão que está a abocanhar uma ave. E é um peru. É uma ave que veio da América e que os portugueses tornaram numa ave global, levando-a para a Índia e para outras partes do mundo.”

Esta é apenas uma das imagens simbólicas encontradas entre os pormenores das pinturas. Para um especialista, há muita informação nos quadros sobre aquela cidade agora distante de nós, quando Portugal tinha um império construído durante os Descobrimentos, e um comércio único vindo do Oriente, de África e da América, passava obrigatoriamente por Lisboa. As interacções comerciais, a escravatura, o percurso dos produtos dentro da cidade para o rio Tejo, as relações entre portugueses e estrangeiros ou a arquitectura da rua são questões que podem começar a ser descortinadas a partir do que se vê naquelas duas telas, que funcionam como um díptico. 

“Os quadros são espantosos, mas também enigmáticos”, disse Henrique Leitão, historiador de ciência e Prémio Pessoa 2014, que fez a apresentação do livro no MNAA. “São completamente diferentes de todas as outras representações de Lisboa que dispomos, que, com pouquíssimas excepções, são vistas distantes e panorâmicas, a partir de um ponto de vista afastado.”

Mas os quadros da Rua Nova dos Mercadores não. “Tal como o quadro do Chafariz d’el Rey [de autor anónimo, datado entre 1570 e 1580, exposto no Centro Cultural de Belém], as pinturas representam uma cena viva e intensa que arrasta irreprimivelmente o observador para dentro dela. É impossível olhar para estes quadros sem que imediatamente se forme na mente uma torrente imensa de perguntas”, prosseguiu, enunciando-as: “Que rua é esta? Que cidade é esta? Que casas são estas? Mas, acima de tudo, quem é esta gente? E o que é que eles estão a fazer?”



publicado por pimentaeouro às 19:07
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Domingo, 7 de Junho de 2015
Pimenta e ouro #2

 

Remando contra a maré, já não sei escrever de outra maneira, insisto na defesa da minha dama, o lado negro dos descobrimentos; ainda hoje estamos a pagar a factura de dois séculos de estagnação, atraso e obscurantismo enquanto a Europa do Norte progredia, fazia a revolução cientifica e o iluminismo, conquistas únicas no mundo.  Os historiadores coevos de mil e quinhentos estavam divididos entre a cruz e a caldeirinha; quem encomendava obras de história queria a apologia dos grandes heróis do passado, das grandes façanhas da epopeia marítima, da grandeza dos reis e da magnificência da corte, os mitos; alguns historiadores viajados  por África e pela Índia – Império nem sombras, apenas fumos – sabiam que havia outra história de violência, barbaridade, crimes, roubos, corrupção, até ao mais alto nível dos vice-reis (vice-reis de terra nenhuma)  e da chusma de privados que pilhavam e saqueavam de conta própria.

Enquanto partiam caravelas para a Índia, no reino, pelos cantos, murmurava-se em surdina:

Perde a verdade a valia,

Anda corrida a rezão,

Cresce o dano e não se cura;

Todos gemem e nenhum fala,

Polos cantos se murmura.

Dizia Sá de Miranda e sabia o que escrevia. Dos historiadores que escreveram o que viram e ouviram dois pagaram a ousadia com a vida: Damião de Góis encerrado numa masmorra pela Santa Inquisição e Gaspar Correia assassinado em Malaca.

O clima da época e assim tratado por António Ferreira, que escrevia de olho posto nos delatores, muitos, e censores:

A medo vivo, a medo escrevo e falo,

Hei medo do que falo só comigo,

Mas inda a medo cuido, a medo calo.

Para terminar um trecho do prefácio do livro do Prof. Rodrigues Lapa,  “Historiadores Quinhentistas”:

 

«Quando saiu, em 1566, a l.a parte da Crónica de D. Manuel, foi um escândalo *e um alvoroço no Paço. 0 historiador, fiel à verdade ou àquilo que considerava como tal, tivera a coragem de aludir aos desmandos e traições da alta nobreza, aos excessos e devassidões do clero, às fraquezas da administração do rei. Os «preju­dicados», tendo à frente a poderosa casa de Bragança, promoveram a inutilização dessa primeira tiragem. O hon­rado cronista, contra quem já havia denúncias no Santo Ofício, sofreu a humilhação de ter de reformar o seu trabalho. Onde tinha traições, pôs agora, para contentar aqueles senhores, desaventuras. Na 3,a parte, fizera um elogio sóbrio do Infante D. Henrique, que aliás se mostrara até ali seu amigo. Foi «convidado» a reforçar os louvores, a considerar a neve que caíra por ocasião do seu nasci­mento como um propósito divino, enfim, a fazer-lhe um panegírico destemperado e uma defesa entusiástica da Inquisição.

Mas o historiador era de têmpera rija. Consentiu em corrigir factos, em adoçar uma ou outra expressão; em todo o caso, o substancial da sua narrativa e do seu juízo não sofreu alterações de maior. Lutou; às impugnações que lhe fizeram, em especial às do conde de Tentúgal, descendente dos duques de Bragança, apresentou réplica; de modo que a sua história, suavizada um pouco, desa­gradou ainda assim a muita gente. Era mister destruir o indivíduo que, naquela época de conveniências e cautelas, ousava dizer verdades. As denúncias à Inquisição surtiram  efeito. Ordenou-se-lhe processo, e aquele homem perigoso deixou de viver para o mundo.

Para Damião de Góis, a lei fundamental da História era «com verdade, dar a cada um o louvor ou repreensão»

 

… «Este carácter místico da verdade dá uma veemência revolucionária à obra de Gaspar Correia, que verbera sem complacência os abusos da governação portuguesa, cha­mando aos governadores «tiranos cobiçosos», denunciando àsperamente os roubos, mortes e adultérios dos capitães das fortalezas, e dando enfim o remédio para toda esta série de crimes que ninguém punia: o espectáculo justiceiro de um governador mandado degolar pelo rei em pleno cais de Goa! Nunca ninguém ousara dizer tanto. Não seria por isso de espantar, embora não esteja provado, que Gaspar Correia tivesse pago com a morte a soltura duma pena tão endiabrada. O documento publicado em 1891 por António Maria de Freitas sobre o assassínio de Correia em Malaca, por um grupo de malfeitores a soldo do capitão D. Estêvão, não merece inteira confiança nem foi visto ainda na Torre do Tombo, donde se diz tirado.»

  

É o meu contributo para as comemorações do Dia de Camões, da Raça, etc. e não sou obrigado a mais.

 



publicado por pimentaeouro às 12:01
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Quinta-feira, 14 de Maio de 2015
Pimenta e ouro

 

Tenho navegado contra a corrente pelas costas de África, India e Brasil mas nunca negociei nem pilhei, muito menos trafiquei escravos, mera curiosidade em perceber o que se passou, o que fizemos, quem somos. Deram-me a honra de navegar na minha nau mestre Damião de Gois e Lúcio de Azevedo.

Vi tudo ao contrário do que diz a História velha. Os historiadores de hoje já não contam mitos e lendas.

Os heróis de batalhas famosas foram muitas vezes vilões rapaces, guerreiros e ao mesmo tempo corsários de el Rei; o grande Albuquerque não fugiu à regra.

Terminada a guerra com os «infiéis», a velha nobreza e a nova criada pelo mestre de Avis, alguma burguesia também, queriam o mesmo: benesses, terras e honrarias.

A aventura começou mal com a conquista de Ceuta, uma pilhagem pura praticada por nobres e aventureiros de baixa condição, Zurara descreve a orgia do saque (Crónica da tomada de Ceuta);

“A conquista em terra inimiga, além do despojo imediato, devia representar para os vencedores porções de solo a dividir, alcaidarias rendosas, tributos novos a cobrar”, eis a alma das Descobertas!

De África há pouco para contar, excepto vários reveses, Alcácer Quibir um deles, e a ignomínia do monstruoso tráfico de escravos. O famoso Império da India não passou de uma fantasia, como os seus famosos «fumos».

Não vou alongar-me mais, dou a palavra a mestre  Damião:

  • Posso-o confirmar — disse eu. — Em Lisboa, na Casa da Contratação da índia os oficiais não têm tempo de contar o ouro que lhes devem dos tratos, mas o povo...
  • O pior é que o rei João, apesar dos avisos que lhe fazem alguns conselheiros mais avisados, parece querer seguir a maneira do pai e tapar o grande sorvedoiro com fazer moeda nova.
  • Aonde iremos parar?
  • Pergunta antes onde já nos atolámos. Tanto alarde de riqueza pelo mundo, a embaixada ao papa Leão, elefantes, rinocerotes, onças pérsias, pontificais de ouro... Olhai. Está quase pronto o pontifical que el-rei Emanuel me encomendou para a capela do Tosão de Ouro. Pobre rei. Tão vaidoso da sua riqueza! Não será ele a colher os lou­ros da oferta, mas o filho...
  • Que pontifical? — perguntei.
  • Tomou el-rei a ordem do Tosão, que lhe deu seu primo o impe­rador — disse João Brandão. — Escreveu-me que providenciasse a feitura de um pontifical para ser oferecido à capela daquela Ordem. Estão a acabar de lavrá-lo os melhores tecelães e bordadeiras que encontrámos em toda esta província, e em breve se apresentará na capela do Tosão, que está na Igreja do Sablon na vila de Bruxelas.
  • Peça acabada, sim senhora! Rico pano de ouro com seus sabastros borlados, as armas e insígnias do reino de Portugal, o mais bem obrado pontifical de quantos tenho visto, excepto o que el-rei mandou ao papa Leão por Tristão da Cunha...
  • E entretanto... — insistia o capitão-mor.
  • ... entretanto o povo morre de fome, de peste, de doenças.
  • A terra encontra-se A pouca que é amanhada, mouros o fazem. Tudo quer é ir às índias encher-se de ouro. Tirante alguns que ainda dão a vida pela pátria e outros que se consomem na pregação...
  • A mor fidalguia vive ociosa e o clero em grande soltura de viver. Queres ver o que é trabalhar, Damião? Olha em tua volta. Dentro de dias te aperceberás da diferença. Aqui não se vive de ar e vento.
  • Como se explicará então que, com tanta riqueza que nos vem do trato das especiarias e demais mercancias, haja no reino tanta penúria?
  • Cunhar moeda
  • Eu o vi de facto. A casa da moeda em Lisboa trabalha sem ces­sar para satisfazer as novas cunhagens de portugueses, de ouro e de prata, índios, cruzados, quartos de cruzados, tostões, meios tostões, reais de cobre...
  • Cunho novo — disse o capitão Diogo — faz sempre movimento. Sobem os preços, surge a míngua e a miséria. E fatal.
  • Recordo-me... tinha eu quinze anos... em quinhentos e dezassete acabara el-rei Emanuel de mandar cunhar os meios tostões de prata. Era a hora da sesta, a casa estava despejada e o duque Jaime de Bragança, seu sobrinho, veio falar-lhe. Não estava ali mais ninguém senão meu irmão Fruitos que o penteava e eu que segurava o bacio do penteador.
  • “Que te parece desta moeda, duque?” perguntou el-rei. “Muito mal” respondeu-lhe Jaime. “Moedas novas fazem mudança e carestia no preço de todas as coisas. Com esta que mandaste cunhar, por umas luvas que se vendiam por trinta réis pedem já meio tostão...”
  • Se fossem só luvas. E o pão?
  • ... que a maior peste e perdição de um reino, dizia ele, era fazer moedas novas. E tomai exemplo nas que fez el-rei Com elas destruiu o reino de maneira que nunca mais nele houve os tesouros que dantes os reis costumavam deixar a seus descendentes.
  • E agora o rei manda aos feitores da Flandres que comprem cá cereal para encher os estômagos e esvaziar as bolsas. A nossa misé­ria é muitas vezes tão grande como dias antes a riqueza.
  • Como se entenderão estas marés do tesouro? As grandes des­pesas com as naus da índia?
  • As raízes do mal cavam mais
  • As frequentes frotas custam muito dinheiro mas a carga de um ou dois navios cobre o preço de uma expedição inteira.
  • As causas são outras. El-rei Emanuel, para satisfazer a vontade da futura mulher, a princesa Isabel, filha dos reis de Castela...
  • Estava namorado.
  • Haviam expulsado os judeus e pediam a el-rei que fizesse o mesmo...
  • ... que se arruinasse...
  • E isso mesmo: que se arruinasse. Foi esse o resultado da expulsão de mais de duzentos mil judeus. Saíram do reino e levaram consigo, além do muito dinheiro que possuíam, o saber e a experiên­cia dos ofícios.
  • Pode suprir-se o metal, mas a tradição das artes mecânicas, o apego ao trabalho, os engenhos sutis e delicados, essas são coisas que não há nada que se coloque em seu lugar...
  • Não contente com isso, na Pascoela de quatrocentos e noventa e sete mandou roubar-lhes os filhos...
  • Ad maiorem Dei gloriam! — disse Diogo.
  • Os judeus, mudados em cristãos-novos, com direitos que até aí não tinham, deram em usureiros e, com a especial manha para o negócio que lhes é própria, exploraram a nossa preguiça e insuficiên­cia...
  • Olhai como arrendam os dízimos das igrejas e as novidades dos campos.
  • As riquezas chegadas a Lisboa nas naus da índia e do Brasil passam-nas eles aos portos da Europa.
  • Muitas destas coisas aconteciam, Damião, mal tu eras nascido.
  • De muito longe vem então o mal.
  • De muito longe.
  • O povo revoltava-se. Não faleceram a el-rei Emanuel bons conselhos, o remédio contra a carestia resultante do abandono dos campos em baldio, con­tra a usura vinda da nossa largueza e desperdício...
  • Compra-se demais. A mais vária casta de objectos, dos mais vulgares aos mais

 

 



publicado por pimentaeouro às 22:33
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Terça-feira, 19 de Agosto de 2014
Peregrinação

 

 

“Bendita seja, Senhor a tua paciência, que tanto sofre por haver gente na terra que fale tão bem de ti e use tão pouco a tua lei. Assim procedem estes cegos miseráveis que pensam que roubar e pregar te pode satisfazer como aos príncipes tiranos que reinam na terra”

 

 

“Peregrinação”, de Fernão Mendes Pinto

 



publicado por pimentaeouro às 22:19
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Quarta-feira, 25 de Junho de 2014
O MITO E A REALIDADE

 

 

Muitas nações possuem épicas fundadoras que exprimem a existência histórica da nação, onde o mito e a realidade se confundem. Normalmente são feitos guerreiros, lendas de heróis (Nibelungenlied, na Alemanha, Chanson de Roland na França ou baladas e contos como na Finlândia).

Nós temos, talvez mais do que uma: a da fundação da nacionalidade, com D. Afonso Henriques a dar uma tareia na mãe e a épica de Camões sobre os achamentos.

Faz hoje 517 que Vasco da Gama partiu do Restelo para descobrir o caminho marítimo para a Índia das especiarias e do ouro de que se gabava D. Manuel.

Perdura no nosso imaginário a aventura e a proeza das descobertas geográficas, fica em segundo plano ou são olvidados os objectivos centrais: a conquista e o saque de cidades, o comércio quando não se podia pilhar e a propagação da fé cristã. Entre a cruz e a espada, a espada tinha sempre a primazia.

No auge (breve) dos achamentos, D. Manuel auto intitulava-se Rei de Portugal, dos Algarves, d’Aquém e d’Além Mar em África, Senhor do Comércio, da Conquista e Navegação da Arábia, Pérsia e da Índia.

A ambição do programa está clara, os métodos usados para o atingir eram os usados na época, espadeirar, esquartejar e passar a fio de espada o que fosse preciso. Neste métodos, o próprio Vasco da Gama não se fez rogado e a ferocidade das façanhas era motivo de honra e recompensa real.

Em abono da verdade podemos dizer que fomos menos cruéis do que os espanhóis no Novo Mundo, mas cabe-nos a ignomínia de termos «industrializado» o comércio da escravatura que outros praticaram, cujas consequências históricas ainda hoje se fazem sentir.

Somado a tudo isto temos o despovoamento do reino e o retrocesso nas artes e ofícios porque a febre do ouro era colectiva: cada caravela era uma sociedade anónima onde todos participavam no lucro segundo a sua posição social.

Em terra, a Inquisição, em nome da fé, aperfeiçoou os métodos do saque e da pilhagem.

O Império foi sol de pouca dura e em menos de um século perdemos a independência. Depois da saída dos espanhóis a febre do ouro regressou e por escassas décadas a ambição concretizou-se nas minas do Brasil mas tudo se dissipou na forragem das vaidades e da vida airada.

As várias pragmáticas contra o luxo e ostentação não tiveram quaisquer resultados e os estrangeiros que nos visitavam achavam o nosso modo de vida extravagante.

Trabalho, esforço, sacrifício, persistência, cultura e ciência foram banidos dos hábitos indígenas. No final do século XIX, Antero de Quental em “Causas da Decadência dos Povos Peninsulares”, com pouco rigor histórico aborda o problema da nossa decadência, atribuindo-lhe três «espectros»: a influência do concilio de Tridente (Inquisição), o absolutismo monárquico e a expansão marítima.

Que a empresa de dar Novos Mundos ao Mundo foi um desastre nacional e o principal factor do nosso atraso civilizacional e económico é ponto assente para a historiografia moderna, mas ainda hoje celebramos a epopeia e esquecemos o reverso da medalha, como ficou visível nos desígnios da Expo 98.

Sem construção naval, sem marinha mercante e pesca, sem investigação nas disciplinas do mar, dedicámos a exposição… aos Oceanos. Salazar também utilizou os Lusíadas para propaganda do regime

É urgente tomarmos consciência que temos de mudar o nosso paradigma de «heróis do mar» e compreender que a pobreza de recursos naturais do nosso rectângulo só pode ser ultrapassa com muito trabalho, esforço e inteligência. O nosso pequeno mundo é ingrato e temos que lutar muito para o transformar.

 



publicado por pimentaeouro às 13:18
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Terça-feira, 10 de Junho de 2014
O reverso das descobertas #2

A minha celebração

 

Hoje celebro Camões o poeta lírico, não celebro o épico. Não sei quantos católicos lêem a Bíblia nem quantos portugueses terão lido os Lusíadas.

Acontece que a leitura do poema épico não é fácil. Diversos escritores tentaram elaborar versões didácticas dos Lusíadas mas creio que tiveram pouco êxito.

Salazar utilizou o  nacionalismo explicito do poema e a exaltação da nossa história, como uma saga de heróis, para legitimar a conservação do Império Colonial e converteu a homenagem ao poeta como o dia de Camões e da raça.

Acontece que esta visão mitológica da nossa história ainda sobrevive sub-reptícia na nossa memória colectiva.

A epopeia das descobertas geográficas sintetizada no enunciado “demos novos mudos ao mundo” tem um reverso muito pesado de que pouco ou nada falamos.

Cada caravela que saia de Lisboa era uma sociedade anónima onde todos tinham uma quota de participação no saque ou no comércio, conforme as circunstâncias.

Vasco da Gama quando chegou à Índia explicou ao que ia: mandou matar cerca de 800 mulheres para que todos soubessem que era o novo dono dos negócios.

Para a moderna historiografia é ponto assente que as descobertas e a febre colectiva do ouro, contribuíram decisivamente para a nossa decadência e atraso económico, que ainda hoje estamos a pagar.

A Inquisição deu também uma ajuda: o combate contra qualquer manifestação de pensamento progressista, era acompanhado do respectivo saque ao património do réu sem direito a defesa.

Antero de Quental, nas “Conferencias Democráticas” referiu este problema em “Causas da Decadência dos Povos Peninsulares”.

Ainda hoje a obra de J. Lúcio de Azevedo “Épocas de Portugal Económico”, serve para ficarmos com uma ideia da ilusão colectiva que nos perseguiu durante cerca de três séculos, até ao estertor do ouro do Brasil.

Os diversos ciclos de riquezas, mais exageradas do que reais, serviram-nos para criar vícios de grandeza e ostentação enquanto o Norte da Europa, com destaque para Ingleses e Holandeses, se desenvolvia economicamente.

Fomos os «almocreves marítimos» que transportou os produtos que ajudaram a desenvolver o comércio da Europa, enquanto nós regredíamos na agricultura e nas manufacturas.

Os enormes progressos culturais e científicos que resultaram dos descobrimentos também nos passaram ao lado: a Inquisição encarregava-se de os manter à distância.

Tudo isto está explicado de forma muito redutora, por várias razões e se tiver oportunidade tentarei desenvolver um pouco mais alguns problemas da História que escondemos debaixo do tapete.

Uma coisa porém me choca e entristece neste reverso da saga dos descobrimentos: não inventamos a escravatura mas fomos os primeiros a industrializar o seu tráfico.

Depois de nós vieram outros (ingleses, holandeses, franceses alemães, etc.) que a praticaram numa escala bem menor do que a nossa e coube-nos a ignomínia de inaugurar o «negócio», ao ponto de não podermos viver sem ele.    

Eis muito toscamente porque motivo celebro o lírico do amor, dos sentimentos, do sofrimento em lugar da epopeia mítica, que distorce a realidade do nosso passado.

 

 



publicado por pimentaeouro às 00:25
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Quarta-feira, 6 de Novembro de 2013
Dizer o que foi dito

O MEU PAÍS

 

Gostava de saber o que é hoje a nossa consciência nacional, ou as suas variedades pelos vários sectores e escalões etários da sociedade. Uma consciência nacional, forte, coesa, talvez seja coisa que a partir da primeira Guerra Mundial terá começado a diluir-se, sem desaparecer, em vários países Ocidentais, alguns chamar-lhe-ão a decadência do Ocidente.

O que é ser português hoje? Não sei nem conheço literatura ou estudos sobre a matéria. Guilherme d’Oliveira Martins escreveu recentemente um livro (não li) que trata deste tema:

 

“Portugal - Identidade e Diferença

 Fala-se muito de identidade, mas há sempre a tentação de valorizar o que é próprio, em vez de cultivar a ligação com o outro. Identidade e diferença são faces da mesma moeda, são como as duas caras de Jano. A cultura portuguesa é um cadinho de múltiplas influências e de muitas qualidades e defeitos, como na vida. Daí haver nestes ensaios uma reflexão sobre os portugueses, tendo como pano de fundo a História e a Geografia que se encontram na gente, nos lugares, na língua e no desejo de descobrir e de peregrinar. Não há, assim, conceitos, nem explicações globais e muito menos receitas de aplicação instantânea. Há pistas de reflexão para que memória e vida, pertença e respeito mútuo se liguem…”

 

O meu país não é o de Cristiano Ronaldo e Pinto da Costa; de Isaltino Morais e Fátima Felgueiras; de Durão Barroso, Santana Lopes e Álvaro Cunhal; de Alberto Jardim e das touradas; de António Spínola e Alpoim Galvão.

Não é o país de Salazar, da PIDE e da Guerra Colonial; de D. Miguel e D. João V e dos castiços (nobres de casta); da Contra-Reforma e da Santa Inquisição;  do tráfico de negros; da exploração colonial e da escravatura nas «conquistas» , especialmente,  no Brasil.

Não é o país  da ideologia oficial da monarquia centralista mitificada nos Lusíadas, fonte e causa do nosso arcaísmo; o país cadaveroso.

A febre colectiva do ouro – a mola impulsionadora dos Descobrimentos – impediu que desde Quinhentos até ao final do século XVIII se desenvolvesse, entre nós (na Espanha também), uma classe burguesa, manufacturas, mercados, famílias de banqueiros que desembocam no capitalismo, simultaneamente com uma cultura humanista e progressita.

A nossa débil burguesia, que fez a revolução de 1820, precisou de  cinco ou seis décadas para impor algumas conquistas políticas  a uma ordem monárquico-eclesiastica decadente e diminuir a sua base económica de sustentação, conforme texto que reproduzo:

 

    “A palavra regeneração e o respectivo conceito desempenham, no decurso do processus ideológico do liberalismo portu­guês, papel de importância decisiva. Por um lado, o conceito de regeneração nacional, pren­de-se à filosofia daqueles que se não resignavam à celebração de glórias passadas e teimosamente buscavam encontrar um sentido para o futuro do povo. E a transição do século XVIII para o XIX, da metamorfose ideológica das luzes para o liberalismo…

…E lícito estabelecer dois grandes ciclos da palavra «Regeneração» e a sua vivência: das origens do liberalismo, entre nós, até à charnei­ra de 1851-1868; da Regeneração como movi­mento político até aos fins do primeiro quartel do século actual. No primeiro ciclo assiste-se a tentativas sucessivamente malogradas para instau­rar um regime «regenerado»: vintismo, cartismo, setembrismo, cabralismo, - até que em 1851, o movimento triunfante toma o nome de Regeneração, desdobrado em novos nomes, segundo as épocas: Vida Nova (1885), República (cerca de 1870-1910) e ainda, contemporanea­mente, Estado Novo (1926). Com o início da Regeneração (1851) e sob o impulso de Fontes Pereira de Melo, assiste-se a um desenvolvimen­to económico, capitalista, técnico, agrário e sociopolítico, que terá como coroação a abertu­ra de caminhos-de-ferro, estradas, um surto industrial, importante sobretudo em Lisboa, e Porto, actividades mineiras, etc. A partir da Regeneração ocorre em Portugal um lento mas contínuo processo de desenvolvimento económi­co, social e mental.”

(Pequeno Dicionário de História de Portugal, direcção de Joel Serrão)

 

 

Quase quatro séculos de obscurantismo, de cultura retrograda e de mentalidade mercantil do lucro fácil e rápido (objectivo e mentalidade dos navegantes que embarcavam nas caravelas) deixaram marcas na identidade nacional. A diáspora pelo mundo e a hemorragia da imigração, principalmente, para o Brasil, despovoaram o reino de mão-de-obra de mestres e ofícios que não permitiram a criação das manufacturas e dos mercados capitalistas, como aconteceu nos outros países da Europa.

Ainda hoje estamos a pagar este atraso histórico com  bloqueios estruturais na economia, na sociedade e na cultura.

 

A Republica não foi capaz de se emancipar da   ideologia colonialista da monarquia e dos mitos em torno das Descobertas que transpôs para dois símbolos do novo regime; o Hino Nacional e a Bandeira.

A revolução de Abril, terminada a Guerra colonial e consumada a independência das ex-colónias, mantém aqueles dois símbolos coloniais e mantemos ainda  hoje resquícios da mitologia das Descobertas;  a Expo 98, vagamente dedicada aos Oceanos e os discursos protocolares incluem referencias aos heróis dos descobrimentos.

A identidade nacional forja-se ao longo do tempo através de tradições, lendas, mitos etc.. Os acontecimentos históricos marcantes são seleccionados – destacam-se os bons, esquecem-se os maus – e são reescritos, interpretados fantasiosamente transformando-se em lenda, onde o real e a fantasia se misturam e confundem.

A escolha dos heróis e das suas acções são submetidas ao mesmo tratamento de reinvenção. Na escolha dos heróis e dos símbolos procuram-se personagens e imagens que sejam consensuais, que fomente a coesão nacional e evitem fracturas.

No caso português a mitificação das Descobertas e o esquecimento do seu imenso legado negativo e desastroso, agrada a todas as classes sociais: todos gostam de se imaginar descendentes de heróis e guerreiros que praticaram grandes proezas admiradas pelo mundo Ocidental, pois no Oriente somos avaliados de outro modo bem diverso.

Acontece que a ideologia subjacente à mitificação das Descobertas é conservadora e retrograda, até.        

Camões e Fernão Lopes viveram na mesma época e viajaram pelas mesmas paragens. Era impossível que Camões não tivesse percebido os sinais da decadência em que se encontrava a aventura dos Descobrimentos, que glorificou nos Lusíadas.

Fernão Lopes descreveu – fotografou – o comportamento e as práticas dos portugueses, que os asiáticos, mais civilizados, condenavam.

Entre a mitificação da cobiça e da avidez do ouro e do lucro fácil e rápido, pelo roubo e pelo ferro quando não de podia comerciar e o retrato cru da miscelânea de comportamentos, escolhemos – para nosso mal – a primeira.

Durante três séculos, duas classes, a nobreza e o clero, que deviam ter sido progressivamente substituídas pela burguesia, conseguiram sobreviver e manter as rédeas do poder político. Mesmo com os rios de ouro que sacamos do Brasil, em lugar de desenvolvimento económico e cultural, ficamos o reino cadaveroso que a Europa não compreendia, tal era o nosso atraso.

 Regresso à pergunta inicial: o que é ser português hoje?

A revolução tecnológica dos meios de comunicação social, os mass média e a Internet – o Império da Imagem e do som –  e os meios de informação controlados pelos grandes grupos económicos, dissolvem a consciência social e a identidade nacional, num padrão normalizado, criado pelos EUA com o objectivo de criar  uma sociedade global de zumbis, mão de obra desqualificada e barata  que executa as ordens de uma reduzida elite oligárquica.

 

P.S.

Este post baseia-se, superficialmente, na leitura de : “A Estrutura na Antiga Sociedade Portuguesa”, de Vitorino Magalhães Godinho, editora Arcádia.

 

 

 



publicado por pimentaeouro às 11:13
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Sábado, 2 de Novembro de 2013
O outro lado das descobertas

História Trágico-Marítima

A longa rota percorrida pelos navios portugueses desde a viagem de Vasco da Gama, entre Lisboa e a Índia, por via do Cabo da Boa Esperança, transformou-se, por vezes, num palco de catástrofes. De acordo com as estimativas feitas, admite-se que nos séculos XVI e XVII naufragou um navio em cada cinco dos que partiram com destino à Índia. Se limitarmos o período ao século XVI e à primeira metade do XVII, a percentagem de perdas atingiu quase 25%.

Quando a tragédia permitia que os náufragos chegassem a alguma terra ou ilha e dali voltassem à Índia ou atingissem, caminhando, algum local onde pudessem recorrer a outro navio, o acontecimento, depois de ter sido contado pelos sobreviventes, ficava registado pelas próprias testemunhas ou por alguém que tivesse mais habilidade na redacção. Nas páginas das narrativas enumeravam-se as causas dos naufrágios, como a largada fora da época regulada pelas normas, as excessivas dimensões e a má construção dos navios, utilizando madeiras inadequadas e calafetagem insuficiente: o exagero das cargas e a sua má distribuição; as tempestades, a deficiência das bombas de água, a carência de velas sobressalentes, a inexperiência, a ignorância e a incapacidade dos pilotos, a falta de solidariedade entre os navios, em virtude de ambição de chegar primeiro aos portos de destino e os ataques de inimigos – piratas, corsários e navios de frotas adversas (francesas, inglesas, holandesas e turcas). Também se revelavam as situações psicológicas dos tripulantes e passageiros desorientados e desesperados e o comportamento dos homens que tinham enfrentado os perigos, a agonia e a morte, tanto na aflição do naufrágio, em que gritavam e recorriam ao socorro divino na confusão do momento extremo, mostrando o individualismo dos homens exposto na tentativa de salvação, como no sofrimento da peregrinação fatigante e perigoso em terras africanas inóspitas. Desta forma nasceu um género literário característico, que se baseia em experiências verdadeiras e que consistia nos relatos de naufrágios, cativando os leitores com os seus episódios impressionantes e aterrorizadores e circulando sob a forma de folhetos avulsos como literatura de cordel.

Todavia, os naufrágios de que se fez redacção foram, evidentemente, apenas uma ponta do icebergue. Em quase 40% dos casos, desconhecemos por que razões naufragaram estes navios, pois perderam-se com todos os tripulantes, passageiros e cargas sem deixarem sobreviventes, testemunhas ou vestígios. Ainda que este desaparecimento total não tivesse originado nenhuma narração, em que se descrevesse a desgraça no mar, considera-se mais calamitoso do que aqueles que foram alvo de relações e se tornaram célebres. Os empreendimentos heróicos e as façanhas prestigiantes dos Portugueses deram origem às crónicas laudatórias. Em contrapartida, afirma-se que a História Trágico-Marítima se salienta de um modo específico na Cultura Portuguesa, apresentando o seu lado escuro/sinistro, constituindo o reverso da visão épica/heróica, mostrando-nos o aspecto sórdido do comércio, da conquista e da navegação perpetuados nas Décadas e nosLusíadas e podendo ser considerada como uma «anti-epopeia dos Descobrimentos».

Os relatos de naufrágios lograram grande popularidade, de tal forma que o do galeãoSão João que naufragou em 1552, afamado como o naufrágio de Sepúlveda, foi reeditado diversas vezes, e a primeira edição do da nauSanto António, surgido em 1565, teve mil exemplares numa época em que a tiragem média era mais ou menos de trezentos. A vasta divulgação fez com que, nos anos de 1735 e 36, doze desses folhetos e manuscritos fossem coligidos em dois tomos pelo erudito Bernardo Gomes de Brito, com o título daHistória Trágico-Marítima, incluindo os seguintes naufrágios: 1. galeão grande São João (1552), 2. nau São Bento (1554), 3. nauConceição (1555), 4. naus Águia (1560) eGarça (1559), 5. nau Santa Maria da Barca(1559), 6. da nau São Paulo (1561), 7. da nauSanto António (1565), 8. nau Santiago (1585), 9. nau São Tomé (1589), 10. nau Santo Alberto(1593), 11. nau São Francisco (1597), 12. galeão Santiago (1602) e nau Chagas (1594).

Embora Bernardo Gomes de Brito tivesse pensado reunir as narrativas de naufrágios em cinco volumes (de acordo com Inocêncio Francisco da Silva), saíram apenas dois. Por outro lado, conhecemos um “terceiro”. No entanto, em vez de ser uma nova compilação, todos os exemplares do “terceiro volume” diferem por não ser mais que a encadernação dos folhetos avulsos já publicados, pois mantêm a numeração separada de cada brochura sem a folha de rosto interna, alguns não os coligem cronologicamente, há casos em que se misturam os relatos incluídos e não incluídos na História Trágico-Marítima, existem as compilações em que se juntam as duas ou três edições diferentes da mesma narração, há encadernações não só das relações de naufrágios como também de outros temas, etc. Baseando-se na investigação de Charles Ralph Boxer e na nossa consulta da variedade do “terceiro volume”, consideramos as seguintes seis narrativas dos naufrágios como sendo do género idêntico aos doze da História Trágico-Marítima, pela frequência do seu aparecimento no “terceiro”, pelo seu valor literário e pela sua analogia com os outros da compilação britiana; 13. nau Nossa Senhora da Conceição (1621), 14. nau São João Baptista (1635), 15. nau Nossa Senhora do Bom Despacho (1630), 16. nau Nossa Senhora de Belém (1635), 17. naus Sacramento eNossa Senhora da Atalaia (1647) e 18. galeãoSão Lourenço (1649).

Este género de literatura satisfez o gosto do público por diversas razões. Em primeiro lugar, o dramatismo do relato mais antigo, ou seja, o do naufrágio do galeão grande São João, impressionou os leitores de tal forma que, além de ter despertado o interesse por narrações deste tipo, ficou conhecido como um paradigma do género. Em segundo lugar, uma vez que todos os portugueses participavam quer directa quer indirectamente na aventura do ultramar e nas suas catástrofes, desejava-se ansiosamente saber a descrição dos acidentes em que poderia estar envolvido algum familiar, conhecido ou amigo. Como terceira finalidade, podemos considerar a didáctica, pois as causas dos sucessivos infortúnios cruamente apontadas serviriam de manual de naufrágios, para que outros se acautelassem contra futuros desastres e soubessem não só os perigos que poderiam vir a enfrentar, dando ênfase aos riscos evitáveis, resultantes da enorme ganância e da irresponsabilidade dos homens, como também às possíveis atitudes a tomar em caso de perdição e de peregrinação em terra desconhecida. Além disso, por descreverem o comportamento humano, em que se misturam o orgulho, a arrogância, a cupidez, o egoísmo, o altruísmo e a renúncia, mostravam vivamente tanto a brutalidade como o heroísmo nas situações que relatam.

Os desastres no mar e a caminhada em lugares distantes e ignorados, que foram escrupulosamente registados e que cativaram o interesse do público da altura continuam a chamar a nossa atenção, pois, além de não cessarem de aparecer as adaptações literárias baseadas na História Trágico-Marítima, a sua reedição e os trabalhos a esse respeito encontram-se hoje nas livrarias, tendo sido elaboradas, na última década, meia dúzia de teses de mestrado e de doutoramento. No entanto, os estudiosos não centraram muita atenção na documentação não publicada, embora os investigadores pioneiros como Charles Ralph Boxer e Giulia Lanciani já tenham referido alguns dos manuscritos não incluídos na antologia setecentista. As fontes, que estavam inéditas até há pouco tempo, não só nos proporcionaram outros pontos de vista para os naufrágios que já conhecíamos como também permitem modificar algumas opiniões geralmente aceites.

Kioko Koiso

Bibliografia


A.A.V.V., A História Trágico-Marítima: Análises e Perspectivas, organizada
por Maria Alzira Seixo e Alberto Carvalho, Lisboa, Edições Cosmos, 1996.

A.A.V.V., Quaderni Portoghesi, n.º 5, Pisa, Giardini Editori e Stampatori, 1979

BLACKMORE, Josiah, Manifest Perdition: Shipwreck narrative and the disruption of empire, Minneapollis/London, Univ of Minnesota, 2002.

BRITO, Bernardo Gomes de, Historia Tragico-Maritima. Em que se escrevem chronologicamente os Naufragios que tiveraõ as Naos de Portugal, depois que se poz em exercicio a Navegaçaõ da India, 2 tomos, Lisboa, Lisboa Occidental, Officina de Congregação do Oratorio, 1735-1736.

BOXER, Charles Ralph, «An Introduction to theHistória Trágico-Marítima», Revista da Faculdade de Letras, n.º 3, série I, Lisboa, Universidade de Lisboa, 1957, pp. 48-99.

IDEM, «An Introduction to the História Trágico-Marítima (1957): Some Corrections and Clarifications», Quaderni Portoghesi, n.º 5, Pisa, Giardini Editori e Stampatori, 1979, pp. 99-112.

DUFFY, James: Shipwreck & Empire being an Account of Portuguese Maritime Disasters in a Century of Decline, Harvard, Harvard University Press, 1955.

GUINOTE, Paulo, FRUTUOSO, Eduardo, LOPES, António, Naufrágios e Outras Perdas da «Carreira da Índia» Séculos XVI e XVII, Lisboa, Grupo de Trabalho do Ministério da Educação para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1998.

KOISO, Kioko, Mar, Medo e Morte: aspectos psicológicos dos náufragos na História Trágico-Marítima, nos testemunhos inéditos e noutras fontes, 2 vols., Cascais, Patrimonia, 2004.

LANCIANI, Giulia, Sucessos e Naufrágios das Naus Portuguesas, Lisboa, Caminho, 1997.

MONIZ, António Manuel de Andrade, A História Trágico-Marítima: Identidade e Condição Humana, Lisboa, Colibri, 2001.

 

 

Do blogue Inastuto Camões



publicado por pimentaeouro às 20:58
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Segunda-feira, 9 de Julho de 2012
Pedra no sapato

 

 

Costuma doer, as vezes nem se consegue andar. Como os brasileiros vêm os portugueses: levaram o ouro, deixaram as pesdras.



publicado por pimentaeouro às 06:08
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