Conhece-te a ti mesmo... se puderes.

Sexta-feira, 16 de Junho de 2017
Boa consciência,memória má

Resultado de imagem para escravatura

 

Todos acreditamos que temos inscrito no ADN as glórias do passado: grandes navegadores, grandes heróis, grandes aventureiros, os maiores.

Não nos lembramos que fomos piratas, traficantes, ladrões e assassinos. Vasco da Gama quando chegou à Índia fez questão de assinalar a chegada com a chacina de mulheres e crianças, para explicar quem mandava.

A febre das especiarias aliada aos costumes da época assim mandavam.

 

Todavia a nossa  grande ignomínia  chama-se escravatura; o tráfico de escravos aos milhões, numa escala que alterou a demografia dos continentes africano e americano (Norte e Sul), em condições sub-humanas, e a utilização generalizada da mão de obra escreva, como «utensílios falantes».

Na linguagem de hoje, genocídio e crimes contra a humanidade, mas disto não nos lembramos nem nos penitenciamos.

 



publicado por pimentaeouro às 17:48
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Quarta-feira, 1 de Maio de 2013
38 euros!

O papa Francisco condenou hoje as situações de "trabalho escravo" no mundo, referindo-se nomeadamente às condições das vítimas do desabamento de um prédio no Bangladesh onde funcionavam fábricas têxteis.

"Um título que me surpreendeu no dia da tragédia do Bangladesh foi 'Vivia com 38 euros por mês'. Esta era a forma como eram pagas as pessoas que morreram. Isto é chamado trabalho escravo", declarou o papa durante a homilía que assinalou no Vaticano o 1º de Maio.

"Hoje, no mundo, esta escravidão está a ser dirigida contra algo bonito que Deus nos deu: a capacidade de criar, de trabalhar, de ter dignidade. Quantos irmãos e irmãs se encontram nesta situação", disse Francisco na sua homilía.

Referindo-se ao desemprego, o papa lembrou que há muitas pessoas que querem trabalhar mas não podem, considerando que uma sociedade em que "não é dada a todos a possibilidade" de ter um emprego não é uma sociedade justa.



Ler mais: http://expresso.sapo.pt/papa-revoltado-com-trabalho-escravo-no-mundo=f803910#ixzz2S5BrcvTH



publicado por pimentaeouro às 23:28
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Terça-feira, 5 de Junho de 2012
Porque não até àos 100 anos?!
PRESIDENTE EXECUTIVO DA AIG

Após a crise idade da reforma deve ir até aos 80 anos

Para o presidente executivo da AIG - American International Group, a crise da dívida na Europa demonstra que os governos a nível mundial têm de aceitar que as pessoas vão ter de trabalhar mais anos, à medida que a esperança de vida aumenta. Robert Benmosche defendeu que a idade da reforma terá de se estender até aos 80 anos.

"As idades da reforma têm de se alterar para os 70, 80 anos", referiu o CEO da AIG. Numa entrevista na sua casa em Dubrovnik, na Croácia, Robert Benmosche, explicou que assim se tornaria "as pensões e os serviços médicos mais acessíveis. Eles manteriam as pessoas a trabalhar mais tempo e retirariam essa carga dos mais jovens"

 



publicado por pimentaeouro às 01:25
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Quarta-feira, 23 de Maio de 2012
Escravatura no Brasil

Escravos eram base da economia colonial e imperial

Da Página 3 Pedagogia & Comunicação
Reprodução

O fotógrafo Christiano Jr. documentou pioneiramente a vida dos escravos no século 19

Desenvolvendo-se no apogeu domercantilismo, a economia do Brasil colonialse assentou sobre três pilares: a grande propriedade territorial, na qual se desenvolvia um empreendimento comercial destinado a fornecer a metrópole gêneros alimentícios (em particular a cana-de-açúcar) e os metais preciosos, onde se utilizava essencialmente a mão-de-obra escrava. A opção pelo trabalho escravo - no início da Idade Moderna - explica-se basicamente pela dificuldade de encontrar trabalhadores assalariados dispostos à imigração.

Além disso, seria difícil manter assalariados os semi-assalariados nas grandes propriedades: dada a disponibilidade de terras, eles poderiam tentar outras formas de vida - tornando-se artesãos, posseiros e pequenos agricultores, por exemplo - o que complicaria o fluxo de mão de obra para a empresa mercantil, na qual o grandes comerciantes e proprietários estavam associados à Coroa portuguesa e seus afilhados.

Escravização indígena
Em meados do século 16, quando a cana-de-açúcar começou a substituir o pau-brasil como o principal produto da Colônia, desenvolveram-se primeiramente tentativas de escravizar os índios. Entretanto, diversos fatores concorreram para o fracasso desse empreendimento: em primeiro lugar, o trabalho intensivo, regular e compulsório não fazia parte da cultura indígena, acostumado a fazer somente o necessário para garantir a sua sobrevivência, através da coleta, da caça e da pesca. Em segundo lugar, ocorria uma contradição de interesses entre os colonizadores e os missionários cristãos, que visavam catequizar os índios e se opunham à sua escravização.

Por sua vez, os índios também reagiam à escravização seja enfrentando os colonizadores através da guerra, seja fugindo para lugares longínquos no interior da selva onde era quase impossível capturá-los. Finalmente, há que se considerar que o contato entre brancos e índios foi desastroso para estes últimos no tocante à saúde. Os índios não conheciam - e portanto não tinham defesas biológicas - contra doenças como a gripe, o sarampo e a varíola, que os vitimaram às dezenas de milhares, provocando uma verdadeira catástrofe demográfica.

Negros africanos
Entretanto, os portugueses já contavam com uma outra alternativa em matéria de trabalho escravo. Desde a colonização da costa africana, no século 15, os portugueses já haviam redescoberto o trabalho escravo que desaparecera da Europa na Idade Média, mas que continuava a existir nas sociedades existentes na África. Desse modo, os portugueses já haviam montado uma rede de comércio negreiro, utilizando-se de escravos negros nas plantações de cana-de-açúcar em suas ilhas do Atlântico (Açores, Madeira).

Nem da parte da Coroa, nem da Igreja houve qualquer objeção quanto à escravização do negro. Justificava-se a escravidão africana utilizando-se vários argumentos. Em primeiro lugar, dizia-se que essa era uma instituição já existente na África, de modo que os cativos "apenas" seriam transferidos para o mundo cristão, "onde seriam civilizados e teriam o conhecimento da verdadeira religião". Além disso, o negro era efetivamente considerado um ser racialmente inferior, embora teorias supostamente científicas para sustentar essa tese só viessem a ser levantadas no século 19.

Enfim, a partir de 1570 a importação de africanos para o Brasil passou a ser incentivada. O fluxo de escravos, entretanto, tinha uma intensidade variável. Segundo Boris Fausto, em sua "História do Brasil", "estima-se que entre 1550 e 1855 entraram pelos portos brasileiros 4 milhões de escravos, na sua grande maioria jovens do sexo masculino". Outros historiadores mais antigos como Pedro Calmon e Pandiá Calógeras falam em quantias que variam entre 8 e 13 milhões. Caio Prado Jr. cita 7 milhões.

Salvador e Rio de Janeiro
Os grandes centros importadores de escravos foram Salvador e depois o Rio de Janeiro. Cada um deles tinha sua organização própria e os dois concorriam entre si. O fumo produzido no Recôncavo baiano era uma valiosa moeda de troca, o que garantiu sua supremacia durante os primeiros séculos de colonização. À medida em o eixo econômico desviou-se para o sudeste com a descoberta de ouro em Minas Gerais, o Rio de Janeiro suplantou a Bahia e se firmou com o crescimento urbano da cidade no século 19.

Ainda de acordo com Boris Fausto, na obra citada, "costuma-se dividir os povos africanos em dois grandes ramos étnicos: os sudaneses, predominantes na África ocidental, Sudão egípcio e na costa do golfo da Guiné, e os bantos, da África Equatorial e tropical, de parte do golfo da Guiné, do Congo, Angola e Moçambique. Essa grande divisão não nos deve levar a esquecer que os negros escravizados no Brasil provinham de muitas tribos ou reinos, com suas culturas próprias. Por exemplo: os iorubas, jejes, tapas, hauças, entre os sudaneses; e os angolas, bengalas, monjolos e moçambiques entre os bantos".

Essas diferenças não devem deixar de ser mencionadas, principalmente, quando se pensa na diferença de influências culturais exercidas por esses diversos povos negros na vida e na cultura brasileira. O estudo dessas influências e a aculturação afro-brasileira, porém, são áreas que, na verdade, nossa história está começando a desbravar.

Resistência e quilombos
Não se deve pensar que os negros aceitaram docilmente a sua condição de escravos e que nada fizeram para resistir ao trabalho compulsório. Naturalmente, houve fugas individuais e em massa e a desobediência ou resistência se evidencia no uso das punições e castigos corporais muitas vezes cruéis, que vinha a se somar aos maus tratos naturalmente dispensados a seres que eram considerados pouco superiores aos animais.

Depois de comprado no mercado, o escravo podia ter três destinos principais: ser escravo doméstico, isto, é fazer os serviços na casa do senhor; escravo do eito, que trabalhava nas plantações ou nas minas; eescravo de ganho, que prestava serviços de transporte, vendia alimentos nas ruas, fazia trabalhos especializados como os de pedreiro, marceneiro, alfaitate, etc., entregando a seu senhor o dinheiro que ganhava.

Poucos anos de vida
Nas fazendas, principalmente, o escravo trabalhava de 12 a 16 horas por dia e dormiam em acomodações coletivas chamadas senzalas ou mesmo em palhoças. Sua alimentação consistia basicamente de farinha de mandioca, aipim, feijão e banana. O tempo de vida média útil de um escravo era de 10 a 15 anos, segundo muitos estudiosos.

De qualquer modo, apesar das fugas e da formação dos quilombos, dos quais se destacou Palmares no século 17, os escravos africanos ou afro-brasileiros como um todo não tiveram condições de abolir por conta própria o sistema escravocrata. Com a Independência, embora a questão da abolição tenha sido levantada, a escravidão continuou a vigorar no país até a promulgação da Lei Áurea, em 13 de maio de 1888 - como coroação de uma ampla campanha abolicionista.

Contudo, a abolição não significou o fim da exploração do negro no Brasil, nem a sua integração - em pé de igualdade - na sociedade brasileira, que ainda tem uma enorme dívida para com os descendentes dos escravos.

Mas o que é pior: apesar das leis e da consciência da maior parte da população mundial, ainda se encontram pessoas em várias partes do Brasil e do mundo que trabalham sem receber pagamento, ou seja, continua a existir escravidão hoje. De qualquer forma, atualmente isso é considerado um crime e quem o pratica, se for pego, recebe a punição que merece.


publicado por pimentaeouro às 21:58
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Sábado, 5 de Maio de 2012
Genocidio, vergonha nacional

A ESCRAVATURA

 

 

Os escravos existiram desde o início dos tempos, pessoas tratadas como se fossem coisas, de que o senhor podia dispor como quisesse. No início, a principal fonte de escravos eram as guerras, em que o vencedor poupava a vida aos inimigos derrotados para os utilizar como mão de obra gratuita em grandes obras, que seriam impossíveis de levar a cabo com trabalho pago. São os escravos capturados nas guerras que explicam as grandes obras construídas na Sicília, centenas de anos antes da era cristã.

Também em Portugal, os mouros derrotados e expulsos do País deixaram nos campos de batalha muitos escravos. A tradição diz que os escravos mouros eram muito rebeldes e havia que os ter sempre acorrentados para não fugirem. Mais tarde, os escravos mouros eram dados como moeda de troca para pagamento do resgate de cristãos que tinham sido aprisionados ou raptados no norte de África.

Porém, a escravatura que aqui se pretende tratar é aquela empresa industrial que nas costas de África carregou milhões de pretos que atravessaram o Atlântico em frágeis navios, para as Índias Ocidentais, portuguesas e espanholas e depois para a América do Norte. Em suma, o tráfico negreiro.

Com os descobrimentos, Portugal entrou no negócio dos escravos. Após a passagem do Cabo Bojador, por Gil Eanes, em 1434, deixou de haver medo de navegar ao longo da Costa de África. Os navegadores começaram a regressar com dezenas de escravos, dos quais um quinto pertencia ao Infante D. Henrique. Assim em 1443, Lançarote, escudeiro do Infante, carregou 235 presas. E assim por diante até 1448, em que já tinham sido resgatados 927 escravos, como diz Zurara, na sua Crónica da conquista da Guiné. Pobre como era o País, nessa altura, os escravos serviam para fazer dinheiro. Os escravos da Guiné tinham de vir todos para Lisboa e muitos eram depois vendidos para Espanha com destino às Índias espanholas.

O negócio fazia-se então por peças de escravos. A peça era um escravo jovem de 15 a 25 anos, com a altura média de 1, 75 m. Três jovens de 8 a 15 anos ou três adultos de 25 a 35 só contavam por 2 peças. Duas crianças de 4 a 8 anos ou dois adultos com mais de 35 anos só contavam por uma peça. Não interessavam as cabeças, mas apenas o espaço que ocupavam e o que valiam para o trabalho.

As crianças acompanhavam as mães e eram classificadas em crias de peito e crias em pé (menos de 4 palmos de altura; com mais, eram moleques ou molecas). Mais antipático era o nome que davam às crias de peito na costa de Moçambique em que eram denominadas bichos nos documentos de embarque.

O primeiro entreposto africano que Portugal estabeleceu em África para o resgate de escravos foi a Feitoria da ilha de Arguim em 1448. Depressa deram conta que não poderiam continuar a capturar gente para fazer dele escravos e passaram a comprar os pretos aos chefes ou aos mercadores locais que os traziam do interior, dando-lhes em pagamento, naquela altura, sobretudo, panos mas também, cavalos. Também se adquiria aos mercadores árabes ouro, mas não em grandes quantidades.

Em 1482 foi criado o entreposto de S. Jorge da Mina. A partir de 1485, o Rei D. João II intitulou-se Senhor da Guiné.

O negócio dos escravos e a existência de pretos em Lisboa é retratada, com grande sentido de humor, por um viajante do sec. XVI, o alemão Jerónimo Münzer, que visitou o nosso País em 1494 e foi recebido pelo Rei (ver Anexo 1).

Os escravos tinham tratamento jurídico especial, um meio termo entre pessoas e coisas, nas Leis do Reino (ver Anexo 2).

Embora uma boa parte dos escravos fosse vendida para o estrangeiro, começaram as famílias em Portugal a ter escravos para o seu serviço, de tal modo que em 1551, dos cerca de 100 000 habitantes de Lisboa, dez por cento eram escravos pretos.

Mas um grande número de escravos foi adquirido para realizar trabalhos agrícolas na Madeira, Açores, Cabo Verde e, sobretudo, em S. Tomé. A principal cultura era a cana de açúcar, que o Infante D. Henrique trouxera da Sicília para a Madeira, pouco depois da descoberta desta por João Gonçalves Zarco e Tristão Vaz Teixeira em 1418. Em 1526, o Conde Giulio Landi visitou a ilha e deixou-nos a descrição do cultivo da cana e do fabrico do açúcar pelos escravos, como mão de obra. Em meados do Sec. XVI, havia na Madeira 3 000 escravos para cerca de 20 000 habitantes.

Em 1483, Diogo Cão chegou à foz do Rio Congo e iniciou a conquista de Angola. (Note-se que, naquele tempo, se chamava às colónias, as conquistas). De Angola sairiam mais tarde milhões de pretos para Ocidente.

Em 23 de Abril de 1500, Pedro Álvares Cabral descobriu o Brasil. Pêro Vaz de Caminha descreveu o acontecimento na sua célebre carta, de cores muito vivas. A amenidade do clima e as potencialidades agrícolas da terra encantaram os portugueses. Os colonizadores dedicaram-se naturalmente ao cultivo da cana de açúcar, face aos conhecimentos e experiência positiva que haviam tido nas ilhas atlânticas. Havia que encontrar mão de obra para trabalhar na terra e nos engenhos. A primeira atitude foi escravizar os índios. A experiência falhou por várias razões. Os índios brasileiros escravizados fugiam, lutavam, revoltavam-se, incendiavam as plantações. Eram saudáveis antes de lá chegarem os portugueses, mas depressa foram contagiados por doenças mortais, em especial a varíola e o sarampo.

Entretanto, os Jesuítas tomaram a defesa dos Índios e conseguiram que se legislasse proibindo a escravatura, excepto os índios capturados em guerras “justas”, os condenados por delitos cometidos e os canibais. É um bocado misteriosa a atitude dos Jesuítas que se batiam de todos os modos pela liberdade dos índios, mas aceitavam em silêncio a escravidão dos pretos. Possivelmente haverá laivos de racismo nessa atitude dos Jesuítas e da Igreja, em geral. Aliás, a própria Companhia de Jesus entrou no negócio dos escravos, obtendo o privilégio da exportação a partir de Angola de umas centenas, em três navios ao ano, isentos de direitos. E, quando os Jesuítas foram expulsos, em 1759, tinham, no seu Colégio em Luanda, 350 escravos.

Se não havia índios e nem o trabalho deles era coisa que se aproveitasse muito, os fazendeiros brasileiros descobriram a solução mais lógica e mais rentável: trazer pretos da costa de África. Assim se desenvolveu exponencialmente o tráfico negreiro no Atlântico.

Toda a actividade manual era entregue aos escravos. E os escravos eram a peça essencial da agricultura da cana e do fabrico do açúcar. “Os escravos são as mãos e os pés do senhor do engenho”, escreveu Adonil.

O “apetite” dos brasileiros por escravos era insaciável. Durante três séculos, o Brasil haveria de consumir mais escravos africanos do que qualquer outra zona do Atlântico. Fréderic Mauro calcula que em 1600, a população preta do Brasil deveria ser de 13 000 a 13 500, dos quais 70 por cento trabalhavam em 130 plantações de açúcar. Os números astronómicos de escravos importados têm também a sua razão de ser nas condições do tráfico: a média de vida de útil de um escravo não ultrapassava sete anos. Por outro lado, os escravos reproduziam-se pouco, porque as mulheres eram apenas metade do número dos homens e os donos não incitavam à procriação, que os obrigaria a sustentar os filhos na fase de crescimento, sem qualquer rendimento imediato.

Os grandes consumidores de escravos eram as plantações de cana e os engenhos de fabrico do açúcar. O açúcar tinha na Europa cada vez mais procura, o preço subia e era a principal riqueza do Brasil e de Portugal. O consumo subia em espiral; no sec. XVI, em Inglaterra, o consumo per capita subiu de 4 libras por pessoa na primeira década para o triplo na última década.

Outra vantagem dos escravos importados de África era que, sendo provenientes de diversas regiões e falando diversas línguas, muito dificilmente actuavam em grupo, o que evitava revoltas e amotinações.

O Brasil absorveu 40 % de todo o tráfico no Atlântico ( Rawley) e Maurício Goulart indica os seguintes números globais:

 

ESCRAVOS IMPORTADOS PELO BRASIL

 

 

 

Sec. XVI…………......

Sec. XVII………… …...

Sec. XVIII………………

Sec. XIX…………………

    30 000

   500 000  

1 700 000

1 350 000


 


 

 

 TOTAL

3 580 000


 

 

 

Estes números, sem deixar de ser impressionantes, devem ser considerados baixos, em face dos estudos efectuados nos últimos anos.

Uma comparação pode ser feita com o quadro seguinte, que indica o tráfico levado a cabo pelos portugueses (e brasileiros após a independência) e que inclui portanto escravaria com destino às colónias espanholas.

  

 

IMPORTAÇÕES feitas por Portugueses (1451-1870) e brasileiros (após 1822)

 

 

   

 

 

   

 

  

Philip Curtin, Atlantic Slave Trade, citado e modificado por James A. Rawley

 

Durante século e meio, até ao sec. XVII, os portugueses monopolizaram o comércio de escravos no Atlântico. É interessante notar que a Espanha nunca teve papel importante no tráfico. É que os locais de resgate – a costa de África – ficava do lado português da divisão do mundo feita pelo Tratado de Tordesilhas de 1494, na sequência da determinação do Papa Alexandre VI pela Bula Inter cætera, de 3 de Maio de 1493. Os espanhóis estavam assim impedidos de actuar na África.

Para o Séc. XVI, é indicado o tráfico seguinte:

 

 

 

 

Europa………………. .

Madeira-Açores……

S. Tomé……………… 

América espanhola

Brasil…………………..

 

 

 24 000

 18 000

 75 000

 75 000

 50 000

 

 

 

TOTAL……………….  

242 000

 

 

James A. Rawley seguindo Philip Curtin, Atlantic Slave Trade

 

No decurso do sec. XVII, entraram no tráfico os holandeses, que tomaram a Mina, na Costa do Ouro e Curaçao nas Índias Ocidentais e chegaram a ocupar parte do Brasil e Angola (esta de 1641 a 1648). Apesar de tudo, os portugueses ainda dominaram o tráfico de escravos no decurso do sec. XVII. Já no sec. XVIII, predominaram os ingleses, como se verifica do seguinte quadro:

  

Transporte de escravos – sec- XVIII

 

 

Transportadores

 

 

 

Ingleses…………………...

Portugueses……………...

Franceses……………….. 

Holandeses………………. 

Norte Americanos………

Dinamarqueses……………

Outros (Suecos, Brandeburgueses)

 

 2 532 300

 1 796 300 

 1 180 300 

    350 900 

    194 200  

     73 900  

       5 000   

 

 

 

Total…………………..…

 

6 132 900

 

 

 

Paul E. Lovejoy

 

Entretanto, Curtin, citado por Herbert S. Klein, estima que os escravos “exportados” por Angola durante o mesmo Séc. XVIII, foram 1 138 000. Na realidade, Angola foi sempre o maior fornecedor de escravos para o tráfico português.

Ainda Curtin, citado por Joseph C. Miller calcula que 40 % dos (mais ou menos) 10 milhões de escravos africanos desembarcados no Novo Mundo entre 1500 e 1870, iniciaram a terrível passagem do Atlântico nos portos do Congo e da costa de Angola, desde o Cabo Lopez (1 º Sul) até perto do Cabo Frio (18 º Sul).

A ocupação de Luanda pelos Holandeses, em 1641, despertou o interesse de ir buscar escravos a Moçambique, mas aí o negócio era mais arriscado pelo tempo de viagem. Além disso, os senhores dos engenhos preferiam os pretos de Angola aos de Moçambique.

  

As necessidades de escravos do Brasil aumentaram ainda mais, quando se descobriram as minas de ouro, no final do sec. XVII. A falta de escravos fez-se sentir durante todo o século seguinte, de tal modo que, por Alvará de 19 de Setembro de 1761, o Marquês de Pombal proibiu a entrada de escravos no Continente, proibição que em 1773, foi estendida aos Açores e à Madeira. Não era uma medida baseada em motivos humanitários, mas apenas na necessidade de encaminhar para o Brasil todos os escravos disponíveis.

No final de sec. XVII, Portugal tinha colocado algumas restrições ao tráfico. Os escravos, antes de serem embarcados em África, tinham de ser instruídos na religião e baptizados. Foram promulgadas leis proibindo a sobrelotação dos navios e exigindo alimentação apropriada e condições sanitárias. Estas medidas iam ao encontro dos interesses dos próprios traficantes, já que, quando mais morressem na viagem, maior seria o prejuízo.

Não existe acordo sobre os números da importação total de escravos nos três séculos e meio de tráfico. O quadro a seguir indica os números avançados por dois estudiosos do assunto:

  

IMPORTAÇÃO TOTAL DE ESCRAVOS

 

 

 

 

    Segundo Curtin   

Segundo Rawley

 

América do Norte inglesa

América Espanhola

Caraíbas inglesas

Caraíbas francesas

Caraíbas holandesas

Caraíbas dinamarquesas

Brasil

Velho Mundo

 

   399 000

1 552 100

1 665 000

1 600 200

   500 000

    28 000

3 646 800

   175 000

 

    523 000

 1 687 000

 2 443 000

 1 655 000

    500 000

      50 000

 4 190 000

    297 000

 

 

TOTAIS

9 566 100

11 345 000

                                                                              

  

 

TOTAL

      1 687 000

 

 

 

Os números de um outro estudioso, Paul E. Lovejoy não se afastam muito dos referidos por Curtin, tendo em conta que a diferença entre os dois quadros representa as elevadíssimas perdas na travessia do Atlântico:

 

 

Exportação de escravos de África

 

 

 

1451-1600

1601-1700

1701-1800

1801-1900

 

    367 000

1 868 000

6 133 000

3 330 000

 

   

Total

11 698 000

   

 

Paul E. Lovejoy

 

 

 

O RESGATE E A PARTIDA

 

Na primeira fase da escravatura, os escravos eram raptados e trazidos à força para os navios negreiros. Esse método foi usado muito pouco tempo, porque excessivamente perigoso. Desencadeava a hostilidade das populações que, muito superiores em número, poderiam dominar os raptores. Por isso, os escravos passaram a ser adquiridos a quem podia dispor deles, ou por terem sido já escravizados numa guerra, ou numa luta, ou por dependerem hierarquicamente do chefe da tribo ou de um familiar (pai, marido). A condenação à escravidão era uma pena utilizada pelos sobas para castigar os delinquentes. Em tempos de grande fome, o indivíduo sem meios de subsistência podia também oferecer-se para escravo, a fim de ter que comer: era o “corpo vendido”,

O pagamento era feito com panos, quinquilharia, missanga, espelhos, vinho e, mais tarde, gerebita (aguardente) e tabaco, vindos do Brasil. As rivalidades entre as diversas tribos e os diversos reinos eram uma abundante fonte de escravos que podiam assim ser adquiridos aos vencedores. Por isso, nos fins do sec. XVII, começaram a ser utilizadas no resgate de escravos, armas de fogo e a pólvora, que significavam poder para os adquirentes, mas que também incitavam à guerra.

O resgate era feito por escravos de confiança que, numa tarefa de meses, avançavam para o interior centenas de quilómetros, com carregadores levando as mercadorias para troca por escravos. Eram chamados em Angola pombeiros. Os escravos eram acorrentados uns aos outros e assim andavam meses até chegarem ao porto de embarque.

A doutrina da Igreja permitia reduzir à escravatura os prisioneiros feitos em guerras "justas"; o conceito era elástico e permitia muitas e variadas interpretações. Em Angola, adoptou-se a certa altura a prática de o Governador consultar os Jesuítas sobre se determinada guerra a encetar poderia ser considerada "justa" para aquele efeito.

As fomes periódicas faziam aumentar o número de escravos disponíveis. Mas, se a mortalidade aumentava, diminuía a oferta.

No embarque, eram pagos elevados direitos à Fazenda real. Estes variaram, mas foram sempre aumentando ao longo do tempo. Os escravos destinados às Índias Espanholas pagavam o dobro dos direitos devidos pelos que iam para o Brasil. E, na chegada ao Brasil, havia também que pagar direitos de entrada.

Fugia-se ao pagamento de direitos, sobretudo de três maneiras:

1 - embarcando os pretos longe do controle do contratador;

2 - transportando nos navios peças de escravos em número superior às declaradas – até 700, por exemplo, em vez de 200;

3  - embarcando os escravos declarando que iam para o Brasil, quando, na realidade, se destinavam às Índias espanholas.

Pagos os direitos, os escravos eram marcados no peito com um ferro em brasa: era o carimbo. Também o dono lhes punha mais tarde outro carimbo.

Na época da escravatura, em Angola, inúmeras doenças dizimavam um elevado número de escravos, mesmo antes de embarcar. A mais mortífera era a varíola ou “bexigas”, extremamente contagiosa. Assim que foi inventada a vacina, no início do sec. XIX, os carregamentos de escravos começaram a ser vacinados contra a varíola. Já algumas dezenas de anos, alguns utilizavam a “variolação”, provocar o contágio de um modo leve, de modo a imunizar o organismo, o que nem sempre resultava, acabando alguns por morrer. Mas havia também o sarampo, a malária, o escorbuto, a doença do sono, os carbúnculos ou antrazes, a matacanha ou bitacaia (tunga penetrans), que podia ser mortal se o bicho se partisse ao ser extraído.

Outra doença apontada aos escravos era o banzo, isto é, a depressão, a tristeza, a melancolia, que provocava fastio total e levava alguns à morte.

Ainda antes do embarque, os escravos eram baptizados, em grupo. Rigorosamente, deveriam antes disso ser instruídos na religião mas isso nem sempre acontecia.

 

A TRAVESSIA DO ATLÂNTICO

 

Os navios de transporte de escravos tiveram tão má fama que eram chamados tumbeiros, isto é, cangalheiros. Os navios mais utilizados eram os bergantins e as caravelas.

A duração média da viagem a partir de Angola era de 25 dias até Pernambuco, 40 até à Baía e de 50 para o Rio de Janeiro. Se o barco vinha de Moçambique, tinham de se lhe adicionar 25 ou 30 dias. Os mantimentos eram calculados em face destas durações médias. Se havia algum percalço, tempestade, ou simplesmente falta de vento, e a viagem atrasava, corria-se o risco de haver mortos à fome e à sede.

A mortalidade média e normal rondava os 10 %. Esta percentagem aumentava nas viagens mais longas, nomeadamente nas efectuadas a partir de Moçambique. E aumentava sobretudo quando havia epidemias a bordo. Nessa altura, também se deitavam os doentes ao mar, para que não contagiassem os outros.

Mas os capitães dos navios começaram a tomar precauções, para tentar diminuir a mortalidade a bordo, sobretudo arejando melhor as escotilhas e trazendo periodicamente e por turnos os escravos acorrentados para o convés a fim de respirarem ar mais puro. A partir de certa altura, cada navio levava um médico-cirurgião, numa tentativa para diminuir a mortalidade. Mas os meios de cura eram escassos e nem todos os médicos embarcados eram competentes.

Outra calamidade para o negócio eram as rebeliões a bordo, havendo notícias de muitas dezenas, algumas com sucesso.

Quando para isso tinham oportunidade, alguns escravos procuravam o suicídio que preferiam à vida que os esperava.

 


emhttp://slavevoyages.org/tast/index.faces.

 

 

Do blogue arlindo-correia.com

 

 



publicado por pimentaeouro às 10:05
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