Conhece-te a ti mesmo... se puderes.

Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
Nomada

 

nomadas.jpg

 

 

Milhares de anos de vida nómada devem ter deixado marcas fundas nos nossos genes: a sedentarização aconteceu ontem.

Fui um seminómada, cá dentro, sem dama à minha espera, Santo Graal para demandar e escudeiro para me ajudar. Parecido com D. Quixote apenas na altura e na magreza.

Frugal como convém a qualquer cavaleiro, não realizei proezas, nem criei raízes, apenas ficaram bons amigos nos vários locais por onde passei.

Cada encruzilhada levava-me a novos caminhos sem desígnios, apenas estadias transitórias, uma vida errante e os  erros subejaram.

As peregrinações ensinaram-me a cultivar o silencia e a procurar o que está para das aparências.

Não parto amargo, nem azedo, foi assim que vivi, nada mais.

 

 


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Segunda-feira, 6 de Novembro de 2017
Castração dos afectos

 

A sociedade de hoje é muito mais complexa do que a sociedade de Salazar e essa complexidade reflete-se no comportamento das pessoas.

Nas relações mulher-homem ou homem-mulher, tanto faz, ainda há muita pedra para partir.

Vejo no meu neto comportamentos machistas que era suposto já não existirem e ainda por cima as raparigas que andam com ele acham natural.

A minha saudosa tia Maria do Carmo, cuja memória guardo com muita gratidão, aprendeu a ler, com cerca de 70 anos, depois de enviuvar: analfabeta filha de mãe também analfabeta.

Regressando a Salazar. Com a cumplicidade activa, neste campo, da Igreja Católica, conseguiu montar um controlo social dos sentimentos e das afectos: a PIDE para os políticos, a moral e os bons costumes obrigatórios na mulher.

Tinha de ir virgem para o casamento, obedecer servilmente ao chefe de família e ser a fada do lar. Para abrir conta no banco tinha que ter autorização do marido.

Aconteceu-me por duas vezes sofrer, na pele, a moral e os bons costume: com a Fernada de uma forma moderada, com a Julieta a proibição pura e simples de namorar com este pé rapado.

Na época eu tinha pouco mais de 20 anos mas as marcas duraram mais de 6 anos. Durante este período não existiu nenhuma mulher na minha vida, quase desesperei.

O resultado foi um casamento tardio com todos os ingredientes – e erros meus – para terminar mal.

Muita coisa mudou deste então, umas boas outras nem tanto.  A vida não é fácil, nunca foi.

Acontece que já estamos dentro de um buraco, não vemos o fundo nem vemos o futuro dos nossos descendentes.

Aqui a vida pregou-me mais uma partida, mas isso fica para outra altura.

 


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Quarta-feira, 25 de Outubro de 2017
Encruzilhada

encruzilhadas.jpg

 

Não tive mãe nem pai que me vissem crescer e me fizessem homem apesar de ambos estarem vivos.  Segui o fado de todos os órfãos, não pertencem a n inguém, tem um vazio na alma que nunca é preenchido.

 O acaso e algumas decisões tecerem a minha vida sem raízes. Peregrino por várias terras, sou filho de terra nenhuma.

Pertencer a uma terra, não é apenas o lugar, bonito ou não, são as pessoas,  a família, os amigos que fizemos ao longo dos anos, as boémias e as tristezas, o trabalho onde ganhamos o sustento, os amores passados e recentes, a rede de relações que fomos tecendo e nos prendem a esse lugar.

Em todos os lugares onde vivi tive bons amigos mas senti-me sempre de fora, estrangeiro.

Tive três encruzilhadas que poderiam ter-me dado histórias de vida diferentes da que vivi: o meu primeiro amor com a Fernanda; o amor proibido com a Julieta e a ida para Moçambique que não se concretizou.

Fernanda e Julieta eram diferentes em tudo, recordo a Fernanda como uma rapariga alegre, afectiva e bonita, a Julieta era reservada, sem beleza especial e de forte personalidade, estava à frente da sua época.

À distancia de cerca de sessenta anos continuo a pensar que a minha vida deveria ter acontecido com a Fernanda, possuía tudo o que eu precisava para ter uma vida estável, com alguma felicidade, porque não. A Fernanda podia serenar a minha intranquilidade e anemizar a minha solidão. Não tive essa vida.

Não posso esquece-las nem aos amigos que tive em Torres Novas. Fizeram parte da minha vida, na mocidade, que deveria ter sido a melhor época da minha vida mas não foi.

Agora tudo é passado e memória.

 


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Quinta-feira, 12 de Outubro de 2017
Infância

vila real.jpg

 Foi aqui que no inicio dos anos 40 do século passado brincava com outros maçaricos como eu. Uma infância triste para esquecer.


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publicado por pimentaeouro às 21:32
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Sábado, 12 de Agosto de 2017
Nunca saberei

Volvidos  cerca de 50 anos regressei a Torres Novas, terra onde vivi a mocidade. Foi lá que tive os meus dois primeiros amores, tardios.

A viagem foi de camionete, pela margem esquerda do Tejo, com paragem em todas as aldeias. Hopedei-me num hotel com vista para a praça 5 de Outubro e perguntei a um amigo daquela data onde residiam Fernanda e Julieta. Deu-me a morada da Fernanda e do Irmão António, da Julieta não havia rasto.

Fernanda e Julieta eram duas jovens completamente diferentes: Fernanda era meiga, expansiva e alegre. Alta e bonita, talvez uma das jovens mais bonitas de Torres Nova, Julieta era o oposto, reservada, baixa sem atractivos especiais.

Tímido, como sempre fui, comecei por procurar o irmão que se encontrava debilitado com dificuldade em andar. Quem me atendeu foi a mulher e combinamos que o António iria ter a um café perto de sua casa.

Passado cerca de meia hora como o António não aparecesse voltei a sua casa e para minha surpresa ninguém me atendeu. Não percebi a recusa em falar comigo nem que motivos poderia ter, sempre fomos bons amigos e nunca tivemos qualquer desavença.

Deduzi que uma visita à Fernanda não seria bem recedida. O meu desejo de voltar a ver a Fernanda ficou enterrado.


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Quarta-feira, 29 de Março de 2017
Perplexo

Vivi em dois séculos, o XX e o XXI e foi assistente meio passivo de transformações sociais e culturais de dois mundos.

Passei por uma sociedade conservadora, intolerante desfasada do mundo em permanente transformação. Depois veio a aurora libertadora plena de promessas mas efémera. Vivi a febre do PREC,  a sua extinção e o fim da Guerra Colonial, um marco histórico.

Portugal entrou em acelerada normalização rumo à democracia difícil e frágil, para a economia recuperar dos desvarios veio o primeiro pacote austero do FMI e dos credores, paralelamente sucederam-se governos provisórios até às primeiras eleições em democracia.

Mário Soares e o PS governaram com muitas dificuldades até conseguir a adesão à CEE e o acesso aos fundos comunitários. A normalização da sociedade prosseguia mas as dificuldades económicas prosseguiam também. Como remédio o PSD e o CDS impuseram austeridade além da Troika e como era de esperar perderam. António Costa navega entre escolhos e a economia continua doente.

Um historiador definiu o século XX do mundo Ocidental como e "Era dos Extremos", para o Bem e para o Mal, com efeito as transformações foram profundas e radicais; Portugal viveu à margem desse mundo, ainda hoje apenas temos uma estreita janela para o ver, continuamos com décadas de atraso sem qualquer hipótese de aproximação. 

A sociedade portuguesa  mudou e muito e nem sempre para melhor; as pessoas também mudaram e não sei definir o português de hoje.

Amei e fui amado, tive bons amigos, a maior parte já falecidos, de que guardo grata memória, a minha infeliz mãe morreu demente, o meu pai foi um canalha que abandonou a família e tive tios que me ajudaram. Tive a sorte de trabalhar naquilo que gostava (contabilidade), gosto que a coluna pagou, e fui meio autodidacta, vivi sem angustias existenciais e em jeito de balanço final gostava de deixar à sociedade um pouco mais do que recebi: uma existência banal num homem normal. 

Entrei relutante no século XXI e estou desencantado. A sociedade sem valores e caótica, do individualismo exacerbado, que começou a criar-se na década de 90 do século passado é contra natura.

No fim da vida, de uma vida que já vai muito longa estou desiludido e não é mal da idade é a sociedade que está doente.


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Domingo, 19 de Fevereiro de 2017
Auto retrato... colectivo

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(pintura do renascimento)

 

Um metro e setenta e quatro, setenta quilos, olhos castanhos, elegante e bonito (ia dizer que sou feio, não?) e todos os atributos apresentados nos anúncios de pedido de casamento.

Cheguei aos 81 anos sem saber como e sinceramente a «fachada» não exibe as mazelas interiores.

A velhice tem privilégios: acumulam-se as disfunções; as articulações emperram; os hábitos e rotinas alteram-se (diminuem); a vontade de tudo e de nada diminui; a memória esfuma-se; a autonomia diminui e o último degrau é a perda progressiva da consciência.  

Os progressos da medicina e da higiene fizeram recuar a morte – recuar apenas -, mas a sua vingança não se fez esperar: inventou um conjunto de estados intermédios de agonia lenta entre a vida e a morte, esbatendo os limites claros de antigamente.

Para complicar o cenário, a sociedade não está preparada,  para suportar o peso crescente do aumento da população idosa,

A imagem do avô ou avó sorridentes, saudáveis e com uma boa reforma constituem a excepção deste novo mundo que o progresso nos ofereceu.

 


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publicado por pimentaeouro às 21:58
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Quarta-feira, 8 de Fevereiro de 2017
Procurar sinais

Procurar sinais

Eu sou a minha alma (cérebro) mais o corpo e a minha consciência reflete o mundo que me cerca e eu próprio; eu, frente a frente, comigo, indago-me.

Conheço os sinais, externos e internos, da decadência do corpo, as capacidades físicas que diminuem, novas limitações que surgem, um espetáculo desagradável.

Procuro indagar mais além e conhecer as limitações da minha consciência: a lucidez e a objectividade para me interpretar já começaram a diminuir?

Como saberei que a minha consciência começa a ter limitações, dela própria ou induzidas pelo corpo, dado que os dois são unos? Quais são os sinais de alerta? A consciência terá capacidade para os capar, mesmo quando começa a ficar limitada?

Com o avanço da idade começa a surgir a senilidade que, no limite, pode ir até à demência: a consciência adoece como o corpo e até pode sucumbir primeiro do que ele.

Só, entregue a mim próprio, tenho que ser eu a encontrar as respostas... se conseguir formular as perguntas. É complexo e é o último desafio.

 


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publicado por pimentaeouro às 12:24
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Quarta-feira, 1 de Fevereiro de 2017
Amor antigo

Resultado de imagem para rosas

 

Algumas mulheres perdem-se pelo amor e pagam caro, às vezes demasiado caro: há feridas interiores que a memória nunca deixa sarar. O preço que tu pagaste foi demasiado elevado e foi e teu próprio pai quem o impôs.

Naquela época (meados dos anos 50) era muito raro uma rapariga aceitar namoro sem a prévia autorização dos pais. Decidis-te sem essa autorização e, mais ainda, eu era praticamente desconhecido em Torres Novas: foi um forte impulso do teu coração (eu merecia essa audácia?).

Tivemos dois namoros, o primeiro foi mudo. Só os nossos olhos conversavam. Os meus olhos procuravam os teus, os teus olhos procuravam os meus e olhávamo-nos longamente. Era uma procura mútua com emoções ambiguas: o amor tacteava no desconhecido, o desejo de nos conhecermos, de nos encontrarmos. Era uma atracção mútua que nos dominava, sentimentos que despontavam como uma primavera.

Depois tivemos cerca de um mês de namoro, se é lhe posso chamar namoro. Viveste o encantamento de teres encontrado o homem que procuravas para amar, o pai dos teus filhos – a maternidade cantava melodias ao teu ouvido de mulher, melodias que só tu ouvias – um companheiro para a tua vida onde já existia a solidão da morte da tua mãe.

Eras uma mulher inteligente, avançada para a tua, a nossa época, e o teu horizonte não se confinava só ao casamento, à vida conservadora e parada de uma pequena cidade de província, conhecias horizontes mais abertos de outros meios.

A tua maior atenção era conheceres o homem – frágil – que tinhas escolhido. Irias conseguir viver com as minhas fragilidades?

Durante um breve mês viveste a esperança de ser feliz, espuma que o vento dissipou.

Existo na tua memória? Como? Com ternura ou como um pesadelo que não devia ter acontecido?

O que me importa é saber – nunca o saberei! - que foste mulher e mãe com outro homem e que foste feliz. Era isso que tu merecias.

Aquele efémero namoro ficou gravado na minha memória, bem como o prolongado sofrimento e frustração que passei.

Há distância de mais de cinquenta anos que interesse tem esta história? Tem para mim e, quem sabe, também terá ou teve para ti.

 

O amor antigo tem raízes fundas,

 feitas de sofrimento e de beleza.”


 e a recordação do teu  amor já é independente da minha vontade, é uma coisa que me domina e que não posso controlar, lembro-me te ti quando menos espero e com frequência não consigo evitar as lágrimas.

Parece-me quase infantil estar a escrever este post, mas a memória é mais forte do que eu e não consigo evitá-lo.

Afinal, o ridículo acontece a todos, talvez os poetas compreendam isto.

 

AMOR ANTIGO

O amor antigo vive de si mesmo
não de cultivo alheio ou de presença.
Nada exige nem pede. Nada espera,
mas do destino vão nega a sentença.

O amor antigo tem raízes fundas,
feitas de sofrimento e de beleza.
Por aquelas mergulha no infinito,
e por estas suplanta a natureza.

Se em toda parte o tempo desmorona
aquilo que foi grande e deslumbrante,
o antigo amor, porém, nunca fenece
e a cada dia surge mais amante.

Mais ardente, mas pobre de esperança.
Mais triste? Não. Ele venceu a dor,
e resplandece no seu canto obscuro,
tanto mais velho quanto mais amor.


Carlos Drummond de Andrade

 

 

 

 

 


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Domingo, 29 de Janeiro de 2017
Filho do Sol

 

Sou meridional, provavelmente de ascendência árabe, afinal andaram por cá cerca de 5 séculos, não serei descendente de princesas e vizires mas de artesãos. Sou filho do Sol e das areias douradas das praias do Algarve.

Preciso que o Sol acaricie voluptuosamente o meu corpo e que as dunas embalem o meu sono, só assim consigo sonhar que não sou um velho decrépito e que algum resto de juventude ainda habita o meu corpo.

É nas areias do Algarve que desejo que façam a minha campa.

 


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Sexta-feira, 20 de Janeiro de 2017
Memórias

Amigo António,

Não receberás esta carta, mas continuo a escreve-la como se fosse enviá-la pelo correio. Não respondes-te à minha primeira carta e, assim, não terás que responder a esta: afinal, os amigos também se esquecem.

A minha sogra faleceu perto dos noventa anos. Passava os dias cantarolando cantigas de quando fora jovem e histórias de amigas, a maior parte delas, já falecidas.

A natureza, sabiamente, retira aos velhos a memória de curta duração, não se lembram do que aconteceu na semana anterior, e devolve-lhes a memória do passado distante, a chamada memória de longa duração: mais ano menos ano, acontece e todos. Parece-me que sou precoce, já vivo mergulhado na memória de longo prazo, principalmente a memória da minha juventude ( a fase mais importante da existência ) vivida aí, em Torres Novas.

Esta dádiva da natureza tem um preço, a memória antiga é traiçoeira , omite, distorce factos e acontecimentos, fantasia o passado, temos que ser prudentes com ela: até os que escrevem livros de memórias não escapam a esta realidade. A memória é imperfeita e complexa como nós.

Recordo com muita saudade os amigos que ai conheci (convivi com dois em Lisboa, o Francisco Canais Rocha e o António Graça, falecido ainda novo) e, paradoxalmente dois insucessos amorosos, com a tua irmã e seguidamente com a Julieta Fradinho, natural de Silves, filha de um funcionário do Tribunal (com cara de poucos amigos, nunca o vi com uma companhia), que terminou brutalmente com a proibição categórica do pai, à boa maneira do século XIX.

 

Sempre ouvi dizer que o primeiro amor nunca se esquece e julgava que eram histórias de livros, mas é verdade, acontece mesmo. O meu primeiro amor foi com a tua irmã e a sua recordação ficou gravada nos recantos sinuosos da  minha memória.

Namoro curto, igual a todos os namoros daquela época e terminou com uma imposição que, inexperiente, não soube contornar.

Visto de fora, eu era um rebenta corações, na realidade, eu é que fiquei rebentado: para um jovem de vinte e poucos anos que se inicia   nos caminhos tortuosos do amor, dois insucessos seguidos deixam marcas fundas. Apesar disto, por estranho que pareça, tenho uma recordação muito grata – nos sentimentos não existe racionalidade - da Fernanda e da Julieta.

Não comentei estes insucessos com ninguém, lambi as feridas em solidão. Talvez por ter feito este recalcamento, agora tenho uma necessidade irreprimível de falar e escrever sobre eles.

Por obra do acaso, o grande fazedor e desfazedor de vidas, conheci na Net, um conterrâneo do Algarve, a viver em Sintra, e que conhece a Julieta. Deu-me o seu endereço e irei procura-la se saúde permitir.

Gostaria igualmente de voltar a ver a tua irmã mesmo que ela tenha uma memória desfavorável de mim: aos oitenta anos, doente, na idade do perdão, não tenho necessidade de enganar ninguém. Sei que ela está casada com o Arlindo e julgo que o conheço.

Há uns meses convidaram-me para um concurso de blogues. Tinha que apresentar uma resenha «biográfica» e saiu-me o texto que junto a esta carta. Dá uma síntese das minhas andanças.

Desejo a continuação das tuas melhoras e despeço-me com um abraço e cumprimentos para a tua esposa.

 


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Domingo, 15 de Janeiro de 2017
O Passado não volta mais

 

 

Não sei se algum computador é capaz de simular as jogadas de uma partida de dados, jogada manualmente, mas penso que na vida de cada um de nós muito do que nos acontece, das decisões que tomamos, do rumo que a nossa vida segue é, em grande parte fruto do acaso, como num jogo de dados.

Naquela noite, recuada no tempo (final da década de 50 do século passado), a pergunta que ela me fez e a resposta que eu dei, alterou o rumo da minha vida e da vida dela também.

Era um namoro típico da época, pedido prévio ao pai, regras definidas para namorar e para passear, devidamente acompanhados. Pelos padrões de hoje, era um namoro platónico, ou pouco mais.

A maior intimidade que tivemos não passou de beijos trocados com alguma dose de ingenuidade.

Recém-chegado a Torres Novas, já não me lembro como, fui aceite num pequeno grupo de jovens da minha idade (pouco mais de vinte anos e apenas dois ou três mais velhos). Profissões pouco variadas, empregados de serviços, três ou quatro operários, um pequeno comerciante e pouco mais.

Principalmente, à noite, tínhamos uma animada e descontraída conversa à, mesa de café ,onde conversávamos de tudo um pouco e, praticamente nenhuma política. Com uma excepção, que ninguém sabia, o mais velho do grupo era comunista e mais tarde ingressou na clandestinidade.   

Torres Novas era uma pequena cidade de província, parada no tempo salazarista, regida por valores conservadores. A mulher era doméstica, vivia em casa para tratar do marido e dos filhos, poucas de atreviam a frequentar um café, sempre acompanhadas, havia missa aos domingos, tabernas para convívio dos homens, a televisão, a preto e branco, dava os primeiros passos, as prostitutas estavam confinadas em «casas de meninas ou de má fama», os dias sucediam-se monótonos e iguais.

O automóvel era uma excepção, o comércio era feito em pequenas lojas e no mercado municipal, a roupa passava do irmão mais velho para o mais novo, nas camisas aplicava-se um colarinho novo, a moda era coisa remota e os salários eram baixos. Conseguir uma poupança, pequena que fosse (um pé de meia) era uma aspiração das famílias e para as filhas casadoiras era necessário o enxoval.

A mulher casava aos dezoito anos, às vezes menos, e aos vinte e cinco se não conseguisse casar, começava a adquirir o estatuto de «tia«. Casamento, sempre pela igreja ( o Registo Civil era mera formalidade burocrática sem qualquer valor simbólico), o vestido branco e a virgindade da mulher eram fundamentais, o homem tinha que assegurar o sustento da família.

O adultério praticado pelo homem era discretamente tolerado, quando praticado pela mulher era pecado e crime.

Todos cumprimentavam respeitosamente os notáveis da terra e cada um «habitava» no seu gueto social. Uma sociedade fechada e contraditória, as relações de vizinhança e a  solidariedade coabitavam com a intolerância e a opressão, o crédito bancário para consumo não existia mas a palavra dada era um compromisso que se cumpria.

 


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Quinta-feira, 12 de Janeiro de 2017
Velhice

 

A velhice também é a idade do balanço, do acerto de contas com a vida e com o nosso passado. Tanto erro, tanta insensatez, tanta inutilidade. Os que se gabam de voltar a fazer tudo de novo sem nada emendar, são petulantes ou mentem tentando iludir-se.

Por mim, gostava de saber se acrescentei alguma parcela de felicidade às pessoas – poucas - que amei e que me amaram e se, colectivamente, vou deixar algo mais do que recebi: tenho a veleidade de pensar que sim, mesmo sabendo que ninguém é bom juiz em causa própria.

Ainda tenho uma coisa por realizar. Uma peregrinação, apenas dois ou três dias, a Torres Novas (sem bordão nem merenda), a terra onde vivi cerca de seis anos da minha mocidade, onde tive bons amigos e amores infelizes que deixaram uma marca de tristeza na minha vida .

Quero percorrer sozinho as velhas ruas, principalmente à noite, do casco velho da cidade (o que ainda restar delas), rever casas, as pessoas já lá não estão certamente,  ir até ao jardim que ladeava o Almonda, (ainda existirão chorões debruçados sobre o rio?) límpido então mas hoje poluído ,  subir até ao Castelo e contemplar a cidade e, com sorte, ainda encontrar vivo um ou outro  amigo daqueles  anos distantes. Antes de partir, quero reavivar essa parcela da minha vida, capricho de velho.


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publicado por pimentaeouro às 20:19
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Terça-feira, 10 de Janeiro de 2017
Contas à vida

Todos os casais a partir dos 60 anos começam a deitar contas à vida, ou seja contas à morte, quem irá morrer primeiro, talvez seja uma contabilidade macabra a que ninguém escapa.

Todos desejam ser o primeiro a morrer, uma forma de egoísmo?. As excepções à regra existem quando um dos cônjuges deve sobreviver para dar apoio ao outro em caso de doenças graves. Não são leis da natureza que ditam estes comportamentos, são leis da convivência social.

Já fiz a minha contabilidade mas não é para a tornar publica. 


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publicado por pimentaeouro às 19:20
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Terça-feira, 20 de Dezembro de 2016
No meu tempo

Não vou escrever sobre as vantagens do meu tempo, sobre a actualidade ou qualquer outro exercício de saudosismo. Vou tentar avaliar as diferenças entre os anos 50 e 60, da minha mocidade com os dias de hoje.

 Considero que a emancipação da mulher, ainda em curso apenas no Ocidente, é uma revolução estrutural mais importante do que a revolução tecnológica da Net.

No primeiro caso, temos uma revolução que irá beneficiar metade da Humanidade, no segundo caso temos uma ferramenta mais complexa do que a foice ou uma chave de parafusos, mas apenas uma ferramenta.

No meu tempo as mulheres ficavam em casa a tratar do marido e dos filhos, não saiam de noite, não iam ao café, não podiam abrir conta bancária sem autorização do marido, déspota doméstico.

Naquela época ninguém imaginava que iria existir Internet, redes sociais, etc. Também ninguém imaginava que as mulheres pudessem escrever e aceder a outras actividades culturais, coutadas reservadas  exclusivamente para os homens.

Quem é que pode imaginar hoje uma sociedade destas?

Não existiam sem abrigos nas ruas das cidades e os bairros de lata eram quase invisíveis, mas havia mais miséria do que hoje. Centros comerciais, supermercados, hipermercados, ninguém sonhava com eles.

As compras faziam-se nas mercearias e no mercado municipal; os mais abastados pagavam a pronto, a maioria mandava assentar no livro, livro comprido e estreito, para pagar no final do mês

No início dos anos 50 cerca de 45% da população era rural em condições de miséria que hoje não imaginamos. Salazar, por decreto, quis proibir a população de andar descalça!

O pior período de miséria e fome ocorreu durante a Segunda Guerra Mundial: escassez de bens de primeira necessidade, racionamento, assaltos aos armazém,  salários de miséria sem quaisquer regalias sociais.

Nos anos 50 e, principalmente, nos anos 60 começa a emigração em massa – fuga à fome -, a salto (clandestinamente) para França, Luxemburgo, Alemanha, Suíça, EUA, Venezuela,  e outros países da América Latina, e é com as remessas destes emigrantes que as famílias sobrevivem e Salazar equilibra a balança de pagamentos.  

Com a guerra colonial, Salazar foi obrigado a reduzir as limitações do condicionamento industrial e a abrir a economia a novos mercados e ao capital estrangeiro. É nos anos sessenta que o nível de vida da população começa a melhorar, que surge a classe média; Marcelo Caetano ampliou esta linha de desenvolvimento e de melhoria de natureza social.

Os melhores anos da minha vida (39) foram vividos e condicionados pelo regime de Salazar; hoje não tenho nenhumas saudades do «meu tempo»  exceptuando as memórias de natureza afectiva.

Enquanto escrevo esta linhas sou assaltado por uma duvida, será que vamos regredir a tempos parecidos com aqueles?

 


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