Conhece-te a ti mesmo... se puderes.

Sexta-feira, 20 de Fevereiro de 2015
Santa Imaculada Inquisiçao # 3

Propaganda da palavra de Deus

 

 

 O primeiro desses dramas fúnebres e burlescos teve lugar em Lisboa no dia 20 de Setembro de 1540: ainda a Inquisição não estava definitivamente con­firmada pelo Papa.

A procissão saía do palácio do Rossio, para a praça da Ribeira, onde tinha lugar a cerimónia. Vinham à frente os carvoeiros, armados de piques e mosquetes para olhar pelas fogueiras; depois um crucifixo alçado, e os frades de S. Domingos, nos seus hábitos e escapulários brancos, com a cruz pre­ta, levando o estandarte da Inquisição, onde numa bandeira de seda se via a figura do santo, tendo  

numa das mãos a espada vingadora,.na outra um ramo de oliveira: JusUtia et Misericórdia. Após os frades, seguiam as, pessoas de qualidade, a pé; fami­liares da Inquisição, vestidos de branco e preto, com as cruzes das duas cores, bordadas a fio de ouro.

Depois vinham os réus, um a um, em linha; pri­meiro os mortos, depois os vivos: fictos, confictos, falsos, simulados, confitentes, diminutos, impeniten­tes, negativos, pertinazes, relapsos  por ordem de categoria dos delitos, a começar nos mortos e pelos contumazes.

Em varas erguidas como guiões, que os homens de samarra e capuz de holandilha preta levavam, penduravam-se as estátuas dos condenados ausentes, vestindo as carochas e sambenitús; e se a estátua representava o morto, outro verdugo seguia após dela com uma caixa negra pintada de demónios e chamas, contendo os ossos, para serem lançados aos pés da estátua na fogueira. Mais de uma vez se quei­maram esqueletos desenterrados de pessoas que, imunes durante a vida, foram julgadas e condena­das depois de mortas.

Em seguida vinham os réus vivos, por ordem crescente de gravidade dos crimes, sem distinção de sexos, um a um, com o padrinho ao lado, ou com o confessor domínico, se iam a queimar. Os homens vestiam um fato raiado de branco e preto, com as mãos, a cabeça e os pés nus; as mulheres apareciam em longos hábitos da mesma fazenda. Traziam todos tochas de cera amarela na mão e o baraço ao pes­coço. Insígnias diferentes distinguiam os que iam ao fogo, dos penitentes e dos confessores. Estes ves­tiam o sambenito, espécie de casula branca, com as cruzes de Santo André, vermelhas, no peito e nas costas; e levavam a cabeça descoberta. Os que depois da sentença tinham obtido perdão da fogueira, leva­vam samarra, uma casula parda; e carocha, uma mitra de papelão; e numa e noutra, pintadas, línguas de chama invertidas, o fogo revolto, a indicar a sua  sorte. Os condenados à morte, quer para serem es­trangulados primeiro, quer não, os destinados, vivos ou mortos, à queima, levavam na samarra e na ca­rocha o retrato pintado, ardendo em chamas, com demónios pretos pelo meio, e o nome escrito, e o crime por [ que padeciam.

Depois da estirada procissão, no couce, vinham os alabardeiros da Inquisição, e, a cavalo, os oficiais do conselho supremo, inquisidores, qualificadores, relatores, e mais sequazes da corte. Os sinos dobra­vam pausadamente nas torres das igrejas. A turba apinhava-se nas ruas, insultando os pacientes com palavras desonestas e atirando-lhes pedras e lama.

Cordões de tropa impediam que o povo invadisse, na praça, o recinto reservado ao Auto. Havia ali, para um lado, afastadas, as pilhas de madeira, rec­tangulares, com o poste erguido ao centro e um banco; e no meio da praça um espaço reservado com o estrado e as tribunas. Na da esquerda estava o rei, D. João III, piedosamente satisfeito na sua fé, como espírito duro, mas sincero e forte; estavam a rai­nha e a corte; e, ao lado do monarca, o condestável com o estoque desembainhado. Na outra, da di­reita, levantavam-se o trono e dossel do cardeal D. Henrique, depois rei, e agora infante inquisidor--mor, ladeado pelos membros do tribunal sagrado, nos seus bancos.

A meio do tablado ficava o altar, com frontal preto, banqueta de cera amarela, e um crucifixo ao centro. Em frente, num plinto, erguia-se o estan­darte da Inquisição. A um lado tinha o púlpito; ao outro a mesa dos relatores das sentenças, coalhada de papéis com selos pendentes; e os padecentes, em linhas, ficavam de pé, voltados para o altar, para o púlpito, para o tribunal.

Disse-se missa. O inquisidor-mor, de capa e mitra, aprentou ao rei os Evangelhos, para sobre eles ju­rar e defender a fé. D. João III e todos, de pé e des­cobertos, juraram com solenidade sincera.

Depois houve sermão; e finalmente a leitura das sentenças, começando pelos crimes menores.

A adoração das imagens, questão debatida nos concílios, dava lugar a muitas faltas. Outros iam ali por terem recusado beijar os santos dos mealhei­ros, com que os irmãos andavam pelas ruas pedindo esmola. Outros por irreverências, outros por falta de cumprimento dos preceitos canónicos; muitos por coisa nenhuma; a máxima parte, vítimas de delações pérfidas ou interessadas. Os relatores iam lendo as sentenças, os condenados gemendo, uns, e chorando; outros exultando por se verem soltos do cárcere, li­vres da tortura, prometendo a si para consigo serem de futuro meticulosamente hipócritas.

 

Oliveira Martins, História de Portugal

 

 



publicado por pimentaeouro às 17:45
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Quinta-feira, 19 de Fevereiro de 2015
Santa Imaculada Inquisiçao # 2

2. Modus faciendi

 

 

 

Os seus processos infringiam todas as regras elementares da justiça e do bom senso. Os delatores serviam de testemunhas; os filhos depunham contra os pais, os pais contra os filhos; o réu não podia comunicar com os defensores, nem conhecia quem o acusava; a delação era aplaudida e a espionagem considerada uma virtude. Os familiares insinuavam-se nas famílias, como médicos, confessores, ínti­mos e conselheiros, para captarem os segredas e os delatarem. Na sentença não havia revisão, nem ape­lação. Nas prisões não havia prazos preventivos, e o encarcerado jazia meses, anos, todo o resto da vida muitas vezes, ignorante do crime de que o acusa­vam. Armavam-lhe laço e perfídias para o perder. Metiam-lhe no cárcere pessoas subornadas, que se diziam também pacientes, para o afagarem e se condoerem da sua miséria. Ganha assim a confiança, começavam as confidências: a Inquisição era um horror, uma peste! E se o miserável, perdido, aplau­dia, estava condenado. Para lhe obter a confissão de faltas, imaginárias frequentemente, os inquisi­dores fingiam enternecer-se, prometiam perdões, ajudavam, seduziam, até que o miserável confes­sasse o que fizera, ou não fizera.

 

Esta espécie de tortura era muitas vezes mais dolorosa do que a outra; e os infelizes encarcerados chegavam a considerar um céu o calabouço negro, onde lhes não era dado nem ver, nem falar, nem gemer, nem chorar, sob pena da chibata do verdugo. No seio da treva e do silêncio absoluto, nem bem sabiam se viviam ou tinham morrido, e, como idio­tas, deixavam-se ficar estendidos no chão, imóveis, no antro dos seus sepulcros.

Cada vez que a porta do cárcere se abria, estre­meciam de medo, ou de uma esperança meio-apagada. Levavam-nos amarrados à casa dos tormentos; e enquanto iam descendo as escadas tortuosas, onde os gritos se perdiam abafados, o juízo ardia-lhes, confundiam-se-lhes as ideias, já não distinguiam do real o suposto; começavam a crer-se monstros, a 

acreditar em tudo aquilo de que eram acusados: tinham visto o diabo em pessoa, tinham-lhe vendido a alma, tinham partido com um machado um cruci­fixo, etc. O inquisidor, frio e fúnebre, sentado ao fundo da casa de abóbada, mal alumiada por tochas presas em anéis de ferro às paredes, acreditaria no diabo e nos seu® aparecimentos? Porque não? Um doido torturava um idiota; e, no fundo escuro de uma cripta, a loucura dos homens tinha os seus ága­pes terríveis.

Demónios pareciam os verdugos, mudos e mas­carados, com o capuz e samarra de holandilha preta, onde havia os buracos dos olhos e da boca, movendo-se como autómatos a preparar os instrumentos da tortura; e de toda aquela gente, nem talvez o mé­dico, a um lado, a observar que a vida dos pacien­tes se não apagasse de todo, tivesse o juízo são. Desde que os homens se tinham considerado senho­res da verdade absoluta, a palavra de Deus enlouquecia-os e fazia deles monstros. Nessas tragédias lúgubres morria por vezes o miserável, na tortura ou no cárcere; e então era enterrado nas covas do palácio, sendo primeiro o esqueleto descarnado, reli­giosamente, para que os ossos pudessem figurar no Áuto-da-fé próximo, queimados na fogueira.

 

 

 

 



publicado por pimentaeouro às 20:26
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Quarta-feira, 18 de Fevereiro de 2015
Santa Imaculada Inquisiçao # 1

 1. Terrorismo de Estado

 

 

 

A INQUISIÇÃO - D. JOÃO III

 1. Terrorismo de Estado

A Inquisição, ardentemente desejada e pedida por D. João III ao Papa ( D. Manuel já a tinha pedido em 1.415), estava fundada; e se a criação do tribunal era o único meio de conter e moralizar os furores fanáticos da turba, e de evitar o sistema de matanças e pilha­gens do reinado anterior, é fora de dúvida que os nervos da nação, já flácidos e pobres, não podiam usar, de um modo relativamente justo, a arma ter­rível que lhes era confiada.

Os desejos do rei e dos seus acólitos eram sin­ceros e desinteressados; mas o estado moral das classes directoras era tal, que a instituição apareceu podre, desde todo o princípio. Nem a tortura, nem as fogueiras propriamente a condenam, porque esses processos eram comuns ao direito penal contempo­râneo. Os que identificam a crueldade com o hábito dos domínicos. não se lembram de que antes de haver Inquisição quando os processos de heresia corriam pelas  mãos dos bispos, a crueldade era tão grande como foi depois.

Em 1.548, em Goa, sob o governo de Martim Afonso de Sousa, que presidia com o seu ouvidor à mesa secular, e que por parte da justiça civil confirmou a sentença; em 1.548, dizíamos, o arcebispo, predecessor dos inquisidores, con­denava um réu de heresia a ser queimado vivo, 

consentindo, porém, piedosamente, que, se se retra­tasse... o afogassem.

.Não é pois a crueldade que condena a Inquisição, mas "sim o facto de constituir em poder do Estado uma função até então exercida de um modo mais ou menos regular, mas não consagrada ainda numa instituição particular. Não inovou: deu, porém corpo,  unidade e sanção a processos que anteriormente se seguiam já. Tornou sistemático e constitucional o uso que se fazia dos meios pérfidos, atacando frente a frente a humanidade, a família, o carácter, a vir­tude: triturando o homem em tudo o que há nobre no espírito, em nome de uma razão de Estado trans­cendente. A Inquisição foi uma polícia com autori­dade de tribunal; e se já nos repugnam os meios imorais da polícia, que será quando esses meios são um poder, e não um instrumento? quando servem para condenar, e não para elucidar e preparar ape­nas, de um modo indirecto e meramente prévio, o juízo do tribunal?

Tal era o vício orgânico da Inquisição; e não só da nossa, como de todas essas instituições nascidas do espírito místico que, à maneira do cesarismo no Estado, sacrificavam as garantias do indivíduo, que­brando todas as molas morais que levantam o ho­mem na sociedade. E deste vício orgânico, inerente ao próprio princípio, provinham logo as consequên­cias funestas: a ferocidade cruel e a devassidão na­tural dos cesarismos e dos misticismos. Ponha-se, agora, nas mãos de uma sociedade corrompida até à medula, a arma terrível de um poder absoluto e irresponsável em si, e sem limites morai© nem legais nos seus meios, e conceber-se-á como a Inquisição portuguesa, nascida do seio das torpes negociações de tantos anos , apareceu logo à nascença podre, qual miasma de uma lagoa infecta.

 

 

Oliveira Martins, História de Portugal

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



publicado por pimentaeouro às 21:45
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