Conhece-te a ti mesmo... se puderes.

Sábado, 22 de Julho de 2017
As mil e uma noites

 "O Livro das Mil e Uma Noites" é uma coleção de histórias e contos populares originárias do Médio Oriente e do sul da Ásia e compiladas em língua árabe a partir do século IX. No mundo moderno ocidental, a obra passou a ser amplamente conhecida a partir de uma tradução para o francês realizada em 1704 pelo orientalista Antoine Galland, transformando-se num clássico da literaturamundial.

 
Xerazade e o sultão Xariar, 
 

As histórias que compõe as Mil e uma noites tem várias origens, incluindo o folclore indiano, persa e árabe. Não existe uma versão definida da obra, uma vez que os antigos manuscritos árabes diferem no número e no conjunto de contos. O que é invariável nas distintas versões é que os contos estão organizados como uma série de histórias em cadeia narrados por Xerazade, esposa do rei Xariar. Este rei, louco por haver sido traído por sua primeira esposa, desposa uma noiva diferente todas as noites, mandando matá-las na manhã seguinte. Xerazade consegue escapar a esse destino contando histórias maravilhosas sobre diversos temas que captam a curiosidade do rei.

Ao amanhecer, Xerazade interrompe cada conto para continuá-lo na noite seguinte, o que a mantém viva ao longo de várias noites - as mil e uma do título - ao fim das quais o rei já se arrependeu de seu comportamento e desistiu de executar.

A história conta que Xariar, rei da Pérsia da dinastia dos Sassânidas, descobre que sua mulher é infiel, dormindo com um escravo cada vez que ele viaja. O rei, decepcionado e furioso, mata a mulher e o escravo, convencendo-se por este e outros casos de infidelidade que nenhuma mulher do mundo é digna de confiança. Decide então que, daquele momento em diante, dormirá com uma mulher diferente cada noite, mandando matá-la na manhã seguinte: desta forma não poderá ser traído nunca mais.

Passam-se assim três anos durante os quais o rei desposou e sacrificou inúmeras moças, trazidas à sua presença pelo vizir (equivalente a um primeiro-ministro) do reino. Certo dia, quando já quase não havia virgens no reino, uma das filhas do vizir, Xerazade, pediu para ser entregue como noiva ao rei, pois sabia de um estratagema para escapar ao triste fim que alcançaram as moças anteriores. O vizir apenas aceita depois de muita insistência da filha, levando-a finalmente ao rei. Antes de ir, Xerazade diz à irmã, Duniazade, que lhe peça que conte uma história quando for chamada ao palácio do rei.

Xerazade, ao chegar na presença do rei, pede-lhe que permita a vinda de sua irmã, para despedir-se. O rei o permite, e Duniazade vem ao palácio e instala-se na câmara nupcial. Após o rei possuir Xerazade, Duniazade pede à irmã que conte uma história para passar o tempo. Após respeitosamente pedir a permissão do rei, Xerazade começa a contar a extraordinária "História do mercador e do gênio" mas, ao amanhecer, ela interrompe o relato, dizendo que continuará a narrativa na noite seguinte.

O rei, curioso com o maravilhoso conto de Xerazade, não ordena sua execução para poder saber o final da história na noite seguinte. Assim, repetindo essa estratégia, Xerazade consegue sobreviver noite após noite, contando histórias sobre os mais variados temas, desde o fantástico e o religioso até o heróico e o erótico. Ao fim de inúmeras noites e contos, Xerazade já havia tido três filhos do rei, e lhe suplica que a poupe, por amor às crianças. O rei, que há muito havia-se arrependido dos seus atos passados e se convencido da dignidade de Xerazade, perdoa-lhe a vida e faz dela sua rainha definitiva. Duniazade é feita esposa do irmão do rei, Xazamã.

A mais antiga menção a um livro árabe das Mil e uma noites é um fragmento de um manuscrito do início do século IX em que se lê o título da obra e algumas linhas iniciais, em que Duniazade pede a um narrador não especificado que conte uma história. Mais dados sobre a existência deste livro e sua origem encontram-se nos escritos do historiador Al-Masudi (888-957), que se refere a uma coleção de contos fantasiosos traduzidos do persasânscrito e grego.

 



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Terça-feira, 4 de Abril de 2017
Grupo do leão

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Este quadro de grandes dimensões (201 x 376 cm) representa os pintores naturalistas portugueses que se reuniam na Cervejaria Leão de Ouro, em Lisboa, na então chamada Rua do Príncipe (atualmente Rua Primeiro de Dezembro). Os artistas decidiram colaborar na decoração do restaurante que a Cervejaria passou a integrar. Logo à entrada, ficou o retrato do Grupo. A pintura aí ficou até ser adquirida pelo Museu em 1945. Estão nela representados onze artistas, um intelectual, um empregado de mesa e o dono da Cervejaria. Ao fundo, em pé, da esquerda para a direita: o pintor João Ribeiro Cristino (1858-1948), o intelectual Alberto de Oliveira, o empregado Manuel Fidalgo, o próprio pintor Columbano (1857-1929), o dono da Cervejaria António Monteiro, o paisagista Cipriano Martins. Sentados, da esquerda para a direita: o paisagista Henrique Pinto (1853-1912), o pintor José Malhoa (1855-1933), o pintor de marinhas João Vaz (1859-1931), o pintor Silva Porto (1850-1893), o pintor António Ramalho (1859-1916), o pintor Moura Girão (1840-1916), o caricaturista Rafael Bordalo Pinheiro (1846-1905) e o escultor José Rodrigues Vieira (1856-1898).

A figura mais próxima do centro da composição representa o principal impulsionador do Grupo, Silva Porto, a quem Alberto de Oliveira está apresentando o catálogo que ele próprio organizara para uma exposição do Grupo. Toda a composição é firme, mantendo porém a naturalidade. A inclinação para a esquerda da figura de Alberto de Oliveira é compensada pela inclinação para a direita da figura de Manuel Fidalgo. À esquerda, aparece em cores claras a representação, em toda a largura, de uma coluna; no outro extremo do quadro aparece outra coluna clara, não representada em toda a largura, acompanhada porém pela claridade das roupagens de Columbano e de Rodrigues Vieira. A mesa clara atravessa horizontalmente todo o quadro, servindo de eixo ordenador das figuras dos artistas, todas escuras e bem recortadas, com os rostos perfeitamente identificáveis. Alguns estiveram no atelier de Columbano, expressamente para este quadro. De outros, o autor possuía já a imagem, por os ter retratado anteriormente, ou até possuir apontamentos e fotografias. António Ramalho e Rodrigues Vieira são os que mais deixam transparecer a alegria daquele momento de convívio.

Columbano apreciava os retratos coletivos realizados por Frans Hals e, em França, observou talvez o célebre quadro de Fantin Latour, representando Verlaine, Rimbaud e outros poetas: Coin de Table (1872). Também apreciou as pinturas pré-impressionistas de Edgar Degas, e possivelmente o seu próprio auto-retrato, no Grupo, com a sua cartola e enviesamento do corpo, corresponde a alguma influência do pintor francês.



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Segunda-feira, 23 de Janeiro de 2017
Habitos sicilianos

Corria a segunda metado do século XIX: “É a igreja de Santa Ninfa (diz Tancredi). Há cinco anos, o páraco foi morto lá dentro quando estava a celebrar missa. Que horror! Tiros na igreja! Mas quais tiros, Chevalley! Somos demasdiado bons católicos para cometer sacrilégios desses. Limitaram-se a pôr veneno no vinho da Comunhão; é mais discreto, direi mesmo mais liturgico. Nunca se soube quem o fez; o pároco era uma excelente pessoa e não tinha inimigos.



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Sábado, 22 de Outubro de 2016
E o Ronalo fica de fora ?

Vargas Llosa questiona: “No próximo ano vão dar o Nobel a um futebolista?”

 

Nobel da Literatura peruano diz que gosta da música de Bob Dylan, mas sustenta que a decisão da Academia Sueca foi um “equívoco”

Mario Vargas Llosa considera que a Academia sueca deixou-se contaminar pela “civilização do espetáculo” na decisão de atribuir o Prémio Nobel da Literatura a Bob Dylan, questionando se “no próximo ano vão dar o Nobel a um futebolista”.

Falando na ocasião em que recebeu um doutoramento Honoris Causa pela Universidade de Burgos, o escritor peruano, contemplado com o Nobel em 2010, disse que apesar de gostar Dylan “como cantor”, a decisão de lhe atribuírem o prémio resulta de um equívoco, pois em nome de uma suposta democratização cultural estão a caminhar no sentido da “frivolidade e banalização”.

Atualmente com 80 anos, o escritor comentou que atualmente “o público exige” esta cultura de espetáculo. No seu entender, a cultura deve é exigir a formação de elites “que não resultam do privilégio mas do esforço e do talento”, tendo em conta que implicam “uma certa seleção dada a sua complexidade”.

Llosa falou também sobre o impacto das novas tecnologias e das redes sociais, elogiando o facto de “tornarem impensável a censura”, mas frisando que acarretam também aspetos “negativos” e “aterradores”, nomeadamente pelo modo como permitem que a mentira se instale com facilidade.



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Domingo, 17 de Julho de 2016
Bel Ami

 

O arrivista perfeito. Há muitos por aí.



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Sábado, 4 de Junho de 2016
Usura

 

 

O austero cardeal Montalto disse: Aconselho-te a venda de duas quintas que não rendem quase nada e a colocação desse dinheiro nas mãos dos Médici, em Florença. Como Giulietta objectasse que os Médici eram conhecidos por praticarem a usura e que essa prática era proibida pela Igreja, o cardeal encolheu os ombros e respondeu: Pretendeis ser mais católica do que o papa? Aludindo ao facto de Gregório XIII ter confiado importantes somas aos Médici, a fim de as pôr a render.

 

Robert  Merle, O Ídolo



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Terça-feira, 31 de Maio de 2016
Don Juan

 

 

Don Juan é uma personagem semilendária que parece ter vivido em Sevilha, em tempos muito remotos, e que, exibindo várias modalidades de carácter e em resultado das múltiplas aventuras que lhe são atribuídas, tem servido de inspiração a muitos poetas e autores dramáticos que fizeram dela o tipo de conquistador brilhante, libertino e sem escrúpulos, de quem as mulheres irresistivelmente se enamoram e que ele engana, despreza e esquece.
O primeiro tipo de personagem de Don Juan é trazido ao nosso conhecimento através da Crónica de Sevilha, que nos apresenta Don Juan Tenório como o autor da morte do comendador Uloa, cuja filha havia raptado.
Tirso de Molina (1571-1648), poeta e dramaturgo espanhol, autor de obra literária muito vasta e muito rica, trouxe a personagem D. Juan para o mundo da literatura e para o mundo do teatro com a sua comédia El Burlador de Sevilla, em que foi secundado pelo dramaturgo francês Jean Baptiste Molière (1622-1673), que trata o tema Don Juan no seu Dom Juan, l'Amour Médecin, pelo dramaturgo espanhol António Zamora /1664-1728) e pelo poeta cómico italiano Carlo Goldini (1707-1793).

 

A figura de Don Juan tem inspirado poetas e escritores de muitos países e de várias épocas. De entre muitos outros merecem referência especial o romancista francês Alexandre Dumas (1802-1870); o poeta austríaco Nikolaus Lenau (1802-1850); o escritor francês Prosper Mérimée (1803-1870); o poeta espanhol José Zorrilha (1817-1893); o escritor português António Silva Gaio (1830-1870); o poeta português António Gomes Leal (1849-1921), em A Última Fase da Vida de D. João, o poeta português Abílio Guerra Junqueiro (1850-1923), em A Morte de D. João; o autor dramático francês Henri Bataille (1872-1922); o médico e escritor português António Patrício (1878-1930), em D. João e a Máscara; o poeta português João de Barros (1881-1960); o poeta e dramaturgo português Rui Chianca (1891-1931), em Alma de D. João.
D. Juan é também o título de um poema da autoria de Lord Byron, mas aqui o poeta inglês transformou significativamente a personagem do conquistador libertino e sem escrúpulos de Tirso de Molina.
D. Juan é ainda o título e o assunto de uma ópera do compositor austríaco Wolfgang A. Mozart (1756-1791).



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Quarta-feira, 27 de Abril de 2016
Scheherazade #2

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As Mil e Uma Noites, uma das obras da literatura universal, é uma coletânea de fascinantes histórias inventadas e preservadas na tradição oral, revelando a cultura árabe. A sua divulgação no Ocidente deve-se a Antoine Galland que, nas suas viagens aos países árabes, recolheu e traduziu não só uma série de contos orientais que foram publicados, em francês, em 1704, sob o título que hoje conhecemos, como também uma série de versões que nunca foram completadas. O árabe, de nacionalidade francesa, Joseph Charles Mardruz, médico sírio, que viajou muito pelo Egito, foi o responsável pela versão final deAs Mil e Uma Noites, publicada em 1889.
As Mil e Uma Noites relata uma das histórias mais belas de todos os tempos. Revela a coragem e a inteligência de uma mulher que conseguiu, através do dom de contar histórias, aplacar a ira e a raiva de um rei traído pela maldade e infidelidade de outra mulher.
A história começa em tempos muito remotos, altura em que a civilização persa era das mais evoluídas da humanidade. Reinava a dinastia dos Sassânidas, tendo os dois herdeiros, Schahriar e Schahzaman, cada qual, o seu reino: um tinha-o na Índia, e o outro, na China. Um dia, Schahriar, cheio de saudades do irmão, mandou-o buscar a Samarcanda, onde este vivia. Schahzaman, muito contente, fez os preparativos para a viagem e, quando foi despedir-se da sua esposa, encontrou-a adormecida nos braços de um criado. Retirou a espada e matou-os imediatamente.

 

Schahriar recebeu o seu irmão com honras, presentes e festas, mas Schahzaman estava possuído por uma profunda e inabalável tristeza. Um dia, Schahriar foi caçar sozinho e o irmão ficou no palácio, passeando pelos jardins. Foi então que Schahzman descobriu a traição da rainha, esposa de Schahriar, e das suas servas, deitadas com os escravos. Apesar de lamentar a sorte do irmão, sentiu-se menos só na sua tristeza. Quando Schahriar voltou da caçada, este perguntou a Schahzaman a razão pela qual se encontrava um pouco mais animado, e este contou -lhe o que tinha visto. Depois de se certificar, por si mesmo do acontecimento, Schahriar mandou o Vizir matar a sua esposa, as servas e os escravos. De seguida, tomou uma decisão: daí em diante não manteria nenhuma esposa viva para além da noite de núpcias. E assim aconteceu. Schahriar todos os dias pedia a Vizir que lhe escolhesse uma esposa que, no dia seguinte, estaria invariavelmente morta. O terror invadiu o reino, e todas as famílias com filhas donzelas temiam o dia em que a terrível sorte as atingisse.
Até que um dia, Sherazade, uma das duas filhas do Vizir, foi ter com o pai para lhe comunicar uma importante decisão. Sherazade, bela, inteligente, culta e educada pelos maiores sábios, tinha imaginado um plano para acabar com a loucura do rei. O Vizir, desesperado, tentou demovê-la da sua decisão, mas nem lágrimas, nem palavras conseguiram vencer a obstinação de Sherazade que, antes de partir para o casamento no palácio, pediu a ajuda da irmã Duniazade para levar a bom termo o seu plano.
Depois da noite de núpcias e antes do amanhecer, Sherazade pediu a Schahriar que lhe concedesse um último desejo, o de ver e o de despedir-se da irmã. Quando Duniazade chegou, sentou-se junto do leito real e pediu à irmã que lhe contasse uma história a qual o rei não também quis ouvir. Sherazade contou uma história tão bela que deixou o rei preso às suas palavras e, quando a manhã interrompeu a narrativa, Sherazade disse-lhe que o que havia contado não se comparava com o que teria para lhe contar na noite seguinte. Desejoso de saber a continuação da história, Schahriar permitiu que Sherazade vivesse mais um dia e, depois, outro dia e, ainda, outro dia...
Durante mil e uma noites, Sherazade superava-se noite após noite, estimulando, dessa forma, a imaginação do rei com histórias belas, fantásticas e inteligentes. Até que à milésima e uma noite, Sherazade pediu-lhe que a resgatasse do destino que o rei havia previsto para ela. Schahriar reparou então que a amava e decretou grandes festas no reino, durante trinta dias, para celebrar a sua união com a mulher de quem nunca mais se separaria e com a qual viveu feliz para sempre.
Das narrativas contadas por Sherazade, ficaram famosas as viagens de Sindbad, o Marinheiro; as aventuras de Aladino e a lâmpada maravilhosa; a mirabolante história de Ali Babá e os quarenta ladrões.
Note-se ainda que, nas coletâneas de As Mil e Uma Noites, só aparecem 291 histórias e não 1001. Há quem defenda que se trata de um número simbólico, ou de um exagero literário; outros consideram que cada história se divide em vários capítulos, cada um equivalendo a uma noite, o que perfaria, no total, o número de 1001. 



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Sheherazade

 

 

 

 

 
 

 

 



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Sábado, 16 de Abril de 2016
David Mourão Ferreira

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Escritor e professor universitário português, natural de Lisboa. Licenciou-se em Filologia Românica em 1951. Foi professor do ensino técnico e do ensino liceal e, em 1957, iniciou a sua carreira de professor universitário na Faculdade de Letras de Lisboa. Afastado desta actividade entre 1963 e 1970, por motivos políticos, foi professor catedrático convidado da mesma instituição a partir de 1990.

Entretanto, mantivera nos anos 60 programas culturais de rádio e televisão. Em 1963 foi eleito secretário-geral da Sociedade Portuguesa de Autores e, já nos anos 80, presidente da Associação Portuguesa de Escritores. Logo após o 25 de Abril de 1974, foi director do jornal A Capital. Secretário de Estado da Cultura em vários governos entre 1976 e 1978, foi também director-adjunto do jornal O Dia entre 1975 e 1976.

Responsável pelo Serviço de Bibliotecas Itinerantes e Fixas da Fundação Calouste Gulbenkian a partir de 1981, dirigiu, desde 1984, a revista Colóquio/Letras, da mesma instituição. A sua carreira literária teve início em 1945, com a publicação de alguns poemas na revista Seara Nova. Três anos mais tarde, ingressou no Teatro-Estúdio do Salitre e no Teatro da Rua da Fé. Publicou as peças Isolda (1948), Contrabando (1950) e O Irmão (1965). Em 1950, foi um dos co-fundadores da revista literária Távola Redonda, que se assumiu como veículo de uma alternativa à literatura empenhada, de realismo social, que então dominava o panorama cultural português, defendendo uma arte autónoma. Em 1950, publicou o seu primeiro volume de poesia — Secreta Viagem. David Mourão-Ferreira colaborou ainda nas revistas Graal (1956-1957) e Vértice e em vários jornais, como o Diário Popular e O Primeiro de Janeiro. Foi poeta, romancista, crítico e ensaísta.

A sua poesia caracteriza-se pelas presenças constantes da figura da mulher e do amor, e pela busca deste como forma de conhecimento, sendo considerado como um dos poetas do erotismo na literatura portuguesa. A vivência do tempo e da memória são também constantes na sua obra, marcada, a nível do estilo, por uma demanda permanente de equilíbrio, de que resulta uma escrita tensa, e pela contenção da força lírica e sensível do poeta numa linguagem rigorosa, trabalhada, de grande riqueza rítmica, melódica e imagística, que fazem dele um clássico da modernidade.

Entre os seus livros de poesia encontram-se Tempestade de Verão (1954, Prémio Delfim Guimarães), Os Quatro Cantos do Tempo (1958), In Memoriam Memoriae (1962), Infinito Pessoal ou A Arte de Amar (1962), Do Tempo ao Coração (1966), A Arte de Amar (1967, reunião de obras anteriores), Lira de Bolso (1969), Cancioneiro de Natal (1971, Prémio Nacional de Poesia), Matura Idade (1973), Sonetos do Cativo (1974), As Lições do Fogo (1976), Obra Poética (1980, inclui as obras À Guitarra e À Viola e Órfico Ofício), Os Ramos e os Remos (1985), Obra Poética, 1948-1988 (1988) e Música de Cama (1994, antologia erótica com um livro inédito). Ensaísta notável, escreveu Vinte Poetas Contemporâneos (1960), Motim Literário (1962), Hospital das Letras (1966), Discurso Directo (1969), Tópicos de Crítica e de História Literária (1969), Sobre Viventes (1976), Presença da «Presença» (1977), Lâmpadas no Escuro (1979), O Essencial Sobre Vitorino Nemésio (1987), Nos Passos de Pessoa (1988, Prémio Jacinto do Prado Coelho), Marguerite Yourcenar: Retrato de Uma Voz (1988), Sob o Mesmo Tecto: Estudos Sobre Autores de Língua Portuguesa (1989), Tópicos Recuperados (1992), Jogo de Espelhos (1993) e Magia, Palavra, Corpo: Perspectiva da Cultura de Língua Portuguesa (1989). Na ficção narrativa, estreou-se em 1959 com as novelas de Gaivotas em Terra (Prémio Ricardo Malheiros), os contos de Os Amantes (1968), e ainda As Quatro Estações (1980, Prémio da Crítica da Associação Internacional dos Críticos Literários), Um Amor Feliz, romance que o consagrou como ficcionista em 1986 e que lhe valeu vários prémios, entre os quais o Grande Prémio de Romance da APE e o Prémio de Narrativa do Pen Clube Português, e Duas Histórias de Lisboa (1987).

Deixou ainda traduções e uma gravação discográfica de poemas seus intitulada «Um Monumento de Palavras» (1996). Alguns dos seus textos foram adaptados à televisão e ao cinema, como, por exemplo, Aos Costumes Disse Nada, em que se baseou José Fonseca e Costa para filmar, em 1983, «Sem Sombra de Pecado». David Mourão-Ferreira foi ainda autor de poemas para fados, muitos deles celebrizados por Amália Rodrigues, tal como «Madrugada de Alfama». Recebeu, em 1996, o Prémio de Consagração de Carreira da Sociedade Portuguesa de Autores.


 



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Quarta-feira, 24 de Fevereiro de 2016
Também sou

 

 

D. Quixote de La Mancha (Don Quijote de la Mancha em castelhano) é um livro escrito pelo espanhol Miguel de Cervantes y Saavedra (1547-1616). O título e ortografia originais eram El ingenioso hidalgo Don Quixote de La Mancha, com sua primeira edição publicada em Madrid no ano de 1605. É composto por 126 capítulos, divididos em duas partes: a primeira surgida em 1605 e a outra em 1615. A coroa espanhola patrocinou uma edição revisada em quatro volumes a cargo de Joaquín Ibarra. Iniciada em 1777 concluiu-se em 1780 com tiragem inicial de 1600 exemplares.[4]

O livro surgiu em um período de grande inovação e diversidade por parte dos escritores ficcionistas espanhóis. Parodiou os romances de cavalaria que gozaram de imensa popularidade no período e, na altura, já se encontravam em declínio. Nesta obra, a paródia apresenta uma forma invulgar. O protagonista, já de certa idade, entrega-se à leitura desses romances, perde o juízo, acredita que tenham sido historicamente verdadeiros e decide tornar-se um cavaleiro andante. Por isso, parte pelo mundo e vive o seu próprio romance de cavalaria. Enquanto narra os feitos do Cavaleiro da Triste Figura, Cervantes satiriza os preceitos que regiam as histórias fantasiosas daqueles heróis. A história é apresentada sob a forma de novela realista.

É considerada a grande criação de Cervantes. O livro é um dos primeiros das línguas européias modernas e é considerado por muitos o expoente máximo da literatura espanhola. Em princípios de maio de 2002, o livro foi escolhido como a melhor obra de ficção de todos os tempos. A votação foi organizada pelo Clubes do Livro Noruegueses e participaram escritores de reconhecimento internacional.[5]

 

Rota percorrida por D. Quixote

O protagonista da obra é Dom Quixote, um pequeno fidalgo castelhano que perdeu a razão por muita leitura de romances de cavalaria e pretende imitar seus heróis preferidos. O romance narra as suas aventuras em companhia de Sancho Pança, seu fiel amigo e companheiro, que tem uma visão mais realista. A ação gira em torno das três incursões da dupla por terras de La Mancha, de Aragão e da Catalunha. Nessas incursões, ele se envolve em uma série de aventuras, mas suas fantasias são sempre desmentidas pela dura realidade. O efeito é altamente humorístico. O encanto da obra nasce do descompasso entre o idealismo do protagonista e a realidade na qual ele atua. Cem anos antes, Quixote teria sido um herói a mais nas crônicas ou romances de cavalaria, mas ele havia se enganado de século. Sua loucura residia no anacronismo. Isso permitiu ao autor fazer uma sátira de sua época, usando a figura de um cavaleiro medieval em plena Idade Moderna para retratar uma Espanha que, após um século de glórias, começava a duvidar de si mesma.

O livro é estruturado em duas partes, a primeira maneirista, enquanto a segunda é mais barroca. Enquanto a primeira parte da obra deixa a impressão de liberdade máxima, a segunda parte produz a sensação constante de nos encontrarmos encerrados em limites estreitos. Essa sensação é sentida mais intensamente quando confrontada com a primeira parte. Se anteriormente, a ironia era, sobretudo, uma expressão amarga da impossibilidade de dar realidade a um ideal, com a segunda parte nasce muito mais da confrontação das formas da imaginação com as da realidade. Cervantes dá a sua própria definição da obra: "orden desordenada (...) de manera que el arte, imitando à la Naturaleza, parece que allí la vence". O processo adotado por Cervantes - a paródia - permite dar relevo aos contrastes, através da deformação grotesca, pela deslocação do patético para o burlesco, fazendo com que o burlesco apague momentaneamente a emoção, estabelecendo um entrelaçado espontâneo de picaresco, de burlesco e de emoção. O conflito surge do confronto entre o passado e o presente, o ideal e o real e o ideal e o social.

Dom Quixote e Sancho Pança representam valores distintos, embora sejam participantes do mesmo mundo. É importante compreender a visão irônica que o romancista tem do mundo moderno, o fundo de alegria que está por detrás da visão melancólica e a busca do absoluto. São mundos completamente diferentes. Sancho Pança o fiel escudeiro de Dom Quixote é definido por Cervantes como "Homem de bem, mas de pouco sal na moleirinha". É o representante do bom senso e é para o mundo real aquilo que Dom Quixote é para o mundo ideal. Por fim, a história também é apresentada sob a forma de novela realista: ao regressar a seu povoado, Dom Quixote percebe que não é um herói, mas que não há heróis.

 

 


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Sexta-feira, 8 de Janeiro de 2016
Romeu e Julieta, quem se lembra?

 

 

Há um bom par de anos li o consagrado romance Romeu e Julieta de Shakespeare, escrito na sua mocidade. Shaekespeare foi buscar o tema à literatura italiana da sua época mas o tema é anterior, é de muitos séculos antes. A acção desenrola-se em Verona e R. e J. pertencem a duas famílias inimigas, capuletos e montecchios., hoje diríamos que S. fez um plágio.

Não gostei do romance, achei-o fraco e esta é também a opinião de alguns críticos literários. Sendo um romance menor porque motivo sobreviveu durante vários séculos? Talvez pela imortalidade do tema, o amor e a sua dimensão trágica.

Entre nós Pedro e Inês foram glosados durante alguns séculos até caírem no esquecimento.

Inês e Pedro não morreram, apenas dormem.

Comemora-se, em janeiro de 2005, os 650 anos de morte da figura feminina mais representativa em Portugal, desde os tempo da formação do reino. A importância do tema Inês de Castro é inegável na formação da identidade cultural portuguesa, visto que obras literárias e de outras expressões artísticas

Em época mais recente, o Amor de perdição de Camilo é uma adaptação semelhante, com variantes, de Romeu e Julieta.

No século XXI, o século do instantâneo e do efémero, dos laços familiares fracos e das relações descartáveis quem terá lido Romeu e Julieta?



publicado por pimentaeouro às 11:30
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Terça-feira, 5 de Janeiro de 2016
Utopia

500 anos depois, o sentido de Utopia não se perdeu

Obra canónica de Thomas More foi publicada em 1516. Não foi o primeiro texto sobre um ideal utópico, mas inaugurou uma tradição de obras publicadas à luz de uma génese comum: a proposta de projectos alternativos para a sociedade. O PÚBLICO inicia uma série especial sobre velhas e novas utopias.

Quadro de 1527 que retrata Thomas More, que pertence à colecção Frick, Nova Iorque FRANCIS G. MAYER/CORBIS

“... é fácil confessar que muitíssimas coisas há na terra da Utopia que gostaria de ver implantadas nas nossas cidades, em toda a verdade e não apenas em expectativa”. Estas são as últimas palavras de Thomas More na sua Utopia, ditas depois de Rafael Hitlodeu, o navegador que alegadamente conheceu a ilha da Utopia, terminar o seu relato e elogiar a estrutura da ilha. A ideia é clara: More simpatiza com alguns dos princípios da sociedade utopiana, mas não a vê como um modelo a implementar de forma exacta.

“A intenção de More é não apresentar as ideias de Hitlodeu e a sociedade utopiana como modelares, esperando que o leitor seja capaz de um exercício de reflexão crítica sobre os aspectos positivos e negativos dessa sociedade”, diz Fátima Vieira, professora da Faculdade de Letras da Universidade do Porto especializada em estudos sobre a utopia.

No ano em que se assinalam 500 anos da sua publicação, a Utopia continua a ser lida, discutida e analisada, e encontra-se em qualquer biblioteca como clássico da literatura. E a sua mensagem, dizem os especialistas com quem falámos, continua a fazer sentido hoje: existem alternativas ao que está instituído.

“É um texto de grande amplitude, de abertura, de descoberta de caminhos, que até àquela altura não havia na cultura europeia”, diz Manuel Frias Martins, professor de Cultura Renascentista da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Uma sociedade em que nada é de ninguém – tudo é de todos. Em que o bem-comum é mais precioso do que o bem individual. Em que a guerra é abominada e a caça é tida como loucura. Em que o ouro e outros metais ditos preciosos não têm valor. Em que um dia de trabalho tem seis horas, uma noite de sono tem oito e o resto do tempo é ocupado por cada um como entender. Assim é na ilha da Utopia, objecto central da obra homónima de Thomas More publicada em 1516, antítese da sociedade europeia do século XVI.

More nasceu em 1477 (ou 1478, segundo alguns historiadores), em Londres. Foi advogado, chanceler de Henrique VIII e fez parte da Câmara dos Comuns. Em 1515, baseado em A República de Platão, começa a planear a redacção daUtopia. Depois de uma visita a Londres do seu amigo Erasmo, autor de Elogio da Loucura, More envia-lhe o texto terminado. Erasmo, alegadamente sem o autor saber, entrega o texto ao impressor Thierry Martens de Lovaina, que o publica.

Redigida em latim, a Utopia, escreveu José de Pina Martins no estudo introdutório à edição da obra de More da Fundação Calouste Gulbenkian (2006), é “um escrito fundamental do humanismo”. “O ser humano encontra-se no centro do mundo e está nas suas mãos decidir o seu destino”, explica Fátima Vieira. “Não poderia nunca ter sido escrita na Idade Média, quando se acreditava que o destino havia sido já decidido por Deus”. A obra é escrita num tempo novo, em que o homem europeu encabeça os Descobrimentos, que revelam povos desconhecidos, ideias e costumes diferentes, novas possibilidades. É de Portugal, um dos países protagonistas dessas viagens intercontinentais, que vem a personagem central da obra — o navegador Rafael Hitlodeu, que dá a conhecer a ilha da Utopia. A obra, classifica Pina Martins, é um texto “do humanismo renascentista”.

 


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Domingo, 13 de Dezembro de 2015
Pantagruel

 

Pantagruel é o herói do primeiro romance de François Rabelais Les horribles et épouvantables faits et prouesses du très renommé Pantagruel Roi des Dipsodes, fils du Grand Géant Gargantua ("Os horríveis e apavorantes feitos e proezas do mui renomado Pantagruel, rei dos dipsodos, filho do grande gigante Gargântua"), publicado em 1532. Pantagruel é filho do gigante Gargântua e de sua mulher Badebec, que morre durante o parto.

Um grande boa-vida, alegre e glutão, destaca-se desde a infância por sua força descomunal - superada apenas por seu apetite. Seu nome significa "tudo alterado" e é também o nome de um demónio do folclore bretão cuja actividade preferida era a de jogar sal na boca dos bêbados adormecidos, para lhes causar sede e fazê-los beber ainda mais.

Em suas andanças, Pantagruel encontra Panurge, um clérigo arruinado que se tornará seu companheiro de aventuras e também protagonista de vários episódios do romance.

Fortemente inspirada na tradição oral do medievo, nas gestas e nos romances de cavalaria, a narrativa constitui-se de episódios épicos, cómicos, eventualmente delirantes e grotescos, narrados em linguagem simples.

Após o grande sucesso do seu primeiro livro, Rabelais publica o segundo romance, Gargântua, originalmente chamado La vie très horrifique du grand Gargantua, père de Pantagruel (" A vida mui horrífica do grande Gargântua, pai de Pantagruel").

Em virtude da censura da Sorbonne, Rabelais escreveu ambos os livros sob o pseudónimo Alcofrybas Nasier, um anagrama de seu próprio nome. De todo modo, Pantagruel acabou condenado pela Sorbonne, sendo incluído entre os livros obscenos e censurados. Em 1564 o Index librorum prohibitorum, promulgado pelo Papa, classificou as obras de Rabelais como heréticas.

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Sexta-feira, 23 de Outubro de 2015
Miguel Torga

 

 

Miguel Torga, pseudónimo de Adolfo Correia da Rocha (Vila Real, São Martinho de Anta, 12 de agosto de 1907Coimbra, 17 de janeiro de 1995), foi um dos mais influentes poetas e escritores portugueses do século XX. Destacou-se como poeta, contista e memorialista, mas escreveu também romances, peças de teatro e ensaios.[1]

Nasceu na localidade de São Martinho de Anta, em Vila Real a 12 de Agosto de 1907.[2] [3] [4] Oriundo de uma família humilde de Sabrosa, era filho de Francisco Correia Rocha e Maria da Conceição Barros.

Em 1917, aos dez anos, foi para uma casa apalaçada do Porto, habitada por parentes. Fardado de branco, servia de porteiro, moço de recados, regava o jardim, limpava o pó, polia os metais da escadaria nobre e atendia campainhas. Foi despedido um ano depois, devido à constante insubmissão. Em 1918 foi mandado para o seminário de Lamego, onde viveu um dos anos cruciais da sua vida. Estudou Português, Geografia e História, aprendeulatim e ganhou familiaridade com os textos sagrados. Pouco depois comunicou ao pai que não seria padre.

Emigrou para o Brasil em 1920[2] , ainda com treze anos, para trabalhar na fazenda do tio, proprietário de uma fazenda de café em Minas Gerais.[5] Ao fim de quatro anos, o tio apercebe-se da sua inteligência e patrocina-lhe os estudos liceais noGinásio Leopoldense, em Leopoldina.[2] [6] Distingue-se como um aluno dotado. Em 1925, convicto de que ele viria a ser doutor em Coimbra, o tio propôs-se pagar-lhe os estudos como recompensa dos cinco anos de serviço, o que o levou a regressar a Portugal e concluir os estudos liceais.[1] [2]

Em 1928, entra para a Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra e publica o seu primeiro livro de poemas,Ansiedade.[2] [5] Em 1929, com vinte e dois anos, deu início à colaboração na revista Presença, folha de arte e crítica, com o poema Altitudes. A revista, fundada em 1927 pelo grupo literário avançado de José Régio, Gaspar Simões e Branquinho da Fonseca era bandeira literária do grupo modernista e bandeira libertária da revolução modernista. Em 1930 rompe definitivamente com a revista Presença, junto com Edmundo Bettencourt e Branquinho da Fonseca[2] , por «razões de discordância estética e razões de liberdade humana», assumindo uma posição independente.[1] Nesse ano, publica o livroRampa, lançando, no ano seguinte, Tributo[5] e Pão Ázimo[5] , e, em 1932, Abismo.[2] Em colaboração com Branquinho da Fonseca, funda a revista Sinal, de efémera duração, e, em 1936, lança, junto com Albano Nogueira, o periódico Manifesto.[2] Nesse ano, publica O Outro Livro de Job.[2] [4]

A obra de Torga traduz sua rebeldia contra as injustiças e seu inconformismo diante dos abusos de poder. Reflete sua origem aldeã, a experiência médica em contato com a gente pobre e ainda os cinco anos que passou no Brasil (dos 13 aos 18 anos de idade), período que deixou impresso em Traço de União (impressões de viagem, 1955) e em um personagem que lhe servia de alter-ego em A criação do mundo, obra de ficção em vários volumes, publicada entre 1937 e 1939. As críticas que fez aí ao franquismo resultaram em sua prisão (1940).[1] Publica os livros A Terceira Voz em 1934, aonde pela primeira vez empregou o seu pseudónimo, Bichos em 1940, Contos da Montanha[5] em 1941, Rua em 1942, O Sr. Ventura e Lamentação em 1943, Novos Contos da Montanha e Libertação em 1944, Vindima em 1945, Sinfonia em 1947, Nihil Sibi em 1948, Cântico do Homem em 1950, Pedras Lavradas em 1951, Poemas Ibéricos em 1952, e Orfeu Rebeldeem 1958.[2] [4]

Crítico da praxe e das restantes tradições académicas, chama depreciativamente «farda» à capa e batina. Ama a cidade de Leiria, onde exerce a sua profissão de médico a partir de 1939 até 1942, onde escreve a maioria dos seus livros. Em 1933 concluiu a licenciatura em Medicina pela Universidade de Coimbra.[2] Começou a exercer a profissão nas terras agrestes transmontanas, pano de fundo de grande parte da sua obra. Dividiu seu tempo entre a clínica de otorrinolaringologia e a literatura.

Após a Revolução dos Cravos que derrubou o Estado Novo em 1974, Torga surge na política para apoiar a candidatura de Ramalho Eanes à presidência da República (1979). Era, porém, avesso à agitação e à publicidade e manteve-se distante de movimentos políticos e literários.

Autor prolífico, publicou mais de cinquenta livros ao longo de seis décadas e foi várias vezes indicado para o Prémio Nobel da Literatura.[1]

Casamento e últimos anos[editar | editar código-fonte]

Casou-se com Andrée Crabbé em 1940, uma estudante belga que, enquanto aluna de Estudos Portugueses, com Vitorino Nemésio em Bruxelas, viera a Portugal fazer um curso de verão na Universidade de Coimbra. O casal teve uma filha, Clara Rocha, nascida a 3 de Outubro de 1955, e divorciada de Vasco Graça Moura.

Torga, sofrendo de cancro, publicou o seu último trabalho em 1993, vindo a falecer em Janeiro de 1995.[1] [2] A sua campa rasa em São Martinho de Anta tem umatorga plantada a seu lado, em honra ao poeta.

Em 1934, aos 27 anos, Adolfo Correia Rocha cria o pseudónimo "Miguel" e "Torga". Miguel, em homenagem a dois grandes vultos da cultura ibérica: Miguel de Cervantes e Miguel de Unamuno. Já Torga é uma planta brava da montanha, que deita raízes fortes sob a aridez da rocha, de flor branca, arroxeada ou cor de vinho, com um caule incrivelmente rectilíneo.

A obra de Torga tem um carácter humanista: criado nas serras transmontanas, entre os trabalhadores rurais, assistindo aos ciclos de perpetuação da natureza, Torga aprendeu o valor de cada homem, como criador e propagador da vida e da natureza: sem o homem, não haveria searas, não haveria vinhas, não haveria toda a paisagem duriense, feita de socalcos nas rochas, obra magnífica de muitas gerações de trabalho humano. Ora, estes homens e as suas obras levam Torga a revoltar-se contra a Divindade Transcendente a favor da imanência: para ele, só a humanidade seria digna de louvores, de cânticos, de admiração: (hinos aos deuses, não/os homens é que merecem/que se lhes cante a virtude/bichos que cavam no chão/actuam como parecem/sem um disfarce que os mude).

Para Miguel Torga, nenhum deus é digno de louvor: na sua condição omnisciente é-lhe muito fácil ser virtuoso, e enquanto ser sobrenatural não se lhe opõe qualquer dificuldade para fazer a natureza - mas o homem, limitado, finito, condicionado, exposto à doença, à miséria, à desgraça e à morte é também capaz de criar, e é sobretudo capaz de se impor à natureza, como os trabalhadores rurais transmontanos impuseram a sua vontade de semear a terra aos penedos bravios das serras. E é essa capacidade de moldar o meio, de verdadeiramente fazer a natureza, mal-grado todas as limitações de bicho, de ser humano mortal que, ao ver de Torga, fazem do homem único ser digno de adoração.



publicado por pimentaeouro às 14:53
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