Conhece-te a ti mesmo... se puderes.

Sexta-feira, 23 de Novembro de 2012
Sentidos

 

 

 

Vemos os objectos com os olhos mas é o cérebro que «processa» esses estímulos e os transforma em percepções. Temos poucos instrumentos para medir o que os cérebros de diferentes pessoas processam.

Quando uma pessoa teima que uma camisa é turquesa e outra teima que é verde os seu cérebros estão a distinguir cores diferentes, embora os olhos estejam a ver o mesmo objecto.

Quando duas figuras geométricas, um quadrado e um rectângulo, parecem idênticas, A viu um quadrado - percepção -

 e B viu um rectângulo.

Esta é a natureza subjectiva dos sentidos: pode ser uma fonte de nuances e de diversidade ou a origem de complicações, mal entendidos e problemas.

É assim também a nossa natureza.



publicado por pimentaeouro às 23:34
link do post | comentar | favorito
|

Domingo, 7 de Outubro de 2012
No meu tempo

As jovens de hoje e também as mulheres com 30 a 35 anos não sonham sequer o que era ser mulher durante o regime de Salazar, até meados com anos 60, quando começou a haver uma abertura na recém criada classe média.O regime, com o prestimoso apoio da Igreja Católica conseguiu fazer o controlo social do comportamento afectivo de mulheres e homens, sendo certo que o alvo principal era a mulher supostamente pecaminosa e ser inferior, que devia ser submetida a rigorosa vigilância mesmo dentro da sua casa.

Segue uma lista de «pérolas» acerca do comportamento que qualquer mulher deveria ter: a domesticação dos afectos e a submissão ao homem.

Para o com+portamento do homem, «chefe de famíla» e macho, o livro "Cartilha de Marialva", de José Cardoso Pires, continua a ser o manual de referência.

Esta «doutrina» derivada do slogan "Deus, Pátria e Família" foi interiorizada pela consciência colectiva dos portugueses, as excepções estavam em reduzidas elites, e foi muito eficaz.

As suas principais vítimas, aos milheres, foram principalmente as mulheres, mas também traumatizou muitos homens. Pela parte que me toca, sofri na pele duas vezes, a domesticação social dos afectos. Era uma ditadura como nos regimes ditos socialistas.



 

 


 

 

 

MASSACRE NOS ANOS 50 E 60
Anna Maria Ribeiro



* Não se deve irritar o homem com ciúmes e dúvidas. (Jornal das Moças, 1957)


* Se desconfiar da infidelidade do marido, a esposa deve redobrar seu carinho e
provas de afeto. (Revista Claudia, 1962)


* A desordem em um banheiro desperta no marido a vontade de ir tomar banho fora
de casa. (Jornal das Moças, 1945)


* A mulher deve fazer o marido descansar nas horas vagas. Nada de incomodá-lo com
serviços domésticos. (Jornal das Moças, 1959)


* A esposa deve vestir-se depois de casada com a mesma elegância de solteira, pois é
preciso lembrar-se de que a caça já foi feita, mas é preciso mantê-la bem presa.
(Jornal das Moças, 1955)
* Se o seu marido fuma, não arrume briga pelo simples fato de cair cinzas no tapete.
Tenha cinzeiros espalhados por toda casa. (Jornal das Moças, 1957)


* A mulher deve estar ciente que dificilmente um homem pode perdoar uma mulher
por não ter resistido às experiências prenupciais, mostrando que não era perfeita e
única, exatamente como ele a idealizara. (Revista Cláudia, 1962)


* Mesmo que um homem consiga divertir-se com sua namorada ou noiva, na verdade
ele não irá gostar de ver que ela cedeu. (Revista Querida, 1954)


* O noivado longo é um perigo (Revista Querida, 1953)


* É fundamental manter sempre a aparência impecável diante do marido. (Jornal das
Moças, 1957)


* O lugar de mulher é no lar. O trabalho fora de casa masculiniza. (Revista Querida,
1955)


  

P.S.

 

A memória agradável que tenho do meu tempo refere-se aos amigos, amigas e amores (poucos) que tive e vivi: os anos da minha vida passada, não à sociedade estagnada e conservadora em que tive de viver e contra a qual de rebelei, como tantos outros.

 Porque recordo isso agora? Porque espero que esses tempos não regressem mais. 

  

http://nyontime.blogspot.pt/2006/03/o-massacre-nos-anos-50-e-60-anna-maria.html







publicado por pimentaeouro às 19:39
link do post | comentar | ver comentários (4) | favorito
|

Quinta-feira, 28 de Junho de 2012
Juras

Um dia jurei, a mim mesmo, com sinceridade e mágoa, nunca mais escrever cartas de amor. As juras deveriam ter prazo certo: dez anos, um ano, um mês ou uma hora.

Qualquer jura solene é trocada por um breve encontro e quem manda nos encontros da vida é o omnipresente acaso.

Como pode uma carta de amor substituir a relação entre as pessoas que se amam ? Longe da vista, longe do coração, foi mil vezes comprovado, mas também aconteceu o amor percorrer o tempo em subterrâneos ignorados.

Para o nosso mal - ou o nosso bem - a sabedoria da vida, a sageza dos anos nada ensina nesta matéria, fluída e caprichosa.



publicado por pimentaeouro às 11:57
link do post | comentar | ver comentários (3) | favorito
|

Sábado, 2 de Junho de 2012
Mocidade, a minha também


Existe uma geração de historiadores, pós Mattoso, alguns são ou foram seus alunos, que fazem uma nova abordagem da história nacional: melhor ou não a seu tempo se saberá.

Isabel Freire acaba de publicar “Amor e sexo no tempo de Salazar”, um tema que parece menor mas não é: trata da frustração e do sofrimento de milhares de mulheres e de homens também.

Entre as fontes de consulta, Isabel Freire entrevistou um grupo de homens e mulheres a partir dos 70 anos de idade. Avós e bisavós.

A autora do livro não me conhece de lado nenhum e não me entrevistou. Pessoalmente, tenho pena porque foi vítima, por duas vezes da moral e dos bons costumes do Estado Novo, de Salazar e Cerejeira.

No ano de 1.955, em meado da «década dourada» dos anos 50, completei 20 anos, mas era  apenas um adolescente crescido: ingénuo, talvez imaturo e idealista (vicio transmitido por  leituras de poesia), a minha autoconsciência teve um processo de formação tardio e acidentado.

O regime salazarista, por baixo sofria alguns revezes – agitação social que a sangria da emigração não conseguia estancar – e nos anos de 1.955 e 1.956 reforçou os poderes arbitrários da PIDE, mas no plano ideológico, quer a máquina de propaganda, quer as instituições de controlo social – particularmente da mulher – estavam todas montadas (Mocidade Portuguesa, Mocidade Portuguesa Feminina, revistas especialmente dirigidas à jovem e à mulher) Secretariado Nacional da Informação, etc. e, claro a acção da Igreja Católica e do baixo clero.

Os valores conservadores da Igreja tinham como alvo principal controlar as famílias e domesticar as mulheres, “ o dogma da

 autoridade masculina e da submissão feminina, o dogma virilidade dos homens e da castidade das mulheres, o dogma da interdição do corpo e do pecado sexual, o dogma do casamento sacramental e o dogma da maternidade redentora, marcaram e ferros António e muitos outros homens e mulheres da sua geração”, livro acima citado.  

O regime salazarista possuía duas máquinas de repressão; a PIDE para os opositores políticos as suas instituições aliadas à Igreja para o controlo social e a repressão sexual. A mulher e o seu corpo interdito eram o alvo principal, o sexo extra matrimonial era pecado e a mulher a potencial pecadora.

Eu não percebia nada deste subtil mundo de interditos e pecados e de muitas outras coisas. A minha iniciação sexual (com colegas de trabalho) foi feita nas casa de prostituição, não sabia o que era o amor (Fernanda podia ter-me ensinado a linguagem dos afectos e do amor), e conhecia mal, muito mal o mundo feminino, que era rigorosamente vigiados pelos controladores da moral e dos bons costumes e se encontravam interiorizados na consciência colectiva.

Nos dourados anos 50 do regime salazarista eu era um ignorante e simultaneamente uma vítima – apenas mais uma – da ideologia do Estado Novo.

Por duas vezes fui reprimido pelos bons costumes e das duas  (Fernanda e Julieta) ficaram-me marcas profundas.

Da minha geração milhares de mulheres e de homens foram frustrados sexualmente – coisa que parece impossível nos dias de hoje – e ainda hoje sentem as marcas das suas frustrações.

Vou terminar, por hoje, para que esta memória não pareça (não parece?) uma manifestação saudosista.

 



publicado por pimentaeouro às 23:12
link do post | comentar | ver comentários (4) | favorito
|

mais sobre mim
pesquisar
 
posts recentes

Sentidos

No meu tempo

Juras

Mocidade, a minha também

arquivos
tags

???

ambição

amizade

amor

animais

antropologia

armas

arquitectura

arte

arte biografias

astronomia

ballet

biografias

biologia

blogues

café curto

carttons

ciência

cinema

civilização

clima

comunicação social

corrupção

criminosos

crise financeira

demagogia

demência

demografia

descobrimentos

desemprego

destino

diversos

doenças

dor

economia

eleiçoes

ensaio

ensino

escravatura

escultura

estado

estupidez

eternidade

ética

eu

eutanásia

evolução

família

filosofia

futebol

genocídio

governo

greves

guerra

história

incendios florestais

inquisição

internacional

justiça

literatura

livros

memória

miséria

morte

mulher

mulheres célebres

musica

natureza

natureza humana

paisagens

paleontologia

partidos políticos

patologia ideológica

pátria

pintura

planeta terra

pobreza

poesia

politica

regime político

religião

saudade

saúde

segurança social

sentimentos

sexo

sindicatos

sociedade

sonhos

tecnologia

terrorismo

terrorismo de estado

testamento vital

tristeza

união europeia

universo

velhice

vida

violência

xadrez

todas as tags

favoritos

É xenofobia sim.

Um fantasma

Arte de furtar

Deus existe? #2

Para onde vou?

Sou um San

O Século xx Português

Pater Famílias

Avesso dos Lusíadas #2

links
últ. comentários
E é cada uma que mete medo ao Susto!!!
Sabia da estratégia do contar das histórias, mas n...
Que seja um bom dia.
Pertence à literatura medieval alemã. Frades liber...
Que maravilha para começar o dia!!!
Teve a sorte de ter uma boa professora e declamado...
Gosto muito deste poema.Tive a sorte de no 10º e n...
Já os vi na televisão e em sonhos :)
blogs SAPO
RSS