Conhece-te a ti mesmo... se puderes.

Domingo, 17 de Setembro de 2017
Sofrimento #6

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Qualquer dia não posso andar, não posso sair de casa, cada dia que passa estou pior, diz-me a minha mulher e não está a dramatizar, tem consciência da gravidade da doença que a consome-me e do seu rápido agravamento. Está magríssima, quase anorexica, com o sofrimento gravado no rosto.

Fico sem palavras, paralisado, angustiado. Assisto ao agravamento da sua doença impotente, sem nada que possa fazer além de dar-lhe carinho e ternura: é um drama que me destrói também.

Ninguém merece esta velhice.



publicado por pimentaeouro às 17:15
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Quinta-feira, 24 de Março de 2016
Passado longinquo

 

Sou como o narrador do conto "O fogo  e as cinzas" de Manuel da Fonseca, um velho falhado. Como ele rou o osso da memória, das memórias que me assediam mesmo que eu não queira. Regresso aos tempos longínquos da minha mocidade vivida em Torres Novas. Os dias corriam suaves, sem preocupações, com esperanças que se desfizeram. Sem que eu soubesse porque, a vida queria castigar-me.

Eu era um estranho, recem-chegado e duas mulheres escolheram-me: ainda hoje não sei porque, o que acharam em mim, com uma figura meio triste?

As escolhas do coração não passam pelo filtro da razão. Amamos e é quanto basta, na mocidade não existem cálculos de patrimónios, de bens herdados ou a herdar. Isso, só acontece mais tarde e não acontece sempre, o século XIX já lá vai.

  O meu primeiro amor foi com a Fernanda e a sua recordação ficou gravada nos recantos sinuosos da minha memória. Fernanda, recordo com saudade a tua ternura, a alegria dos teus olhos, os beijos ternos que trocamos, quase roubados.

.Namoro curto, igual a todos os namoros daquela época que terminou com uma imposição tua; inexperiente, não soube contornar o problema. Tinha corpo de homem mas a cabeça andava na Lua. Seguidamente namorei com a Julieta Fradinho, natural de Silves, filha de um funcionário do Tribunal, que terminou brutalmente com a proibição categórica do pai, à boa maneira do século XIX.

Julieta era o oposto da Fernanda, reservada, olhar triste sem os atributos de beleza da Fernanda; tinha mais maturidade do que eu e o amor já tinha criado raízes no seu coração.

Visto de fora, eu era um rebenta corações, na realidade, eu é que fiquei rebentado: para um jovem de vinte e poucos anos que se inicia   nos caminhos sinuosos do amor, dois insucessos seguidos deixam marcas fundas. Apesar disto, por estranho que pareça, tenho uma recordação muito grata – nos sentimentos não existe racionalidade - da Fernanda e da Julieta.

Não comentei estes insucessos com ninguém, lambi as feridas em solidão. Talvez por ter feito este recalcamento, agora tenho uma necessidade irreprimível de falar e escrever sobre eles.



publicado por pimentaeouro às 21:39
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Segunda-feira, 21 de Março de 2016
Drama

A tragédia abate-se sobre a minha infeliz mulher.Sofre de neuropatia há 9 anos e tem dor crónica há quase cinco anos, tem o sofrimento estampado no rosto e a doença   não cessa de se agravar. Exausta de dor adormece e a minha solidão e tristeza aumentam: a minha mulher está mergulha na dor eu estou mergulhado na tristeza. Até  onde irá agravar-se a dor?

Não é possível imaginar tamanho sofrimento, está para além do entendimento! Em cima de cinco anos de dor crónica, quantos mais anos terá de sofrimento? Acamada será o destino dos seus dias e só não está já porque é uma grande lutadora.

Adorava viver, tinha o sorriso estampado no rosto, onde hoje existem apenas rugas de sofrimento. Não quero imaginar, sequer, como serão os poucos anos que nos restam que serão vividos em completa solidão como até agora.


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publicado por pimentaeouro às 11:32
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Terça-feira, 8 de Março de 2016
Correr atrás do vento

 

 

Correr atrás do passado é correr atrás do vento, jamais o alcançaremos. Os acontecimentos que vivemos outrora foram apagados pelo Tempo e uma parte das pessoas que recordamos já morrerem ou não sabemos onde vivem.

Todavia apesar de quase tudo ter desaparecido ou mudado (casas, ruas, paisagens) a nossa memória «reconstrói» parcelas aleatórias do nosso passado e sentimos, de novo, emoções com essas recordações.

É como estar a ver episódios de um filme rodado há quarenta ou cinquenta anos. Os actores já morreram, a sala já não existe, mas vimos a projecção da sua imagem e voltamos a emocionar-nos.

A nossa memória desencadeia emoções, como qualquer acontecimento externo do presente: apanhamos por breves momentos o vento.

A memória traz-nos alegrias ou sofrimentos, raramente o que é irrelevante ou não nos afectou emocionalmente. Amizades, familiares, amores, êxitos, fracassos, inimizades, etc.

A memória é muito caprichosa e ainda não sabemos bem como funciona, ela e a sua prima esquecimento. A «Idade de Ouro», a «minha época» é considerar o passado como melhor do que o presente. O saudosismo (entre nós Sebastianismo) também remete para uma época que imaginqamos melhor do que o presente.

A memória é uma espécie de disco rígido avariado da nossa história de vida. Ela regista fragmentos isolados, bons ou maus, da nossa vida.

Se tivemos uma infância e uma adolescência felizes, a memória não recordará tristezas, pelo contrário, se aquelas duas épocas da nossa vida foram difíceis, a memória não poderá recordar felicidades.

A memória é também subjectividade, muito, dentro de um ser subjectivo; é preciso cuidado com ela.

O homem é subjectivo por natureza e pela sua secunda natureza, a sociedade que ele próprio criou mas  necessita de objectividade e de certezas para que o seu dia a dia e a relações com os outros não sejam caóticos. Sem objectividade a nossa vida quotidiana seria impossível, nem sequer haveria horários de comboios, mas é na ciência que ele realiza a sua procura da objectividade.

Os meus problemas de memória – falta de memória – remontam à minha infância e uma parte importante da minha vida não existe nela é como se não tivesse vivido. Para qeu tudo não seja negativo a  memória apaga-me muitas tristezas, que apenas existem como um nevoeiro.



publicado por pimentaeouro às 20:08
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Segunda-feira, 14 de Dezembro de 2015
Pavilhão 24 #2

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 Visito todos os dias a tua mãe, algumas vezes sem saber como. Levo-lhe um lanche e mimos da Versalhes, fruta, tabaco e moedas para a máquina de café, sem este suplemento a tua mãe passaria mal.

Envelheceu, tem no rosto e no olhar as marcas de muitos anos de sofrimento. A tua infeliz mãe perdeu o olho esquerdo, tem uma doença rara, sem medicação especifica, há quatro anos que sofre de dor crónica, dói sempre, uns dias menos outros dias mais. Para aumentar este drama agora tem uma demência reversível; a demência causa sofrimento e nos períodos em que está lúcida o sofrimento aumenta com o mundo demencial que tem à sua volta.

Quando entro no hospital, entro numa prisão, e saio mais triste e deprimido do que quando entrei. Com 80 anos não sei até onde conseguirei lavar às costas ente lenho. Não consigo entender o teu comportamento para com a tua mãe e para usar uma palavra moderada direi que é desumano e só contribui para aumentar inutilmente o seu sofrimento, talvez um dia sintas remorsos.

 



publicado por pimentaeouro às 00:35
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Sexta-feira, 4 de Dezembro de 2015
Pavilhão 24 #1

 

 

O VItor é moscovita e veio para Portugal tentar a sorte de melhores dias que não aconteceram. Está internado para tratamento de alcolismo, ontem fez 44 anos, não tem família nem amigos e vagueia silenciosamente pelos corredores, no rosto e no olhar tem as marcas tristeza.

A mãe de uma doente trouxe-lhe dois bolos, de fabrico caseiro, para distribuir por todos os doentes: o Vitor apagou a velas, cantou-se parabens a voce. É a solidariedade dos infelizes.


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publicado por pimentaeouro às 23:51
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Sexta-feira, 20 de Novembro de 2015
Tristeza

 

 

As rosas com que decoras-te a nossa casa choram pela tua ausência.

Eu também choro com elas.


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publicado por pimentaeouro às 22:53
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Sábado, 7 de Novembro de 2015
Maldita doença

O diagnostico inicial, Alzheimer, não se confirmou. A minha mulher sofre de perturbações delirantes, uma demência que a conduzirá à loucura não sei quando. A medicação que está a tomar, antipsicótico, não resulta e a doença tem-se agravado.

Pensa que quero matá-la, que quero ficar com os seus parcos bens, vê ambulâncias e carros da polícia para a levarem presa, homens que a perseguem, etc., etc.

Vive com medo e sofre, o rosto, até há pouco temo alegre e risonho, envelheceu. Sinto  a minha mulher ausente, outra pessoa que desconheço, desaparece estando viva.

A minha impotência é total, solidão e tristeza, imensas, preenchem os meus dias, não tenho força para carregar este fardo.



publicado por pimentaeouro às 20:55
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Sexta-feira, 11 de Setembro de 2015
Para a minha mulher

  

Sei que já não podes ouvir mas é uma maneira de falar contigo.


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publicado por pimentaeouro às 00:09
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Quarta-feira, 2 de Setembro de 2015
SDP

 

 

 

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Gostamos de imaginar ilusões para a Terceira Idade, os velhos: o velho sorridente, saudável, que brinca com os netos é uma raridade num mar de velhos em solidão, doentes e pobres: os filhos e netos, quando existem, estão ocupados com as suas vidinhas e a sociedade não está virada para se ocupar deles.

Lares públicos e privados são depositos de seres que já não são pessoas, limitam-se a aguardar que a morte não demore.

Portugal é um pais de velhos e de velhos muito velhos (mais de 80 anos), que aumentam todos os anos enquanto todos os anos diminuem os tratalhadores activos que pagam para a Segurança Social. Já não pertenço ao futuro e as novas gerações viverão numa sociedade sem esperança.

 

 

 



publicado por pimentaeouro às 05:26
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Segunda-feira, 1 de Outubro de 2012
Refúgios

 

Os caes para lamberem as feridas escolhem locais afastados, esconderijos, longe do rival vitorioso e até dos que passam distraídos. Quando a  vida nos vence, fazemos algo semelhante e em silencio dolorido procuramos um refugio inacessível a qualquer olhar ou simples curiosidade, para viver as mágoas e a tristeza.

 


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publicado por pimentaeouro às 23:43
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Domingo, 5 de Agosto de 2012
Contagem descrescente

Dia 9 consulta no Institito Gama Pinto. Com olhares furtivos, de quem vê sem querer ver, contos os dias que faltam.

Degeneração macular nas duas retinas, o orgão de transmitem as mensagem de luz ao cérebro. Degeneração humida, a mais agressiva, é o meu giagnóstico: diminui a visão e no limite, espero não chegar lá, provoca cegueira.

Um mundo sem luz, só de trevas. Ponto final, não quero pensar mais.


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publicado por pimentaeouro às 15:54
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Quinta-feira, 10 de Maio de 2012
Tristeza

 

 

Este blogue trata alguns temas: do passado, do presente, talvez do futuro e a tristeza também. Nas sociedades modernas tristeza é sinónimo de derrota, de fraqueza, etc. Só há espaço para os vencedores e, pior, para o que é efémero.

Acontece que a tristeza faz parte da nossa vida, desde a infância. É necessária ao nosso equilíbrio emocional, ao desenvolvimento da nossa personalidade. Porque implica silêncio e meditação, ajuda o raciocínio e a clarificação dos problemas: a tristeza é essencial para a  sua solução dos problemas.

Diz quem sabe, que também ajuda à criação artística pela mescla de ligações e raciocínios que implica. Como tudo na vida, depende da dose, tristeza em excesso conduz ao fechamento em si, à ausência de compreensão dos outros, da vida e à depressão.

Companheira da minha vida mónada, como uma amante caprichosa, aparecia-me quando ela cria, não quando eu a convocava. Assim, aprendi a respeitá-la e a viver com ela.

Sou um fraco? Talvez.

 


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publicado por pimentaeouro às 17:52
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