Conhece-te a ti mesmo... se puderes.

Domingo, 17 de Setembro de 2017
Sofrimento #6

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Qualquer dia não posso andar, não posso sair de casa, cada dia que passa estou pior, diz-me a minha mulher e não está a dramatizar, tem consciência da gravidade da doença que a consome-me e do seu rápido agravamento. Está magríssima, quase anorexica, com o sofrimento gravado no rosto.

Fico sem palavras, paralisado, angustiado. Assisto ao agravamento da sua doença impotente, sem nada que possa fazer além de dar-lhe carinho e ternura: é um drama que me destrói também.

Ninguém merece esta velhice.



publicado por pimentaeouro às 17:15
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Quinta-feira, 24 de Março de 2016
Passado longinquo

 

Sou como o narrador do conto "O fogo  e as cinzas" de Manuel da Fonseca, um velho falhado. Como ele rou o osso da memória, das memórias que me assediam mesmo que eu não queira. Regresso aos tempos longínquos da minha mocidade vivida em Torres Novas. Os dias corriam suaves, sem preocupações, com esperanças que se desfizeram. Sem que eu soubesse porque, a vida queria castigar-me.

Eu era um estranho, recem-chegado e duas mulheres escolheram-me: ainda hoje não sei porque, o que acharam em mim, com uma figura meio triste?

As escolhas do coração não passam pelo filtro da razão. Amamos e é quanto basta, na mocidade não existem cálculos de patrimónios, de bens herdados ou a herdar. Isso, só acontece mais tarde e não acontece sempre, o século XIX já lá vai.

  O meu primeiro amor foi com a Fernanda e a sua recordação ficou gravada nos recantos sinuosos da minha memória. Fernanda, recordo com saudade a tua ternura, a alegria dos teus olhos, os beijos ternos que trocamos, quase roubados.

.Namoro curto, igual a todos os namoros daquela época que terminou com uma imposição tua; inexperiente, não soube contornar o problema. Tinha corpo de homem mas a cabeça andava na Lua. Seguidamente namorei com a Julieta Fradinho, natural de Silves, filha de um funcionário do Tribunal, que terminou brutalmente com a proibição categórica do pai, à boa maneira do século XIX.

Julieta era o oposto da Fernanda, reservada, olhar triste sem os atributos de beleza da Fernanda; tinha mais maturidade do que eu e o amor já tinha criado raízes no seu coração.

Visto de fora, eu era um rebenta corações, na realidade, eu é que fiquei rebentado: para um jovem de vinte e poucos anos que se inicia   nos caminhos sinuosos do amor, dois insucessos seguidos deixam marcas fundas. Apesar disto, por estranho que pareça, tenho uma recordação muito grata – nos sentimentos não existe racionalidade - da Fernanda e da Julieta.

Não comentei estes insucessos com ninguém, lambi as feridas em solidão. Talvez por ter feito este recalcamento, agora tenho uma necessidade irreprimível de falar e escrever sobre eles.



publicado por pimentaeouro às 21:39
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Segunda-feira, 21 de Março de 2016
Drama

A tragédia abate-se sobre a minha infeliz mulher.Sofre de neuropatia há 9 anos e tem dor crónica há quase cinco anos, tem o sofrimento estampado no rosto e a doença   não cessa de se agravar. Exausta de dor adormece e a minha solidão e tristeza aumentam: a minha mulher está mergulha na dor eu estou mergulhado na tristeza. Até  onde irá agravar-se a dor?

Não é possível imaginar tamanho sofrimento, está para além do entendimento! Em cima de cinco anos de dor crónica, quantos mais anos terá de sofrimento? Acamada será o destino dos seus dias e só não está já porque é uma grande lutadora.

Adorava viver, tinha o sorriso estampado no rosto, onde hoje existem apenas rugas de sofrimento. Não quero imaginar, sequer, como serão os poucos anos que nos restam que serão vividos em completa solidão como até agora.


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publicado por pimentaeouro às 11:32
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Terça-feira, 8 de Março de 2016
Correr atrás do vento

 

 

Correr atrás do passado é correr atrás do vento, jamais o alcançaremos. Os acontecimentos que vivemos outrora foram apagados pelo Tempo e uma parte das pessoas que recordamos já morrerem ou não sabemos onde vivem.

Todavia apesar de quase tudo ter desaparecido ou mudado (casas, ruas, paisagens) a nossa memória «reconstrói» parcelas aleatórias do nosso passado e sentimos, de novo, emoções com essas recordações.

É como estar a ver episódios de um filme rodado há quarenta ou cinquenta anos. Os actores já morreram, a sala já não existe, mas vimos a projecção da sua imagem e voltamos a emocionar-nos.

A nossa memória desencadeia emoções, como qualquer acontecimento externo do presente: apanhamos por breves momentos o vento.

A memória traz-nos alegrias ou sofrimentos, raramente o que é irrelevante ou não nos afectou emocionalmente. Amizades, familiares, amores, êxitos, fracassos, inimizades, etc.

A memória é muito caprichosa e ainda não sabemos bem como funciona, ela e a sua prima esquecimento. A «Idade de Ouro», a «minha época» é considerar o passado como melhor do que o presente. O saudosismo (entre nós Sebastianismo) também remete para uma época que imaginqamos melhor do que o presente.

A memória é uma espécie de disco rígido avariado da nossa história de vida. Ela regista fragmentos isolados, bons ou maus, da nossa vida.

Se tivemos uma infância e uma adolescência felizes, a memória não recordará tristezas, pelo contrário, se aquelas duas épocas da nossa vida foram difíceis, a memória não poderá recordar felicidades.

A memória é também subjectividade, muito, dentro de um ser subjectivo; é preciso cuidado com ela.

O homem é subjectivo por natureza e pela sua secunda natureza, a sociedade que ele próprio criou mas  necessita de objectividade e de certezas para que o seu dia a dia e a relações com os outros não sejam caóticos. Sem objectividade a nossa vida quotidiana seria impossível, nem sequer haveria horários de comboios, mas é na ciência que ele realiza a sua procura da objectividade.

Os meus problemas de memória – falta de memória – remontam à minha infância e uma parte importante da minha vida não existe nela é como se não tivesse vivido. Para qeu tudo não seja negativo a  memória apaga-me muitas tristezas, que apenas existem como um nevoeiro.



publicado por pimentaeouro às 20:08
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Segunda-feira, 14 de Dezembro de 2015
Pavilhão 24 #2

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 Visito todos os dias a tua mãe, algumas vezes sem saber como. Levo-lhe um lanche e mimos da Versalhes, fruta, tabaco e moedas para a máquina de café, sem este suplemento a tua mãe passaria mal.

Envelheceu, tem no rosto e no olhar as marcas de muitos anos de sofrimento. A tua infeliz mãe perdeu o olho esquerdo, tem uma doença rara, sem medicação especifica, há quatro anos que sofre de dor crónica, dói sempre, uns dias menos outros dias mais. Para aumentar este drama agora tem uma demência reversível; a demência causa sofrimento e nos períodos em que está lúcida o sofrimento aumenta com o mundo demencial que tem à sua volta.

Quando entro no hospital, entro numa prisão, e saio mais triste e deprimido do que quando entrei. Com 80 anos não sei até onde conseguirei lavar às costas ente lenho. Não consigo entender o teu comportamento para com a tua mãe e para usar uma palavra moderada direi que é desumano e só contribui para aumentar inutilmente o seu sofrimento, talvez um dia sintas remorsos.

 



publicado por pimentaeouro às 00:35
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Sexta-feira, 4 de Dezembro de 2015
Pavilhão 24 #1

 

 

O VItor é moscovita e veio para Portugal tentar a sorte de melhores dias que não aconteceram. Está internado para tratamento de alcolismo, ontem fez 44 anos, não tem família nem amigos e vagueia silenciosamente pelos corredores, no rosto e no olhar tem as marcas tristeza.

A mãe de uma doente trouxe-lhe dois bolos, de fabrico caseiro, para distribuir por todos os doentes: o Vitor apagou a velas, cantou-se parabens a voce. É a solidariedade dos infelizes.


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publicado por pimentaeouro às 23:51
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Sexta-feira, 20 de Novembro de 2015
Tristeza

 

 

As rosas com que decoras-te a nossa casa choram pela tua ausência.

Eu também choro com elas.


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publicado por pimentaeouro às 22:53
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Sábado, 7 de Novembro de 2015
Maldita doença

O diagnostico inicial, Alzheimer, não se confirmou. A minha mulher sofre de perturbações delirantes, uma demência que a conduzirá à loucura não sei quando. A medicação que está a tomar, antipsicótico, não resulta e a doença tem-se agravado.

Pensa que quero matá-la, que quero ficar com os seus parcos bens, vê ambulâncias e carros da polícia para a levarem presa, homens que a perseguem, etc., etc.

Vive com medo e sofre, o rosto, até há pouco temo alegre e risonho, envelheceu. Sinto  a minha mulher ausente, outra pessoa que desconheço, desaparece estando viva.

A minha impotência é total, solidão e tristeza, imensas, preenchem os meus dias, não tenho força para carregar este fardo.



publicado por pimentaeouro às 20:55
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Sexta-feira, 11 de Setembro de 2015
Para a minha mulher

  

Sei que já não podes ouvir mas é uma maneira de falar contigo.


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publicado por pimentaeouro às 00:09
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Quarta-feira, 2 de Setembro de 2015
SDP

 

 

 

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Gostamos de imaginar ilusões para a Terceira Idade, os velhos: o velho sorridente, saudável, que brinca com os netos é uma raridade num mar de velhos em solidão, doentes e pobres: os filhos e netos, quando existem, estão ocupados com as suas vidinhas e a sociedade não está virada para se ocupar deles.

Lares públicos e privados são depositos de seres que já não são pessoas, limitam-se a aguardar que a morte não demore.

Portugal é um pais de velhos e de velhos muito velhos (mais de 80 anos), que aumentam todos os anos enquanto todos os anos diminuem os tratalhadores activos que pagam para a Segurança Social. Já não pertenço ao futuro e as novas gerações viverão numa sociedade sem esperança.

 

 

 



publicado por pimentaeouro às 05:26
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Sexta-feira, 5 de Outubro de 2012
Pater Famílias

 

 

                                                

Não sei quando acabarei este texto, apesar de já o ter na minha cabeça há muitos anos e também não sei se o terminarei, pois além de mim não deve interessar a mais ninguém. Ainda menos sei se algum dia chegarás a lê-lo.

Em desespero propus um pacto ao Diabo: - Dou-te o resto dos meus dias se me contares o que aconteceu à Julieta depois daquela tarde infausta no distante princípio de verão do ano del 958(?).

O Diabo olhou-me de soslaio, virou-me as costas e foi-se embora. Certamente pensou, para que quero uma carcaça velha? 

Quando cheguei ao café do senhor Alfredo já estavas sentada, como de costume. Sentei-me à tua frente e pus o Diário de Lisboa em cima da mesa.

O café estava exactamente na mesma como há cinquenta anos: as cadeiras almofadadas, as mesas castanhas, a televisão a preto e branco, os mesmos clientes de sempre ( é como a minha memória consegue reproduzir).

Sorrimos um para o outro, os nossos olhos readquiriram o brilho da mocidade. Somos dois espíritos,  eu sou um cadáver insepulto. As pessoas falam comigo e não percebem que  estou morto, que não tenho nada para viver, apenas aguardo que me sepultem para, finalmente, descansar.

Sem dizermos nada, pensamos na mesma coisa: que nos aconteceu depois daquela tarde? Porque nunca mais nos encontramos? Porque terminamos o namoro daquela maneira? Um curto namoro com final muito infeliz!

Ambos temos muitas perguntas para fazer um ao outro, mas peço-te que me deixes falar primeiro.

Naquela época as raparigas, as mulheres, não frequentavam cafés. Tu e a tua madrasta, uma senhora educada, discreta e olhar triste, eram as únicas mulheres que iam ao café do senhor Alfredo à noite.

Mais invulgar ainda, numa pequena terra província, como Torres Novas.

As raparigas da tua idade ficavam em casa, a ajudar as mães nos trabalhos domésticos ou a preparam o enxoval. Eram educadas para casar e a escola ficava pela 4ª. Classe.

Foi nesses serões monótonos, quase todos iguais, que criamos a nossa cumplicidade: olhares mútuos prolongados e algumas frases de circunstância. Às vezes emprestava-te a Diário de Lisboa numa tentativa desajeitada e tímida de contacto.

Finalmente, decidi vencer a timidez (ainda hoje sou tímido) e declarar-me. Esperei-te na rua e dirigi-me para ti dizendo, não me lembro, exactamente como, que queria namorar contigo. Ansiosamente dei um salto no desconhecido.

Paras-te e olhando-me nos olhos perguntas-te - Porque tem essa conversa comigo?

Fiquei surpreendido, e depois de uma breve hesitação respondi, -Talvez esteja enganado mas penso que existe uma cumplicidade entre nós e eu não posso continuar nessa indefinição.

-É verdade – respondes-te, - Eu tenho alimentado a cumplicidade. Respirei fundo, mas logo surgiu outra pergunta, - A Fernanda (ex-namoro) diz que você tem vários defeitos. Não me lembro quais e sei que não estou isento deles.

Aqui fui mais rápido a decidir, - Se ela diz isso de mim eu não comento, assim como não faço qualquer comentário acerca da Fernanda.

- Tem razão, disseste, de ser  mexerico.

E assim, no meio de uma rua, prosaicamente, decidimos começar a namorar. Eras mais adulta do que eu, quando decidi declarar-me já tu tenhas tirado informações a meu respeito. Muito pouca coisa terás conseguido. Não era filho da terra, o meu único familiar em Torres Novas era um funcionário médio do Banco Nacional Ultramarino; o meu círculo de amigos era heterogéneo e modesto. Dois operários metalúrgicos, um tipógrafo, dois estudantes, um pequeno comerciante, três ou quatro empregados de comércio e um empregado de escritório, eu. Todos naturais de Torres Novas menos eu.

A única credencial com algum préstimo era a empresa onde trabalhava, uma firma ligada a uma família importante na região. Os sentimentos  falaram mais alto do que a razão e decidiste afoitamente aceitar o namoro.

Também deverás ter falado com a tua madrasta e com o teu pai (?). Houve um pormenor que me passou durante algum tempo , não me disseste para pedir ao teu pai autorização para namorar-te: uma regra social que há época nenhum pater famílias dispensava, pelo contrário, exigia.

Qualquer rapaz podia namorar duas ou três vezes, isso abrilhantava o seu currículo de macho, mas uma rapariga só podia ter um namoro e um casamento. Se tivesse namorado duas vezes isso já era suspeito, ficava «falada». 

O namoro era um ritual de iniciação, com regras e comportamentos estabelecidos pela sociedade, que terminava no casamento religioso. A noiva era obrigatoriamente virgem, o noivo fazia a iniciação sexual nas casas de prostitutas ou com a criada lá de casa, que depois era despedida, mesmo que estivesse grávida, por ser leviana.

 Eras uma rapariga inteligente, avançada para a época e além do casamento, que te interessa, tinhas outras motivações.

Pela minha parte, não fiz qualquer pergunta a ninguém a teu respeito ou da tua família, nem sequer, aos meus amigos. Uma ingenuidade? Simplesmente não me pareceu necessário: entraste na minha vida e isso era tudo o que eu queria.

A história do nosso namoro é curta, demasiado curta, mas foi tão marcante que ainda hoje está gravada na minha memória.

Íamos namorar para uma esplanada no Jardim da Avenida, que ladeava  o Almonda durante algumas centenas de metros: um local calmo, repousante, quase paradisíaco que deve ter assistido a incontáveis namoros de várias gerações.

Ias na companhia da tua madrasta que se tornava tão discreta que mal dávamos pela sua presença. Eu recordo o seu olhar triste e gostava de saber o motivo daquela tristeza.

Fazias-me várias perguntas sobre o meu comportamento, a minha maneira de ser, etc. Naturalmente, querias conhecer o homem – frágil - que escolheste.

Respondi-te sempre com sinceridade, talvez até com ingenuidade. Uma vez ou duas esboçaste gestos contidos de carícias. – o amor despontava . Em tão pouco tempo estávamos ambos na fase indelével do enamoramento, dos sentimentos que estão a nascer.  

Aqueles gestos esboçados, que não chegaste a fazer, foram bálsamo para o meu corpo e o meu espírito.

Num desses encontros - Disseste-me que ias passar uns dias a Sintra – adoravas Sintra, pela sua reconhecida beleza, e certamente pelo ambiente social mais aberto do que o da província, porque tinhas lá família, amigas etc.  e sugeriste-me que fosse lá passar um domingo.

Achei a ideia óptima e combinámos o nosso encontro em Sintra. Cheguei no sábado ao fim do dia e fiquei hospedado numa pensão que ficava perto da estação de comboios e da casa onde estavas (de família?).

No domingo de manhã encontrámo-nos num jardim. Estavas acompanhada por uma prima, uma rapariga simpática, extrovertida e que também foi discreta – ou nós estávamos apenas concentrados um no outros e não dávamos pelo que se passava à nossa volta.

Foi uma manhã muito agradável, que passou  depressa. Fizeste humor com a pensão, dizendo que da tua janela controlavas as minhas entradas e saídas…

Conversamos sobre tudo e sobre nada, conversa de jovens felizes: sentia-me no paraíso.

Sem modéstia, acrescento que a minha conversação não era desagradável, tinha um vocabulário alargado e utilizava com muita frequência metáforas, como faço ainda hoje.

Combinámos encontrar-nos depois do almoço na janela da casa onde estavas.

À hora combinada compareci. O que  deveria ser o enlevo do nosso primeiro encontro a sós, do nosso desejado primeiro beijo, à janela da casa da tua madastra, em poucos segundos tornou-se um drama.

Entraste na sala a chorar compulsivamente e ficaste a meio da mesma sem te aproximares da janela : fiquei atónito, paralisado, caiu-me o céu em cima da cabeça. 

- Que se passa? - Que te aconteceu? E o choro não parava, convulsivo (nunca na minha vida, até aos dias de hoje, vi uma mulher chorar assim) Quando conseguiste acalmar ou pouco – pareceu-me uma eternidade – Disseste, o nosso namoro tem de  acabar.

A minha perplexidade aumentou, - Mas o que está a acontecer?  - Temos de terminar o namoro porquê?

Depois de um silêncio, respondes-te, - O meu pai não quer que namoremos.

- Eu falo com ele, - como pode ser isso? Respondeste-me - Que nada adiantava e que se eu insistisse era pior para ti.

Fiquei outra vez paralisado, sem saber o que dizer e o que fazer. Perdi a oportunidade de acariciar-te e beijar-te pela primeira e única vez: sou um perdedor.

Já não me lembro como me afastei da janela nem como regressei a Torres Novas, apenas me lembro que regressei de comboio

Durante  um mês ou mais senti-me infeliz, humilhado, ostracizado e com uma grande melancolia. Depois chegou a revolta e passaram-me pela cabeça as ideias mais disparatadas. Felizmente, ou infelizmente, não concretizei nenhuma.

O teu almoço daquele domingo deve ter sido um enorme pesadelo para ti - revolta, angustia, desespero, tristeza -  pois foi certamente nessa ocasião que o teu pai impôs a sua vontade. Deu-te um punhal e ordenou-te que o cravasses no coração. Uma brutalidade!

Tu eras maior de idade, responsável e no dia em que me convidas--te para ir a Sintra ele impôs o rompimento do namoro. - Julieta, perdoa-me o julgamento mas eu tinha que acertar estas contas com o teu pai. Como pudeste sarar a ferida que o teu pai abriu no teu coração? Ainda hoje não encontrei resposta para esta angústia que me atormenta.

Nos seus cálculos patrimoniais acerca do teu casamento não contavam os teus sentimentos nem o direito de seres tu a decidir o teu  futuro.

Pater famílias tinha braço comprido e às vezes musculado. Naquela época era o «chefe de família»  quem autorizava  a mulher a abrir conta bancária,  tirar passaporte, decidia o futuro dos filhos, particularmente, o casamento das filhas, etc, etc.

Mulher não podia votar, frequentar a universidade (só excepções) ir sozinha a lugares públicos, festas, cinema, etc. Não podia fumar, beber, usar roupas ousadas, decotes acentuados. O lugar seguro para estar era em casa, executando os trabalhos domésticos e tratando dos filhos.  Podia ser amante, não podia ter amantes.

O que terá levado o teu pai a impor o rompimento do namoro poucas semanas depois de não se ter oposto?

Não é difícil perceber. Admito duas hipóteses, foi averiguar pessoalmente o meu currículo. Não tinha vinhas, nem oliveiras, não tinha imóveis nem família que se visse, um pé rapado. - A minha filha casada com um pé rapado que quer dar o golpe do baú? - Era o que faltava!   

Segunda hipótese, um dos meus amigos do grupo tinha fama de «subversivo» e isso contagiava a reputação do resto do grupo, o que, pelo menos, no meu caso não era verdade.

Quanto às questões patrimoniais (nunca soube se tinhas baú) as minhas ideias sobre a propriedade eram, e ainda são, muito vagas : vou sair como entrei, com a conta bancária a zeros.

Não sei como ficaram as tuas relações com o teu pai, se chegas-te a perdoar  o golpe e humilhação, se ficou uma ferida que só o tempo pode curar em parte. Não pretendo inventar ou ficcionar a tua vida, apenas desejo saber o que se passou contigo.

Gostaria imenso de saber que encontras-te outro homem que te fez feliz como tu merecias.

Tínhamos direito a ser felizes e não fomos, talvez porque nascemos vinte anos mais cedo, na época errada.

Dramas como o teu, aconteceram, nas mais variadas formas, a milhares de raparigas que os sofreram em silêncio e poucas tiveram coragem – ou meios - para romper com a família.

Na sociedade conservadora e machista criada pelo salazarismo, o domínio do pater família era exercido num silêncio repressivo que só de forma muito discreta e em voz baixa era censurado.

Transformei o nosso diálogo num monólogo, talvez seja egoísta. Afinal a tua ansiedade é maior do que a minha.

Agora que somos dois espíritos podemos tranquilamente reviver, em conjunto, as nossas vidas, passeando despreocupadamente pela Jardim da Avenida, pelo café do senhor Alfredo, em Sintra, onde quisermos: ninguém pode interferir nas nossas novas vidas!

Trouxe um poema de Florbela Espanca para te oferecer, julgo que vais gostar:

 

PRIMAVERA

 

É Primavera agora, meu Amor!

O campo despe a veste de estamenha;

Não há árvore nenhuma que não tenha

O coração aberto, todo em flor!

 

Ah! Deixa-te vogar, calmo, ao sabor

Da vida ... não há bem que nos não venha

Dum mal que o nosso orgulho em vão desdenha!

Não há bem que não possa ser melhor!

 

Também despi meu triste burel pardo,

E agora cheiro a rosmaninho e a nardo

 E ando agora tonta, à tua espera ...

 

Pus rosas cor-de-rosa em meus cabelos ...

 Parecem um rosal! Vem desprendê-los!

Meu Amor, meu Amor, é Primavera! ...

 

 

P.S.

1- Não tenho memória para reter pormenores, detalhes,  aromas, cores, sonoridades, não tenho vocabulário afectivo para exprimir convenientemente o turbilhão das emoções e sentimentos que existem dentro de mim, por isso este texto é seco, árido, talvez monótono, mas acredita que é sincero. Á distância de cinquenta anos, os diálogos que reproduzo podem não corresponder exactamente ao que foi dito por ambos, mas creio não ter adulterado o seu sentido.

 


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Segunda-feira, 1 de Outubro de 2012
Refúgios

 

Os caes para lamberem as feridas escolhem locais afastados, esconderijos, longe do rival vitorioso e até dos que passam distraídos. Quando a  vida nos vence, fazemos algo semelhante e em silencio dolorido procuramos um refugio inacessível a qualquer olhar ou simples curiosidade, para viver as mágoas e a tristeza.

 


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Domingo, 5 de Agosto de 2012
Contagem descrescente

Dia 9 consulta no Institito Gama Pinto. Com olhares furtivos, de quem vê sem querer ver, contos os dias que faltam.

Degeneração macular nas duas retinas, o orgão de transmitem as mensagem de luz ao cérebro. Degeneração humida, a mais agressiva, é o meu giagnóstico: diminui a visão e no limite, espero não chegar lá, provoca cegueira.

Um mundo sem luz, só de trevas. Ponto final, não quero pensar mais.


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Quinta-feira, 10 de Maio de 2012
Tristeza

 

 

Este blogue trata alguns temas: do passado, do presente, talvez do futuro e a tristeza também. Nas sociedades modernas tristeza é sinónimo de derrota, de fraqueza, etc. Só há espaço para os vencedores e, pior, para o que é efémero.

Acontece que a tristeza faz parte da nossa vida, desde a infância. É necessária ao nosso equilíbrio emocional, ao desenvolvimento da nossa personalidade. Porque implica silêncio e meditação, ajuda o raciocínio e a clarificação dos problemas: a tristeza é essencial para a  sua solução dos problemas.

Diz quem sabe, que também ajuda à criação artística pela mescla de ligações e raciocínios que implica. Como tudo na vida, depende da dose, tristeza em excesso conduz ao fechamento em si, à ausência de compreensão dos outros, da vida e à depressão.

Companheira da minha vida mónada, como uma amante caprichosa, aparecia-me quando ela cria, não quando eu a convocava. Assim, aprendi a respeitá-la e a viver com ela.

Sou um fraco? Talvez.

 


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