Conhece-te a ti mesmo... se puderes.

Quinta-feira, 22 de Junho de 2017
Viver mais

A esperança média de vida aumenta, vivemos mais anos mas não vivemos mais felizes. A conta da farmácia aumenta, onde sentíamos prazer agora sentimos indiferença. A fadiga é uma presença constante.

 Talvez isto seja uma armadilha da natureza por estarmos a contrariá-la.

 


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Quarta-feira, 14 de Junho de 2017
Longevidade

Resultado de imagem para velhos

 

Estou a caminhar para os 82 anos (se valeu a pena é outra história ) e quando tinha 20 anos considerava que uma pessoa com 50 anos era velha. Hoje os velhos e os muito velhos são cada vez em maior número.

Na Inglaterra no início do século XVIII a esperança média de vida era de 37 anos e em França era de 28 anos ( História do Mundo de Andrew Marr ), nos restantes países do mundo era menor.

Até onde chega a longevidade ninguém sabe, a natureza guarda os seus segredos, mas mais vida só interessa quando tem qualidade.


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publicado por pimentaeouro às 22:29
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Quarta-feira, 5 de Abril de 2017
Este país não é para velhos

Dos mais de 45 mil idosos sinalizados pela GNR, cerca de 28 mil vivem sozinhos .
São mais de 45 mil os idosos a viverem sozinhos ou isolados em todo o país. A GNR sina1izou 45.516 pessoas nessa situação, o qúe corresponde aum aumento de 2.194 face ao último levantamento, feito no ano passado.
Os novos dados foram ontem dados a conhecer pela GNR, que divulgou o resultado da  Operação Censos Sénior 2.017, um trabalho que resulta do levantamento de dados feito durante o mês de março. Do total de idosos identificados, 28 279 vivem sozinhos, 5.124 estão em locais isolados e 3.521 conjugam as duas situações: vivem sozinhos e isolados. A maioria dos idosos que vivem sozinhos ou isolados são mulheres (30 172 casos). Além disso, os militares da GNR encontraram ainda 8.592 idosos que vivem acompanhados, mas encontram-se “em situação de vulnerabilidade fruto de limitações físicas ou psicológicas”. Os casos mais graves foram reportados às entidades competentes para futuro acompanhamento. 

 

NÚMEROS A CRESCER Desde 2011
— ano em que se deu início a este levantamento de dados anual — que os números têm vindo sempre a crescer. Em sete anos, o número de idosos sinalizados quase que triplicou, passando dos 15 596, em

2.011, para os 45.516, em 2.017. A GNR acredita que estes dados “não refletem um aumento do número de idosos a viverem nestas situações”, mas antes uma base de dados cada vez mais completa, fruto da periodicidade com que se faz este levantamento.
No entanto, estes são númerosque vêm ao encontro do que foi revelado pelo Instituto Nacional de Estatística no mês passado e que dava conta de uma população cada vez mais envelhecida. A previsão para Portugal indica que o índice de envelhecimento poderá mais do que duplicar entre 2.015 e 2.080, passando de 147 para 317 idosos por cada 100 jovens.


INTERIOR ENVELHECIDO É nas regiões do interior que mais idosos foram sinalizados. Guarda lidera este ranking com 3.932 idosos, dos quais 3.197 vivem sozinhos e 452 isolados. Logo a seguir surge Viseu, com 3930 idosos identificados, dos quais 2.676 vivem sozinhos. A completar o top-3 está Beja, com um total de 3.846 idosos, 2.094 dos quais a viver sozinhos e  isolados . 

 

Jornal I de hoje



publicado por pimentaeouro às 18:02
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Quinta-feira, 12 de Janeiro de 2017
Velhice

 

A velhice também é a idade do balanço, do acerto de contas com a vida e com o nosso passado. Tanto erro, tanta insensatez, tanta inutilidade. Os que se gabam de voltar a fazer tudo de novo sem nada emendar, são petulantes ou mentem tentando iludir-se.

Por mim, gostava de saber se acrescentei alguma parcela de felicidade às pessoas – poucas - que amei e que me amaram e se, colectivamente, vou deixar algo mais do que recebi: tenho a veleidade de pensar que sim, mesmo sabendo que ninguém é bom juiz em causa própria.

Ainda tenho uma coisa por realizar. Uma peregrinação, apenas dois ou três dias, a Torres Novas (sem bordão nem merenda), a terra onde vivi cerca de seis anos da minha mocidade, onde tive bons amigos e amores infelizes que deixaram uma marca de tristeza na minha vida .

Quero percorrer sozinho as velhas ruas, principalmente à noite, do casco velho da cidade (o que ainda restar delas), rever casas, as pessoas já lá não estão certamente,  ir até ao jardim que ladeava o Almonda, (ainda existirão chorões debruçados sobre o rio?) límpido então mas hoje poluído ,  subir até ao Castelo e contemplar a cidade e, com sorte, ainda encontrar vivo um ou outro  amigo daqueles  anos distantes. Antes de partir, quero reavivar essa parcela da minha vida, capricho de velho.


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Quarta-feira, 20 de Abril de 2016
Elixires
 

 

  

Ao longo de séculos e  milénios a Humanidade tem sonhado com variados elixires: Época de Ouro (passado), o Santo Graal, a alquimia do ouro,  a juventude eterna, o amor eterno – porventura o menos insensato de todos -, etc.

Não existe uma História Universal dos Sonhos, que nos dê conta do seu registo, apenas estão presentes na memória colectiva dos povos.

Nas últimas décadas conseguimos uma imitação tosca da juventude eterna, prolongado a velhice por mais uns anos. Melhor seria que a medicina tivesse realizado este milagre prolongando a idade da juventude, mas temos de ter paciência e esperar sentados: pode ser que aconteça. Omitindo o elevado custo psicológico de prolongar a velhice, fica uma montanha de problemas para resolver, nomeadamente a conta da farmácia e dos hospitais.

Para não nos embriagarmos excessivamente com o prolongamento da velhice convém fazer algumas contas simples: as células da pele  renovam-se em poucos dias mas não há cosmético que consiga combater o seu envelhecimento, as células do fígado renovam-se em ano e meio, varias células do cérebro na terceira idade morrem e já não se renovam.

O prolongamento da velhice é o oposto ao elixir da eterna juventude: em lugar de corpos esbeltos e muita alegria, temos corpos decadentes e solidão.

Apesar de ter levado milhões de anos a evoluir, o corpo humano não deixa de ser um «amontoado» de peças mal montadas. Imaginar que se renova harmoniosamente, não passa de mais uma utopia.

Nos dias de hoje, o elixir da juventude encontra-se difundido numa cultura – e num negócio prospero – de parecer jovem, ser jovem de qualquer forma e a qualqer preço , exibir juventude quando todos estão a ver que por detrás das sucessivas operações plásticas esta uma pessoa mais velha. Uma fauna especial diz respeito aos que se consideram jovens de espírito mesmo que já estejam decadentes.

Existem especulações acerca do limite para a duração do Homem e sobre a suposta capacidade de o cérebro aumentar, alguns especialistas afirmam que esse limite vai até aos 115 anos.

Não existe qualquer prova objectiva de que isto possa ser verdade, pelo contrário. Algumas pessoas, poucas, aproximam-se até esta idade ase têm capacidades limitadas.  

Ao contrário dos mitos, velhice é uma coisa chata e pouco romântica, há imensa solidão  e isolamento na velhice.

 

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Quinta-feira, 24 de Março de 2016
Passado longinquo

 

Sou como o narrador do conto "O fogo  e as cinzas" de Manuel da Fonseca, um velho falhado. Como ele rou o osso da memória, das memórias que me assediam mesmo que eu não queira. Regresso aos tempos longínquos da minha mocidade vivida em Torres Novas. Os dias corriam suaves, sem preocupações, com esperanças que se desfizeram. Sem que eu soubesse porque, a vida queria castigar-me.

Eu era um estranho, recem-chegado e duas mulheres escolheram-me: ainda hoje não sei porque, o que acharam em mim, com uma figura meio triste?

As escolhas do coração não passam pelo filtro da razão. Amamos e é quanto basta, na mocidade não existem cálculos de patrimónios, de bens herdados ou a herdar. Isso, só acontece mais tarde e não acontece sempre, o século XIX já lá vai.

  O meu primeiro amor foi com a Fernanda e a sua recordação ficou gravada nos recantos sinuosos da minha memória. Fernanda, recordo com saudade a tua ternura, a alegria dos teus olhos, os beijos ternos que trocamos, quase roubados.

.Namoro curto, igual a todos os namoros daquela época que terminou com uma imposição tua; inexperiente, não soube contornar o problema. Tinha corpo de homem mas a cabeça andava na Lua. Seguidamente namorei com a Julieta Fradinho, natural de Silves, filha de um funcionário do Tribunal, que terminou brutalmente com a proibição categórica do pai, à boa maneira do século XIX.

Julieta era o oposto da Fernanda, reservada, olhar triste sem os atributos de beleza da Fernanda; tinha mais maturidade do que eu e o amor já tinha criado raízes no seu coração.

Visto de fora, eu era um rebenta corações, na realidade, eu é que fiquei rebentado: para um jovem de vinte e poucos anos que se inicia   nos caminhos sinuosos do amor, dois insucessos seguidos deixam marcas fundas. Apesar disto, por estranho que pareça, tenho uma recordação muito grata – nos sentimentos não existe racionalidade - da Fernanda e da Julieta.

Não comentei estes insucessos com ninguém, lambi as feridas em solidão. Talvez por ter feito este recalcamento, agora tenho uma necessidade irreprimível de falar e escrever sobre eles.



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Terça-feira, 8 de Março de 2016
Correr atrás do vento

 

 

Correr atrás do passado é correr atrás do vento, jamais o alcançaremos. Os acontecimentos que vivemos outrora foram apagados pelo Tempo e uma parte das pessoas que recordamos já morrerem ou não sabemos onde vivem.

Todavia apesar de quase tudo ter desaparecido ou mudado (casas, ruas, paisagens) a nossa memória «reconstrói» parcelas aleatórias do nosso passado e sentimos, de novo, emoções com essas recordações.

É como estar a ver episódios de um filme rodado há quarenta ou cinquenta anos. Os actores já morreram, a sala já não existe, mas vimos a projecção da sua imagem e voltamos a emocionar-nos.

A nossa memória desencadeia emoções, como qualquer acontecimento externo do presente: apanhamos por breves momentos o vento.

A memória traz-nos alegrias ou sofrimentos, raramente o que é irrelevante ou não nos afectou emocionalmente. Amizades, familiares, amores, êxitos, fracassos, inimizades, etc.

A memória é muito caprichosa e ainda não sabemos bem como funciona, ela e a sua prima esquecimento. A «Idade de Ouro», a «minha época» é considerar o passado como melhor do que o presente. O saudosismo (entre nós Sebastianismo) também remete para uma época que imaginqamos melhor do que o presente.

A memória é uma espécie de disco rígido avariado da nossa história de vida. Ela regista fragmentos isolados, bons ou maus, da nossa vida.

Se tivemos uma infância e uma adolescência felizes, a memória não recordará tristezas, pelo contrário, se aquelas duas épocas da nossa vida foram difíceis, a memória não poderá recordar felicidades.

A memória é também subjectividade, muito, dentro de um ser subjectivo; é preciso cuidado com ela.

O homem é subjectivo por natureza e pela sua secunda natureza, a sociedade que ele próprio criou mas  necessita de objectividade e de certezas para que o seu dia a dia e a relações com os outros não sejam caóticos. Sem objectividade a nossa vida quotidiana seria impossível, nem sequer haveria horários de comboios, mas é na ciência que ele realiza a sua procura da objectividade.

Os meus problemas de memória – falta de memória – remontam à minha infância e uma parte importante da minha vida não existe nela é como se não tivesse vivido. Para qeu tudo não seja negativo a  memória apaga-me muitas tristezas, que apenas existem como um nevoeiro.



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Sexta-feira, 15 de Janeiro de 2016
Envelhecer #2

Resultado de imagem para velhos

 

Já não consigo fazer caminhadas, canso-me, a vista e o ouvido vêm menos e ouvem menos, tenho sempre frio porque o coração irriga mal, a caligrafia (sempre tive boa caligrafia  em cursivo) é irregular, a fadiga aumentou. Envelhecer não é romântico, a penas poucos envelhecem sem doenças ou pouco doentes, a máquina humana não está preparada para viver 70, 80 e mais anos; herdamos a curta duração do homo erectus e só os recentes avanços da higiene, da medicina e de melhor qualidade de vida alteraram aquela herança. Estamos no limite de empurrar a morte para trás e de pouco servem implantes, transplantes e outros artifícios da medicina, as células dos diversos órgãos tem tempos de vida diferentes e as células do cérebro que morrem não são renovadas, não adianta lutar contra a natureza.

Para que serviria um mundo de velhos ainda  mais velhos? Quem iria sustentá-los?

Sei que a memória devolve-me o passado como a época de ouro mas sei também que isso é falso. A época em que vivi já não existe, o mundo mudou muito, nem sempre para melhor, mas isso fica para outra “crónica”.



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Segunda-feira, 14 de Dezembro de 2015
Pavilhão 24 #2

 Resultado de imagem para prisoes

 

 Visito todos os dias a tua mãe, algumas vezes sem saber como. Levo-lhe um lanche e mimos da Versalhes, fruta, tabaco e moedas para a máquina de café, sem este suplemento a tua mãe passaria mal.

Envelheceu, tem no rosto e no olhar as marcas de muitos anos de sofrimento. A tua infeliz mãe perdeu o olho esquerdo, tem uma doença rara, sem medicação especifica, há quatro anos que sofre de dor crónica, dói sempre, uns dias menos outros dias mais. Para aumentar este drama agora tem uma demência reversível; a demência causa sofrimento e nos períodos em que está lúcida o sofrimento aumenta com o mundo demencial que tem à sua volta.

Quando entro no hospital, entro numa prisão, e saio mais triste e deprimido do que quando entrei. Com 80 anos não sei até onde conseguirei lavar às costas ente lenho. Não consigo entender o teu comportamento para com a tua mãe e para usar uma palavra moderada direi que é desumano e só contribui para aumentar inutilmente o seu sofrimento, talvez um dia sintas remorsos.

 



publicado por pimentaeouro às 00:35
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Sábado, 7 de Novembro de 2015
Maldita doença

O diagnostico inicial, Alzheimer, não se confirmou. A minha mulher sofre de perturbações delirantes, uma demência que a conduzirá à loucura não sei quando. A medicação que está a tomar, antipsicótico, não resulta e a doença tem-se agravado.

Pensa que quero matá-la, que quero ficar com os seus parcos bens, vê ambulâncias e carros da polícia para a levarem presa, homens que a perseguem, etc., etc.

Vive com medo e sofre, o rosto, até há pouco temo alegre e risonho, envelheceu. Sinto  a minha mulher ausente, outra pessoa que desconheço, desaparece estando viva.

A minha impotência é total, solidão e tristeza, imensas, preenchem os meus dias, não tenho força para carregar este fardo.



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Quarta-feira, 2 de Setembro de 2015
SDP

 

 

 

 Resultado de imagem para solidao

 

Gostamos de imaginar ilusões para a Terceira Idade, os velhos: o velho sorridente, saudável, que brinca com os netos é uma raridade num mar de velhos em solidão, doentes e pobres: os filhos e netos, quando existem, estão ocupados com as suas vidinhas e a sociedade não está virada para se ocupar deles.

Lares públicos e privados são depositos de seres que já não são pessoas, limitam-se a aguardar que a morte não demore.

Portugal é um pais de velhos e de velhos muito velhos (mais de 80 anos), que aumentam todos os anos enquanto todos os anos diminuem os tratalhadores activos que pagam para a Segurança Social. Já não pertenço ao futuro e as novas gerações viverão numa sociedade sem esperança.

 

 

 



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Segunda-feira, 25 de Agosto de 2014
Violência na Terceira Idade

  

 

OMS: 39% dos idosos portugueses são vítimas de violência

 

Por dia, na Europa, quatro milhões de idosos são vítimas de humilhações, quer físicas quer psicológicas. Bofetadas, murros, socos, queimaduras no corpo e cortes propositados são algumas das agressões mais comuns.

 

Portugal está no grupo dos cinco piores países europeus no tratamento aos mais velhos: 39% são vítimas de violência, segundo um estudo da Organização Mundial de Saúde (OMS).

No Relatório de Prevenção contra os Maus Tratos a Idosos, que analisa as agressões dos últimos cinco anos contra os mais velhos (num universo de 53 países europeus), pode ler-se que "Portugal tem um sério problema no que respeita aos maus tratos contra idosos."

Escreve o "Público", que 39%  dos idosos portugueses são vítimas de abusos. Desta lista negra fazem parte apenas mais quatro países: Sérvia, Áustria, Israel e República da Macedónia.

Os dados mostram ainda que 32,9% são vítimas de abusos psicológicos, 16,5% de extorsão, 12,8% de violação dos seus direitos, 9,9% de negligência, 3,6% de abusos sexuais e 2,8% de abusos físicos.

Por dia, na Europa, quatro milhões de idosos são vítimas de humilhações, quer físicas quer psicológicas. A directora da OMS para a Europa, Zsuzsanna Jakab, considera a situação “muito grave”.

“A população europeia está cada vez mais envelhecida, por isso é urgente que os governos resolvam este problema social o mais rápido possível, e que os serviços de saúde prestem socorro às vítimas de maus tratos”, escreve a responsável no relatório.

Em 2050, estima-se que um terço da população terá mais de 60 anos.

 



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Quarta-feira, 16 de Julho de 2014
A carta que não recebes-te

Amigo António,

Não receberás esta carta, mas continuo a escreve-la como se fosse enviá-la pelo correio. Não respondes-te à minha primeira carta e, assim, não terás que responder a esta: afinal, os amigos também se esquecem.

A minha sogra faleceu perto dos noventa anos. Passava os dias cantarolando cantigas de quando fora jovem e histórias de amigas, a maior parte delas, já falecidas.

A natureza, sabiamente, retira aos velhos a memória de curta duração, não se lembram do que aconteceu na semana anterior, e devolve-lhes a memória do passado distante, a chamada memória de longa duração: mais ano menos ano, acontece e todos. Parece-me que sou precoce, já vivo mergulhado na memória de longo prazo, principalmente a memória da minha juventude ( a fase mais importante da existência ) vivida aí, em Torres Novas.

Esta dádiva da natureza tem um preço, a memória antiga é traiçoeira , omite, distorce factos e acontecimentos, fantasia o passado, temos que ser prudentes com ela: até os que escrevem livros de memórias não escapam a esta realidade. A memória é imperfeita como nós.

Recordo com muita saudade os amigos que ai conheci (convivi com dois em Lisboa, o Francisco Canais Rocha e o António Graça, falecido ainda novo) e, paradoxalmente dois insucessos amorosos, com a tua irmã e seguidamente com a Julieta Fradinho, natural de Silves, filha de um funcionário do Tribunal (com cara de poucos amigos, nunca o vi com uma companhia), que terminou brutalmente com a proibição categórica do pai, à boa maneira do século XIX.

 

Sempre ouvi dizer que o primeiro amor nunca se esquece e julgava que eram histórias de livros, mas é verdade, acontece mesmo. O meu primeiro amor foi com a tua irmã e a sua recordação ficou gravada nos recantos sinuosos da  memória.

Namoro curto, igual a todos os namoros daquela época e terminou com uma imposição que, inexperiente, não soube contornar.

Visto de fora, eu era um rebenta corações, na realidade, eu é que fiquei rebentado: para um jovem de vinte e poucos anos que se inicia   nos caminhos tortuosos do amor, dois insucessos seguidos deixam marcas fundas. Apesar disto, por estranho que pareça, tenho uma recordação muito grata – nos sentimentos não existe racionalidade - da Fernanda e da Julieta.

Não comentei estes insucessos com ninguém, lambi as feridas em solidão. Talvez por ter feito este recalcamento, agora tenho uma necessidade irreprimível de falar e escrever sobre eles.

Por obra do acaso, o grande fazedor e desfazedor de vidas, conheci na Net, um conterrâneo do Algarve, a viver em Sintra, e que conhece a Julieta. Deu-me o seu contacto e irei procura-la se saúde permitir.

Gostaria igualmente de voltar a ver a tua irmã mesmo que ela tenha uma memória desfavorável de mim: aos setenta e nove anos, doente, na idade do perdão, não tenho necessidade de enganar ninguém. Sei que ela está casada com o Arlindo e julgo que o conheço.

Há uns meses convidaram-me para um concurso de blogues. Tinha que apresentar uma resenha «biográfica» e saiu-me o texto que junto a esta carta. Dá uma síntese das minhas andanças.

Desejo a continuação das tuas melhoras e despeço-me com um abraço e cumprimentos para a tua esposa.

 


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Quarta-feira, 2 de Julho de 2014
Violência Terceira Idade

 OMS: 39% dos idosos portugueses são vítimas de violência

 

Por dia, na Europa, quatro milhões de idosos são vítimas de humilhações, quer físicas quer psicológicas. Bofetadas, murros, socos, queimaduras no corpo e cortes propositados são algumas das agressões mais comuns.

 

Portugal está no grupo dos cinco piores países europeus no tratamento aos mais velhos: 39% são vítimas de violência, segundo um estudo da Organização Mundial de Saúde (OMS).

No Relatório de Prevenção contra os Maus Tratos a Idosos, que analisa as agressões dos últimos cinco anos contra os mais velhos (num universo de 53 países europeus), pode ler-se que "Portugal tem um sério problema no que respeita aos maus tratos contra idosos."

Escreve o "Público", que 39%  dos idosos portugueses são vítimas de abusos. Desta lista negra fazem parte apenas mais quatro países: Sérvia, Áustria, Israel e República da Macedónia.

Os dados mostram ainda que 32,9% são vítimas de abusos psicológicos, 16,5% de extorsão, 12,8% de violação dos seus direitos, 9,9% de negligência, 3,6% de abusos sexuais e 2,8% de abusos físicos.

Por dia, na Europa, quatro milhões de idosos são vítimas de humilhações, quer físicas quer psicológicas. A directora da OMS para a Europa, Zsuzsanna Jakab, considera a situação “muito grave”.

“A população europeia está cada vez mais envelhecida, por isso é urgente que os governos resolvam este problema social o mais rápido possível, e que os serviços de saúde prestem socorro às vítimas de maus tratos”, escreve a responsável no relatório.

Em 2050, estima-se que um terço da população terá mais de 60 anos.

 



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Quinta-feira, 29 de Maio de 2014
Velhice

 

A velhice também é a idade do balanço, do acerto de contas com a vida e connosco. Tanto erro, tanta insensatez, tanta inutilidade. Os que se gabam de voltar a fazer tudo de novo sem nada emendar, são petulantes ou mentem tentando iludir-se.

Por mim, gostava de saber se acrescentei alguma parcela de felicidade às pessoas – poucas - que amei e que me amaram e se, colectivamente, vou deixar algo mais do que recebi: tenho a veleidade de pensar que sim, mesmo sabendo que ninguém é bom juiz em causa própria.

Ainda tenho uma coisa por realizar. Uma peregrinação, apenas dois ou três dias, a Torres Novas (sem bordão nem merenda), a terra onde vivi cerca de seis anos da minha mocidade, onde tive bons amigos e amores infelizes que deixaram uma marca de tristeza na minha vida .

Quero percorrer sozinho as velhas ruas, principalmente à noite, do casco velho da cidade (o que ainda restar delas), rever casas, as pessoas já lá não estão certamente,  ir até ao jardim que ladeava o Almonda, (ainda existirão chorões debruçados sobre o rio?) límpido então mas hoje poluído e,  subir até ao Castelo e contemplar a cidade e, com sorte, ainda encontrar vivo um ou outro  amigo daqueles  anos distantes. Antes de partir, quero reavivar essa parcela da minha vida, capricho de velho.

 

 


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