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Terça-feira, 5 de Janeiro de 2016
Utopia

500 anos depois, o sentido de Utopia não se perdeu

Obra canónica de Thomas More foi publicada em 1516. Não foi o primeiro texto sobre um ideal utópico, mas inaugurou uma tradição de obras publicadas à luz de uma génese comum: a proposta de projectos alternativos para a sociedade. O PÚBLICO inicia uma série especial sobre velhas e novas utopias.

Quadro de 1527 que retrata Thomas More, que pertence à colecção Frick, Nova Iorque FRANCIS G. MAYER/CORBIS

“... é fácil confessar que muitíssimas coisas há na terra da Utopia que gostaria de ver implantadas nas nossas cidades, em toda a verdade e não apenas em expectativa”. Estas são as últimas palavras de Thomas More na sua Utopia, ditas depois de Rafael Hitlodeu, o navegador que alegadamente conheceu a ilha da Utopia, terminar o seu relato e elogiar a estrutura da ilha. A ideia é clara: More simpatiza com alguns dos princípios da sociedade utopiana, mas não a vê como um modelo a implementar de forma exacta.

“A intenção de More é não apresentar as ideias de Hitlodeu e a sociedade utopiana como modelares, esperando que o leitor seja capaz de um exercício de reflexão crítica sobre os aspectos positivos e negativos dessa sociedade”, diz Fátima Vieira, professora da Faculdade de Letras da Universidade do Porto especializada em estudos sobre a utopia.

No ano em que se assinalam 500 anos da sua publicação, a Utopia continua a ser lida, discutida e analisada, e encontra-se em qualquer biblioteca como clássico da literatura. E a sua mensagem, dizem os especialistas com quem falámos, continua a fazer sentido hoje: existem alternativas ao que está instituído.

“É um texto de grande amplitude, de abertura, de descoberta de caminhos, que até àquela altura não havia na cultura europeia”, diz Manuel Frias Martins, professor de Cultura Renascentista da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Uma sociedade em que nada é de ninguém – tudo é de todos. Em que o bem-comum é mais precioso do que o bem individual. Em que a guerra é abominada e a caça é tida como loucura. Em que o ouro e outros metais ditos preciosos não têm valor. Em que um dia de trabalho tem seis horas, uma noite de sono tem oito e o resto do tempo é ocupado por cada um como entender. Assim é na ilha da Utopia, objecto central da obra homónima de Thomas More publicada em 1516, antítese da sociedade europeia do século XVI.

More nasceu em 1477 (ou 1478, segundo alguns historiadores), em Londres. Foi advogado, chanceler de Henrique VIII e fez parte da Câmara dos Comuns. Em 1515, baseado em A República de Platão, começa a planear a redacção daUtopia. Depois de uma visita a Londres do seu amigo Erasmo, autor de Elogio da Loucura, More envia-lhe o texto terminado. Erasmo, alegadamente sem o autor saber, entrega o texto ao impressor Thierry Martens de Lovaina, que o publica.

Redigida em latim, a Utopia, escreveu José de Pina Martins no estudo introdutório à edição da obra de More da Fundação Calouste Gulbenkian (2006), é “um escrito fundamental do humanismo”. “O ser humano encontra-se no centro do mundo e está nas suas mãos decidir o seu destino”, explica Fátima Vieira. “Não poderia nunca ter sido escrita na Idade Média, quando se acreditava que o destino havia sido já decidido por Deus”. A obra é escrita num tempo novo, em que o homem europeu encabeça os Descobrimentos, que revelam povos desconhecidos, ideias e costumes diferentes, novas possibilidades. É de Portugal, um dos países protagonistas dessas viagens intercontinentais, que vem a personagem central da obra — o navegador Rafael Hitlodeu, que dá a conhecer a ilha da Utopia. A obra, classifica Pina Martins, é um texto “do humanismo renascentista”.

 


publicado por pimentaeouro às 12:43
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