Conhece-te a ti mesmo... se puderes.
Segunda-feira, 1 de Abril de 2013
Reencontro

 

 

 

 

Não me esqueces-te, João? Não, como poderia esquecer-te, Julieta? Como poderia esquecer um amor interrompido contra a nossa vontade?

 

Como poderia esquecer a brutalidade daquela imposição contra a vontade de dois jovens que se amavam e que pôs o teu coração a sangrar? Se alguma vez na vida temos direito ao amor é na juventude quando tudo acontece, em pureza e com encanto, pela primeira vez.

 

Eras maior de idade tinhas o direito de viver com quem quisesses, mesmo que fosse um pé rapado como eu, mas naquela época distante pater famílias é que mandava e decidia.

 

Não quero que a última imagem que guardo de ti seja aquele choro compulsivo, como nunca tinha visto na minha vida. Foi com aquele choro que aprendi a chorar.

 

Porque demoraste tantos anos, João? Esperei-te tanto tempo e nunca aparecias. Foi outro erro meu, Julieta. Estavas guarda nos labirintos da minha memória e assaltava-me a dúvida se desejarias voltar a ver-me. Até que rompi as minha hesitações e decidi procurar-te, o desejo de voltar a ver-te era irreprimível.

 

Foste viver para Londres (?), o  primeiro exílio da tua família, amas-te outro homem e regressas-te casada para o teu segundo exílio, algures num recanto da serra de Sintra, a Sintra que te viu crescer menina e que amavas e amas.

 

Aqui, no seio da Serra, foges ao convívio social – uma senhora muito reservada, disseram-me antes de vir procurar-te. Compreendo esse teu isolamento e reserva: é a marca do sofrimento.

 

Conservamos longamente sobre o passado,  quando as nossas vidas se cruzaram num  namoro fugas. Nas tuas frequentes perguntas, não procuravas decifrar o homem que eu era, se era rico ou pobre, mas  como me comportava, como reagia, querias conhecer a personalidade do homem que escolhes-te para companheiro e pai dos teus filhos. 

 

As nossas vidas já foram vividas, separados um do outro, agora somos cinzas de uma lareira quase apagada.

 

Começa a escurecer, não tarda é noite. Tenho de regressar, as estradas da serra são muito sinuosas e escuras. Despedimo-nos num longo abraço, os nossos corpos uniram-se pela primeira vez, sinto o teu coração palpitar acelerado. Dou-te um beijo na testa e reparo que estás a chorar, carinhosamente enxugo o teu rosto, choro também e no brilho dos teus ohos leio que este nosso choro é de alegria.

 

Regresso feliz, muito feliz, o reencontro aconteceu e a partir de agora a tua imagem, dentro de mim, já não é triste.

 


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publicado por pimentaeouro às 10:58
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6 comentários:
De DyDa/Flordeliz a 1 de Abril de 2013 às 21:43

Nada como apagar um sonho com a realidade.
Amigo ultrapassado o passado que o presente seja vivido um dia de cada vez com mais vontade e sem lágrimas que não sejam das boas recordações e alegrias.

Abraço
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De pimentaeouro a 2 de Abril de 2013 às 14:12
Tirei da minha memória a recordação de um choro triste.
Foi muito gratificante para mim.
Abraço.
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De ónix a 1 de Abril de 2013 às 23:50
Olá João
Reencontrou-se com um grande amor do passado... isso não é para toda a gente.Não sei comentar este post, é demasiado bonito para ser real. Tenho andado afastada e prometo estar mais presente a partir de agora. Que esteja bem de saúde.
Abraço


De pimentaeouro a 2 de Abril de 2013 às 21:13

Olá Margarida,

Fico contente por saber que está de regresso. Já dei uma vista de olhos pelo novo visual.

“Demasiado bonito para ser real”. Pode ser uma forma simpática de me dizer outra coisa.

Aquele reencontro não se realizou, é uma fuga à realidade muito dura em que vivo. Será uma forma infantil de fugir à realidade ou um devaneio de um velho meio tonto.

Se a doença da minha mulher permitir, tenciono reencontrar-me com a Fernanda e a Julieta, mesmo ao preço, muito provável, de dois baldes de água fria pela cabeça abaixo.

O que eu sinto é apenas o que eu sinto e nada mais, o passado nunca volta a repetir-se.

Obrigado pela visita e um abraço. 

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De ónix a 11 de Abril de 2013 às 00:04
Mas não seria impossível... pensei mesmo que a tinha reencontrado. Mas enfim, a vida é mesmo assim e como diz, talvez mais tarde se dê o tão esperado reencontro. Espero que a sua mulher esteja melhor de saúde.
Abraço


De pimentaeouro a 11 de Abril de 2013 às 21:43
Impossível certamente não será. O desfecho é que poderá ser completamente diferente.
A vida, quando lhe apetece, é madrasta .
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