Conhece-te a ti mesmo... se puderes.
Quinta-feira, 6 de Junho de 2013
Brandos costumes

 

 

“Eu, a puta de Rembrandt”, de Sylvie Matton, Editora Lyon, é um livro que recomendo. É um romance histórico sobre Rembrandt e a sua época, com grade detalhe de costumes na Holanda do século XVII, já liberta do domínio de Espanha.

Que na Holanda que viria, ou já era, a pátria da toleramcia, se praticasse atrocidades como a que é relatada neste texto causa perplexidade. Por cá a Inquisição não era mais branda e por outros países da Europa civilizada, em pleno século das Luzes, não deveria ser muito diferente: suplico em praça pública e enforcamento do cadáver.

Hoje já estaremos libertos desta desta, barbárie?

Aqui vai um excerto do livro e no blogue Livro velho está uma biografia de Rembrant:

 

“Manhãs tristes, digo para mim que não é vida para uma criadinha deitar-se na cama do amo. Devo ir-me embora, devia, digo para comigo, mas para onde ir, para Bradevoort jamais, embora sinta, por vezes, a falta da minha mãe, a sua doçura e as histórias que ela gosta de contar.

 Acho que não suportaria o cheiro das botas dos soldados. Agradeço e rezo; que nunca mais um olhar de homem sem bondade me trespasse. Como se tivesse acabado de nascer, aos 25 anos, aqui em Amesterdão, nos braços, nos odo­res, na bondade de Rembrandt van Rijn. No quarto dele, uma lareira de turfa arde durante metade da noite e o pesado tecido verde em volta da cama de dossel conserva o calor. Espreguiço--me, não quero pensar mais, feliz nos seus braços esqueço, nunca tenho frio.

Então, para me assustar, penso nas histórias de criadas expul­sas por estarem grávidas e presas em Spinhuis. Aquela de Janeke Welhoeck, criada em casa do Sr. Bickingh, na boa cidade de Edam. Edam é conhecida pela sua gentileza, foi pela gentileza que a se­reia que lá foi capturada se deixou prender.

Enquanto o seu ven­tre inchava, Janeke não disse o nome do pai. Quando teve o re-cém-nascido sobre o seu seio, murmurou o nome do filho mais velho do Sr. Bicking. Este mandou-a imediatamente prender, com a criança que chora para comer. Ela tem de confessar a mentira e sobretudo não exigir o casamento. Diz a história que ela não exi­gia nada. Invoca-Me no dia do teu sofrimento, salvar-te-ei e tu Me glorificarás.

Na prisão, ela enforca-se perante o seu bebé que acabava de arrotar. Como se a sua honra não tivesse sido lavada, para se vingar ainda da pobre rapariga, cujo filho esfomeado cho­rava por ser órfão, o Sr. Bicking exige que o cadáver da suicida seja supliciado e enforcado na praça. A morta enforcada.

Toda a simpática cidade de Edam assistiu. A história não diz se o filho do Sr. Bicking lá estava, nem se o bebé morreu de fome ou de tanto chorar.”



publicado por pimentaeouro às 19:59
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3 comentários:
De golimix a 6 de Junho de 2013 às 21:36
 Boa sugestão! Image


De DyDa/Flordeliz a 8 de Junho de 2013 às 18:05

Gostei da sugestão.
BFDS
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De pimentaeouro a 9 de Junho de 2013 às 13:21
ImageImageImage


Um abraço do Pimentinha.


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