“Eu, a puta de Rembrandt”, de Sylvie Matton, Editora Lyon, é um livro que recomendo. É um romance histórico sobre Rembrandt e a sua época, com grade detalhe de costumes na Holanda do século XVII, já liberta do domínio de Espanha.
Que na Holanda que viria, ou já era, a pátria da toleramcia, se praticasse atrocidades como a que é relatada neste texto causa perplexidade. Por cá a Inquisição não era mais branda e por outros países da Europa civilizada, em pleno século das Luzes, não deveria ser muito diferente: suplico em praça pública e enforcamento do cadáver.
Hoje já estaremos libertos desta desta, barbárie?
Aqui vai um excerto do livro e no blogue Livro velho está uma biografia de Rembrant:
“Manhãs tristes, digo para mim que não é vida para uma criadinha deitar-se na cama do amo. Devo ir-me embora, devia, digo para comigo, mas para onde ir, para Bradevoort jamais, embora sinta, por vezes, a falta da minha mãe, a sua doçura e as histórias que ela gosta de contar.
Acho que não suportaria o cheiro das botas dos soldados. Agradeço e rezo; que nunca mais um olhar de homem sem bondade me trespasse. Como se tivesse acabado de nascer, aos 25 anos, aqui em Amesterdão, nos braços, nos odores, na bondade de Rembrandt van Rijn. No quarto dele, uma lareira de turfa arde durante metade da noite e o pesado tecido verde em volta da cama de dossel conserva o calor. Espreguiço--me, não quero pensar mais, feliz nos seus braços esqueço, nunca tenho frio.
Então, para me assustar, penso nas histórias de criadas expulsas por estarem grávidas e presas em Spinhuis. Aquela de Janeke Welhoeck, criada em casa do Sr. Bickingh, na boa cidade de Edam. Edam é conhecida pela sua gentileza, foi pela gentileza que a sereia que lá foi capturada se deixou prender.
Enquanto o seu ventre inchava, Janeke não disse o nome do pai. Quando teve o re-cém-nascido sobre o seu seio, murmurou o nome do filho mais velho do Sr. Bicking. Este mandou-a imediatamente prender, com a criança que chora para comer. Ela tem de confessar a mentira e sobretudo não exigir o casamento. Diz a história que ela não exigia nada. Invoca-Me no dia do teu sofrimento, salvar-te-ei e tu Me glorificarás.
Na prisão, ela enforca-se perante o seu bebé que acabava de arrotar. Como se a sua honra não tivesse sido lavada, para se vingar ainda da pobre rapariga, cujo filho esfomeado chorava por ser órfão, o Sr. Bicking exige que o cadáver da suicida seja supliciado e enforcado na praça. A morta enforcada.
Toda a simpática cidade de Edam assistiu. A história não diz se o filho do Sr. Bicking lá estava, nem se o bebé morreu de fome ou de tanto chorar.”
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