Conhece-te a ti mesmo... se puderes.
Quarta-feira, 6 de Novembro de 2013
Dizer o que foi dito

O MEU PAÍS

 

Gostava de saber o que é hoje a nossa consciência nacional, ou as suas variedades pelos vários sectores e escalões etários da sociedade. Uma consciência nacional, forte, coesa, talvez seja coisa que a partir da primeira Guerra Mundial terá começado a diluir-se, sem desaparecer, em vários países Ocidentais, alguns chamar-lhe-ão a decadência do Ocidente.

O que é ser português hoje? Não sei nem conheço literatura ou estudos sobre a matéria. Guilherme d’Oliveira Martins escreveu recentemente um livro (não li) que trata deste tema:

 

“Portugal - Identidade e Diferença

 Fala-se muito de identidade, mas há sempre a tentação de valorizar o que é próprio, em vez de cultivar a ligação com o outro. Identidade e diferença são faces da mesma moeda, são como as duas caras de Jano. A cultura portuguesa é um cadinho de múltiplas influências e de muitas qualidades e defeitos, como na vida. Daí haver nestes ensaios uma reflexão sobre os portugueses, tendo como pano de fundo a História e a Geografia que se encontram na gente, nos lugares, na língua e no desejo de descobrir e de peregrinar. Não há, assim, conceitos, nem explicações globais e muito menos receitas de aplicação instantânea. Há pistas de reflexão para que memória e vida, pertença e respeito mútuo se liguem…”

 

O meu país não é o de Cristiano Ronaldo e Pinto da Costa; de Isaltino Morais e Fátima Felgueiras; de Durão Barroso, Santana Lopes e Álvaro Cunhal; de Alberto Jardim e das touradas; de António Spínola e Alpoim Galvão.

Não é o país de Salazar, da PIDE e da Guerra Colonial; de D. Miguel e D. João V e dos castiços (nobres de casta); da Contra-Reforma e da Santa Inquisição;  do tráfico de negros; da exploração colonial e da escravatura nas «conquistas» , especialmente,  no Brasil.

Não é o país  da ideologia oficial da monarquia centralista mitificada nos Lusíadas, fonte e causa do nosso arcaísmo; o país cadaveroso.

A febre colectiva do ouro – a mola impulsionadora dos Descobrimentos – impediu que desde Quinhentos até ao final do século XVIII se desenvolvesse, entre nós (na Espanha também), uma classe burguesa, manufacturas, mercados, famílias de banqueiros que desembocam no capitalismo, simultaneamente com uma cultura humanista e progressita.

A nossa débil burguesia, que fez a revolução de 1820, precisou de  cinco ou seis décadas para impor algumas conquistas políticas  a uma ordem monárquico-eclesiastica decadente e diminuir a sua base económica de sustentação, conforme texto que reproduzo:

 

    “A palavra regeneração e o respectivo conceito desempenham, no decurso do processus ideológico do liberalismo portu­guês, papel de importância decisiva. Por um lado, o conceito de regeneração nacional, pren­de-se à filosofia daqueles que se não resignavam à celebração de glórias passadas e teimosamente buscavam encontrar um sentido para o futuro do povo. E a transição do século XVIII para o XIX, da metamorfose ideológica das luzes para o liberalismo…

…E lícito estabelecer dois grandes ciclos da palavra «Regeneração» e a sua vivência: das origens do liberalismo, entre nós, até à charnei­ra de 1851-1868; da Regeneração como movi­mento político até aos fins do primeiro quartel do século actual. No primeiro ciclo assiste-se a tentativas sucessivamente malogradas para instau­rar um regime «regenerado»: vintismo, cartismo, setembrismo, cabralismo, - até que em 1851, o movimento triunfante toma o nome de Regeneração, desdobrado em novos nomes, segundo as épocas: Vida Nova (1885), República (cerca de 1870-1910) e ainda, contemporanea­mente, Estado Novo (1926). Com o início da Regeneração (1851) e sob o impulso de Fontes Pereira de Melo, assiste-se a um desenvolvimen­to económico, capitalista, técnico, agrário e sociopolítico, que terá como coroação a abertu­ra de caminhos-de-ferro, estradas, um surto industrial, importante sobretudo em Lisboa, e Porto, actividades mineiras, etc. A partir da Regeneração ocorre em Portugal um lento mas contínuo processo de desenvolvimento económi­co, social e mental.”

(Pequeno Dicionário de História de Portugal, direcção de Joel Serrão)

 

 

Quase quatro séculos de obscurantismo, de cultura retrograda e de mentalidade mercantil do lucro fácil e rápido (objectivo e mentalidade dos navegantes que embarcavam nas caravelas) deixaram marcas na identidade nacional. A diáspora pelo mundo e a hemorragia da imigração, principalmente, para o Brasil, despovoaram o reino de mão-de-obra de mestres e ofícios que não permitiram a criação das manufacturas e dos mercados capitalistas, como aconteceu nos outros países da Europa.

Ainda hoje estamos a pagar este atraso histórico com  bloqueios estruturais na economia, na sociedade e na cultura.

 

A Republica não foi capaz de se emancipar da   ideologia colonialista da monarquia e dos mitos em torno das Descobertas que transpôs para dois símbolos do novo regime; o Hino Nacional e a Bandeira.

A revolução de Abril, terminada a Guerra colonial e consumada a independência das ex-colónias, mantém aqueles dois símbolos coloniais e mantemos ainda  hoje resquícios da mitologia das Descobertas;  a Expo 98, vagamente dedicada aos Oceanos e os discursos protocolares incluem referencias aos heróis dos descobrimentos.

A identidade nacional forja-se ao longo do tempo através de tradições, lendas, mitos etc.. Os acontecimentos históricos marcantes são seleccionados – destacam-se os bons, esquecem-se os maus – e são reescritos, interpretados fantasiosamente transformando-se em lenda, onde o real e a fantasia se misturam e confundem.

A escolha dos heróis e das suas acções são submetidas ao mesmo tratamento de reinvenção. Na escolha dos heróis e dos símbolos procuram-se personagens e imagens que sejam consensuais, que fomente a coesão nacional e evitem fracturas.

No caso português a mitificação das Descobertas e o esquecimento do seu imenso legado negativo e desastroso, agrada a todas as classes sociais: todos gostam de se imaginar descendentes de heróis e guerreiros que praticaram grandes proezas admiradas pelo mundo Ocidental, pois no Oriente somos avaliados de outro modo bem diverso.

Acontece que a ideologia subjacente à mitificação das Descobertas é conservadora e retrograda, até.        

Camões e Fernão Lopes viveram na mesma época e viajaram pelas mesmas paragens. Era impossível que Camões não tivesse percebido os sinais da decadência em que se encontrava a aventura dos Descobrimentos, que glorificou nos Lusíadas.

Fernão Lopes descreveu – fotografou – o comportamento e as práticas dos portugueses, que os asiáticos, mais civilizados, condenavam.

Entre a mitificação da cobiça e da avidez do ouro e do lucro fácil e rápido, pelo roubo e pelo ferro quando não de podia comerciar e o retrato cru da miscelânea de comportamentos, escolhemos – para nosso mal – a primeira.

Durante três séculos, duas classes, a nobreza e o clero, que deviam ter sido progressivamente substituídas pela burguesia, conseguiram sobreviver e manter as rédeas do poder político. Mesmo com os rios de ouro que sacamos do Brasil, em lugar de desenvolvimento económico e cultural, ficamos o reino cadaveroso que a Europa não compreendia, tal era o nosso atraso.

 Regresso à pergunta inicial: o que é ser português hoje?

A revolução tecnológica dos meios de comunicação social, os mass média e a Internet – o Império da Imagem e do som –  e os meios de informação controlados pelos grandes grupos económicos, dissolvem a consciência social e a identidade nacional, num padrão normalizado, criado pelos EUA com o objectivo de criar  uma sociedade global de zumbis, mão de obra desqualificada e barata  que executa as ordens de uma reduzida elite oligárquica.

 

P.S.

Este post baseia-se, superficialmente, na leitura de : “A Estrutura na Antiga Sociedade Portuguesa”, de Vitorino Magalhães Godinho, editora Arcádia.

 

 

 



publicado por pimentaeouro às 11:13
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