Conhece-te a ti mesmo... se puderes.
Segunda-feira, 30 de Dezembro de 2013
No meu tempo #3

 

Alguns chamar-me-ão saudosista. Talvez seja, mas sinto a necessidade de regressar ao «meu tempo», aos anos  50 e 60 do século passado. As jovens e as mulheres de hoje (os homens também) não conseguem imaginar o que era ser mulher naquela época.

A mulher era um ser de segunda que devia submeter-se ao domínio do homem, do «chefe de família».

Matéria que é pouco estudada, foi publicado recentemente um livro "Amor e Sexo no Tempo de Salazar, de autoria de Isabel Freire, edição Esfera dos Livros, que aborda a situação das mulheres naquela época. Nos aos 60 houve alguma abertura porque já existia uma classe média que viajava pelos estrangeiro e não era afecta ao regime.

É também na década de 60 que surgem movimentos contestatários nos EUA, em França, etc.

Há alguns meses recebi um comentário a um post meu que me comoveu. É um testemunho na primeira pessoa sobre a condição feminina naquela época.

Antónia, nome ficticio, não tem blogue e não sei se continua a visitar-me, deixou-me o seguinte testemunho:

 

Amigo este post comoveu-me imenso. Em parte um pouco diferente mas eu fui educada assim. O meu pai sempre foi polícia. Trabalhava muito e fazia turnos que o obrigavam a estar dias sem vir a casa.

Na minha mãe ficou delegado a responsabilidade e a ingratidão de ser mulher também e criar dois filhos, quase sozinha. Tenho um irmão mais velho k eu 6 anos eu era a "menina". Não podia isto, aquilo, o outro! Nunca fui a bailes, cafés, vinha e ia para a escola quase escoltada.

Mas isso fez a minha personalidade combativa vir ao de cima e tive muitos dissabores por me rebelar. Depois o tempo foi evoluindo o meu irmão sendo mais compreensivo e eu a ter um pouco mais de espaço, mas já não fazia falta. Crescera sem saber o que é a vida protegida de tudo, sem ver nada à frente. Resultado! Um casamento feito antes do tempo devido. Um divórcio complicado. Uma filha aos 25 anos, quando devia começar aí a pensar se calhar em casar a 1ª vez ou se ficasse sozinha não se perderia.

 Fiz uma serie de opções erradas para obter uma liberdade que nunca tive porque fui tão castrada que não conseguia libertar-me. Mesmo que quisesse ser mais audaz não conseguia. A minha mente não deixava. Se lhe dissesse que não entrava num café sozinha por vergonha aos quase 30 anos? Não vai acreditar em mim.

 Fechei-me no meu mundo. Num desgosto de trabalhar muito, e tive ironicamente de com uma casa "comprada" ao banco ir viver para casa dos meus pais novamente para conseguir pagar a renda. Conseguir não chorar e ser forte perante a minha filha era quase estoico.

 Hoje alturas em que trabalhei quase 24 horas por dia porque 3 anos depois do divórcio, sofreria como nunca oensei e para não me lembrar entretanto desse amor que me faria não desejar viver... E adivinhe-se! O sofrimento veio duma pessoa que era minha amiga, colega e me faria sofrer como ninguém.

Quase me destruiu! Vieram seis anos sem ninguém e um ódio à vida desgraçado e pensei que nunca mais casaria ou me relacionaria com ninguém e depois olhe...Hoje sou casada há 23 anos tenho outra filhota e vou indo.

Um dia de cada vez. Mas nunca, por nunca ser deixei de me revoltar e ser eu. Agora será que se fosse mais submissa e me mantivesse calada e disponível no 1º casamento hoje veria tudo diferente...Não creio!

A vida é um jogo de muito azar. Cada um tem o seu naipe de cartas, umas melhores outras uma porcaria. Há que ir a jogo e tentar vencer. Desculpe o extenso do comentário e se quiser apague-o. Mas é de coração que entendo a mágoa e que a lembrança jamais passe. Porque há pessoas que se imprimem em nós. Beijinho meu amigo. Força! E as melhoras e um bom feriado e fsemana.


Os homens, alguns, também tinham a sua quota parte de sofrimento nesta prisão dos afectos e dos sentimentos. Eu fui um deles e deixo este testemunho para que aqueles tempos não voltem mais. 

 



publicado por pimentaeouro às 12:37
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2 comentários:
De DyDa/Flordeliz a 30 de Dezembro de 2013 às 20:09
O nosso tempo não foi fácil. ( O meu menos complicado que o seu de certeza).
Hoje, tempos diferentes, problemas distintos, também não está a ser fácil, homem ou mulher, hoje tanto faz.
Há liberdade de expressão. Sim há!
Mas há grilhões que muitas vezes não se notam. Somos escravos tantas vezes do que escolhemos para nós mesmos.
Isto, quando não fazemos do nosso próximo escravos da nosso egoísmo e ânsia de enriquecer a todo o custo.


A vida não é fácil?
Nunca foi!
E de à uns tempos que se vem complicando, para nós e para os nossos descendentes.


Há relatos de vidas que começam tristes e terminam mais tristes ainda.


Que cada um de nós consiga arrancar aos momentos menos felizes força para lutar e contrariar esta tendência de desilusão.


São os meus sinceros desejos.


Image


Amigo este tempo não ajuda, torna-nos ainda mais tristonhos.
Venha o seu mês que é de sol e alegria.
Beijinho


De pimentaeouro a 31 de Dezembro de 2013 às 00:12

A sociedade de hoje é muito mais complexa do que a sociedade de Salazar e essa complexidade reflete-se no comportamento das pessoas.

Nas relações mulher-homem ou homem-mulher, tanto faz, ainda há muita pedra para partir.

Vejo no meu neto comportamentos machistas que era suposto já não existirem e ainda por cima as raparigas que andam com ele acham natural.

A minha saudosa tia Maria do Carmo, cuja memória guardo com muita gratidão, aprendeu a ler, com cerca de 70 anos, depois de enviuvar: analfabeta filha de mãe também analfabeta.

Regressando a Salazar. Com a cumplicidade activa, neste campo, da Igreja Católica, conseguiu montar um controlo social dos sentimentos e das afectos: a PIDE para os políticos, a moral e os bons costumes obrigatórios na mulher.

Tinha de ir virgem para o casamento, obedecer servilmente ao chefe de família e ser a fada do lar. Para abrir conta no banco tinha que ter autorização do marido.

Aconteceu-me por duas vezes sofrer, na pele, a moral e os bons costume: com a Fernada de uma forma moderada, com a Julieta a proibição pura e simples de namorar com este energúmeno.

Na época eu tinha pouco mais de 20 anos mas as marcas duraram mais de 6 anos. Durante este período não existiu nenhuma mulher na minha vida, quase desesperei.

O resultado foi um casamento tardio com todos os ingredientes – e erros meus – para terminar mal.

Muita coisa mudou deste então, umas boas outras nem tanto. Como diz, a vida não é fácil, nunca foi.

Acontece que já estamos dentro de um buraco, não vemos o fundo nem vemos o futuro dos nossos descendentes.

Aqui a vida pregou-me mais uma partida, mas isso fica para outra altura.

Grande abraço.

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