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Quinta-feira, 10 de Maio de 2012
Recordando António Sérgio

 

 


 

SÍNTESE BIOGRÁFICA

 

António Sérgio de Sousa

(n.1883/09/03 – m.1969/01/24)

 Foi dos pensadores mais marcantes do Portugal contemporâneo, com uma vasta obra que se estende da teoria do conhecimento, à filosofia política e à filosofia da educação, passando pela filosofia da história. Escritor, pensador e pedagogo português, nascido em Damão (1883/09/03), Índia, a sua vida foi dedicada à reforma educacional em Portugal. Filho de um almirante, em virtude de este ter sido Governador do Congo Português, passou a sua meninice em África, e só depois veio radicar-se em Lisboa (1893).

 Foi para a Escola Naval, mas deixou a Marinha pouco depois de publicar Notas sobre os sonetos e as tendências de Antero de Quental (1908). As suas actividades políticas cedo começaram a surgir, revelando-o um democrata convicto.

Autor assistemático e um dos mestres do polemismo português, permaneceu no entanto sempre fiel a uma via que rotulou de idealismo racionalista e crítico. Sobre as razões do polemismo, entendeu-o sobretudo como uma via de combate no panorama das ideias do seu tempo. Sob o ponto de vista dos conteúdos doutrinários, Sérgio encontrou a filosofia a partir de sua formação de engenheiro, ou seja, a partir da geometria analítica e da física matemática.

Não era apenas de filosofia da ciência que se tratava, tratava-se fundamentalmente de uma filosofia com profundas implicações humanas e sociais, regendo o comportamento e a acção de cada um no todo social de que faz parte. Daí uma doutrina cooperativista a nível da economia; uma doutrina democrática a nível da organização política da sociedade; uma filosofia da educação e uma concepção da pedagogia que encara a criança e o jovem como seres activos e criadores; assim, finalmente, uma teoria da cultura e uma teoria da história que o lançou em polémicas célebres sobre os rumos de Portugal.

Defendeu que é no indivíduo, em cada indivíduo, que a unidade da consciência se manifesta: «caminhe-se para a liberdade através da liberdade»! Neste contexto formulou a sua doutrina sobre o socialismo cooperativista, surgindo-lhe o cooperativismo como a forma de organização social mais consentânea com a sua concepção do homem como ser activo e criador. Com a proclamação da República (1910/10/05), passou a trabalhar a favor da reforma da educação no nosso país. Assim, foi um dos fundadores do movimento denominado Renascença Portuguesa, fundamentalmente voltado para as questões educacionais.

 Criou e dirigiu também várias revistas e jornais que tratavam do assunto, como a revista Pela Grei (1918). Titular da pasta de Instrução Pública (1923), no ministério reformista de Álvaro de Castro. Com a ascensão de Salazar ao poder, foi obrigado a exilar-se em Paris., depois em Madrid, de onde regressou a Portugal depois de ter sido abrangido por uma amnistia.

Morreu em Lisboa a 24 de Janeiro de 1969.

Dos seus livros mais importantes destacam-se: Educação cívica (1915) e os oito volumes de Ensaios (1920-1958).

 (Do site Universidade do Porto)

No site do Instituto Camões encontra-se uma biografia mais desenvolvida

 

 

Publicou, primeiro em Espanha e depois em Portugal uma síntese histórica a que deu o título “Breve Interpretação da História de Portugal” com revisão de Castelo Branco Chaves, Vitorino Magalhães Godinho, Rui Grácio e Joel Serrão, edição Livraria Sá da Costa Editora, de 1972.

Este é o primeiro excerto dessa obra que parece não estar muito afastada dos dias de hoje:

 

 

 

 

«No sistema de governo implantado em Portugal» (escreve Oliveira Martins) «encontrámos um novo pactolo a explorar. Transaccio-

nou-se com todos os vícios históricos da sociedade, dando ao comunismo burocrático uma expansão tal que, satisfazendo a todos, atrofiasse as sementes de futuras revoluções. Às engrenagens administrativas de que o Estado dispunha já, juntou-se a legião nova dos beneficiados das obras públicas; muitos milhares de funcionários, mais ou menos opipa­ramente prebendados; muitas centenas de concessionários enri­quecidos ... Portugal pareceu por largos anos» (aos capitalistas estrangeiros) «um bom país a explorar, e as bolsas estrangeiras, passando a esponja do esquecimento sobre as bancarrotas pas­sadas, abriram os seus cofres. Outras minas se tinham arran­jado, outro Brasil surgiu». Era o mesmo processo de outros tempos: «uma sociedade vivendo de recursos estranhos ou anor­mais e não do fruto do seu trabalho e economia. Porque, enquanto o cenário do fomento dava a Portugal a aparência de um país rico, o facto é que a balança económica acusava um deficit sempre crescente e de alcance inverosímil quase. Como se sustentava, pois, o castelo português? De um modo simples:

1º. suprindo a escassez do trabalho interno pelos subsídios oficiais, salariando a ociosidade e pagando-a com o produto dos empréstimos;

2.° saldando anualmente a conta económica da Nação com a exportação de gado humano. Outrora vinham quintos do Bra­sil para o tesouro; hoje vêm saques para particulares.»

 

Construir estradas e caminhos-de-ferro, empregando nisso muita gente, foi a ideia administrativa característica do fontismo. [Nem por ser moda daquela época nos grandes países industriais (adiantados na faina da produção das riquezas) deixava de apre­sentar em Portugal especialíssimos inconvenientes, naturais con­sequências do nosso atraso. Aqui significava, sob outra forma, o regresso à política do Transporte, - quando o necessário, afinal, era reformar e reforçar a actividade da Produção. O cami­nho de ferro, levando subitamente às nossas aldeias a produção estrangeira mais barata, tinha como resultado prejudicar a nossa, - já que lhe não davam, a esta, incentivos e aperfeiçoa­mentos que a habilitassem a superar os efeitos daquele progresso das comunicações.

Pervertida, pois, falseada na sua base, a ideia revolucionária de Mouzinho da Silveira. Desenvolveram-se no nosso país todos os vícios característicos do burguesismo capitalista, sem as vantagens correspondentes de uma forte iniciativa produtora. A personagem representativa passou a ser o novo-rico, feito à custa de especulações e da exploração sistemática do povinho, e ornado de um título de nobreza nova: Garrett chamava-lhe o barão.]

 

 

P.S.

1. O texto em itálico refere-se à citação que o autor faz de Oliveira Martins.

2. As estradas e o caminho-de-ferro do fontismo foram necessárias ao país mas não suficientes para o desenvolvimento da economia porque isso implicava outros factores. Há aqui qualquer coisa que sou a presente…

3. Na época de Oliveira Martins a palavra comunismo tinha um significado diferente daquele que lhe atribuímos hoje.

 



publicado por pimentaeouro às 16:13
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