Conhece-te a ti mesmo... se puderes.
Terça-feira, 16 de Janeiro de 2018
Amigo António

Amigo António,

Não receberás esta carta, mas continuo a escreve-la como se fosse enviá-la pelo correio. Não respondes-te à minha primeira carta e, assim, não terás que responder a esta: afinal, os amigos também se esquecem.

A minha sogra faleceu perto dos noventa anos. Passava os dias cantarolando cantigas de quando fora jovem e histórias de amigas, a maior parte delas, já falecidas.

A natureza, sabiamente, retira aos velhos a memória de curta duração, não se lembram do que aconteceu na semana anterior, e devolve-lhes a memória do passado distante, a chamada memória de longa duração: mais ano menos ano, acontece e todos. Parece-me que sou precoce, já vivo mergulhado na memória de longo prazo, principalmente a memória da minha juventude ( a fase mais importante da existência ) vivida aí, em Torres Novas.

Esta dádiva da natureza tem um preço, a memória antiga é traiçoeira , omite, distorce factos e acontecimentos, fantasia o passado, temos que ser prudentes com ela: até os que escrevem livros de memórias não escapam a esta realidade. A memória é imperfeita e complexa como nós.

Recordo com muita saudade os amigos que ai conheci (convivi com dois em Lisboa, o Francisco Canais Rocha e o António Graça, falecido ainda novo) e, paradoxalmente dois insucessos amorosos, com a tua irmã e seguidamente com a Julieta Fradinho, natural de Silves, filha de um funcionário do Tribunal (com cara de poucos amigos, nunca o vi com uma companhia), que terminou brutalmente com a proibição categórica do pai, à boa maneira do século XIX.

 

Sempre ouvi dizer que o primeiro amor nunca se esquece e julgava que eram histórias de livros, mas é verdade, acontece mesmo. O meu primeiro amor foi com a tua irmã e a sua recordação ficou gravada nos recantos sinuosos da  minha memória.

Namoro curto, igual a todos os namoros daquela época e terminou com uma imposição que, inexperiente, não soube contornar.

Visto de fora, eu era um rebenta corações, na realidade, eu é que fiquei rebentado: para um jovem de vinte e poucos anos que se inicia   nos caminhos tortuosos do amor, dois insucessos seguidos deixam marcas fundas. Apesar disto, por estranho que pareça, tenho uma recordação muito grata – nos sentimentos não existe racionalidade - da Fernanda e da Julieta.

Não comentei estes insucessos com ninguém, lambi as feridas em solidão. Talvez por ter feito este recalcamento, agora tenho uma necessidade irreprimível de falar e escrever sobre eles.

Por obra do acaso, o grande fazedor e desfazedor de vidas, conheci na Net, um conterrâneo do Algarve, a viver em Sintra, e que conhece a Julieta. Deu-me o seu endereço e irei procura-la se saúde permitir.

Gostaria igualmente de voltar a ver a tua irmã mesmo que ela tenha uma memória desfavorável de mim: aos oitenta anos, doente, na idade do perdão, não tenho necessidade de enganar ninguém. Sei que ela está casada com o Arlindo e julgo que o conheço.

Há uns meses convidaram-me para um concurso de blogues. Tinha que apresentar uma resenha «biográfica» e saiu-me o texto que junto a esta carta. Dá uma síntese das minhas andanças.

Desejo a continuação das tuas melhoras e despeço-me com um abraço e cumprimentos para a tua esposa.

 

 


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publicado por pimentaeouro às 21:32
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