Conhece-te a ti mesmo... se puderes.
Sexta-feira, 28 de Dezembro de 2012
No meu tempo #2


Não vou escrever sobre as vantagens do meu tempo sobre a actualidade ou qualquer outro exercício de saudosismo. Vou tentar avaliar as diferenças entre os anos 50 e 60, da minha mocidade com os dias de hoje.

 Naquela época ninguém imaginava que iria existir Internet, redes sociais, etc. Também ninguém imaginava que as mulheres pudessem escrever e aceder a outras actividades culturais, coutadas reservadas  exclusivamente para os homens.

Considero que a emancipação da mulher, ainda em curso apenas no Ocidente, é uma revolução estrutural mais importante do que a revolução tecnológica da Net.

No primeiro caso, temos uma revolução que irá beneficiar metade da Humanidade, no segundo caso temos uma ferramenta mais complexa do que a foice ou uma chave de parafusos, mas apenas uma ferramenta.

No meu tempo as mulheres ficavam em casa a tratar do marido e dos filhos, não saiam de noite, não iam ao café, não podiam abrir conta bancária sem autorização do marido, déspota doméstico.

Quem é que pode imaginar hoje uma sociedade destas?

Não existiam sem abrigos nas ruas das cidades e os bairros de lata eram quase invisíveis, mas havia mais miséria do que hoje. Centros comerciais, supermercados, hipermercados, ninguém sonhava com eles.

As compras faziam-se nas mercearias e no mercado municipal; os mais abastados pagavam a pronto, a maioria mandava assentar no livro, livro comprido e estreito, para pagar no final do mês

No início dos anos 50 cerca de 45% da população era rural em condições de miséria que hoje não imaginamos. Salazar, por decreto, quis proibir a população de andar descalça!

O pior período de miséria e fome ocorreu durante a Segunda Guerra Mundial: escassez de bens de primeira necessidade, racionamento, assaltos os armazém, desfiles com bandeiras negras (símbolo da fome), salários de miséria sem quaisquer regalias sociais.

É o período das «praças de jorna» (locais onde os latifundiários escolhiam os homens a quem davam trabalho temporário, pelo salário que lhes apetecia) no Alentejo.

Nos anos 50 e, principalmente, nos anos 60 começa a emigração em massa – fuga à fome -, a salto (clandestinamente) para França, Luxemburgo, Alemanha, Suíça, EUA, Venezuela,  e outros países da América Latina, e é com as remessas destes emigrantes que as famílias sobrevivem e Salazar equilibra a balança de pagamentos.  

Com a guerra colonial, Salazar foi obrigado a reduzir as limitações do condicionamento industrial e a abrir a economia a novos mercados e ao capital estrangeiro. É nos anos sessenta que o nível de vida da população começa a melhorar; Marcelo Caetano ampliou esta linha de desenvolvimento e de melhoria de natureza social.

Os melhores anos da minha vida (39) foram vividos e condicionados pelo regime de Salazar; hoje não tenho nenhumas saudades do «meu tempo»  exceptuando as memórias de natureza afectiva.

Enquanto escrevo esta linhas sou assaltado por uma duvida, será que vamos regredir a tempos parecidos com aqueles?

 


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publicado por pimentaeouro às 23:43
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