Conhece-te a ti mesmo... se puderes.

Sábado, 9 de Março de 2013
O que Sempre Soube das Mulheres


Tratam-nos mal, mas querem que as tratemos bem. Apaixonam-se por serial-killers e depois queixam-se de que nem um postalinho. Escrevem que se desunham. Fingem acreditar nas nossas mentiras desde que tenhamos graça a pregá-las.

Aceitam-nos e toleram-nos porque se acham superiores. São superiores. Não têm o gene da violência, embora seja melhor não as provocarmos. Perdoam facilmente, mas nunca esquecem. Bebem cicuta ao pequeno-almoço e destilam mel ao jantar.

Têm uma capacidade de entrega que até dói. São óptimas mães até que os filhos fazem 10 anos, depois perdem o norte. Pelam-se por jogos eróticos, mas com o sexo já depende. Têm dias. Têm noites. Conseguem ser tão calculistas e maldosas como qualquer homem, só que com muito mais nível.

Inventaram o telemóvel ao volante. São corajosas e quando se lhes mete uma coisa na cabeça levam tudo à frente. Fazem-se de parvas porque o seguro morreu de velho e estão muito escaldadas. Fazem-se de inocentes e (milagre!) por esse acto de vontade tornam-semesmo inocentes. Nunca perdem a capacidade de se deslumbrarem. Riem quando estão tristes, choram quando estão felizes. Não compreendem nada. Compreendem tudo. Sabem que o corpo é passageiro.

Sabem que na viagem há que tratar bem o passageiro e que o amor é um bom fio condutor. Não são de confiança, mas até amais infiel das mulheres é mais leal que o mais fiel dos homens. São tramadas. Comem-nos as papas na cabeça,mas depois levam-nos a colher à boca.

A única coisa em nós que é para elas um mistério é a jantarada de amigos – elas quando jogam é para ganhar. E é tudo. Ah, não, há ainda mais uma coisa. Acreditam no Amor com A grande mas, para nossa sorte, contentam-se com pouco. 

Rui Zink, in "Jornal Metro"

 



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publicado por pimentaeouro às 21:09
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Quinta-feira, 10 de Janeiro de 2013
Afinidades

 

 

 

Que afinidades ou motivações levam um homem e uma mulher a enamorarem-se de outra pessoa de sexo oposto? O aspecto físico, a altura, o mesmo meio social (escolar, profissional,  grupo de amigos ou de familiares), caracteristicas pessoais do outro parceiro, ou simplesmente o acaso?

Como se juntam duas inclinações para o enamoramento começar? Até há uns anos o território do Amor era misterioso, quase sagrado mas agora a ciência quer explicar também o Amor, dissecá-lo numa mesa fria de autópsias. Biólogos e psicólogos procuram explicar o Amor, os primeiros pelos genes, os segundos pelas influências da sociedade e da cultura.

Agoram entram em cena neurologistas, biólogos outra vez, com pesquisas no cérebro: procuram «mapear» as zonas, neurónios e sinapses activadas quando uma pessoa está apaixonada.

“Neurobiologia do “estar apaixonado”

Na área da neurobiologia, existem estudos apoiados em resultados de eletroencefalografia e no registro das correntes elétricas que ocorrem no cérebro durante o estado “paixão”, comprovam que apresenta a mesma elevada atividade como aquela registrada durante a libido. Quando alguém se apaixona registra-se maior produção dedopamina, responsável pelo estado de euforia, adrenalina, responsável pela excitação, a endorfina, pela sensação de felicidade e bem estar e finalmente eleva a testosterona que contribui para a maior apetência sexual. Simultaneamente são libertados substâncias químicas, os feromônios ou feromonas que exercem atração olfativa em animais da mesma espécie. Por outro lado diminui drasticamente o nível de serotonina, o que faz com que o estado “estar apaixonado” se assemelha ao estado registrado durante outras doenças psíquicas. Por isso muitos apaixonados se comportam mais impulsivamente, sem inibição como se estivessem fora do seu controlo racional. Após alguns meses, o corpo se acostuma as estas elevadas doses (segundo a OMS dura no máximo 24 a 36 meses) e diminui gradualmente a “intoxicação” do cérebro.”

(Enciclopédia Wikipedia)

 

Cupido foi reformado e as suas setas já não escolhem os que devem entrar no reino do Amor,

Agora são TAC e outros exames ao cérebro que explicam quem está apaixonado.  Provavelmente a industria farmacêutica irá comercializar os comprimidos para amar, com resultados garantidos ao fim de 48 horas, ou os apaixonados ciumentos exigirão do seu parceiro um electroencefalograma para fazer a prova do seu amor eterno.

O Amor é um sentimento vital para toda a humanidade e a sua ausência só trás infelicidade, é uma aputação grave.

Amei, em épocas diferentes, três mulheres e ainda hoje não sei porque me apaixonei, nem se escolhi ou fui escolhido. No meu tempo os homens afirmavam que «conquistavam» as mulheres e até havia colecionadores. Hoje sabemos que esta história está mal contada, as mulheres também «conquistam» - escolhem – os seus parceiros, outras vezes a atracção é simultânea entre os dois.

Os homens perderam o estatuto de conquistadores mas foram recompensados, ganharam relações mais autenticas e sinceras.

Por mim espero que as pesquizas da ciência sobre o Amor acabem em fracasso e que esta mantenha o mistério e o sagrado que sempre teve: já não é para mim mas poderá ser que os meus netos sejam atingidos pelas setas de cúpido.


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Quinta-feira, 13 de Dezembro de 2012
Do blogue golimix

É amor...

Fim de semana equivale a assistir um filmezito, muitos deles já saíram para o cinema há algum tempo, mas isso até tem o seu quê de positivo, assim também não sabemos as "opiniões" da moda que muitas vezes nos influenciam, inconscientemente ou não, na escolha de um filme. Mas não é sobre o livre arbítrio que quero falar, esse ficará para uma próxima, quero falar sobre o que um filme me lembrou de escrever sobre o amor. Lembrou-me de escrever algo que já faz parte do meu pensamento e do meu sentir.

 

O amor é o  tema predileto de poetas que nos enternecem com as suas mágicas  poesias repletas de floreados amorosos. O amor conquista plateias enche os corações e faz verter algumas lágrimas presas na emoção de uma semana sem grandes magias e com muitas correrias.

 

Mas afinal o que é o amor?

Cientistas dizem tratar-se de uma reação química, longe do coração, símbolo predileto para o ilustrar, no cérebro.

Poetas muitas vezes condundem o amor com paixão e envolvem-nos no seu emaranhado de emoções.

Escritores dramatizam-no e criam histórias encantadoras capazes de nos suster em suas palavras.

Cineastas tentam retrata-lo fielmente, tentam porque a realidade foge-lhes. E na esperança de ter esse amor de ecrans, de poetas e escritores muitos perecem sem senti-lo, ou sem terem a certeza de que aquilo que sentiam era o amor....

 

O amor não começa com a magia do primeiro beijo, com o enamoramento de um olhar ou  com o a fuga daquele  odor que nos faz tremer as entranhas. Não! Para mim o amor começa com dias partilhados, com momentos de alegria e lágrimas de tristeza, da discussão, da divergência de opiniões, e claro, da cedência, do altruísmo, do pensar no outro. Começa com coisas simples como ida às compras, com a partilha da lista de supermercado e da mantinha de sofá (sim, eu não partilho a minha mantinha por da cá aquela palha=)), com a partilha de opiniões, com a divisão de gavetas, a escolha da casa, com os dias de cansaço, com os dias de festas, os dias soltos, o passar dos dias de chuva e de sol. Cresce com os dias, amadurece e solidifica com os anos.

 

No entanto muitos pensam, inocente e ingenuamente que o amor não precisa de ser alimentado, afinal o outro sabe que estamos "lá" e que o amamos! Sabe!?! Mas quer ouvi-lo e senti-lo, nas ciosas simples de um bilhete, na espontaneidade de uma carícia inesperada, na simplicidade de uma flor oferecida fora de "dias pré convencionados" para o efeito.

O amor está lá, nos momentos difíceis, porque amar nos dias bonitos e solarengos é fácil. O Pior é ficar quando começam as dificuldades no imprevisto da vida.

 

O amor não quer só paixão, o amor quer acima de tudo uma amizade cúmplice diária.

 

Podemos ser mortais mas o amor é imortal! Esse prevalece mesmo que se queira apagar o sentir, porque este nos faz doer! E quando a dor desaparece fica, não a simples lembrança de um doce amor, fica sim o amor e todos os momentos que não deixemos que morram jamais, esses momentos seguirão a humanidade pois ela firma-se no esplendor do amor

 

O meu tento fica assim... um dia (One Day), uma vida com esta visão do amor. Com esta maravilhosa partilha de mim.


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publicado por pimentaeouro às 23:05
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Sábado, 11 de Agosto de 2012
Erros meus

 

 

Estamos sentados num banco do jardim que acompanha o deslizar vagarozo do Almonda. Pego nas tuas mãos e olho-te nos olhos: o teu sorriso desarma a minha tristeza e o brilho dos teus olhos sorridentes empresta brilho aos meus.

Esperei muitos anos, não importa quantos,  por este momento: não morreria  tranquilo se não te disse-se, que naquela noite em que pedis-te para prometer que casava contigo, cometi um dos maiores erros da minha vida.

Como foi possível tamanho desencontro?: só encontro uma explicação: estava cego. Foi assim que perdi o teu amor.

Perdoa-me, Fernanda querida.

 

 

 

 


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Quarta-feira, 18 de Julho de 2012
Amor antigo #3

Algumas mulheres perdem-se pelo amor e pagam caro, às vezes demasiado caro: há feridas interiores que a memória nunca deixa sarar. O preço que tu pagaste foi demasiado elevado e foi e teu próprio pai quem o impôs.

Naquela época (meados dos anos 50) era muito raro uma rapariga aceitar namoro sem a prévia autorização dos pais. Decidis-te sem essa autorização e, mais ainda, eu era praticamente desconhecido em Torres Novas: foi um forte impulso do teu coração (eu merecia essa audácia?).

Tivemos dois namoros, o primeiro foi mudo. Só os nossos olhos conversavam. Os meus olhos procuravam os teus, os teus olhos procuravam os meus e olhávamo-nos longamente. Era uma procura mútua com emoções ambiguas: o amor tacteava no desconhecido, o desejo de nos conhecermos, de nos encontrarmos. Era uma atracção mútua que nos dominava, sentimentos que despontavam como uma primavera.

Depois tivemos cerca de um mês de namoro, se é lhe posso chamar namoro. Viveste o encantamento de teres encontrado o homem que procuravas para amar, o pai dos teus filhos – a maternidade cantava melodias ao teu ouvido de mulher, melodias que só tu ouvias – um companheiro para a tua vida onde já existia a solidão da morte da tua mãe.

Eras uma mulher inteligente, avançada para a tua, a nossa época, e o teu horizonte não se confinava só ao casamento, à vida conservadora e parada de uma pequena cidade de província, conhecias horizontes mais abertos de outros meios.

A tua maior atenção era conheceres o homem – frágil – que tinhas escolhido. Irias conseguir viver com as minhas fragilidades?

Durante um breve mês viveste a esperança de ser feliz, espuma que o vento dissipou.

Existo na tua memória? Como? Com ternura ou como um pesadelo que não devia ter acontecido?

O que me importa é saber – nunca o saberei! - que foste mulher e mãe com outro homem e que foste feliz. Era isso que tu merecias.

Aquele efémero namoro ficou gravado na minha memória, bem como o prolongado sofrimento e frustração que passei.

Há distância de cinquenta anos que interesse tem esta história? Tem para mim e, quem sabe, também terá para ti.

 

 

 

 


"O amor antigo tem raízes fundas,

feitas de sofrimento e de beleza.”


 e a recordação do teu  amor já é independente da minha vontade, é uma coisa que me domina e que não posso controlar, lembro-me te ti quando menos espero e com frequência não consigo evitar as lágrimas.

Parece-me quase infantil estar a escrever este post, mas a memória é mais forte do que eu e não consigo evitá-lo.

Afinal, o ridículo acontece a todos, talvez os poetas compreendam isto.

 



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Segunda-feira, 9 de Julho de 2012
Um fantasma

FERNANDA SILVA.jpeg

 

 

 

 

Se há uma coisa certa no mundo é exactamente esta: o passado não voltará a acontecer de novo.

 

Anónimo

 

 

 

É sabido que a memória dos velhos se altera, perdem a memória do passado recente e recuperam a memória do passado remoto: quarenta anos, cinquenta e mais anos. A memória de longo prazo é a cinza de uma lareira apagada.

 

Ficam a viver uma situação intermédia entre presente e passado antigo. Ficam, quase, como fantasmas.

 

Sou um desse «fantasmas» e frequentemente regresso aos anos 55 e 60 do século passado, os anos da minha mocidade que não foi fácil nem primaveril.

 

Como a maioria dos portugueses vivi na pobreza envergonhada e triste, no conservadorismo serôdio do regime de Salazar. Cheguei a Torres Novas no ano de 1.954, como uma espécie de emigrante. Vinha de uma terra pobre para uma terra menos pobre e trazia na bagagem dois pesos, uma infância infeliz sem mãe e sem pai e uma adolescência triste.

 

Já não me lembro como aconteceu, acabei por ser integrado num grupo de jovens da terra, mais ou menos com a minha idade, com duas ou três excepções. Amizades sinceras, solidárias, os nossos encontros de café eram uma mistura de conversas soltas e de convívio lúdico. Para mim, estas amizades foram muito importantes.

 

Por obra do acaso – o grande fazedor de vidas – conheci a Fernanda. A minha memória não consegue lembrar quando nos conhecemos, talvez na primavera de 1.957 e deverias ter 17 ou 18 anos (?).

 

Alta, elegante, olhos e lábios sorridentes, eras extrovertida, alegre e afectuosa. Não é lisonja dizer que eras uma das raparigas mais bonitas de Torres Novas - pelo menos aos meus olhos – e não deveriam faltar-te pretendentes.

 

Porque foi eu o escolhido? A química dos sentimentos é indecifrável. Do  conhecimento ao namoro o caminho foi curto, na mocidade a atracção é forte, inadiável.

 

- Aceito o teu pedido de namoro – disseste, mas tens de pedir autorização ao meu pai.

 

Era uma vassalagem obrigatória, que eu cumpri e fui ter com o teu pai com o coração aos saltos e o estomago colado às costas. Em troca foi-me dado o «foral» com o calendário, o horário do namoro (limite máximo até às 23,00 horas), e… juizinho!

 

O António, irmão mais velho de Fernanda, fazia parte do círculo de amigos que eu frequentava e penso que esse conhecimento deve ter pesado favoravelmente na decisão paternal, uma vez que eu era um desconhecido no meio, era um desconhecido e um pé rapado.

 

Não temos várias vidas para viver – nem passadas, nem futuras, nem no céu – temos apenas várias hipóteses de vida que dependem de diversas circunstâncias, e apenas uma história de vida, aquela de vivemos.

 

Por três ou quatro vezes, a minha vida poderia ter seguido rumos diferentes, poderia ter tido outras histórias de vida. O acaso, não opções conscientes, decidiu o caminho que trilhei. 

 

O nosso namoro era, certamente, igual a todos os namoros daquela época: um ritual com regras estabelecidas e controladas pelos pais para cumprir uma finalidade, o casamento.

 

Foi para mim o primeiro namoro e tardio. Com ingenuidade e a inexperiência da mocidade, o nosso namoro era bordado de coisas simples, era a procura hesitante do conhecimento do outro, o despontar dos afectos, dos sentimentos. Foi um namoro sereno, sem discussões,  ou conflitos: é assim que a minha memória o recorda. Estarei enganado?

 

Namorávamos com a luz acesa, como se estivéssemos em exposição – estávamos em exposição! – e os beijos eram roubados, escondidos.

 

Namorávamos há cerca de três meses (?) quando aconteceu aquela noite nefasta que mudou as nossas vidas. Um Deus sádico, daqueles que se divertem com o infortúnio das mulheres e dos homens, empurrou-nos de uma ravina e ambos caímos.

 

Poucos minutos depois de começarmos a conversar sobre coisas pequenas do quotidiano, tomas-te um ar sério e tenso, pouco habitual em ti, e disseste - Preciso que me prometas uma coisa, que casas comigo.

 

Fiquei surpreendido com o pedido, que não esperava. - Mas porquê essa promessa - respondi meio confuso?

 

Insististe que tinha de  garantir-te  que casávamos. Tentei argumentar que o nosso namoro era recente, que precisávamos de nos conhecer melhor, etc., Esgotei argumentos sem qualquer sucesso. O que estava a acontecer? Parecia-me que a voz impositiva de outra pessoa falava através de ti, não eras tu quem falava.

 

A promessa teria sido muito fácil e não cumpri-la também, queimar tempo, deixar correu as coisas, etc. e quando me apetecesse romper o namoro. Não seria o primeiro, nem iria ser o último, mas esta hipótese, não me passou  pela cabeça.

 

Não tinha a mínima consciência que estava a pisar terreno sagrado e que apenas tinha uma opção: prometer o casamento, mesmo com reserva mental.

 

A tua firmeza aumentou e finalmente a sentença, - Se não prometes casar comigo, o namoro acaba já!

 

Porquê tudo ou nada, Fernanda? O que estava errado no namoro - em mim?  Era um impulso pouco reflectido da tua mocidade?

 

A minha confusão aumentou, a capacidade de argumentar diminuiu, era uma situação  incompreensível para mim. Ainda hoje não compreendo o que se passou naquela malfadada noite e, acredita, entregava a alma ao Diabo para saber.

 

Talvez nenhum de nós esperava  que o namoro acabasse naquela noite, mas foi isso, precisamente,  que aconteceu. Nenhum de nós mediu as consequências daquilo que disse: precipitámo-nos para a queda.

 

É extraordinária a facilidade com que um desencontro  pode acontecer e mudar a vida de duas pessoas.

 

Agimos os dois com  falta senso?  Mudámos o rumo das nossas vidas para sempre.

 

Que mais poderia eu desejar do que casar contigo e ter, finalmente, uma família, uma família que nunca tive?

 

Retirei-me meio atónito, os sentimentos em grande confusão, dorido, sentia-me magoado. Pela primeira vez a ternura feminina tinha entrado na minha vida e, de súbito, esfumava-se.

 

Não entendia o que se estava a passar connosco.

 

Seguiram-se dias, semanas, meses de confusão, de sentimentos contraditórios, lentamente, o tempo encarregou-se  de me conformar com a tua perda mas deixou  marcas: doeu Fernanda.

 

 Para ti também foi doloroso, se não prometia casar era porque não te amava. Sentiste-te desprezada, o amor fugia-te e o casamento também. Que coisa estúpida, uma separação que ambos não desejávamos. Fui tão néscio que nem isto me passou pela cabeça e fui também o único parvo que recusou fazer aquela promessa.

 

Uma asneira nunca vem só, e a seguir fiz outra maior: não voltei a procurar-te. Que absurdo. Afinal, que teria a perder? Não insisti, não lutei por um amor que desejava. Como pude ser tão insensato?!

 

Se,  (a vida não é feita de ses), se… não tivesse ocorrido aquela triste contingência teria casado, contigo, teríamos tido dois ou três filhos e teria ficado a viver em Torres Novas, mas esta história de vida não aconteceu, nunca  foi escrita.

 

A minha vida sempre oscilou entre dois eixos, a passividade e a intranquilidade e  tu talvez conseguisse serenar a minha inquietação.

 

A minha vida sentimental começava mal, seguiu-se outro insucesso com a Julieta – tu, a Julieta e eu, eramos três jovens que procuravam amar, mas como em tudo na vida uns conseguem, outros não.

 

 Porque motivo, há distância de mais de meio século, tenho necessidade desta conversa contigo? Talvez porque até hoje contínuas presente na minha memória, fizeste parte da minha vida, sem termos vivido em comum: num curto período as nossas vidas cruzaram-se:  o primeiro amor nunca se esquece, apenas se refugia nos recantos da memória.

 

A narrativa que acabo de fazer corresponde às recordações da minha memória (má),  não confio nela, posso estar errado. Tens certamente recordações da tua mocidade e deste namoro que serão diferentes das minhas (poderei estar a omitir factos de que não me lembro): a mocidade é um dos períodos mais importantes da nossa vida, por isso escrevo esta espécie de testamento sentimental: é na velhice que as recordações da mocidade são mais importantes.

 

 

 

- Fernanda, quero pedir-te um favor, perdoa a insensatez de um homem que desiludiu a tua esperança.  Foi neste desencontro absurdo que o rumo da minha vida mudou pela primeira vez.

 

A vida  nunca pára, e também não parou para nós: casas-te com o Arlindo, (conheço-o?) tiveste filho e netos, percorres-te a história da tua vida e, com toda a sinceridade, desejo que tenhas sido feliz com o teu marido e  a tua  família.

 

Eu, segui a minha errância e  solidão por terras e pessoas, uma vida que teve outras encruzilhadas,  histórias de vida que não se concretizaram.  Casei, foi feliz, foi infeliz. Se não vivi melhor foi porque não soube.

 

Se a doença da minha mulher permitir, espero encontrar-te brevemente: estamos na idade de perdoar os erros, os dos outros e os nossos, gostava que me recordasses como um homem que te amou e errou e não como alguém que te decepcionou.

 

 

 

 

 

P.S. A doença que martiriza e teu irmão António é uma crueldade da vida.

 

 

 


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publicado por pimentaeouro às 22:37
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Domingo, 1 de Julho de 2012
Amor antigo #2

 


No olhar que simulas-te não me ver; no gesto imperceptível; no mudar de direcção percebi que te perdi - mais uma vez te perdi!

Amor adiado, primeiro; amor sofridamente evitado, depois; amor impossível, agora ? Teve a raridade de uma estrela candente; teve beleza inocente; teve cumplicidade desculpabilizada; teve muito e quase nada. Era bom de mais para ser verdadeiro: Não passou de uma fantasia na minha mente? Que démos e recebemos mutuamente ? Quase aprendi a ter esperança...;recebi imensa ternura e a alegria dos teus olhos de mulher-criança; generosa, perdoas-te erros antigos e acumulados.

Que terei eu dado nas emoções contidas que não se deixam descobrir ? Um pouco de ternura e alguma sageza ? Experiência feita de muitas coisas vividas ( mal vividas )? Pontas de uma loucura mansa, terna, tímida ?

Tudo tão pouco que provavelmente nem reparas-te. Discretamente desapareço; afinal como sempre fiz. Começo a chorar, mas é choro interior que não se vê e que em lugar de aliviar e limpar aumenta a angustia e o sofrimento.

Porque não foi capaz de te amar se o deseja tanto ? Talvez por, intimamente, saber que na ponta final da vida não tenho futuro para te dar.

 


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Segunda-feira, 4 de Junho de 2012
Anos passados

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publicado por pimentaeouro às 19:30
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Sexta-feira, 1 de Junho de 2012
Do amor

 

 

 

É o tema mais glosado em todas as artes e até na filosofia, logo deve ser das coisas mais importantes para nós mas parece que continua a ser complicado, e assim deverá continuar a ser.

Esperamos tudo do amor, o melhor de nós e dos outros, mas...

Os manuais de psicologia dizem: “uma fase de paixão, uma outra de de conhecimento e aprendizagem; depois um tempo de negociação de compatibilidades e projectos e, finalmente, a instalação de rotinas securizantes, interesses partilhados e cumplicidades especiais”.

Todos desejam mais e desejamos construir um grande amor, coisa só acessivel a uma minoria.

“Do amor fazemos o lugar derradeiro da esperança e da celebração da vida”. Mas...

O principal inimigo do amor é o Tempo. Uma paixão não pode ser vivida toda a vida, a usura do tempo não perdoa.

Quem ama toda a vida, mesmo que tenha vários amores? Entre o desejo e a realidade, está tem mais força. Ninguém é perfeito, no amor também não, temos que saber lidar com as nossas contradições e defeitos e com as do outro também.

O amor tem vários inimigos, principalmente o ciúme e a posse excessiva: ingredientes necessários ao amor, mas fatais quando em excesso.

O amor é uma prova de fundo onde a maioria não chega ao fim, podemos rodeá-lo de todas as esperanças, fantasias, significados superiores.

O que sei eu do amor? Nada ou pouco mais do que nada. Revolvo memória antigas da macidade para encontrar afectos, sentimentos e amor, o amor, breve de duas mulheres jovens que deixei jugir da minha vida: parace que a janela da felicidade só deixa entrar o Sol uma vez na vida. Sou um amoroso fracassado.

Os que amaram toda a vida são a excepção. Queira Deus que eu esteja enganado.

 

Fico-me por aqui. Que poderá este texto às gerações que nasceram depois de Abril? 

 

P.S.

Onde entra o amor livre à moda dos anos 60 americanos? É o vazio de uma procura sem rumo.

 

 


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publicado por pimentaeouro às 23:31
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Quarta-feira, 23 de Maio de 2012
Náufrago

 

 


 

  

 

 

Todos os náufragos procuram uma tábua de salvação. A memória do teu amor é a tábua em que me apoio.

Fernanda, conseguirás salvar-me?


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publicado por pimentaeouro às 15:09
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Terça-feira, 8 de Maio de 2012
O desejo de uma vida

Os desejos podem concretizar-se através de sonhos? Isso não será uma ilusão?

Hoje, somos dois velhos que pouco tem em comum, dois desconhecidos sem nada para dizer um ao outro. As nossas vidas cruzaram-se há cerca de 50 anos, num amor breve. Porque nos separamos definitivamente, ainda hoje é um enigma para mim. Perdi o que mais necessitava, o teu amor, e cometi um dos maiores erros da minha vida.

Não necessitava só de amor, de uma família de filhos, tudo a que poderia aspirar.

Perdi, também, o remédio para a da minha intranquilidade que a tua ternura e serenidade podiam dar-me. O sonho de muitos anos concretizou-se ontem à noite sem que possa imaginar porque me aconteceu.

O sonho era uma mistura de passado e presente, de realidade e irrealidade. Conversei com o teu pai, já falecido, e perguntei-lhe se ainda se lembrava de mim. Depois disse-lhe que tinha sido teu namorado.

O real e o sonho confundem-se: falo com um dos teus dois filhos (no sonha eram cinco), jovem e muito louro. Pergunto-lhe também se já tinha ouvido falar de mim.

Em tua casa todos sabem que regressei a Torres Novas. Vozes que não identifico dizem-me que te pressionaram para o namoro acabar.

Entro no teu quarto. Estavas bela, como na juventude, com o teu sorriso meigo e tranquilo. Dirijo-me  para ti: choro e digo meu Deus, Fernanda, como foi possível encontrar-te?

O meu grande desejo de velho concretizou-se num sonho. À memória do meu amor acrescento o sonho de um encontro que não se realizará.

Senti a felicidade como poucas vezes aconteceu na minha vida.


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publicado por pimentaeouro às 20:44
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