Conhece-te a ti mesmo... se puderes.
Quarta-feira, 16 de Julho de 2014
A carta que não recebes-te

Amigo António,

Não receberás esta carta, mas continuo a escreve-la como se fosse enviá-la pelo correio. Não respondes-te à minha primeira carta e, assim, não terás que responder a esta: afinal, os amigos também se esquecem.

A minha sogra faleceu perto dos noventa anos. Passava os dias cantarolando cantigas de quando fora jovem e histórias de amigas, a maior parte delas, já falecidas.

A natureza, sabiamente, retira aos velhos a memória de curta duração, não se lembram do que aconteceu na semana anterior, e devolve-lhes a memória do passado distante, a chamada memória de longa duração: mais ano menos ano, acontece e todos. Parece-me que sou precoce, já vivo mergulhado na memória de longo prazo, principalmente a memória da minha juventude ( a fase mais importante da existência ) vivida aí, em Torres Novas.

Esta dádiva da natureza tem um preço, a memória antiga é traiçoeira , omite, distorce factos e acontecimentos, fantasia o passado, temos que ser prudentes com ela: até os que escrevem livros de memórias não escapam a esta realidade. A memória é imperfeita como nós.

Recordo com muita saudade os amigos que ai conheci (convivi com dois em Lisboa, o Francisco Canais Rocha e o António Graça, falecido ainda novo) e, paradoxalmente dois insucessos amorosos, com a tua irmã e seguidamente com a Julieta Fradinho, natural de Silves, filha de um funcionário do Tribunal (com cara de poucos amigos, nunca o vi com uma companhia), que terminou brutalmente com a proibição categórica do pai, à boa maneira do século XIX.

 

Sempre ouvi dizer que o primeiro amor nunca se esquece e julgava que eram histórias de livros, mas é verdade, acontece mesmo. O meu primeiro amor foi com a tua irmã e a sua recordação ficou gravada nos recantos sinuosos da  memória.

Namoro curto, igual a todos os namoros daquela época e terminou com uma imposição que, inexperiente, não soube contornar.

Visto de fora, eu era um rebenta corações, na realidade, eu é que fiquei rebentado: para um jovem de vinte e poucos anos que se inicia   nos caminhos tortuosos do amor, dois insucessos seguidos deixam marcas fundas. Apesar disto, por estranho que pareça, tenho uma recordação muito grata – nos sentimentos não existe racionalidade - da Fernanda e da Julieta.

Não comentei estes insucessos com ninguém, lambi as feridas em solidão. Talvez por ter feito este recalcamento, agora tenho uma necessidade irreprimível de falar e escrever sobre eles.

Por obra do acaso, o grande fazedor e desfazedor de vidas, conheci na Net, um conterrâneo do Algarve, a viver em Sintra, e que conhece a Julieta. Deu-me o seu contacto e irei procura-la se saúde permitir.

Gostaria igualmente de voltar a ver a tua irmã mesmo que ela tenha uma memória desfavorável de mim: aos setenta e nove anos, doente, na idade do perdão, não tenho necessidade de enganar ninguém. Sei que ela está casada com o Arlindo e julgo que o conheço.

Há uns meses convidaram-me para um concurso de blogues. Tinha que apresentar uma resenha «biográfica» e saiu-me o texto que junto a esta carta. Dá uma síntese das minhas andanças.

Desejo a continuação das tuas melhoras e despeço-me com um abraço e cumprimentos para a tua esposa.

 


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publicado por pimentaeouro às 00:39
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7 comentários:
De DyDa/Flordeliz a 16 de Julho de 2014 às 02:31
Estranho, não é?


Querer apanhar o passado, regredir no tempo, buscar o que se poderia ter vivido...recordações que teimam em se fazer presentes.


Por momentos parece que ouvi a ler em voz alta.


Fique bem, boa noite.
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De pimentaeouro a 17 de Julho de 2014 às 23:22

Correr atrás do passado é tão ilusório como correr atrás do vento, disse alguém cujo nome não recordo.

Para Julieta também foi um golpe duro, dramático. Sinto um desejo grande de voltar a vê-la e se não o conseguir levarei essa mágua comigo.

Vivi o melhor que soube e soube muito pouco mas ninguém vive duas vezes… felizmente.

Abraço.

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De pimentaeouro a 17 de Julho de 2014 às 23:35

Correr atrás do passado é tão ilusório como correr atrás do vento, disse alguém cujo nome não recordo.

Para Julieta também foi um golpe duro, dramático. Sinto um desejo grande de voltar a vê-la e se não o conseguir levarei essa mágua comigo.

Vivi o melhor que soube e soube muito pouco mas ninguém vive duas vezes… felizmente.



De Fernando Lopes a 16 de Julho de 2014 às 19:15
Meu caro, não há amores impossíveis nem idades aconselháveis. Se ainda não leu aconselho vivamente «O Amor nos Tempos de Cólera» de Gabriel Garcia Márquez, sobre a intemporalidade do amor.


Abraço.


De pimentaeouro a 17 de Julho de 2014 às 00:47
Não se trata de amor mas de recordar o passado longínquo São cinzas de uma lareira apagada.
Irei ler o Garcia Marques
Cumprimentos


De natalia a 17 de Julho de 2014 às 11:42
Eu apesar duns anitos menos também tenho muitas lembranças do passado e há de facto a necessidade de se falar sobre elas daí que também tenha escrito as minhas memórias...gostei de ler esta carta e a saudade nela contida, revejo-me nela por que também tive dois amores que ficaram na memória e gostaria de os rever pois nunca mais aconteceu, enfim coisas da vida que a todos acontece. 
Só faço um reparo agora vê-se muito os «te» separados, mas as pessoas mais velhas sabem que respondeste, recebeste etc se escreve assim é o correcto.
abraço
natalia nuno, natural de T. Novas e também Canais


De pimentaeouro a 17 de Julho de 2014 às 23:52
Já não estou sozinho, não foi só a mim que a vida pregou partidas.
Quanto à ortografia, a minha memória já não dá para apurá-la, confio no corrector ortográfico.
Obrigado pela visita e pelos comentários.
Cumprimentos.


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