Conhece-te a ti mesmo... se puderes.
Sábado, 4 de Julho de 2015
Amigos de Torres Novas

 

A  amizade não tem o fogo das paixões, é serena, e não exige  a exclusividade do amor, pelo contrário, é plural. Os amigos são a família que escolhemos e ao longo da vida, infância, adolescência, juventude, idade adulta, vamos fazendo amizades diferentes; também acontece arranjarmos falsos amigos. As amizades da infância raramente perduram durante a vida e na velhice é raros fazermos novas amizades. Uma vida sem amizades é como um deserto, é um percurso em solidão.

 Cheguei a Torres Novas no ano de 1.954, com 19 anos, como uma espécie de emigrante. Vinha de uma terra pobre, Setúbal, para uma terra menos pobre e trazia na bagagem dois pesos, uma infância infeliz, sem mãe e sem pai, vivos, e uma adolescência triste: como a maioria dos portugueses vivi na pobreza envergonhada e triste, no conservadorismo serôdio do regime de Salazar

Já não me lembro como aconteceu, acabei por ser integrado num grupo de jovens da terra, mais ou menos com a minha idade, com duas ou três excepções. Amizades sinceras, solidárias, os nossos encontros de café eram uma mistura de conversas soltas e de convívio lúdico: a política não era tema das conversas e as namoradas, por estranho que parece, também não, nenhum de nós era salazarista ou do contra, com duas excepções; discutíamos cinema e o projecto de um cineclube, notícias dos jornais e um pouco, muito pouca, de futebol. Nenhum dos meus amigos de Torres Novas jogava xadrez como os amigos que tive em Setúbal.

.

 

A irreverência e a rebeldia já tinham passado, serenamente, entravamos na idade adulta. Tínhamos os valores da época em que vivíamos, respeitávamos a família, as pessoas mais velhas e a palavra dada, a palavra de honra, era cumprida; ser honesto era uma obrigação.

Além dos amigos tive dois amores, os primeiros da minha vida, q e apesar de efémeros ainda hoje os recordo; por duas vezes a minha história de vida podia ter mudado mas o acaso, o grande forjador  dos nossos destinos, não quis.

Quando o Francisco Canais e o António Graça foram para a clandestinidade no PCP, creio que a surpresa foi geral, para mim foi completa e um acto que não compreendia com a minha ignorância política total.

Escrevo à distância de 60 anos,  sem nada que apoie a minha  memória.  Grupo heterogéneo nas profissões, unido pelos afectos da mocidade. A morte, lei inexorável da vida, já levou quatro amigos e dentro de breves anos não restará nenhum de nós, geração de uma época do passado. O que fizemos nós com a vida, o que fez a a nossa geração? Isso é outra história mais difícil de contar.

 

Deste grupo de amigos, António Graça merece uma referência especial.

Faleceu prematuramente há cerca de 15 anos. O teu ar modesto escondia a tua inteligência e uns óculos de lentes grossas escondiam um olhar perspicaz.

Conversador inato, era um prazer ouvir-te e raramente falavas da tua militância no P.C.P., da tua vida na clandestinidade e da prisão. Foste dos presos mais torturados e nada em ti fazia transparecer aquele sofrimento: foste  um herói anónimo de Abril.

 

 


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publicado por pimentaeouro às 20:58
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