Conhece-te a ti mesmo... se puderes.
Sexta-feira, 6 de Junho de 2014
Amor triste

 

 

Ambos bebemos o cálice, ignorando que continha fel. Os meus olhos só viam os teus. Os teus olhos só viam os meus.

O teu sorriso era discreto, quase pudico, o meu era mais expansivo e descuidado – nunca mais foi. Amávamo-nos com a ingenuidade da mocidade, vivíamos o presente e o futuro sem sombras.

Hoje, há distância de décadas, passeio pelas ruas por onde andavas; sento-me no café onde ias ver televisão, na companhia da tua madrasta, segunda mãe, que te acompanhava discreta como se estivesse ausente.

Sento-me na mesa da esplanada, junto ao rio, em tardes quentes de verão, onde conversávamos. Relembro os diálogos despreocupados e a tua ternura contida, o teu gesto interrompido de fazer-me uma carícia na cara.

A felicidade, tocava-nos levemente, tudo era natural e simples. Chamavas-te Julieta, eu, simplesmente, João.

 O que deveria ser o enlevo do nosso primeiro encontro a sós, do nosso desejado primeiro beijo, à janela da casa da tua madastra, em poucos segundos tornou-se um drama.

O que se seguiu é demasiado triste e não quero recordá-lo.


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publicado por pimentaeouro às 23:58
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2 comentários:
De ónix a 8 de Junho de 2014 às 20:30
Olá João
Todos os randes amores acabam tristemente, ou quase todos. A casa da minha mãe é mesmo em frente aqui à pérgula, do outro lado da rua. Já me sentei muitas vezes neste banco de pedra.
Beijinhos e que a sua saúde esteja melhor


De pimentaeouro a 9 de Junho de 2014 às 16:12
Amiga Margarida,

A maior vitima deste amor proibido foi Julieta. O pai proibi-nos de namorar como no século XIX, uma brutalidade desnecessária.

Julieta disse-me que estávamos proibidos de namorar num pranto convulsivo, mal conseguia falar, o amor em Julieta já tinha raizes. Fiquei siderado sem saber o que fazer e o que dizer.

Até hoje não consegui esquecer aquele pranto e certamente não o esquecerei mais.

Sei que Julieta emigrou para Inglaterra, não o fez por motivos económicos, não precisava, foi um exilio do pai.

Por lá casou e há uns anos regressou com o marido e foi morar para um  lugarejo escondido nos recantos da Serra de Sintra: refugiou-se da vida.

Quem me indicou onde mora disse-me que é uma senhora muito reservada, também eu no passar dos anos fui ficando reservado.

Estive a dois passos de a encontrar mas, mais uma vez, o acaso não quis.

Do pouco que conheci de Julieta, percebi que era uma mulher inteligente e à frente do seu tempo.

Este amor proibido foi a segunda encruzilhada da minha vida, foi a minha segunda história de vida que não aconteceu: o acaso escolheu-me outro rumo.




Grande abraço.


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