Conhece-te a ti mesmo... se puderes.
Sábado, 18 de Novembro de 2017
Avesso dos Lusíadas #3

Repercussões sociais da expansão

 

Nenhum escritor descreveu as consequências sociais da

expansão com tanta clarividência como Gil Vicente. O motivo

por que uma afirmação como esta pode, ainda hoje, causar

estranheza está no facto de nos terem ensinado a ver apenas

um espirituoso inventor de comédias num escritor que foi

também um corajoso pensador social. O auto-retrato que ele

nos legou no prólogo da Floresta de Enganos (texto que,

inexplicavelmente, tem passado despercebido) não foi o de um

alegre cómico, mas o de um filósofo perseguido pelas suas

ideias e amordaçado pela néscia intolerância dos seus

contemporâneos.

 

A análise das contradições e conflitos que agitavam a

sociedade portuguesa decorridos trinta e cinco anos sobre a

descoberta do caminho marítimo para a índia é o tema de

uma peça representada em Évora em 1533: a Romagem dos

Agravados, isto é, o desfile dos que estavam descontentes

com o tempo em que viviam. Esse texto é, ainda hoje, o mais

lúcido estudo de que se dispõe sobre a sociedade portuguesa

dos meados do século XVI.

 

O desfile faz-se perante Frei Paço, que preside. É frei

porque pertence à Igreja, é paço porque pertence ao governo,

mas as duas qualidades confundem-se: «o paço, em frade

tornado, não é frade nem é paço», diz a peça. Domesticada a

nobreza, desaparecida a alta burguesia, a influência política

do clero era cada vez maior; o poder religioso confundia-se

com o poder civil. Uns meses antes da representação tinha

D. João III criado a Mesa da Consciência e Ordens, à qual

passava competir a decisão dos assuntos que «tocassem à

consciência» do rei, isto é, das questões mais melindrosas da

governação. E quem a dirigia eram prelados.

 

Os personagens vêm dois a dois, e cada par simboliza

uma classe social. A primeira a aparecer é o proletariado

campesino: um cavador acompanhado pelo filho. A imagem

do cavador no século XV I é menos risonha do que a do

século XIX. Não se chama Zé-Povinho, chama-se João Morteira,

João da morte. O filho é Sebastião, nome de mártir. É

a ideia de morte a que Gil Vicente sempre liga à vida do

trabalhador da terra: «sempre é morto quem do arado há-de

viver»; «nós somos vida das gentes e morte das nossas vidas»;

«se o nascer foi um momento, porque morro em tantos dias

padecendo?». Era uma classe que agonizava. Em 1521, uma fome

terrível assolou os campos, tendo morrido pelos caminhos muitos

camponeses que tentavam chegar a Lisboa.

A carne, base da alimentação durante a Idade Média, era agora

rara; em 1580, dois estrangeiros que viajam por Portugal

surpreendem-se da pobreza da alimentação popular: sardinha

salgada e pão escuro. A riqueza ultramarina não chegava ao

campo, mas as suas consequências repercutiam nele.

 

Os proprietários, do clero ou da nobreza, faziam pressão para

obter cada vez mais de um solo que produzia cada vez menos,

porque a quantidade dos gados e portanto dos estrumes

diminuía, porque os braços fugiam sob o impulso de um

estímulo duplo: a recusa da miséria e a cobiça da fartura que

a cidade parecia oferecer.

 A luta por um salário melhor já não era possível, porque um

trabalho igual ao do cavador aldeão podia ser prestado pelo

escravo negro; mais ou menos

por esta altura (em 1541), Damião de Góis calculava que

entravam anualmente em Portugal dez a doze mil escravos

africanos. E tudo isso está por detrás da figura dramática de

João Morteira: «Eu trabalho até que caio!» «Eu sou pobre

como um cão!» Já só tem uma esperança: que ao menos o

filho possa ter uma vida melhor.

 Quer, para isso, encaminhá-lo para a Igreja; não é, explica,

uma questão de devoção; é para que possa viver um pouco

mais folgado. Mas nem isso consegue, porque Frei Paço, que

examina o rapaz, não o deixa passar no exame.

 

Também a aspiração do cavador é característica da

época. A Igreja era um caminho para fugir à miséria ou para

a evitar. Filhos de camponeses, filhos segundos de nobres,

ordens religiosas. Elas eram um dos três caminhos possíveis:

«Quem quiser medrar, Igreja, Casa Real ou mar», dizia a

sabedoria do povo. A alternativa era entre a religião, o

serviço do paço ou de algum nobre ligado ao paço, ou a

emigração. Essa procura conduziu, durante o século XVI, à

hipertrofia do pessoal da Igreja; subiu o número de ordens

religiosas, subiu o número de conventos de cada ordem (o

total passou de duzentos para o dobro). Mas a Igreja só

marginalmente participou da riqueza dos descobrimentos; era

fundamentalmente da renda da terra que vivia. Não explorava

directamente os solos, mas recolhia o dízimo de toda a

produção (isso vinha já do século XII I e a instituição da

décima de Deus fora então a forma pela qual a Igreja se

defendera da subida do custo e do nível da vida) e recebia as

rendas dos pequenos empresários rendeiros e enfiteutas, que

formavam a classe média rural.

 

A crise da classe média rural é denunciada no auto pelo

lavrador Aparicianes, que vem acompanhado pela filha:

«Porém eu, que estou no meio, vivo mais desesperado.» Está

no meio porque a sociedade rural se articula em três níveis:

senhores, lavradores, servidores. Os senhores mostram-se

agora mais exigentes na cobrança dos seus quinhões, os servidores

fogem dos campos e os lavradores empobrecem. Este

queixa-se de que traz de renda dois casais que pertencem aos

frades; o temporal desbaratou as sementeiras e ele foi pedir

que lhe esperassem um pouco pela entrega da renda. Mas os

frades responderam que a espera não era a sua divisa. A

palavra espera tinha então o sentido duplo de moratória e de

esfera; e esta última era a divisa de D. Manuel e simbolizava

a riqueza planetária dos descobrimentos. É esse o sentido da

resposta dos frades: estão fora da esfera, não podem esperar.

E obrigaram-no a pagar a bem ou a mal: penhoraram-lhe o

lar, e nem os lençóis escaparam. E o lavrador queixa-se e

lembra com saudade o tempo em que cantava alegremente à

frente dos seus bois, sem sentir o peso da fadiga. Agora não

canta, porque está pobre e «a pobreza e a alegria nunca

dormem numa cama».

 

A destruição da classe média rural era consequência

directa das novas condições de vida do País e não resultava

só da severidade dos proprietários na cobrança da renda e da

fuga dos trabalhadores. Pouco a pouco, as quintas e os casais

que andavam nas mãos dos lavradores passavam à posse dos

nobres, funcionários e aventureiros regressados da índia, porque

a terra foi o único género de investimento dessas economias.

O Português entendia que só a terra oferecia segurança.

Um nobre sentencia nas suas trovas: «Segundo se diz, e eu

avento, de ter coisa sem raiz não se faça fundamento», isto é,

segundo se diz e eu também penso, só a posse da terra é um

investimento seguro. Ele referia-se aos perigos dos negócios de

gado, mas a ideia alargava-se a todo e qualquer negócio com

alguma margem de risco. Um texto de 1608 mostra que, em

plena crise, o ramo de oliveira, o palmo da terra, era considerado

«o último refúgio: «Domina este reino uma certa constelação que

faz os homens incapazes de receber o bom conselho; e assim, eu

profetizo uma grande ruína, e será ditoso o

que tiver um pé de oliveira a que se abraçar!»

Mas esse pé de oliveira já existia antes de o torna-viagem

o comprar. O pão, o vinho, o azeite, não aumentavam pelo

facto de o título da propriedade ou a iniciativa da exploração

estarem a cargo do lavrador plebeu ou do proprietário ido da

cidade, enriquecido com a canela ou a pimenta, e que passava

a viver do rendimento rústico. O número de explorações nas

mãos da classe média é que diminuía. Os novos donos são

dons; muitos não o são por nascimento, mas exigem que lho

chamem, ou pelo menos comportam-se como se o fossem. A

antiga sociedade rural, que se hierarquizava na base das

funções, é substituída por uma outra com base na exterioridade

e no tratamento: de um lado os senhores e as donas, por

outro os homens e as mulheres. Homem passa então a ter

sentido de trabalhador rural; ser tratada por dona é o objectivo

de toda a mulher. Mas a passagem dessa fronteira social

é impossível a quem fique agarrado à enxada. O passaporte

obtém-se na cidade. Aparicianes sabe isso muito bem. Do

mesmo modo que o cavador quis que o filho fosse clérigo, ele

qer que a filha seja dona:

 

É da serra da Lousã,

moça de mui boa fama.

Trago-a cá para ser dama,

quero que seja paçã.

 

 

Para isso já lhe comprou perfumes importados de Génova

e vem confiá-la às lições corruptoras de Frei Paço, que a

moça aprende muito depressa. Muitas mulheres, seguindo esse

mesmo caminho, chegaram a damas e alimentaram a prostituição

de Lisboa no século XVI . O nome que Camões lhes

dava era o de damas de aluguer.

 

A desagregação da classe média urbana é revelada no

auto sob a forma de um conflito entre dois grupos sociais de

características bem diferentes, mas que ainda hoje andam

confundidas sob a mesma designação de classe média: uma

classe média autêntica, porque enraizava no trabalho e se

situava ao nível social correspondente a uma verdadeira situação

económica, e uma classe média fictícia e parasitária,

baseada na aparência e que vivia à custa das classes produtivas.

Ter distinguido entre os dois grupos e definido a relação

que existia entre eles é uma novidade de Gil Vicente.

 

Duas regateiras, que vivem do abastecimento da cidade,

têm uma sobrinha para casar. São quase ricas, visto que a

rapariga tem de seu um conto de réis. Aspirava por isso a um

casamento numa classe social mais elevada: a deslocação de

todas as classes no sentido do vértice da pirâmide é uma dás

características da época Apareceu-lhe um moço que se diz

empregado na câmara de el-rei. Tem boas maneiras («tão

doce! tão cucarento!») e exibe as provas da sua posição de

funcionário do paço: o alvará de filhamento e de acrescentamento,

portanto de primeira nomeação e de promoção.

 Perante esse argumento decisivo, o casamento faz-se. Mas afinal

o alvará era falso. O rapaz era um vadio sem eira nem beira, que

apenas queria viver com o dinheiro da mulher. Pertence à classe

média fictícia, que vive, como um cogumelo, à custa da verdadeira

e que acabará por formar uma classe com características próprias

: ociosa, pobretana, pedinchona de empregos, dependente dos

grandes, servil em relação a quem quer que tenha o poder.

De todo o País milhares de jovens afluem

à corte, cantam trovas, tangem a guitarra, fingem de escudeiros

e morrem de fome até que encontrem senhor que os tome

a seu serviço ou mulher rica que os sustente. Das várias

sátiras que ficaram desse tipo de aprendiz de fidalgo, nenhuma

alude ao trabalho. Um clérigo que por essa altura

estava em Évora e que viera do Brabante, onde o trabalho

era a vida de toda a gente, surpreende-se com o que vê em

Portugal e escreve: «Esta gente prefere ter de suportar tudo a

ter de aprender algum ofício.» Mas também isso se relacionava

com a economia dos descobrimentos. O Estado, subitamente

enriquecido, pudera multiplicar a sua clientela. Dos

duzentos cortesãos do tempo de D. João I I passou-se a

quatro mil no tempo de D. Manuel, e a proporção deve ter

sido a mesma nas casas dos grandes senhores. Quem tivesse

qualidades, desembaraço, ou pelo menos padrinhos, não precisava

de trabalhar, e portanto trabalhar significava que não se tinha disso.

Era uma desqualificação. Trabalhar com o

corpo era o que faziam os Negros e os Mouros; frases do tipo

«0 trabalho é bom para o preto» e «Quem não tem padrinhos

morre mouro» entraram por essa altura na linguagem.

 

A nova estrutura do Estado estava na origem da onda do

parasitismo. Gil Vicente dava-se perfeitamente conta disso.

Depois de uma admirável cena de suspense, em que vai

enunciando como suspeitos do crime de falsificação todos os

altos funcionários régios que assistiam ao espectáculo, acaba

»r descobrir a verdade: o falsificador foi o próprio Frei Paço,

Foi o paco-frade, foi o sistema vicioso que tomava possível

ssa proliferação das classe ociosas à custa das que

prododuziam.

 

A análise vicentina incluiu muitos outros aspectos: a

nobrza riquíssima e fútil, a recitar versozinhos e a fazer

pressão sobre o paço para que lhe suba as rendas já enormes,

do clero que cobiça os bispados novos das ilhas, as freiras que

deploram a confusão deste tempo em que ninguém está

contente com a sua sorte. Mais do que os pormenores, é a

ideia geral que se deve apreender, porque ela exprime as

consequências sociais da economia da expansão: um Estado

rico numa nação pobre, onde a riqueza vinda de fora quebrava

a coluna vertebral do trabalho interno e provocava o

crescimento de uma falsa classe média que nada fazia e que,

como uma corcunda enorme, ia crescendo à custa do resto do

corpo do País e atrofiando com o seu peso as classes produtivas

 que já quase se limitam aos camponeses.

 

A vida de Gil Vicente serve de bom exemplo à evolução

que ele descreve. Homem do povo, mesteiral de profissão,

oi atraído pela actividade da corte e, no princípio do sé

culo XVI , trabalha como ourives da rainha viúva. A corte

aumentou; numa constante festa, precisa de espectáculos. 0

antigo mesteiral larga então as ferramentas do ofício e faz-se

funcionário. Recebe um ordenado para fazer «os autos del-

rei». É um intelectual remunerado e a partir desse momento

a sua vida reflecte uma outra evolução: a da cultura. A

linguagem que ele usa é plebeia, livre, saborosa. Diz tudo o

que pensa sem papas na língua. No tempo de D. Manuel, o

rei e a corte ouvem, riem, gostam. Mas no reinado seguinte

começa a haver quem não ria. Ante tanta liberdade, os

teólogos já franzem o sobrolho. No mesmo ano em que o rei

pediu em Roma o estabelecimento da Inquisição com o

pretexto, entre outros, de que a heresia luterana já tocara

Portugal, um embaixador português fez representar em Antuérpia,

na presença do legado do papa, um dos mais atrevidos

autos de Gil Vicente, precisamente o que tinha por tema

 

o assunto escaldante do tráfico das indulgências. Os teólogos

romanos indignaram-se e fizeram queixa ao papa. Não foi em

vão. O poeta teve um processo e expiou dois anos de castigo.

Ainda voltou à corte em 1536, e é nessa última representação

que nos dá o seu auto-retrato de pensador amordaçado. Mas

nesse ano começou a funcionar a Inquisição, e um silêncio

impenetrável desceu sobre Gil Vicente.

 

 

(José Hernamo Saraiva, História concisa de Portugal )

 

 



publicado por pimentaeouro às 12:42
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