
Repercussões sociais da expansão
Nenhum escritor descreveu as consequências sociais da
expansão com tanta clarividência como Gil Vicente. O motivo
por que uma afirmação como esta pode, ainda hoje, causar
estranheza está no facto de nos terem ensinado a ver apenas
um espirituoso inventor de comédias num escritor que foi
também um corajoso pensador social. O auto-retrato que ele
nos legou no prólogo da Floresta de Enganos (texto que,
inexplicavelmente, tem passado despercebido) não foi o de um
alegre cómico, mas o de um filósofo perseguido pelas suas
ideias e amordaçado pela néscia intolerância dos seus
contemporâneos.
A análise das contradições e conflitos que agitavam a
sociedade portuguesa decorridos trinta e cinco anos sobre a
descoberta do caminho marítimo para a índia é o tema de
uma peça representada em Évora em 1533: a Romagem dos
Agravados, isto é, o desfile dos que estavam descontentes
com o tempo em que viviam. Esse texto é, ainda hoje, o mais
lúcido estudo de que se dispõe sobre a sociedade portuguesa
dos meados do século XVI.
O desfile faz-se perante Frei Paço, que preside. ´´E frei
porque pertence à Igreja, é paço porque pertence ao governo,
mas as duas qualidades confundem-se: «o paço, em frade
tornado, não é frade nem é paço», diz a peça. Domesticada a
nobreza, desaparecida a alta burguesia, a influência política
do clero era cada vez maior; o poder religioso confundia-se
com o poder civil. Uns meses antes da representação tinha
passava competir a decisão dos assuntos que «tocassem à
consciência» do rei, isto é, das questões mais melindrosas da
governação. E quem a dirigia eram prelados.
Os personagens vêm dois a dois, e cada par simboliza
uma classe social. A primeira a aparecer é o proletariado
campesino: um cavador acompanhado pelo filho. A imagem
do cavador no século XV I é menos risonha do que a do
século XIX. Não se chama Zé-Povinho, chama-se João Morteira,
João da morte. O filho é Sebastião, nome de mártir. É
a ideia de morte a que Gil Vicente sempre liga à vida do
trabalhador da terra: «sempre é morto quem do arado há-de
viver»; «nós somos vida das gentes e morte das nossas vidas»;
«se o nascer foi um momento, porque morro em tantos dias
padecendo?». Era uma classe que agonizava.
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