
Não explorava directamente os solos, mas recolhia o dízimo de toda a
produção (isso vinha já do século XII I e a instituição da
décima de Deus fora então a forma pela qual a Igreja se
defendera da subida do custo e do nível da vida) e recebia as
rendas dos pequenos empresários rendeiros e enfiteutas, que
formavam a classe média rural.
A crise da classe média rural é denunciada no auto pelo
lavrador Aparicianes, que vem acompanhado pela filha:
«Porém eu, que estou no meio, vivo mais desesperado.» Está
no meio porque a sociedade rural se articula em três níveis:
senhores, lavradores, servidores. Os senhores mostram-se
agora mais exigentes na cobrança dos seus quinhões, os servidores
fogem dos campos e os lavradores empobrecem. Este
queixa-se de que traz de renda dois casais que pertencem aos
frades; o temporal desbaratou as sementeiras e ele foi pedir
que lhe esperassem um pouco pela entrega da renda. Mas os
frades responderam que a espera não era a sua divisa. A
palavra espera tinha então o sentido duplo de moratória e de
esfera; e esta última era a divisa de D. Manuel e simbolizava
a riqueza planetária dos descobrimentos. É esse o sentido da
resposta dos frades: estão fora da esfera, não podem esperar.
E obrigaram-no a pagar a bem ou a mal: penhoraram-lhe o
lar, e nem os lençóis escaparam. E o lavrador queixa-se e
lembra com saudade o tempo em que cantava alegremente à
frente dos seus bois, sem sentir o peso da fadiga. Agora não
canta, porque está pobre e «a pobreza e a alegria nunca
dormem numa cama».
A destruição da classe média rural era consequência
directa das novas condições de vida do País e não resultava
só da severidade dos proprietários na cobrança da renda e da
fuga dos trabalhadores. Pouco a pouco, as quintas e os casais
que andavam nas mãos dos lavradores passavam à posse dos
nobres, funcionários e aventureiros regressados da índia, porque
a terra foi o único género de investimento dessas economias.
O Português entendia que só a terra oferecia segurança.
Um nobre sentencia nas suas trovas: «Segundo se diz, e eu
avento, de ter coisa sem raiz não se faça fundamento», isto é,
segundo se diz e eu também penso, só a posse da terra é um
investimento seguro.
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