Conheci a Glória há dias no festival literário de Macau (Rota das Letras). Emigrou do México para a zona de Cantão onde trabalha como gestora e, volta e meia, visita Macau e Hong Kong para renovar a sua vida cultural.
Encontrar uma mexicana na China é um choque térmico, O fervor da latina é a negação da frieza polida da chinesa. Do recorte do corpo até aos gestos, passando pela simpatia, a mexicana está para a chinesa como o caos do jazz está para a geometria de Bach. Corno tinha visto o filme “Sicário” no avião, a nossa conversa não saiu da anarquia que é o quotidiano mexicano.
“Sicário” é duríssimo, retrata um país sem lei, um país onde as verdadeiras fronteiras administrativas são as fronteiras entre os diferentes cartéis, um país onde corpos decepados aparecem nas ruas com toda a naturalidade como se fossem meros pombos decepados pela roda do carro, O horror é o normal; o estado da natureza é um penedo que esmaga as sementes do Estado de direito.
Perguntei-lhe se o filme era um retrato preciso ou uma caricatura ianque. “E mesmo assim”, disparou. “Amanhã não sei se a minha mãe me vai ligar a dizer que a minha irmã foi roubada, raptada, violada”. Percebi de imediato porque é que ela vivia na China: apesar das tais diferenças “Sicário” alarga o estado da natureza até à América profunda, sombria, sulista, e dá a entender que já não existe Estado de direito nesta América que vota Trump em desespero.
No fundo, “Sicário” é a nemesis de “O Homem que Matou Liberty Vãlance”, o western terminal de John Ford que retrata o momento em que a ordem do advogado substituiu no oeste a anarquia do cowboy. “Sicário” reverte o processo, vira a roda da história, lança a ideia de que velha anarquia do cowboy está de volta e que a justiça só pode ser feita pela guerra, não pela lei. Exagerado? Talvez não.
Esta América aparece em livros autobiográficos como “Hilibilly Elegy”, séries como “True Detective” ou noutros filmes como “Heli or High Water”, É a América que sempre nos assustou, mas também é a América que nos deu o western e escritores corno O’Connor ou McCarthy. E a América que nos assusta, mas também é a América que tem o hábito de nos salvar (quem é que acham que morreu na Normandia?).
Neste momento, confesso, o lado negro desta América é mais forte do que o lado heróico ou literário. Aquele apego pelas trevas do estado da natureza, bem visível hoje em dia, recorda-nos que a civilização é a mansão que pode ser consumida pela trepadeira.
Curiosamente, as civilizações deixam de resistir à trepadeira quando as pessoas começam a pensar que a civilização é natural, tão natural como a trepadeira; o caos surge quando as pessoas começam a pensar que a ausência de doenças é natural e não uma acção médica e humana, quando começam a pensar que a paz é natural e não o fruto de uma força militar e de uma força legal que é precisar usar sem contemplações perante os inimigos externos e internos. Como me dizia a Glória, “vocês no Ocidente não sabem a sorte que têm e é por isso que estão a fazer merda”. Ouvir isto na boca de uma mexicana na China soa a presságio.
Henrique Raposo, semanário Expresso de ontem.
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