Conhece-te a ti mesmo... se puderes.
Quarta-feira, 19 de Fevereiro de 2014
Eutonásia

Remando contra a maré ou, pelo menos contra a indiferença, regresso novamente a este tema. O texto que segue é de uma jovem estudante de Veterinária e reporta uma experiência vicvida pessoalmente.

Não deixa de ter ironia que em Veterinária se discuta o sofrimento dos animais enqunto nós varremos para debaixo do tapete o sofrimento dos doentes terminais e aqueles que a doença transformou em vegetais sem memória e sem consciencia sejam condenados a uma agonia inutil.

por on chapters, em 12.02.14

Eu estava no 11º ano e era quase Natal. Não me lembro da capacidade que perdeu primeiro, se a de escrever, a de se levantar da cama, de conseguir comer sozinho, de associar as caras que o fitavam de olhar preocupado com a mulher, a filha, os netos até não reconhecer ninguém. Não me lembro, mas sei que quando dei por mim, já tudo isto se tinha desvanescido. O meu avô era um homem duro, frio. Pertencia àquela geração de homens criados para trabalhar no campo, ao sol, todos os dias durante uma vida inteira. Sem lamentos, sem choro, sem desistências. Talvez também por isso me tenha custado tanto vê-lo assim... tão frágil. Deitado primeiro numa cama de hospital e depois quando um médico lhe disse palavras semelhantes a estas "Já não há nada a fazer" em casa que, para um homem duro como o meu avô, não consigo imaginar humilhação maior do que morrer aos poucos no meio de médicos e enfermeiros que nunca viu na vida. Esqueci os contornos de como aquela vida se desvanesceu à frente dos meus olhos, todos os dias, mas quando dei por mim estávamos quase no Natal e o meu avô já não era o meu avô. Ainda não tinha morrido mas já não estava lá. Não fazia nada sozinho, na maior parte das vezes não reconhecia ninguém e gemia de dor pelo simples facto de existir.

A morte tardou a chegar. Lembro-me de um "já morreu" murmurado ao telefone uns dias antes do Natal e de me vestir de preto para um funeral.

 

Para ser sincera, durante todo o processo de doença e mesmo depois da morte do meu avô, o tema da eutanásia não ocupou muito o meu pensamento.

Depois fui para a faculdade e entrei em Veterinária, onde discutimos a eutanásia com alguma frequência e começei a pensar no assunto. É estranho pensar que, enquanto em Medicina Humana o debate sobre a eutanásia se centra no valor da vida, em Veterinária debatemos a eutanásia em torno da existência (ou não) de qualidade de vida para os animais.

A qualidade de vida do meu avô era nula e não percebo, não consigo perceber, como é que quando falamos de animais o mais importante é usar a medicina para eles terem a melhor qualidade de vida possível, e quando falamos de pessoas o que importa é usar a medicina para adiar a morte. Temos assim tanto medo de morrer?



publicado por pimentaeouro às 22:56
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